Texto da secção Óbitos de 10/02/2006 F. Cleto e Pina
Morreu Letteri desenhador de Tex
Guglielmo Letteri, um dos mais apreciados desenhadores de Tex, faleceu aos 80 anos, devido a um enfarte. Nascido em Roma, a 11 de Janeiro de 1926, foi um viajante incansável que, antes de se tornar desenhador de quadradinhos, teve diversas ocupações entre as quais avulta a de músico de jazz, com discos gravados como integrante do Crystal Trio, com Carletto Loffredo e Umberto Cesari.
Na BD teve um percurso semelhante a tantos outros artistas da sua época, publicando os primeiros trabalhos em 1949, na Argentina, nas edições Abril e Columbia, ao mesmo tempo que Hugo Pratt e Alberto Ongaro, por exemplo. Como eles, passou pela britânica Fleetway, onde ilustrou a série “Love Story Library”, e, após, novo périplo pela América do Sul, em 1963 fixa-se na Itália, como colaborador regular da Sergio Bonelli Editore, para a qual ilustrou mais de uma centena de histórias de Tex, tornando-se um dos autores mais apreciados pelos muitos fãs do emblemático ranger dos fumetti, graças ao seu estilo realista e dinâmico, especialmente rico ao nível do tratamento da figura humana, aos cenários bastante pormenorizados e à forma como utilizava o preto e branco e as sombras.
Foi devido a Tex Willer que nos conhecemos. Foi esta personagem, que move paixões por esse mundo fora, que acabou por fomentar a nossa amizade. Uma amizade sadia que se vem cimentando de dia para dia e que tem em Tex Willer uma espécie de fio condutor e elo de ligação.
Uma paixão que já vem de infância e que nos leva a coleccionar afincadamente tudo o que vamos encontrando sobre o ranger mais temido do oeste. Uma paixão que nos levou a criar este blogue, mais um entre muitos que vão surgindo. Mas este é o blogue português de Tex Willer, tanto quanto sabemos, o primeiro sobre o ranger em português de Portugal.
Quem nos está a ler poderá ser levado a pensar que nos assiste tamanha pretensão, essa de sermos os primeiros. Essa pretensão existe sim, mas apenas no facto de querermos divulgar tão querida personagem do nosso imaginário. Existe uma pretensão expressa de tratarmos aqui o melhor que soubermos e que pudermos sobre Tex Willer.
O que nos move é a paixão pela personagem criada pelos saudosos G.L. Bonelli e Aurelio Galleppini, mas também a sua divulgação, sem cairmos em fanatismos e fundamentalismos. Queremos tratar a temática texiana, deixar aqui as nossas impressões, as nossas apreciações, o nosso espírito crítico sempre construtivo e se tudo isso ajudar e servir para divulgar Tex Willer, estaremos a atingir o nosso objectivo.
Queremos que este blogue seja de todos os que a ele acederem Estaremos atentos à interacção, que pretendemos seja ampla e aberta a todos. Esperamos que os que nos lêem também possam deixar aqui a sua impressão e o seu comentário, opinando, levantando questões, sugerindo, dialogando, actuando.
Se você já é apreciador de Tex Willer, este é mais um espaço de divulgação e convívio. Se você ainda não se converteu, ainda vai muito a tempo. Leia-nos, participe e abra o seu coração. Vai ver que não se arrepende!
Argumento de Antonio Segura e Desenhos de José Ortiz.
Resumo: Com o objectivo de reconquistar as terras que o México perdeu para os Estados Unidos durante a guerra de 1846, o general Contreras recrutou um exército de guerrilheiros que espalha a violência e o terror na zona da fronteira. As incursões por terras americanas serão ainda mais decisivas logo que Contreras receba ouro, armas e munições que se destinam à sua causa. Tudo isto viajará num comboio blindado e bem escoltado, mas Tex e Carson, a pedido do exército americano, vão ultrapassar a fronteira e tentar arruinar os intentos do militar.
Comentário:O trem, esse elemento aglutinador de distâncias, representativo da evolução do oeste americano, agregador e, ao mesmo tempo, separador entre estados e povos, sempre tão presente em múltiplas aventuras e no imaginário colectivo. Segura escolheu o trem para, não diremos protagonizar uma grande aventura de Tex, mas como seu elemento mais importante, onde tudo gira e sobre o qual recaiem todas as expectativas. Seguramente que uma certa ideia de nação e patriotismo está na base das ambições do General Conteras, alguém que planeia vingar-se da derrota mexicana com os Estados Unidos e que almeja reconquistar os territórios então perdidos.
Existirão aqui duas vertentes históricas no argumento, porque Segura congrega em redor do trem e do seu papel relevante, um elemento verídico que está na origem das motivações de Contreras. Mas se existe no argumento uma visível dependência do trem, essa dependência também se fará sentir no papel que um grupo de homens desempenhará no rumo dos acontecimentos.
Inicialmente com Tex, Carson e Butt, mais tarde também com Raul, Tony, Sam e Jerry, o sucesso ou o insucesso da missão dependerá da habilidade de um grupo que Segura vai descrever com mestria. O grupo conseguirá levar a cabo um ambicioso plano tendente a desviar um trem blindado, porque existe qualquer coisa entre todos os seus elementos que os une a esse objectivo. São motivos diversos, mas que Segura vai expôr convincentemente, caracterizando fraquezas e expectativas. A habilidade do autor espanhol também se irá reflectir em campo oposto, porque em redor de Contreras, Segura contrapõe o mercenário Von Arnin a Dom Ramon e este a Alvarado. Há um desfilar de uma rica galeria de personagens e psicologias, de carácteres e motivações, cada um movido pelas suas paixões, pelas ambições ou meramente pelos seus intentos. É eventualmente nesta composição mesclada que Segura se afasta dos cânones bonellianos e de Nizzi, aproximando-se mais de Boselli. Segura conjuga bem as características das personagens, através de uma história realista, credível e apaixonante. É interessante seguir Tex no processo de conhecimento do terreno, da sua preparação e no engendrar de algo que possa acabar com os intentos de Contreras.
É interessante a caracterização que Segura expõe muito bem entre o estudo e planeamento e a passagem a uma acção plena e decisiva. Segura respeita a personagem, porque o seu Tex é decisivo e heróico, mas o seu Tex não é o de Bonelli. Porque o Tex bonelliano recorreria a Carson, Kit e Tigre e não a um grupo de personagens movidas por diferentes objectivos e onde se inclui, por exemplo, um antigo fora-da-lei. Terá sido opção pessoal ou meramente não ter um conhecimento profundo da personagem?A aventura é enérgica e nervosa, sentindo-se sempre algo nebuloso no ar. Algo que permanece sempre por explicar, qualquer coisa que nos foge e que o autor pretende guardar sempre para o momento seguinte. E o momento seguinte acaba por ser o momento final, quando Segura constrói um epílogo pouco aguardado, mas eventualmente também pouco credível e ingénuo, pelo menos no modo como Tex acaba quase por ser surpreendido.
Ortiz compõe um Tex marcadamente ticciano, vigoroso e seguro de si. Mesmo a composição das personagens denota essa tendência para acompanhar os cânones ticcianos, com personagens maniqueístas carregadas de expressões reveladoras das suas condutas. O autor usa e abusa dos efeitos de luz e sombra, sublinhado nos cenários e nos ambientes, de uma forma ímpar nos desenhadores texianos. Apesar de perpassar uma leve sensação de falta de definição nos traços de algumas personagens, a verdade é que o autor espanhol consegue, mesmo assim, uma grande realeza e transmitir bem ao leitor as incidências da aventura. Mas o formato mais reduzido (da edição brasileira da Mythos) tende a deixar no leitor uma certa sensação de asfixia decorrente desta tendência em abusar do negro.