Mario Milano, Um Estreante Absoluto

Mario MilanoNos últimos tempos, Sergio Bonelli tem reforçado bastante o “staff” de desenhadores de Tex, devido sobretudo à cada vez menor celeridade destes profissionais, mas também ao cancelamento de algumas séries da editora, que obrigam a alguns reajustamentos a nível de desenhadores.

Assim sendo, o blogue português do nosso ranger, vai passar a apresentar esta  nova  leva da “scuderia” texiana, isto é, aqueles desenhadores, mais ou menos jovens, mas decididamente talentosos, que já estão a trabalhar, ou estarão em breve, nas páginas da série principal de Tex, ao lado dos “Mestres” já conhecidos e amados.

Não se trata de um puro e simples elenco, o que temos a pretensão de apresentar, mas ao contrário, de uma série de pequenos “retratos de autor“, indispensáveis, no nosso parecer, para captar que dentro de cada desenho, dentro de cada “stiscia”, dentro de cada história, há um indivíduo diferente, com um estilo, um carácter e um percurso profissional sempre diverso.

A ocasião para iniciar esta apresentação,  deve-se  a um facto de recentíssima actualidade: nos números 552 e 553 de Tex, nas bancas italianas nos meses de Outubro e Novembro de 2006, está a ser publicada uma história em duas partes, ilustrada por um estreante absoluto, isto é Mario Milano!

Estreante, dizemos bem,  mas  somente no universo de Águia da Noite: de facto, este novo desenhador  –  que nasceu em Foggia, onde reside e trabalha, em 1968 – pode já gabar-se de ter uma importante actividade como autor bonelliano. Mas vamos por ordem…

Depois de ter sido diplomado em cenografia na Academia de Belas Artes da sua cidade, em 1992, Mario Milano exerceu a profissão de pintor, desenhador gráfico e até cenógrafo teatral, até que no início dos anos noventa, descobriu a banda desenhada. Uma forma de arte que, segundo palavras suas, “Melhor do que qualquer outra, podia-me permitir exprimir finalmente tudo aquilo que tinha dentro de mim, mas também a ocasião que procurava para começar a trabalhar a sério. A banda desenhada é uma espécie de campo aberto que oferece um leque infinito de sensações, de cenários e de histórias, e também infinitas possibilidades criativas. Um belo desenho pode envolver-te, rodear-te, transmitir-te emoções“.

Recrutado em 1994 para colaborador de Zona X, uma série antológica editada sem grande sucesso pela Sergio Bonelli Editore, Milano ilustra alguns contos “livres” no tema fantástico, para depois passar à saga policial de Nick Raider, onde desenhou o número 149, intitulado “Incidente Letale”. Segue-se a entrada no staff de Mágico Vento – desenhou os números 51, 68, 72 e 84 –  onde tem ocasião para enfrentar pela primeira vez o género western,  demonstrando saber mover-se com desenvoltura e sentido de ritmo.
E assim, ei-lo hoje merecidamente empenhado em reconstruir a seu modo a atmosfera, menos horrífica mas de certeza não menos dramática e envolvente, que serve de fundo às aventuras de Tex.

Tex por Mario Milano“Confrontar-me com este autêntico protagonista  do  ”fumetto” mundial” diz, “foi um desafio, ao qual preparei-me estudando atentamente as pranchas de Giovanni Ticci e com as obras-primas western de um dos meus desenhadores preferidos, o francês Jean Giraud, criador do célebre Blueberry. Giraud, é para mim enorme pela sua excepcional capacidade gráfica, seja pela sua dedicação ao trabalho, pela sua contínua busca de imagens mais eficazes. Sabe caminhar em direcção a horizontes que os outros só alcançam bem mais tarde, ou alcançam após as suas sugestões“. E continua: “Para mim, Tex é o herói perfeito, sem manchas e sem medo, um homem  que  sabe dizer a coisa justa no momento certo à pessoa certa. É o amigo, o pai, o filho que cada um de nós quer ter. É um excelente exemplo de carácter humano, dotado de todas estas qualidades que todos nós teríamos necessidade para nos tornarmos melhor. Mas não é uma personagem chata, aborrecida, banalmente invencível. Mesmo se a sua pele está sempre lisa, a camisa sempre engomada e o chapéu sempre no seu posto, vê o que muitos viram e nunca perdeu o seu lado humano…“

Texto de José Carlos Francisco, baseado na rubrica “Caro Tex…”, de Sergio Bonelli, inserida em Tex Nuova Ristampa nº 170 de 31 de Outubro de 2006.

Póster Tex Nuova Ristampa 2

Póster Tex Nuova Ristampa 2

Neste desenho de Claudio Villa, datado de 1993, vemos a bela, mas misteriosa e pérfida Cora Gray, aliás Satânia, ordenando que o monstruoso gorila Gombo, munido de uma feroz ânsia assassina, mate Tex Willer, que se defende de pistola em punho.
Satânia destaca-se na série de Tex, por ser a primeira de uma extensa lista de antagonistas femininas que o ranger encontra na sua longa História.

Desenho usado no Brasil como capa de Grandes Clássicos do Tex #19  e inspirado na história, “Satania” de G. L. Bonelli e Galleppini (Tex italiano #5).
(Para aproveitar a extensão completa do póster, clique no mesmo)

Texto de José Carlos Francisco

Tex Mondadori: La Pattuglia Sperduta

La pattuglia sperduta da MondadoriAventura com argumento de Guido Nolitta e desenhos de Giovanni Ticci, publicada pela Editora Vecchi na série normal nº 178 (O Desertor) e nº 179 (Aliados Perigosos)

A própria introdução escrita por Sergio Bonelli, para mais uma magnífica edição da prestigiada Mondadori, acaba por resumir eficazmente a aventura. A Winchester foi uma das grandes protagonistas do western. O seu papel foi alternando e colaborando com o não menos famoso colt, ambos presença assídua no dia a dia violento do velho oeste, onde quase todos a utilizavam. Sérgio Bonelli pretendeu com “La Pattuglia Sperduta” homenagear a arma do velho oeste e símbolo da aventura texiana, elemento clássico e evocativo do género. Por isso, esta aventura tem por base e elemento principal a arma e toda a história gira em redor de uma nova solução tecnológica que pode  vir  a ser capitalizada pelo exército americano.

O tenente George Morrow é um verdadeiro expert em armas e vai propor ao exército americano uma sua invenção, capaz de substituir com vantagem os modelos utilizados pelos soldados americanos. Numa primeira fase, o Departamento de Defesa parece decidido a adquirir a patente, mas posteriormente vai recusar, justificando-se com os altos custos que o desenvolvimento desta arma traria. No entanto, por trás desta recusa está o boicote feito pela West Kentucky Company, a empresa que tem vindo a equipar todo o exército americano.
Esta revelação enfurece o tenente Morrow e o Exército destaca-o para um posto num ponto perdido do estado americano. Indignado, Morrow escreve uma carta de demissão e aceita vender a patente da sua revolucionária arma aos soldados mexicanos, a troco de uma elevada maquia de dólares. Ao saberem desta história, através do seu irmão, o sargento Clark Morrow, Tex e Jack Tigre vão procurar o tenente e acabam por encontrar  um  homem receoso e movido pelo arrependimento da sua acção.

Esta bela aventura de Nolitta, para além da já referida homenagem à arma do oeste americano, serve ainda dois objectivos. Demonstra que os altos interesses instalados em Washington apenas serviam critérios que pouco tinham a ver com a importância e as vantagens que uma nova arma poderia trazer e enaltece a lealdade e a honra de homens que juraram pelo seu país e que souberam colocar os interesses da sua nação acima dos seus próprios objectivos.

Numa primeira fase, o tenente Morrow sente-se injustiçado e revela a sua indignação ao abandonar aqueles que nele confiavam, mas os valores acabaram por falar mais alto. Tex e Jack Tigre vão encontrar um homem atormentado pelos seus actos e que vai afogando o seu arrependimento na bebida, perdido num antro de crápulas da pior espécie. Apesar de Nolitta levantar levemente a velha questão da rivalidade mexicana para com os EUA, sobretudo porque são os soldados mexicanos que vão tentar obter a patente do tenente Morrow, o autor vai explorar sempre mais o lado humano, demonstrando que por detrás de um grande invento estava um homem honrado.

Falar no desenho de Ticci é repetir tudo o que já foi dito deste extraordinário autor, porque Ticci desenha como poucos, transmitindo sempre a aura do velho oeste. Esta aventura passa por vários cenários, começando  na neve  das montanhas rochosas do Colorado e terminando no tórrido calor mexicano. Passa por vários protagonistas, desde os índios navajo, o exército americano, os crápulas de “Paraíso Perdido” ou ainda os soldados mexicanos. Nenhum ambiente, nenhum cenário, nada é estranho ao desenhador genovês. No dinamismo da acção ou na aparente calma das cenas mais contidas, Ticci faz gala de um traço e de um estilo inimitável. Qualidades que eventualmente só encontram rival em Claudio Villa, outro predestinado das aventuras texianas.

Texto de Mário João Marques

Tex Mondadori: La Legge di Tex

La Legge di Tex da MondadoriInclui a aventura Caccia All’Uomo com argumento de Guido Nolitta e desenhos de Ferdinando Fusco. A mesma aventura foi publicada pela Editora Vecchi nos números 68 (Caçada Humana) e 69 (Justiça Para Um Carrasco).

Esta aventura é marcante na saga texiana. Representa a estreia de Nolitta na série e dela guardo gratas recordações quando a li pela primeira vez. G.L. Bonelli teve um contratempo e o seu filho Sérgio foi chamado a remediar esta momentânea ausência do pai. Sob o pseudónimo de Guido Nolitta, o autor construiu uma aventura onde está  bem  patente  o Tex  bonelliano, mas onde também impera um Tex que dúvida e que coloca em causa a justiça premeditada dos homens.

Em Springville, Tex e Jack Tigre tratam do aprovisionamento dos Navajos, quando encontram o xerife Tom Kenyon, que julgavam  reformado. Farto do ócio que esta situação lhe proporcionava, Tom Kenyon acabou por regressar ao activo e está na pista de Andy Wilson, um jovem procurado por assassinato. Tex vai acompanhar Kenyon até a um rancho, onde o xerife julga que se encontra o foragido. No rancho todos têm Andy em boa conta, guardando deste a melhor das impressões e por isso vão ajudá-lo a fugir, depois de Andy balear Kenyon. Tex acaba por, solitariamente, ir em perseguição do foragido, no intuito de levá-lo até à justiça.  Com este argumento, Nolitta constrói uma trepidante aventura onde Tex não tem a habitual companhia de Carson. Mas a ausência do velho resmungão e dos saborosos diálogos que sempre acontecem entre os dois rangers, acaba por ser compensada pela relação que se vai estabelecer entre Tex e Andy, demonstrativa de que os valores estão bem acima das leis dos homens.

Gradualmente, Tex vai descobrir em Andy um rapaz que tem tudo menos de assassino, alguém que busca apenas a harmonia e a paz, alguém com honra e com regras de conduta e cujas acções são estabelecidas  com  o  único objectivo de poder lutar pela injustiça da sua situação. Toda esta envolvência que Nolitta muito bem apresenta e explora leva Tex a olhar para o caso de uma forma diferente e cada vez mais distante da inicial. Leva Tex a duvidar realmente dos antecedentes, marcando um  certo  corte  com o Tex bonelliano, este mais pragmático. A marca de Nolitta surge bem evidente na forma como a história é construída, na sua montagem, mas  atinge  o  climax nas cenas finais, quando Tex, paradoxalmente, afirma-se como um justiceiro perante um juiz. Este Tex que busca justiça é um Tex bonelliano, um Tex que ultrapassa todos os seus adversários, mas Nolitta vai mais além, porque transmite na sua conduta os seus próprios sentimentos e a sua acção é guiada por estes.

Fusco assina aqui apenas o seu segundo trabalho na série, com um desenho nervoso e muito dinâmico. O seu Tex vai sofrer uma natural evolução, tornando-se ainda mais cínico na sua expressão e no seu olhar. Aqui ainda denota uma certa frescura ou uma juventude que o autor rapidamente abandonará. Fusco revela já uma notável capacidade em recriar qualquer ambiente, e esta aventura é bem caracterizadora, porque permite ao autor desenhar em pleno os ambientes da cidade, das extensas planícies, mas também do sufocante deserto, além de outros mais fechados, como os bares ou a notável sequência do palheiro. Aventuras como esta deixam-nos já saudades de Fusco, devido à sua anunciada retirada.

Texto de Mário João Marques

Póster Tex Nuova Ristampa 1

Póster Tex Nuova Ristampa 1

Este foi o desenho de capa feito por Claudio Villa, propositadamente para a primeira edição brasileira de Tex Edição Histórica. Uma colecção que nasceu com o objectivo de republicar as aventuras completas de Tex Colecção e que teria como atractivo sempre uma capa inédita, propositadamente feita por Claudio Villa.

Desenho usado no Brasil como capa de Tex  Edição  Histórica  #. Este desenho, onde Tex saúda os seus leitores, também foi aproveitado em 2006 para capa dos fascículos da série italiana Il Mondo di Tex.

Texto de José Carlos Francisco
(Para aproveitar a extensão completa do póster, clique no mesmo)