Tex 741 BIS, Tex NOVAMENTE a dobrar, em Julho, na série principal italiana

Pelo segundo ano consecutivo, o Verão Texiano é reforçado pelo lançamento de um número Bis.

Em Julho, pleno Verão europeu a Sergio Bonelli Editore brindará, pelo segundo ano consecutivo, os fãs e coleccionadores de Tex com uma edição especial. Trata-se do Tex 741 Bis, com lançamento previsto para 21 de Julho e que trará uma história (inédita) completa, escrita por Pasquale Ruju e desenhada por Giovanni Freghieri, sendo a capa da autoria de Claudio Villa.

O título original é “L’eredità del bandito“ (em português “O legado do bandido“), história de 110 páginas que vê o Ranger mais famoso da banda desenhada italiana empenhado em proteger a viúva de um ladrão de bancos, perseguida pelo velho bando do marido em busca do último saque.

O Tex 741 Bis, está novamente inserido na iniciativa (Bis) que a editora Bonelli estenderá uma vez mais neste Verão, desta vez a seis séries já que este ano para além de Tex, Dragonero, Nathan Never, Dylan Dog e Zagor temos também a presença de Júlia Bis nos quiosques italianos.

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Póster Tex Nuova Ristampa 332

Póster Tex Nuova Ristampa 332

Em mais uma inebriante ilustração, da autoria de Claudio Villa, vemos Tex sendo perseguido por gigantescos  monstros que parecem ter saído do pior dos pesadelos… monstros criados pela maléfica mente (e magia) do diabólico Mefisto!

Desenho INÉDITO no Brasil e inspirado na história “Mefisto!” de Claudio Nizzi e Claudio Villa (Tex italiano #501 a #504).
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Texto de José Carlos Francisco

Histórias de Fantasmas! (Baseado na aventura ‘Colorado Belle’ – no Brasil traduzido por ‘A Dama do Colorado’)

Por Jesus Nabor Ferreira*

A cidade fantasma
Numa noite de Tempestade, entre o uivo do vento e o açoitar da chuva, o jovem cavaleiro procurava um lugar para abrigar-se do temporal.

Velhos fantasmas, etéreas aparições, entidades insólitas, fenómenos inexplicáveis pelas convenções mundanas, factos que destoam do quotidiano, do corriqueiro, do vulgar, e transformam em acontecimentos assombrosos, reais ou imaginários, que poderiam ser apenas sonhos ou pesadelos
vividos pelo mais comum dos mortais. Todos estes elementos são ingredientes utilizados pelos argumentistas para elaborar tramas que escapam ao convencional e ultrapassem o cenário comum das aventuras corriqueiras onde estão habitualmente ambientadas certas personagens. E não é tão incomum que alguns argumentistas façam uso do ambiente gótico ou irreal para, como se diz, dar um giro a mais na roda, e levar o leitor a desfrutar de material mais elaborado do que o habitualmente conseguido. É o caso, quer-me parecer, desta soberba aventura de Tex, a cargo de Mauro Boselli e Alfonso Font, a qual passamos a analisar de maneira livre.

Um dos mais comuns recursos utilizados pelos escritores de western, seja em filmes, livros ou na banda desenhada, é o da cidade abandonada, as chamadas “ cidades fantasmas” do velho oeste americano. Muitas delas surgiam do dia para noite, graças à desesperada procura pelo ouro ou pela prata, e  desapareciam com a mesma velocidade com que corria a noticia de que uma nova jazida tinha sido encontrada noutro lugar. Os mineiros chegavam para explorar supostas minas fabulosas, de riquezas inesgotáveis, e em redor dos veios de mineração surgiam, da noite para o dia, estruturas precárias que eles insistiam em chamar de cidades. E para atender aos desejos destes “esfomeados” trabalhadores, bares e saloons eram abertos, cobrando pela diversão e bebidas preços estratosféricos que deixavam ricos os seus donos, mercadores inescrupulosos, jogadores hábeis, mulheres voluptuosas que eram habitués destes lugares. Mas o que parecia não ter fim acabava logo, uma nova “rica jazida” de ouro era encontrada noutro lugar e os “abutres de duas pernas” logo alçavam voo, rumo a nova e promissora cidade. As Boom Towns, como se chamavam estas localidades, acabavam também por servir de esconderijo para foras-da-lei que procuravam, na tranquilidade das suas abandonadas ruas, um lugar para descanso, depois de aplicarem mais algum golpe bem sucedido, ou então, como costuma dizer o nosso amigo ranger, para lamberem as suas feridas depois de algum confronto com as forças da lei. Eram nas Ghost Towns que muitos foragidos reuniam-se para descansar e planear futuros golpes. E a história que hoje nos ocupamos tem como cenário uma destas famosas cidades fantasmas e uma de suas mais belas habitantes, Colorado Belle.

Yellow Sky
Yellow Sky é uma antiga cidade abandonada no sopé da cadeia de montanhas Sangre de Cristo no Colorado e é para lá que se dirige o reverendo Charles Morrow, em busca de noticias da sua irmã Alice Morrow, que há alguns anos saiu da casa da família em Filadélfia, para seguir carreira artística. Ao chegar ao posto comercial de Las Animas, Charles é informado pelos condutores da diligência que Yellow Sky – último lugar de onde a sua irmã comunicou com ele – é uma cidade fantasma e que por lá somente os coiotes e os lagartos vivem. É neste posto comercial que Charles fica a saber o nome pelo qual a sua irmã é conhecida na região: Colorado Belle. Aliás, a beleza dela chama atenção de todos os que a conhecem. É tudo o que sabemos e iremos saber sobre esta misteriosa e linda mulher neste primeiro momento.

Kit Willer
Yellow Sky também é o lugar que Kit Willer escolhe para se abrigar de uma tempestade que chega repentinamente. Juntamente com a chuva chega também a noite e Kit procura proteger-se da chuva no velho saloon local. Talvez fosse por conta do cansaço, talvez por culpa da atmosfera tétrica, o facto é que Kit percebe algo de sobrenatural na cidade fantasma. A sensação de que não está sozinho faz com que o rapaz fique apreensivo e passe a vasculhar as velhas casas, em busca da presença que sentiu estar a rodeá-lo. Vencido pelo cansaço da longa cavalgada, Kit acaba por adormecer num quarto do saloon que pertenceu a uma mulher e, pelas iniciais bordadas nas peças da cama, saberemos mais tarde tratar-se de Colorado Belle. O dia surge ensolarado e os raios do sol despertam Kit que, após verificar que nada aconteceu com o seu cavalo, parte em direção ao horizonte. Atrás dele, observando a sua partida, vemos a figura de uma bela mulher. Os seus pensamentos são misteriosos, enigmáticos e trágicos. Sabemos que ela vive no Colorado Saloon e que o medo é o seu companheiro constante. Muito mais não iremos descobrir, pelo menos não agora, não antes que outros acontecimentos terríveis tenham lugar e que outras personagens entrem em cena neste drama que irá marcar a vida de alguns outros jovens e também do reverendo Morrow.

Tex Willer
Durante a sua carreira como homem da lei e chefe dos Navajos, Tex, por diversas vezes, viu-se diante do inusitado e do sobrenatural. Não é à toa que o seu maior adversário, o seu arqui-inimigo, aliás, é agora um ser que deixou há muito o plano material, físico, humano, para se tornar em algo malévolo, um espírito desencarnado, um verdadeiro representante dos “setes mundos do abismo”: Mefisto! Portanto, não seria incorreto dizer que Tex não teme o sobrenatural ou o fantástico. Por outro lado, pode-se afirmar que o herói tem um grande respeito pelas coisas místicas ou mágicas. Um dos seus grandes conselheiros é o Xamã da aldeia principal dos Navajos, Nuvem Vermelha, a quem Tex sempre recorre quando embarca em alguma aventura fantástica. Porém, Tex é um homem, como dito anteriormente, de ação, prático, céptico em alguns momentos, seguro da sua força, inteligência e confiante nas suas habilidades e armas para resolver qualquer dificuldade.

E que papel irão desempenhar Tex e Kit Willer nesta trama? Boselli tem a habilidade de criar os seus roteiros dando sempre um destaque psicológico para as suas personagens, tornando-as únicas dentro da história. Por mais que possamos dizer que Tex e Kit são os heróis típicos de uma aventura de western, valorosos, valentes e seguros nas situações de perigo, Boselli deixa muito bem definida a distância que ainda existe entre pai e filho. Mesmo que Kit Willer siga os passos do pai, ele ainda comete pequenos erros por conta da sua juventude, tornando-se assim mais verossímil para o leitor, pois até mesmo o filho do grande Tex Willer pode cometer erros por conta da inexperiência. É uma das qualidades de Boselli dar características individuais a cada uma das personagens, dotando-as das qualidades e defeitos que são comuns aos homens mais ordinários. Se por um lado Kit tem o fulgor da juventude, esta mesma juventude faz com que ele muitas vezes atue com alguma imprudência. Já Tex está no auge de seus “poderes”! O grande líder da nação Navajo faz valer a sua fama de bravo e experiente guerreiro, seja ao confrontar uma tribo inteira, seja num duelo mortal de faca contra um dos aliados de Deadman Dick, seja enfrentando toda a quadrilha do vilão. Empunhando o sagrado Wampum, Tex inspira admiração e temor nos seus adversários.

Charles Morrow
Como foi dito mais acima, o reverendo Morrow está desesperado à procura da sua irmã desaparecida e por conta desta urgência e também por desconhecer algumas das principais leis não escritas das terras da fronteira (como nunca confiar em ninguém, principalmente desconhecidos), ele parte para Yellow Sky na companhia de um homem bonacheirão que se oferece para guiá-lo. Para seu azar, o seu companheiro de viagem é um dos membros do bando de Deadman Dick e logo na primeira noite na pradaria tenta roubar e assassinar Morrow. Mas a sorte também parece não ter abandonado o jovem reverendo. Surgindo no momento certo, Tex salva a vida de Morrow. A história da busca pela irmã é logo contada ao Ranger e Tex decide levar Morrow consigo. Pouco tempo depois, Kit Willer junta-se à dupla e seguem a pista de Deadman Dick. Kit menciona ao pai e ao reverendo que, enquanto estava em Yellow Sky, sentiu uma presença feminina no lugar. Isto faz com que Charles renove as suas esperanças de encontrar a irmã; Tex desaprova o comentário do filho.

Deadman Dick e o seu bando
Noutro local, um drama maior está a desenrolar-se, uma pequena caravana formada por algumas famílias de pioneiros também acaba por se cruzar com o caminho do bando de Deadman Dick – um grupo de fora da lei impiedosos e numeroso, com Tex no seu encalço desde há algum tempo. As famílias são impiedosamente massacradas, os seus pertences saqueados e os únicos deixados com vida são três jovens que serão vendidos aos índios Utes do chefe Bisonte Negro. Algum tempo após a chacina, Tex, Kit e Morrow chegam ao local da tragédia. Examinando o local, percebem que alguns prisioneiros foram levados para a aldeia de Bisonte Negro e Tex decide libertá-los.

Boselli vai pouco a pouco tecendo a teia de acontecimentos que irá acabar por se desenrolar na cidade fantasma de Yellow Sky, lenta e inexoravelmente o autor vai conduzindo as suas personagens para o desfecho final deste emocionante drama em que Tex, Kit, e os seus improváveis aliados têm de enfrentar, não apenas o bando de Deadman Dick, mas também outro grupo de facínoras que se junta ao primeiro. A ação final será entre as ruas abandonadas da velha cidade. E então o mistério de Colorado Belle será por fim revelado.

Colorado Belle
Como não se encantar com a figura bela, pálida e melancólica de Colorado Belle? Nas vezes em que a vimos, ela está sempre assustada, com medo, primeiro na noite de tempestade em que quase fala com Kit Willer, depois, em flashback, vemo-la sendo ameaçada por Deadman Dick e por fim, quando a violência explode novamente em Yellow Sky, vemo-la assombrada, terrificada, com a sua figura fantasmagórica, espreitando as dependências do velho e abandonado Colorado Saloon. Ficamos a torcer pelo reencontro emocionante entre os dois irmãos que estiveram separados por anos. O reverendo Morrow mais que uma vez deu mostras da sua coragem, ao defender os seus jovens companheiros de aventuras, e isto comove Belle e faz com que vença o seu medo de se manifestar diante dos visitantes da cidade fantasma. Que terríveis factos terão tido lugar naquela velha cidade? Que segredo guarda Belle consigo e fez com que permanecesse escondida no meio das ruínas daquelas antigas habitações? Quais serão os fantasmas ou monstros que a atormentam tanto? E poderá todo este medo e terror ser vencido pelo amor do seu irmão? Ou terão Tex, Kit e os seus jovens aliados forças para lutar contra a encarnação do mal chamado Deadman Dick? Mas não são apenas os espíritos malignos que costumam habitar as velhas e abandonadas cidades do oeste americano, há também aquelas entidades que precisam cumprir com um propósito para então encontrarem o seu descanso final.

Alfonso Font, o desenhador
Desenhos de Kit Willer em primeiro plano bem elaborados, diferentes da arte mais caricata de Font nos demais desenhos, onde revela a sua preferência por um traço mais riscado, menos estético, menos fotográfico, mas dinâmico. Até parece que o argumentista ou o próprio desenhador têm uma predileção especial pelo jovem herói. Mas pese embora o facto de alguns julgarem o desenho de Font um pouco desleixado, menos cuidado, é inegável que ele caracteriza as suas personagens de uma maneira muito própria. Ou seja, o Tex de Font jamais será o Tex de Galep, de Villa, de Civitelli ou até mesmo de Ticci. Font é daqueles desenhadores que imprime a sua marca pessoal, quase se apropriando da criação de outro, transformando-a na sua. Font é considerado um dos maiores desenhadores espanhóis, com um elevado prestigio entre fãs e colegas do meio, tendo recebido diversos prémios em reconhecimento do seu talento, com especial destaque para o célebre Yellow Kid.

Outras histórias de fantasmas
Esta brilhante aventura escrita por Boselli fez-me recordar um filme chamado Os Outros (The Others no original), um suspense protagonizado pela bela Nicole Kidman. Um destes filmes que não precisam apelar para a carnificina ou o escatológico e sim para pequenos truques que o realizador imprime na sua obra, além da brilhante condução dos atores, detalhes que sugerem mais que mostram, para provocar sustos e sobressaltos, mantendo o espetador preso à cadeira até ao desfecho final inesperado. Da mesma maneira, esta história de Boselli, mesmo tendo todos os ingredientes de um western tradicional, também de maneira subtil e engenhosa apresenta um elemento “sobrenatural”, transformando uma trama corriqueira num thriller de suspense. O próprio Boselli já nos dá uma pista, ao nomear o vilão da trama como Deadman Dick, da direção que a história seguiria.

Na longa carreira do mais famoso dos rangers do Texas, houve diversas outras histórias onde os argumentistas, procurando incrementar os seus enredos para fugir, quem sabe, dos lugares comuns de uma aventura de western, usaram o artifício do sobrenatural e do fantástico. Tomando como base as edições brasileiras, podemos citar as histórias O Tesouro de Santa Cruz e Fantasmas do Passado, O Hotel dos Fantasmas, A Porta Fechada, assim como aquelas onde manifestações “espirituais” volta e meia aparecem para assombrar os pards – vide as aventuras envolvendo o famigerado Mefisto ou o seu não menos diabólico filho Yama. O sobrenatural sempre exerceu um grande fascínio nos leitores de Tex, desde os seus primeiros números. Histórias com o Bruxo Mouro, com Mefisto, Yama ou então aquelas onde boas doses de horror estejam presentes, sempre aparecem nas listas das preferidas dos fãs. Múmias, bruxas, lobisomens, zombies, lagartos gigantes, monstros do passado, civilizações perdidas, seitas místicas, são recursos que os melhores autores por vezes lançam mão para incrementar as aventuras do ranger e dos seus amigos. Tex enfrenta todos estes perigos com a coragem e valentia de sempre, ajudado pelos seus fiéis amigos. Apenas o velho Carson, por vezes, não pode evitar sentir um calafrio, quando sabe que está envolvido numa história de fantasmas. Felizmente ele não participa desta aventura. Mas acho que ele teria gostado de Colorado Belle…

* Texto de Jesus Nabor Ferreira publicado originalmente na Revista nº 4 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2016.

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Tex na Guerra da Secessão Americana

Por Rui Cunha*

Capa da mítica aventura ‘Tra due Bandiere’ de Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini

Nota: os títulos das aventuras de Tex, neste período, são apresentados a negrito e em itálico. Quaisquer erros existentes são da exclusiva responsabilidade do autor.

Ao longo da História da Humanidade houve um tempo, fosse ele em que século fosse, em que as nações existentes tiveram que se defrontar com convulsões internas, muitas delas resultaram em guerras civis, das quais as nações em questão dificilmente se livraram. Aconteceu com as nações antigas, nomeadamente as do Oriente e as do Velho Continente, mas também aconteceu com as nações mais jovens, como os Estados Unidos da América.

Em 1861, quando começou a Guerra de Secessão, (os Estados Unidos eram uma das mais jovens nações do mundo, tinha-se tornado independente em 1783), que viria a durar até 1865, os Estados esclavagistas (possuíam escravos) do Sul (também chamados confederados) declararam a sua intenção
de abandonar a União e formar “A Confederação dos Estados do Sul”. Os restantes Estados que não se revoltaram, mantiveram a União e eram conhecidos simplesmente como “O Norte”. A Guerra de Secessão teve a sua origem na polémica questão da escravatura e nas diferenças entre um norte que, por falta de terrenos bons para a prática agrícola, se viu forçado a procurar outras fontes de rendimento e tornar-se cada vez mais industrializado e modernizado, e um sul rico em terrenos férteis para o cultivo tornando-se muito dependente do trabalho agrícola manual.

Tex e o negro Tom saltando de uma ponte controlada pelos Confederados. Desenho de Claudio Villa

As hostilidades tiveram início no dia 12 de Abril de 1861, quando as forças confederadas atacaram e conquistaram o Forte Sumter, na Carolina do Sul. Lincoln, recém eleito Presidente dos Estados Unidos, pediu a cada Estado-Membro da União que enviasse tropas para reconquistar o forte. Não concordando com esta decisão, quatro Estados esclavagistas abandonam a União e juntaram-se aos outros sete Estados que formavam a Confederação sob a presidência de Jefferson Davis (1861-1865).

Ao fim de quase um ano de guerra civil, entre muitos avanços e recuos de ambas as partes, Lincoln, para não ver o país afundar-se numa guerra interminável, fez aprovar, ao fim de uma grande luta política, a Proclamação da Emancipação, que tornou o fim da escravatura um objetivo primordial para acabar com aquela sangrenta guerra. Em 1863, aconteceu o ponto de viragem na Guerra de Secessão que terminou com as muitas incursões confederadas em territórios da União, o que acontecia quase desde o início da guerra. A 1 de Julho, perto da vila de Gettysburg, na Pensilvânia, as forças nortistas e as forças sulistas enfrentaram-se naquela que foi a maior batalha daquela guerra. Durante três dias, aconteceu uma carnificina que só terminou quando Robert E. Lee, comandante das forças confederadas, depois de perder mais de 25.000 soldados, recuou definitivamente para sul, abrindo caminho à vitória nortista que, no entanto, só aconteceria dali a dois anos, em Junho de 1865.

Tex e Dick Dayton, mais conhecido por Dick Furacão, fugindo a cavalo do acampamento militar de Buffington, onde Dick se encontrava detido. Desenho de Claudio Villa

A Guerra de Secessão esgotou os recursos financeiros do Norte que foram utilizados exaustivamente no esforço de guerra e arruinou completamente a economia do Sul, cujos campos de algodão, principal fonte do monopólio sulista, foram destruídos sucessivamente pelos sulistas que não os queriam nas mãos dos conquistadores e depois queimados pelos nortistas, numa espécie de retaliação social contra as populações. Sem nada com que viver, inúmeras populações emigraram para outras regiões, principalmente para o Norte e para o Oeste, enquanto outros abandonaram a devastação do Sul, para fugir da recessão económica e outras retaliações, como as perseguições e discriminações, e emigraram para outros países em busca de um novo começo de vida.

Mas nem toda a população norte-americana participou nas hostilidades. Houve quem, inicialmente, se declarasse neutro no conflito. Não só a população o fez, como também algumas forças de ordem pública, pontualmente, o fizeram. Foi o caso dos rangers do Texas, a cujos quadros pertencia Tex Willer.

Antes do início das hostilidades, Tex, já ranger, envolve-se nos preparativos duma guerra que se sabe estar eminente. Em “O Enigma do Hipocampo”, Tex é convocado com urgência ao Comando dos Rangers em Santa Fé, para ajudar numa investigação acerca de uma quadrilha que é responsável por inúmeros homicídios, assaltos a bancos e a comboios que transportavam ouro e também pelo assassinato de cinco rangers. A quadrilha, liderada por uma mulher de imensa beleza, de nome Manuela Guzman, era na realidade a fachada de uma organização que financiava o exército do México na sua luta contra os Estados Unidos para retomar a posse dos territórios que tinha perdido em 1848 e que, através de informações confidenciais, já tinha conhecimento da eventual eclosão da Guerra de Secessão.
Após conseguir desmantelar a quadrilha, Tex regressa a Santa Fé e toma conhecimento, através do seu chefe James Hovendal, da iminência da guerra e daquilo que se espera dos rangers: que estes não tomarão parte no conflito ao lado de nenhuma fação e que apenas serão polícias, e agirão como tal, para impedir que atos de banditismo sejam cometidos por qualquer uma das partes envolvidas.

Tex prepara-se para conferenciar com tropas confederadas. Desenho de Claudio Villa

Já com a Guerra de Secessão a decorrer, em “Piutes!”, Tex e os rangers, enquanto investigam o tráfico de armas que envolve os índios Piutes, recebem uma preciosa ajuda do Tenente Robert, que pertence ao Quinto Regimento do Exército Confederado. Após algumas peripécias e depois de ser tratado com alguma cordialidade pelos Sulistas, Tex revela que o traficante há muito procurado, o falso general confederado Samuel Quantrill, não roubava armas aos Sulistas para depois as passar para os Nortistas, mas sim traficá-las para os índios Piute. Avisada a guarnição nortista de Forte Russell, por onde supostamente passavam as armas traficadas, os rangers, ajudados pela guarnição do forte, conseguem destruir a aliança entre o traficante e os Piute. Quantrill, porém, consegue fugir.

Inevitavelmente, ninguém consegue ficar indiferente ou até mesmo imparcial em qualquer conflito, seja ele qual for, durante a sua duração. O mesmo acaba por acontecer aos rangers e, particularmente, a Tex.
Neutro e, inicialmente, a colaborar cordialmente com Nortistas e Sulistas, Tex acaba por ter que fazer uma escolha e optar por uma das fações. No seu caso, opta por se juntar ao exército da União e justifica-a por entender que é o Texas (o seu estado natural), que está do lado errado. Em “A Planície da Traição”, Tex, depois de ter participado como batedor do exército nortista na batalha de Glorieta Pass (1862), acompanhado pelo seu amigo Dick Dayton encontra um destacamento sulista que luta lado a lado com um grupo de civis, contra os índios Kiowas. Tex e Dick juntam-se à luta e ao grupo junta-se Beau Danville, um tenente sulista. O combate torna-se renhido à medida que o destacamento militar tem que servir de proteção contra os índios para permitir que os civis se possam pôr a salvo. Acabam por ser salvos pelo exército confederado, não sem pesadas baixas. Pouco antes de morrer, o tenente sulista confessa a Tex que, na realidade, estava a conduzir uma investigação sobre a venda de armas aos Kiowas.

Assumindo oficialmente a fação nortista, em “Entre Duas Bandeiras” Tex participa na Batalha de Shiloh, em 1862, e ajuda na destruição de um dos bastiões mais poderosos dos Sulistas, o Forte Henry. A narrativa começa em Abilene, quando Tex, na companhia de Kit Carson (que durante a ausência de Tex nos rangers, integrara a força e viria a tornar-se o companheiro inseparável de aventuras) e Kit Willer (filho de Tex), encontra o seu velho amigo e companheiro de armas na guerra de secessão, Dick Dayton, e ambos relembram alguns episódios de guerra. A história, contada em “flashbacks”, relata como os dois amigos, antes de se alistarem no 3º Regimento de Caçadores do Kentucky, passaram por algumas aventuras que acontecem no início da guerra, quando ainda eram civis e andavam ambos a conduzir gado com Rod Virgil, um outro amigo, o qual, pela força das circunstâncias, acaba por se separar dos restantes e Tex e Dick alistam-se e participam na sangrenta Batalha de Shiloh, que aconteceu em Abril de 1862, o que é contado nas histórias “Quando Explodem os Canhões” e “A Batalha Sangrenta”. No final da batalha, em que não se consegue encontrar um vencedor, tal foi a carnificina (que só seria superada por aquela que aconteceria em Gettysburg, em 1863), Tex e Dick são transferidos para os Exploradores do Exército da União e reencontram Rod Virgil, agora soldado confederado e mortalmente ferido. Em face deste acontecimento e fartos da luta fratricida que opõe amigos contra amigos, irmãos contra irmãos, os dois amigos decidem abandonar o Exército e voltar aos antigos trabalhos.

Claudio Villa retrata nesta ilustração nocturna o momento em que Tex Willer, nas proximidades de Richmond e em plena Guerra da Secessão, mais precisamente no final do ano de 1864, apresta-se para salvar Tom, um negro, da fúria dos sulistas que o queriam enforcar

Novamente ranger, em “Chamas de Guerra” Tex é incumbido, no final de 1864, de uma missão secreta na Virgínia, junto do Vice-Governador do Estado Howard Walcott, que tem a ver com os seus dois  sobrinhos, que combatem em lados opostos da guerra: John Walcott pelo lado da União e Leslie Walcott pela fação Sulista. John, depois de ter roubado um carregamento de ouro, é capturado e preso pelos Sulistas. O ouro entretanto desaparece. Os unionistas, certos de que John sabia da localização do
ouro, pedem a Tex que o resgate da prisão de Anderville e quando a evasão acontece, John diz desconhecer o paradeiro do ouro, um mistério que se mantém até aquela altura, quando parece que Howard Walcott o pretende revelar. Esta é mais uma história, contada em “flasback”, que Tex narra a Kit Carson durante uma viagem de comboio e na qual Tex se mostra desalentado com o que passou e viu na guerra. Mesmo assim, perante os acontecimentos que vive nesta aventura, ele reafirma os ideais que o motivaram a aderir à fação nortista: pôr fim à escravidão sulista.

Já no pós-guerra, num país devastado por quatro longos anos de uma guerra civil que causou mais de 600.000 mortos, entre militares e civis, ainda com muitas feridas abertas e com imensa dificuldade em conseguir cicatrizá-las (algumas nunca o serão totalmente), Tex, sempre na companhia do seu fiel amigo Kit Carson, continua o seu trabalho como ranger. Em “Os Irmãos Border” volta a ser chamado para colaborar numa investigação sobre as atividades de um bando de assaltantes de comboios no Missouri, liderados por dois irmãos sulistas, Bill e Frank Border, e que contava com a cumplicidade das gentes locais. Ajudado por Baxter, um detetive da Agência de Detetives Pinkerton, Tex toma conhecimento que o bando dos irmãos Border é, em tudo, muito semelhante aquele que é liderado pelos irmãos Jesse e Frank James e que as populações locais veem neles os verdadeiros heróis e fazem de conta que os caminhos-de-ferro e os bancos são os vencedores nortistas e invasores que têm de ser derrotados pelos bravos sulistas patriotas. Quando se dá o confronto, cinco assaltantes são mortos e o bando desmantelado.

O “Ouro dos Confederados”, a aventura seguinte de Tex, ainda nos conduz às consequências da guerra civil e leva o ranger e Kit Carson a perseguir Buchanan, um ex-capitão do exército confederado, que se evade de uma prisão nortista com a ajuda de um seguidor da Klu Klux Klan, uma organização sulista e racista. Buchanan leva os seus companheiros até um pântano onde se encontra um velho navio ancorado e abandonado e dentro dele está um tesouro em barras de ouro que o ex-capitão pretende apanhar e fugir com ele. Emboscadas, tiroteios, armadilhas e acidentes fatais tornam a viagem até ao local difícil, mas não impeditiva para os dois rangers, habituados a estes tipos de situações, cumprirem a sua missão.

Quando tuona il cannone (Quando explodem os canhões)

Mas nos tempos do pós-guerra, enquanto a Nação lentamente se reconstruía, havia quem, secretamente, ansiasse pelo regresso às armas. É neste ambiente que “O Último Rebelde” decorre. Tex faz-se passar por presidiário na penitenciária de Peterburg, para se aproximar do Capitão Freemont, que se julga ser um dos comandantes do “Novo Exército Confederado”, um grupo de soldados sulistas que pretende vingar a humilhação sofrida na guerra civil. Tex e Freemont conseguem escapar e, juntamente com Kit Carson, vão para o quartel da organização onde esta tem vindo, através de ações de guerrilha, a preparar o terreno para o contra-ataque. Mas Freemont tem outras ideias e, com o auxílio do Major Corbett, pretende pô-las em prática, a não ser que alguém os consiga impedir.

Se se vir bem o trajeto de vida do ranger, facilmente se perceberá que ele não poderia passar ao lado deste conflito: Tex foi um rancheiro que fez justiça pelas próprias mãos, cowboy em rodeos, fora-da-lei procurado pela justiça, ranger cumpridor da lei e, a partir de certa altura da sua vida, defensor dos ideais nortistas de uma certa mentalidade progressista, pois trata de igual para igual um escravo e consegue ver dignidade em muitos dos seus adversários sulistas. Inevitavelmente, torna-se contraditório com este tipo de atitude, pois prefere prender e julgar pela justiça, apesar de também, se for necessário, espancar e ferir a tiro qualquer fora-da-lei; os seus valores são altos e não lhe permitem bater ou matar pessoas desarmadas ou atirar pelas costas.

É por causa destas contradições que todos gostamos de Tex, sempre íntegro nos seus ideais, lemos, amiúde, as suas histórias carregadas de ação, que garantem a longevidade da personagem e a conquista do público que, estou certo, nunca lhe faltará.

No rescaldo da Guerra. Desenho de Galep

* Texto de Rui Cunha publicado originalmente na Revista nº 4 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2016.

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SECRET ORIGINS: TEX CLASSIC 19

Por Saverio Ceri [1]

Décimo nono apontamento com as origens (pouco) secretas das capas de Tex Classic. Como a estrutura de Tex Classic é diferente das reedições anteriores do personagem, para esta série foi necessário  recuperar algumas das capas históricas que não eram usadas há décadas. As capas da colecção albo d’oro, a primeira com as páginas montadas em três tiras, revelaram-se por agora as mais adaptadas. Assim por cada Classic, que tem 64 páginas, têm à sua disposição duas capas da colecção Tex albo d’oro, que tinha apenas 32 páginas, para escolherem. Desta vez a votação foi entre as capas dos números 37 e 38, que podem ver de seguida em todo o seu esplendor graçasao louvável trabalho do site www.collezionismofumetti.com que, entre outras coisas, propõe muitas imagens históricas das edições bonellianas e não só.

Albo d’oro Tex #37

Albo d’oro Tex #38

A escolha da redacção bonelliana recaiu nesta ocasião sobre a segunda capa, que apesar de inevitavelmente bela, devido ao grafismo particular desta colecção, se vê privada de um dos dois protagonistas. 

Tex Classic #19 – Il terrore di Durango

Saverio Ceri

Encontre todas as outras origens das capas de Tex Classic na rubrica Secret Origins: Tex Classic

[1] Material apresentado no blogue Dime Web em 22/11/2017; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 2017 Saverio Ceri

Enrique BRECCIA: Mestre na BD e na pintura

Por Italo Marucci*

 

Não é fácil encerrar numa única definição categórica a obra de um artista que reflete em si as contradições úteis e as curiosidades estimulantes de uma cultura e de uma arte que tem múltiplos aspectos expressivos: é o caso de Enrique Breccia.

Nos seus quadros não há perda de tempo em detalhes, mas uma síntese, uma simplificação unitária dos variados aspetos da nossa existência. Em algumas obras, Enrique Breccia deixa de lado as suas qualidades de desenhador e lança mão de uma inteligente economia gráfica e de uma grande força colorífica, nas quais sabe fundir as experiências do realismo, das expressões e dos tons, para obter um discurso unitário, no qual traduz o senso dramático da vida. Também na banda desenhada ele une figuras, formas, objetos, animais, paisagens, numa espécie de incrustação gráfica em que se fundem desenho e trama. Os seus argumentos são muito difíceis: o argumento escraviza só quem o teme, quem por ele é dominado, que sofre os condicionamentos históricos e literários. Quem busca suprimir o argumento, no fundo é vítima do próprio, mas quem, como Breccia, faz viver os seus desejos secretos, extrai dele a essência e converte-o em forma e luz, no qual atua plenamente a liberdade expressiva que convém a um verdadeiro artista.

Cada quadro de Enrique Breccia não é só tela e tinta, mas é emoção, é a projeção da sua perceção e do seu estado de alma, do que ele sentiu ao olhar um cavalo, um tubarão, uma figura: assim, a transfiguração vai além do possível, supera o conhecido. As suas obras são projeções da alma sobre a natureza, tão íntimas e intensas que os limites do objetivismo tradicional apagam-se numa criação pessoal em que a realidade e a poesia reencontram a unidade primitiva.

A compreensão de Enrique Breccia em geral baseia-se e foca-se na observação: para ele a pintura é como uma janela através da qual ele observa o mundo e contempla com avidez as negligências do nosso viver quotidiano. As coisas, e o que as anima, são para Enrique Breccia, enquanto as observa, a genuína projeção de um sentimento atormentado do homem transmitido à natureza, em que os homens, por sua vez, buscam quase ansiosamente o silêncio, a solidão, a luz, para reagir à dissolução dos próprios elementos que os compõem.

Enrique Breccia, Italo Marucci e Barbara Pilon Breccia (2015)

Na banda desenhada, um dos pontos fundamentais da criatividade de Enrique Breccia é a sua tendência a trabalhar os ciclos, e seria muito difícil o contrário num artista que vive, psicologicamente e fisicamente, expressões e impressões do viver quotidiano: o empenhamento civil e cultural está na raiz da sua obra e na substância da sua realização. Em algumas imagens de Enrique Breccia encontramos toda a angústia de uma concreta verdade reencontrada: o homem é uma imagem na qual projeta-se e reconhece-se, na qual sentimos os temores das mais pesadas tristezas e humilhações. É o seu modo de nos provocar para nos forçar uma reflexão.

No que diz respeito às páginas de banda desenhada, feitas em aguarela, pode dizer-se que em algumas ele atinge o topo da produção mundial neste campo; elas oferecem uma ideia, um indício no qual Enrique Breccia alinha a sua história, com absoluta perícia técnica e liberdade interpretativa. Nas suas aguarelas, revela sempre um domínio absoluto da técnica, a sua aguarela é clássica pelas superfícies impecáveis, pelos planos que se sucedem de modo original, pela pureza das formas que adquirem particular importância para a luz que ajuda na sua vitalidade de cores. Os seus trabalhos não são imagens mas sim visões (uma página como exemplo: a batalha) que criam um mundo em si, com uma própria coerência de estilo e de cor. As suas composições procuram sempre uma forma nova de expressão, são feitas com mestria no uso da aguarela clássica, não por uma função decorativa, mas em razão de uma elaboração objetiva e concreta mais segura e, desse modo, os espaços externos resultam distribuídos segundo uma economia tonal com um rigor comparável ao de uma construção musical.

Enrique Breccia com uma das pranchas do seu Tex Gigante

Nos quadros a óleo, Enrique Breccia superou a fase dos refinamentos estilísticos e visa o concreto, dando provas suficientes particularmente em certas figuras masculinas. Seja de que forma se queira ler e interpretar, a pintura de Breccia vive com um respiro mágico acima de qualquer definição: está presente na pintura em que a construção cromática, a narração e a interioridade dos tons de cor fundem-se numa só harmonia. Os elementos simbólicos e emblemáticos que delineiam um rosto ou uma situação dão a sensação de um mundo inquietante, cheio de significados alusivos e permeado por uma atmosfera mítica e intemporal.

Por tudo isso, é muito difícil que os temas de Breccia rendam-se à oratória ou abandonem-se à retórica. Quando muito, no contacto com a realidade eles tendem a desmistificar os mitos ilusórios para substituí-los por uma conexão moral e histórica em que o homem pode encontrar uma própria verdade impossível. Logo, a sua é uma pintura consciente, que se impõe limites de busca e, de forma propositada, tende a sair do campo de uma figuração tradicional, porque deseja falar não só a uma elite, mas a um público vasto de emoções simples e instintivas.

Enrique Breccia é uma espécie de apólogo da solidão humana, de um pessimismo velado e apurado, expresso numa série de variações que contêm termos de pintura sincera, sensível, livre e ao mesmo tempo estudada, culta e, o que mais importa, cheia de poesia.

A essência da arte de Enrique Breccia está no movimento das suas imagens, construídas com um traço rápido que sugere a consistência sólida das personagens. A energia imaginativa de Breccia nesse processo criativo adquire extraordinárias capacidades de comunicação à medida em que os elementos das ilustração são confiados às criações, às magias expressivas, linguísticas e culturais. É evidente que o seu modelo é um exemplo de linguagem severa e essencial, de técnica rigorosa na busca dos valores gráficos e tonais, e que, assim, frequentemente consegue ter nas suas páginas o fascínio de quem pela primeira vez traça um relato de movimentos, presenças, aparições.

O caminho na arte foi, para Enrique Breccia, um caminho natural, necessário e elementar, como o caminho de um rio em direção à foz. Pretendo dizer que, se para alguns artistas da sua geração a arte foi um contínuo informar-se das coisas passageiras dos homens, dos caprichos de uma cultura cansada e sem motivações, para Enrique Breccia a arte foi como a evolução natural do espírito do homem para o que ele tem de mais elevado: o desejo e a sede de fazer arte e cultura. Enrique Breccia faz arte por meio da cultura e produz cultura por meio da arte, quase num relacionamento imprescindível e numa interação inconsciente.

* Texto de Italo Marucci publicado originalmente na Revista nº 4 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2016.

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Vídeo: Freghieri apresenta o Texone enquanto faz um rápido sketch de Tex a cavalo!

Já visto hoje em alguns quiosques italianos, apesar da data oficial de lançamento ser esta quarta-feira, 22 de Junho, o Tex Gigante deste ano é ilustrado por Giovanni Freghieri. Em  recente visita à redacção milanesa, o desenhador de Piacenza fez um sketch de Tex, enquanto contava algumas curiosidades do seu trabalho.

Para a Sergio Bonelli Editore o nome de Giovanni Freghieri está ligado sobretudo ao personagem de Dylan Dog. De facto, a sua capacidade de desenhar rapidamente sem sacrificar a qualidade das páginas permitiu que ele ao longo dos anos trabalhasse nas mais diversas séries, da mini-série Hellnoir a Dampyr e Zagor. É hora de se estrear nas páginas de Tex, ou melhor: nas do altamente cobiçado Speciale Tex!

I due fuggitivi” (“Os dois fugitivos“), o Tex Gigante número 38, está a chegar, para gáudio de todos os fãs e coleccionadores, a todos os quiosques espalhados pela Itália. Escrito por Gianfranco Manfredi e desenhado então por Giovanni Freghieri, o volume vê Tex e Carson atrás de um criminoso de meia-tigela que fugiu na companhia da sua amada, com o saque de um bando que agora busca vingança.

Numa recente visita à via Buonarroti, o desenhador de Piacenza encontrou tempo para nos oferecer não apenas um rápido, mas muito eficaz sketch do Ranger a cavalo, mas também algumas deliciosas anedotas sobre a sua abordagem a este volume e a sua relação com Tex e com o western como se pode constatar no vídeo que apresentamos de seguida:

Um aperitivo da história de Tex que Alessandro Bocci está a desenhar sob argumento de Mauro Boselli

Mauro Boselli, editor italiano de Tex, deu hoje a conhecer no seu Instagram alguns esboços e páginas ainda a lápis da história em produção Il mistero della montagna”, aventura cujo argumento é do próprio Boselli e a (magistral) arte é da autoria de Alessandro Bocci, um dos mais idolatrados desenhadores do staff oficial de Tex na actualidade. A história será publicada daqui a sensivelmente um ano, mas para já deliciem-se com este fantástico aperitivo que vos mostramos de seguida:

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O fim (anunciado) de Tex Coleção (assim como de Tex Ouro e de Tex Edição Histórica)

De Dorival Vitor Lopes, editor brasileiro de TEX, recebemos o seguinte comunicado a propósito de alguns cancelamentos e de novas apostas no Ranger:

O ADEUS DE TEX COLEÇÃO

Dorival Vitor Lopes, editor de Tex

Amigo texiano,

Tudo na vida tem um começo, um meio e um fim, e as coisas boas geralmente passam a sensação de durar menos do que as outras. É o que acontece com a série Tex Coleção, nascida com o intuito de apresentar as aventuras de Tex Willer na ordem em que foram publicadas no seu país de origem, a Itália, e que estreou nas bancas brasileiras em 1986, trazendo leituras tão boas que fizeram esses pouco mais de trinta e cinco anos passarem voando e parecerem um tempo tão curto. Nós gostaríamos muito que ela continuasse, que durasse bem mais, mas infelizmente o momento ruim que aflige o mundo editorial em todo o planeta faz mais uma vítima.

Vivemos um período em que não só as matérias-primas que envolvem toda a cadeia da produção editorial sofrem constantes aumentos de custos – principalmente papel, tinta e chapas, sem contar transporte, distribuição e a energia necessária para todo o processo – obrigando as editoras a aumentar o preço de seus produtos e, com isso, afastar os leitores que ficam sem condição de adquirir as revistas. A isso se junta a preocupante situação do fechamento de bancas e outros pontos de venda em todo o território nacional, dificultando a acessebilidade de leitores às suas queridas publicações. Todo esse panorama nos leva, infelizmente, a encerrar Tex Coleção na edição nº 509. Pelos mesmos motivos vamos encerrar Tex Ouro e Tex Edição Histórica no número 120.

Mas nem tudo são más notícias, pois outras séries de Tex poderão surgir no lugar dessas… edições com histórias completas, formato maior, mais adequadas ao gosto do leitor atual. Sim, três títulos deixam de existir para dar lugar a outros (um volume de Tex com quase mil páginas, por exemplo!).

Aguardemos, pois, com calma e serenidade o que o futuro nos reserva. Vamos continuar juntos na série mensal do nosso Tex, aquela que se iniciou há mais de meio século, em 1971, e nas outras publicações do nosso amado Ranger que irão nascer.

Dorival Vitor Lopes, editor de Tex