Tex e as cores

Por Júlio Schneider*

Tex Willer é o mais longevo personagem de western que galopa nas bancas, quiosques e livrarias de vários cantos do mundo. Verdadeira instituição cultural na Itália, dono de números impressionantes de tiragens e vendas, o cowboy criado em 1948 por Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini tem um pequeno mas fiel público em Portugal, destacando-se, pela paixão, os associados do Clube do Tex, a quem esta revista é dirigida em primeiro lugar.

Maior do que o luso – quantitativamente, não necessariamente no tamanho da paixão – é o público leitor do outro lado do Atlântico, no Brasil, onde Tex aportou nos anos Cinquenta. Em ambos os lados do oceano, durante muitas décadas as revistas da personagem foram publicadas apenas a preto e branco, e a ausência de cores mostrou-se um dos pontos fortes da saga editorial, apreciado pela grande maioria dos texianos: as aventuras do Ranger são sempre bem desenhadas e todos os artistas chamados a ilustrar as histórias dão o melhor de si, sabedores que eventuais imprecisões nas imagens não podem ser mascaradas pela aplicação das cores. No mesmo período, as cores foram reservadas apenas para as edições centenárias (n° 100, 200, 300…), como a marcar um evento temporal extraordinário, mas cujos resultados cromáticos nem sempre podem ser considerados excelentes.

Com a evolução das técnicas de colorização, o panorama começou a mudar nos anos 2000, quando as histórias do protagonista começaram a ser republicadas nas séries italianas que, no Brasil (e exportadas a Portugal), receberam os títulos de Tex em Cores e Tex Gigante em Cores, e viu-se que belos desenhos podem ser valorizados se coloridos com técnicas esmeradas.

Com a ótima acolhida dos leitores à nova roupagem, a Sergio Bonelli Editore decidiu apostar também em séries inéditas do cowboy lançadas diretamente a cores e, com isso, as coleções tradicionais, a preto e branco, continuam a ser publicadas com o sucesso de sempre, tanto na Itália quanto no Brasil (Tex mensal e reedições, almanaques, gigantes), e de recente também editadas em Portugal (livros especiais), mas agora acompanhadas da Edição Especial Colorida, publicada na Terra Brasilis pela Mythos Editora desde 2012, e da série de graphic novels com seus esplêndidos livros de 48 páginas (poucas, para os padrões a que os leitores texianos estão acostumados).

Numa coisa todos estão de acordo: cheias de cores ou ao tradicionalmente a preto e branco, as aventuras de Tex são sempre uma garantia de bom entretenimento. E, como todo sócio do Clube Tex Portugal bem o sabe, catalisadoras de fortes amizades.

* Texto de Júlio Schneider publicado originalmente na Revista nº 5 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2016.

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Entrelaçados (Gallieno Ferri e Zagor)

Por Sérgio Sousa*

Itália 1961, numa época em que a banda desenhada, conhecida neste país da Europa mediterrânica como fumetti, era a principal fonte de entretenimento e os heróis mais populares eram Tex, da Edizioni Araldo, a atual Sergio Bonelli Editore, Il Piccolo Sceriffo da editora Torelli, Capitan Miki e Il Grande Blek, da Editoriale Dardo, surge Zagor! Criado por Sergio Bonelli, o filho daquele que ficaria conhecido como o patriarca da banda desenhada italiana, Gianluigi Bonelli, criador do personagem de maior sucesso nesse país, Tex Willer, e por Gallieno Ferri, este o criador gráfico. Ferri, que nos anos antecedentes tinha trabalhado quase exclusivamente para o mercado francês, sobre o pseudónimo de Fergal, era praticamente um desconhecido no seu próprio país! Meses antes do lançamento de Zagor, encontrou-se com Sergio, no escritório deste, para lhe apresentar os seus trabalhos, com o objetivo de desenhar para a editora e para o mercado italiano. Sergio, que assinava as suas histórias como Guido Nolitta, para que os leitores não o confundissem com o seu pai, ficou muitíssimo impressionado pela qualidade do jovem desenhador, decidindo utilizá-lo imediatamente, tendo-lhe entregue alguns argumentos de Giubba Rosa escritos pelo seu pai. Concluídas essas histórias, e estando todos os argumentistas daeditora ocupados, não restou outra opção, ao também jovem editor, senão criar ele próprio um herói para esse propósito! Este foi o ponto de partida para a existência de Zagor, cujo verdadeiro nome é Patrick Wilding, mas também é conhecido como “O Rei de Darkood”, “Zagor-te-nay”, ou “O Espirito da Machadinha”.

Nolitta traçou objetivos muito claros para o novo personagem! As aventuras deste herói seriam dedicadas a uma faixa de leitores mais jovens que os leitores de Tex, sem no entanto caírem na infantilidade. Teriam como principal cenário a floresta imaginária de Darkwood e decorreriam na América, na primeira metade do século XIX. Mas Nolitta pretendia algo mais do que um novo herói do Oeste Americano e não ficar amarrado às típicas histórias do faroeste! Para contornar esta limitação, incluía temas intemporais nas suas tramas e alternava ou sobrepunha o género narrativo ao longo das histórias, deambulando pela ficção científica, comédia, horror ou drama com extrema facilidade. Esta capacidade de “navegar” entre géneros ficaria como a sua imagem de marca no personagem! Delineados os princípios fundamentais do novo herói, Sergio efetuou alguns esboços a que Ferri acrescentou algumas sugestões para a composição final, como as riscas horizontais nas calças ou o símbolo de uma águia negra na camiseta. Para a fisionomia basearam-se, inicialmente, em Robert Taylor, um dos atores norte-americanos mais populares na época. Mas essa imagem não vai durar muito! Ferri, que era jovem, atlético e bem-parecido, passadas poucas histórias começa a desenhar Zagor utilizando ele próprio como modelo, como já havia feito com Thunder Jack. Faltava o nome! Em 1961, com algumas histórias já prontas, o novo herói ainda não tinha sido batizado!

Ajax era uma ideia que Sergio tinha em mente! A inclusão do “X” tornava-o apelativo! Na época era usual incluir nos nomes dos heróis “X” ou “K”, porém, a descoberta que Ajax era também o nome de um detergente vai tornar esta opção inviável. Sergio resolveu a questão homenageando dois outros heróis, conjugando duas sílabas dos seus nomes: ZA, proveniente de “Za-lamort”, famoso herói do cinema mudo italiano, e GOR, de Flash Gordon, um dos heróis da sua infância. Assim surgiu Zagor em 15 de junho 1961, um herói que, segundo o criador, é uma mistura de Tarzan, de Fantasma e de “Il Grande Blek”.

As necessidades da pequena editora, que possuía uma estrutura familiar e pouco profissional, e que exigiam a Sergio o desempenho de múltiplas tarefas, vão forçá-lo a abandonar Zagor logo após os primeiros números1. O primeiro a substituí-lo foi o próprio Ferri, que possuía alguma experiência como argumentista, resultante, essencialmente, dos trabalhos efetuados para o mercado francês. O talentoso desenhador vai manter a dupla função de ser responsável pelo argumento e arte por vários meses, até ser, também ele, substituído pelo pai de Sergio, Gianluigi. La lancia spezzata2, publicado em junho de 1962, marca essa transição! Nos longos meses em que Ferri foi o único responsável pela produção das histórias, Bonelli filho dirigia a editora durante o horário normal de funcionamento e, nos tempos livres, elaborava um esboço do enredo. Ferri desenvolvia o argumento baseando-se no esboço e desenhava toda a aventura, sendo posteriormente supervisionado pelo editor, que retocava diálogos e outros pormenores, garantindo, desta forma, a homogeneidade do personagem.

Sergio Bonelli (2/12/1932 – 26/9/2011) e Gallieno Ferri (21/3/1929 – (2/4/2016)

As cerca de 80 tiras que compunham cada edição, correspondem a cerca de 27 pranchas no atual formato Bonelli! Texto e desenho teriam que estar prontos a cada quinzena, devido à periodicidade das publicações! Um trabalho descomunal, que exigia um esforço titânico e impossível de manter a longo prazo sem perda de qualidade! Basta pensar que a maioria dos atuais desenhadores produzem apenas entre dez e quinze pranchas mensais, sem se preocuparem com o texto. Para aliviar Ferri, mas também Sergio, Gianluigi Bonelli vai escrever todas as aventuras do personagem durante quase um ano, acumulando com as cerca de 1100 pranchas que escreveu para Tex durante os anos 1962 e 1963.

Nolitta só vai regressar à série com Tragedia nella palude, o número 13 da segunda série, publicado em 26 de maio de 1963. Após o regresso e durante dezassete anos, até ao número 182 da atual série3, Magia senza tempo, publicada em setembro de 1980, Nolitta vai escrever a grande maioria das histórias, criando algumas das mais belas aventuras do herói, que ainda hoje permanecem na memória dos fãs. O afastamento de Sergio ficou a dever-se, mais uma vez, às necessidades da editora! Primeiro para alternar com o seu pai, que não era mais um jovem, escrevendo histórias de Tex, depois para se dedicar a Mister No, personagem que criou em 1975, também com Ferri, e por ultimo, para se dedicar integralmente à administração da empresa.

Gallieno Ferri desenha Zagor (pormenor)

Em pouco mais de quarenta páginas Nolitta “prendeu-me” a Zagor! Numa época em que não existiam computadores, consolas de jogos e muito menos internet, e a televisão ainda não tinha saído da “pré-história”, não permitindo gravações ou o recomeçar de um programa, dispondo apenas de dois canais (um deles, o segundo canal da RTP, encontrando-se a maior parte do tempo fechado, ou a transmitir desporto), a BD era assim o passatempo da grande maioria das crianças e adolescentes, com uma enorme quantidade de títulos nas papelarias todas as semanas. Foi nessa época que descobri o personagem, nos finais da década de setenta, início dos anos oitenta do século passado, no sexto número da coleção não autorizada da Portugal Press, intitulado de “Hora zero4. A complexidade do argumento, o mistério provocado pelos estranhos eventos ocorridos na floresta, a referência ao “velho” que apenas aparece na capa, a comicidade das situações em que Chico se vê envolvido, a ficção e os anacronismos presentes, como a existência de eletricidade e misseis no século XIX, e pela ação: a edição inicia-se com Zagor a lutar com uns misteriosos soldados na floresta e concluísse com o herói a ser descoberto no interior da montanha onde se infiltrou para descobrir os mistérios do “Olho do Diabo”. Tudo isto em apenas quarenta e oito páginas! Uma pequena parte do segundo encontro com Hellingen.

Após a saída de Nolitta, Zagor vai atravessar a pior fase da sua já longa existência. Fase que em Itália é referenciada como “a década perdida”5! Este período correu tão mal, ao ponto de se ter equacionado o cancelamento da publicação, o que não deixa de ser incompreensível! Como é que uma revista que vendia mais de duas centenas de milhares de exemplares por mês, só sendo ultrapassada por Tex, cai drasticamente nas suas vendas tendo, unicamente como alteração de fundo, a saída de um escritor? É verdade que neste ciclo não foi só Zagor que perdeu leitores! Foi uma época extremamente negativa para a BD mundial devido, essencialmente, ao surgimento de outras formas de entretenimento, como as primeiras consolas de jogos. A equipa de desenhadores, tal como na fase anterior, manteve Ferri e Franco Donatelli como responsáveis pelo desenho na maioria das aventuras. Na criação dos roteiros transitaram Decio Canzio e Alfredo Castelli, que não eram propriamente novatos, (pertenciam ao staff da publicação desde 1977), a que se juntaram Ade Capone, Daniele Nicolai, Giorgio Pellizzari, Moreno Burattini e, principalmente, Marcello Toninelli, que se tornaria o principal argumentista da série, tendo escrito a maioria das edições publicadas entre 1983 e 1991. A verdade é que as histórias perderam o encanto! A diversidade de géneros presente em cada a aventura exigia o doseamento adequado para não cair na infantilidade ou em excessos de fantasia, algo que Nolitta tinha conseguido com mestria na maioria das suas histórias e que, neste período, os escritores parecem não ter conseguido conciliar.

A intitulada “A segunda odisseia Americana”, uma mega saga de trinta e uma edições, que incluiu diversas aventuras e que envolveu praticamente toda a equipa de desenhadores e escritores da época, vai devolver o carisma perdido a Zagor! Nesse arco de histórias, “O Espírito da Machadinha” e Chico são retirados do seu “habitat” e iniciam uma longa peregrinação a diversos países da América do Norte, replicando um pouco, mas numa escala muito maior, a história clássica de Nolitta e Ferri publicada em 1972. L’esploratore scomparso6, publicada em abril de 1994, uma das primeiras aventuras do “Rei de Darkwood” escritas por Boselli, para além de ser o início da saga é também considerada um marco na vida editorial do personagem. O ponto de viragem numa publicação que esteve para ser cancelada e que devolveu o fascínio ao herói e às suas aventuras! Em pouco tempo, as histórias retomaram o interesse perdido, graças principalmente à dupla de escritores, Burattini e Boselli, que efetuaram um trabalho descomunal de pesquisa, juntamente com os desenhadores envolvidos, consultando todo o tipo de informações para tornarem mais credíveis paisagens, ambientes, povos, vestuário, povoações, etc. Este duo parece ter redescoberto a fórmula “Nolittiana”! Voltaram as histórias longas, a mistura de realidade e ficção e a utilização dos diversos géneros nas proporções adequadas, que tornaram este personagem único, e que os seus fãs tanto apreciam. Mas não só! Foram introduzidas na série várias personagens de relevo, como Nat Murdo, Honest Joe ou Marie Laveau. A equipa de desenhadores foi reforçada com desenhadores muito talentosos, como Carlo Raffaele Marcello, Raffaele Della Monica ou Alessandro Chiarolla, que se juntaram a Mauro Laurenti, Stefano Andreucci, ou Gaetano Cassaro, que tinham entrado nos últimos anos. Quando Zagor regressa a Darkwood, no número 376 da coleção, o espectro do cancelamento tinha desaparecido definitivamente!

Zagor – Collana a striscia foi publicada do nº 1 ao nº 68 (1961/1970) – em cima o nº 1 e nº 7

Os números de Zagor são realmente impressionantes! Publicado ininterruptamente por várias editoras há mais de meio século em Itália, alvo de várias coleções, extras e especiais, são muitas centenas de aventuras e edições, nas diversas coleções, ultrapassando as setenta mil páginas! No país de origem, onde as vendas atingem cerca de 35000 cópias mensais, ainda que bem distantes dos tempos áureos, quando ultrapassavam as duzentas mil cópias, mas bastante aceitáveis, tendo em conta a realidade atual da BD, Zagor continua a ter um publico bastante fiel, que se estende a diversos outros países onde é publicado, como a Sérvia, Croácia, Turquia, Grécia ou Brasil. Foi também publicado e apreciado em diversos outros países, possuidores de culturas muito diferenciadas, como a Índia, Dinamarca, Israel, Inglaterra ou França. Zagor teve também direito a uma breve passagem pela Sétima Arte, sem no entanto atingir o sucesso protagonizado na BD. Nos anos setenta, foram produzidos na Turquia três filmes com baixos orçamentos e sem as devidas autorizações por parte da editora.

Em Itália, “Noi, Zagor”, o documentário realizado por Riccardo Jacopino dedicado ao mundo de Zagor e aos seus criadores, esteve em exibição, no Outono de 2013, em cerca de duas centenas de salas de cinema. Com inicio em fevereiro de 2012, e reproduzindo o sucesso de Tex na republicação das suas aventuras a cores, em coleções publicadas com parcerias com dois dos maiores jornais italianos, La Repubblica e L’Espresso, as aventuras de Zagor foram também republicadas em coleções similares: as primeiras quinhentas edições da coleção mensal e todas as edições do ZAGOR SPECIALE, criando-se desta forma um novo produto capaz de conquistar outros mercados, como os EUA, país que começou a publicar recentemente o personagem, ou outra gama de leitores, os que preferem as edições coloridas!

A primeira aventura de Zagor foi pulicada na série “a striscia” em 15/07/1961 e mais tarde, Julho de 1965, em álbum. As tiras originais dos álbuns “a striscia” (em tiras), eram coladas três a três em cada página da edição em álbum gigante . Acima a página 61 do 1º álbum.

Mas afinal qual é a chave do sucesso de Zagor? A resposta a esta pergunta não é assim tão linear! Obviamente que as razões do sucesso serão as mais diversas e algumas delas poderão mesmo parecer incompreensíveis. Afinal, quem poderia imaginar que um tipo com uma arma incomum (uma machadinha feita com uma pedra) e uma aparência extravagante (veste uma camiseta vermelha com uma águia ao peito), que se move na floresta como Tarzan e vive isolado como o Fantasma, num meio onde tudo pode acontecer, como se fosse um portal para diferentes épocas, e que, quando se ausenta, vagueia não só por toda a América, mas também por outros continentes, em que as suas aventuras serpenteiam por uma miscelânea e, por vezes, aparentemente inconciliáveis géneros narrativos, se tornaria num dos personagens mais adorados e duradouros da BD italiana e que, meio século depois da primeira aventura, continuaria a ser publicado? Até o próprio Sergio Bonelli, criador literário do personagem, visionário, e o principal arquiteto da transição da simples BD de entretenimento popular para um produto de dignidade cultural, responsável pelo sucesso de uma das mais importantes editoras a nível internacional, a SBE, teria muitas dificuldades em acreditar.

Para Burattini, uma das principais razões é o personagem manter-se fiel às suas raízes e ao facto das mudanças ocorridas terem sido graduais, quase impercetíveis, essencialmente na narrativa e não no caráter. Com o curador e o principal escritor da atualidade, a narrativa tornou-se mais rápida e o herói têm uma perceção diferente do leitor, desconhecendo factos, o que não acontecia com Nolitta, quando ambos tinham a mesma perceção da trama. Incluídas nessas alterações, a utilização frequente de flashbacks, de cruzamentos com personalidades históricas, como o Presidente Jackson, o pirata Lafitte, Charles Darwin ou o filósofo Tocqueville, bem como uma maior atenção à realidade. Outro segredo das aventuras de Zagor continuarem a ser muito interessantes, reside, também, segundo o escritor, na forma como se misturam vários tipos de histórias, mantendo neste aspeto a fórmula definida por Nolitta.

Moreno Burattini e Gallieno Ferri

Sempre apreciei muito essa mistura de géneros! Essa característica é talvez a mais importante nas histórias de Zagor! A que faz a diferença para todos os outros e que torna o personagem único! Após a leitura de “Hora zero” fiquei fã de “O espírito da machadinha”, tal como fiquei de Mister No quando li o primeiro número da Portugal Press! Passaram-se vários anos para conseguir ler uma história completa destes personagens, que tanto me fascinaram. Somente em 1985, quando o personagem começou a ser publicado pela RGE, tive essa possibilidade! “O tesouro maldito”, apesar de ser uma história curta para os padrões “Zagorianos”, cerca de cem páginas, não deixa de ser um bom exemplo de uma aventura de Zagor. Uma caça ao tesouro que encaixa bem no género de aventura, mas é sem dúvida também de horror, de suspense e, parecendo quase impossível, de muito humor e drama. Como classificar uma história deste tipo? Um dos elementos do universo “Zagoriano” que permite combinar todas estas incongruências é a floresta de Darkwood, que Nolitta criou com esse objetivo: possibilitar todo o tipo de cenários e aventuras sem grande preocupação com a realidade histórica, geográfica ou temporal, e cruzar ficção com qualquer uma dessas realidades ou personalidades. Darkwood é, assim, a porta da fantasia que proporciona a desenhadores e escritores um cenário criativo, facilmente adaptável a qualquer realidade ou situação.

Outro fator que muito contribui para o sucesso de Zagor são as personagens secundárias! Entre amigos e inimigos existem dezenas de personagens carismáticas à disposição dos escritores, inseridas consoante o tipo de aventura, sendo que apenas Chico acompanha permanentemente o protagonista em todas as histórias. Só para introduzir comicidade nas narrativas, em longas tiradas que ocupam dezenas de páginas ou em pequenos episódios em qualquer parte das histórias, todos eles com personalidades muito marcantes e diferenciadas, destacam-se Trampy, Digging Bill, Drunky Duck, Batt Baterton, além do já mencionado Chico.

Também relacionado com o êxito da série está o vastíssimo leque de autores consagrados, argumentistas e desenhadores que abrilhantaram as suas páginas: Guido Nolitta, G.L. Bonelli, Decio Canzio, Alfredo Castelli, Ade Capone, Mauro Boselli ou Moreno Burattini, escritores, e Franco Donatelli, Franco Bignotti, Marco Torricelli, Carlo Raffaele Marcello, Raffaele Della Monica, Maurizio Dotti ou Marco Verni, desenhadores, entre tantos outros, e claro, o criador gráfico, aquele que maior responsabilidade teve no sucesso do herói, Gallieno Ferri!

Inspirado pelos grandes autores clássicos dos anos 20 e 30 do século passado, como Alex Raymond, Phil Davis, Ray Moore e Milton Carniff, Ferri era um desenhador muito versátil, detentor de um traço muito detalhado e dinâmico, capaz de produzir desenhos muito expressivos, aliados a uma enorme capacidade de execução. Essas características permitiram-lhe desenhar todo o tipo de aventuras nos mais diversificados ambientes e, em simultâneo, cumprir os apertadíssimos prazos a que estava sujeito, principalmente até 1967, época em que desenhou a quase totalidade das pranchas, com a agravante de ter escrito também diversas aventuras, na fase em que Nolitta se afastou, devido às necessidades da editora.

Durante o período mais conturbado da série, a famigerada “década perdida”, fase em que a série esteve muito próxima do cancelamento, Ferri, juntamente com Donatelli, foram os grandes baluartes, os grandes responsáveis por preservarem a identidade do personagem e por manterem os fãs interessados, pois o tipo de aventuras afastou-se da fórmula idealizada por Nolitta6. Nas duas últimas décadas, não obstante o autor ter visto diminuir o número de trabalhos publicados, ainda foi o desenhador com maior número de pranchas publicadas em cinco desses anos, tendo o último ocorrido
em 2007, com 376 páginas.

As capas, pelas quais Ferri foi responsável desde o primeiro número, é outro aspeto onde salta à vista a importância do desenhador no sucesso da série. Com objetos centrais bem detalhados, contrastando com cenários rabiscados, preenchidos com sombras ou penumbras, as suas capas eram apelativas, impactantes e diversificadas, devido a uma utilização de cores vivas e a uma escolha criteriosa das cenas, com uma frequente variação de ângulos e enquadramentos para evitar repetições.

Não é necessário analisar detalhadamente o seu percurso profissional para perceber a profundidade da ligação deste autor a Zagor. O próprio a declarou em diversas ocasiões! Questionado sobre os melhores momentos da sua carreira de desenhador, o artista genovês referiu três momentos “Zagorianos”: o primeiro encontro com Sergio Bonelli, no longínquo ano de 1960, que lhe permitiu desenhar Zagor e que, reconheceu, mudou-lhe a vida; o segundo momento refere-se a uma época, ao período clássico da série e para as aventuras criadas na década de setenta, que considerava graficamente melhor concebidas; por último, a enorme satisfação que teve em ver publicadas a cores praticamente todas as aventuras do herói na Collezione Storica a Colori.

Se os números de Zagor são deveras impressionantes para um personagem de BD, os de Gallieno Ferri parecem impossíveis para um ser humano. Ao longo da sua carreira de desenhador produziu mais de 20000 pranchas. O ano mais produtivo foi em 1962, quando viu publicadas 645, tendo ultrapassado a produção anual de meio milhar em mais doze ocasiões. É também o desenhador de Zagor mais publicado, em 25 anos da sua existência, e o autor da SBE com a ligação mais longa a um único personagem. Produziu ainda todas as capas desde que foi adotado o formato atual e a quase totalidade das quatro séries de tiras7, ultrapassando a barreira de um milhar.

Com 87 anos de vida e apesar das limitações inerentes à avançada idade, principalmente ao nível da destreza de movimentos e da visão, capacidades indispensáveis para o desempenho da sua profissão, Ferri continuava apaixonado pelo seu trabalho, orgulhoso da sua obra, dando mostras de não pensar em reformar-se, desenhando as capas para todas as séries de Zagor. Num artigo publicado em 2013, é referido que ainda desenhava cerca de duzentas páginas por ano (marca impressionante para qualquer desenhador, de qualquer idade) e que continuava a ser um prazer desenhar na sua prancheta, da qual não conseguia manter-se afastado, nem mesmo no período de férias em Recco, onde vivia. Amante do mar e dos desportos aquáticos e náuticos, frequentava a praia ou dava um passeio, mas após algumas horas acabava sempre por se sentar na sua mesa de desenho, onde se sentia verdadeiramente feliz.

Zagor nº 600 – Il giorno dell’invasione – argumento de Jacopo Rauch, desenhos de Gallieno Ferri

Falecido a 2 de abril em Génova, cidade onde nasceu, Gallieno Ferri foi um extraordinário desenhador que desde há muito era considerado uma lenda da BD Italiana! Um exemplo de vitalidade e de vida para todos nós e uma fonte de inspiração para outras gerações de artistas, pela paixão com que exercia o seu trabalho e pela dedicação a Zagor, personagem a que se manteve continuamente ligado desde a sua criação, numa união de cinquenta e cinco anos, que só seria quebrada por algo inevitável, como a morte. Artistas como Moreno Burattini, cuja história é sobejamente conhecida, tornando-se de apaixonado leitor no escritor principal da série, ou o já apelidado de novo Ferri, igualmente fã de Zagor, Marco Verni, que quando criança ouvia dos seus pais “estuda meu filho, que Zagor não vai colocar comida na tua mesa”. Verni seguiu o seu sonho de criança, mesmo não contando com o apoio inicial dos pais, tornando-se, atualmente, num dos desenhadores mais apreciados, sendo o seu traço muito semelhante ao de Ferri, do qual é admirador confesso. Na área da música, o roqueiro Graziano Romani é outra das personalidades que se sente influenciada pelas aventuras deste personagem e pelo mestre Ferri, tal como inúmeras outras em Itália, país com grande apreço pela BD. Em 2009, produziu um álbum com a capa do artista genovês dedicado a este herói e, recentemente, escreveu o livro “The art of Ferri”, dedicado ao desenhador.

Como herança para todos os amantes da BD, Ferri deixa dezenas de histórias, centenas de capas e milhares de pranchas, que fizeram sonhar, um pouco por todo o mundo e ao longo de várias décadas, milhares de crianças e jovens, mas também adultos, porque as aventuras deste herói foram concebidas para todas as idades. Mas mais importante que a quantidade é a qualidade e, neste aspeto, o seu legado é também riquíssimo, pois inclui algumas das mais belas aventuras do personagem. Histórias intemporais, como, “Oceano”, “A marcha do desespero”, “Kandrax, o mago”, “Dharma, a bruxa”, ou “O retorno do vampiro”, que eu, tal como a grande maioria dos fãs, sempre vou recordar.

NOTA FINAL
O sucesso do personagem e a carreira do desenhador estão de tal modo interligados, que não é possível atribui-lo a um, sem incluir o outro. O curioso é que tudo começou com uma simples entrevista para conseguir um trabalho! Incrível como determinados eventos, aparentemente triviais e sem nenhuma importância, se revelam, afinal, marcantes, decisivos e influentes para toda uma vida! A vida e a carreira de Gallieno Ferri foi vítima de um desses episódios: o encontro com Sergio Bonelli no seu escritório em 1960! Uma entrevista para um emprego, como tantas outras a que o desenhador deve ter ido, tal como qualquer um de nós. Fosse o destino, acaso ou coincidência, o que é um facto é que esse simples evento, esse banal acontecimento, foi determinante para a carreira do desenhador, para o “nascimento” do personagem e para a história de ambos, tal como as conhecemos hoje.

LEGENDA
1 O sétimo número da primeira série de striccias, La morte invisibile, publicado em 15 de setembro de 1961, já foi escrito por Gallieno Ferri. As publicações na época possuíam o formato de talões de cheques constituídas de uma tira por página. Zagor teve 4 séries neste formato, com 80 páginas por edição, totalizando 239 edições, publicadas entre 15 de junho de 1961 e 10 de novembro de 1970.
2 O nº 27 da primeira série de “striccias”.
3 O nº 182 de ZAGOR apresenta na lombada o nº 233, correspondente ao número ZENITH. Em julho de 1965, o número 52 da revista ZENITH GIGANTE inicia a reedição das aventuras de Zagor, desta vez com 3 tiras por página, no famigerado formato Bonelli, naquele que se tornaria o primeiro número da atual coleção do personagem. Zagor vai monopolizar esta publicação a partir desse número, no entanto mantendo na lombada a numeração da coleção ZENITH, que é desfasada de 51 números da numeração de ZAGOR. Esta coleção vai republicar as aventuras das quatro séries até ao número 68, “Lo spettro!”, em fevereiro de 1971, publicando posteriormente apenas histórias inéditas. As reedições da coleção mensal apenas apresentam o número ZAGOR.
4 “Hora Zero”, aventura de Guido Nolitta e Gallieno Ferri publicada no ZAGOR italiano números 107 a 109 em 1974. No Brasil foi publicada apenas por uma única vez, em 1987, nos números 30 e 31 da coleção ZAGOR da Globo.
5 Apesar de qualificada como a pior fase do personagem em Itália, nós portugueses e brasileiros temos muita dificuldade em avaliá-la, pois nunca tivemos oportunidade de acompanhar as aventuras sequencialmente e diversas histórias continuam inéditas no Brasil. Das coleções publicadas no Brasil, apenas ZAGOR ESPECIAL RECORD tinha como objetivo publicar todas as histórias cronologicamente, tendo sido cancelada no sétimo número, sem ter atingido essa fase.
6 ZAGOR Italiano nº 345. No Brasil foi publicado pela Mythos no nº 11 de ZAGOR EX-TRA, em fevereiro de 2005.
7 O conceituado blogue DIMEWEB atribui a Ferri 233, das 239 capas que compõem as 4 séries de “striccias”.

BIOGRAFIA DE GALLIENO FERRI
Nascido em Génova, Itália, em 21 de março de 1929, Gallieno Ferri é um dos desenhadores mais prestigiados num dos países, a nível mundial, onde a BD tem maior aceitação. No início da sua vida profissional e antes de se dedicar à Nona Arte, trabalhou alguns anos como agrimensor, tendo começado a sua carreira de desenhador quase por acaso, após ter sido selecionado num concurso para novos talentos promovido pela editora de Giovanni De Leo. Para essa mesma editora, com argumento do próprio De Leo e utilizando o pseudónimo de Fergal, Ferri vai desenhar em 1949 o seu primeiro personagem, Il Fantasma Verde. Seguem-se Piuma Rossa, um western, e Maskar, personagem criado em conjunto com De Leo para substituir Fantax. Série que, apesar do enorme sucesso obtido, devido à censura vigente e por ser excessivamente violenta, teve de ser cancelada! Maskar não passava de uma “cópia” do Fantax, expurgada dos excessos de violência que motivaram o cancelamento!

Durante o período 1949 e 1951, além do trabalho normal na editora, Ferri envolve-se noutros projetos com De Leo, como Big Bill, Le Casseur e Robin Hood, publicações licenciadas pela francesa de Pierre Mouchott, a S.E.R.

Entre 1952 e 1953, mais uma vez com De Leo e numa coprodução com Mouchott, cria Thunder Jack. Posteriormente, após a interrupção da série em Itália, Ferri vai continuar a desenhar o personagem apenas para o mercado francês. Nessa série, o desenhador vai adotar, pela primeira vez, as próprias feições para a composição do protagonista. Processo que vai repetir mais tarde com Zagor! Como reconhecimento do seu trabalho em França, Ferri é convidado por Mouchott a criar outros personagens especificamente para o mercado gaulês e para a S. E.R. Surgem então, fruto dessa ligação, Kid Colorado, Jim Puma e Tom Tom, este último publicado mais tarde em Itália pela De Leo.

No final da década de cinquenta do século passado, o desenhador decide voltar a trabalhar também para o mercado italiano, iniciando a colaboração com a redação do Il Vittorioso, desenhando diversas histórias de Capitan Walter e de Jolly.

Em 1960 conhece Sergio Bonelli, o jovem editor da Edizioni Araldo, a atual Sergio Bonelli Editore, começando por desenhar alguns episódios de Giubba Rosa escritos pelo pai de Sergio, Gianluigi Bonelli. Após a conclusão desses trabalhos, e não existindo outros argumentos disponíveis, Nolitta cria, juntamente com Ferri, um personagem especificamente para o desenhador: Zagor!

Em 1975, novamente com Guido Nolitta, criam Mister No. Ferri desenha apenas a história inicial e as primeiras cento e quinze capas da série. Devido ao enorme sucesso de Chico, em 1979 é lançada uma nova coleção dedicada a este personagem: CHICO STORY. Nolitta e Ferri são os responsáveis pelos primeiros cinco números da coleção. Entre 1998 e 2000, Ferri desenha as capas das três últimas edições especiais de “Il Comandante Mark”.

A sua carreira de desenhador ficaria definitivamente ligada ao primeiro encontro com Sergio Bonelli, em 1960, e ao personagem por eles criado, Zagor! Após a publicação do primeiro número, em 1961, até ao seu falecimento em 2 de abril de 2016, decorridos cerca de cinquenta e cinco anos, Ferri manteve-se a desenhar o “O rei de Darkwood”, produzindo mais de cento e vinte histórias, em mais de vinte mil pranchas e a quase totalidade das capas de todas as séries, ultrapassando o milhar de unidades.

Com 87 anos de vida, Gallieno Ferri faleceu em Génova, cidade natal, em 2 de abril de 2016.

* Texto de Sérgio Sousa publicado originalmente na Revista nº 5 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2016.

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Os esboços iniciais, a tinta da china e as cores originais de Maurizio Dotti para o Tex Willer Extra n° 5

Mauro Boselli exibe o Tex Willer Extra #5 “Giovani Cowboys”

No passado dia 3 de Agosto, a Sergio Bonelli Editore lançou a edição número 5 de Tex Willer Extra, intitulada “Giovani Cowboys”, que contém a segunda (de quatro) parte da aventura que reproduz a apreciadíssima aventura “Nueces Valley“, publicada pela primeira vez no Maxi Tex 21, lançado no Outono de 2017, e mais tarde apresentada também no mercado livreiro com um luxuoso volume cartonado.

Escrito por Mauro Boselli e desenhado por Pasquale Del Vecchio, “Giovani Cowboys” é ambientado no selvagem e despovoado Texas de 1848, quando o lendário homem da fronteira Jim Bridger regressa ao vale de Nueces para rever um casal que conheceu dez anos antes, e os seus dois filhos: Tex e Sam Willer.

A capa deste quinto número do Tex Willer Extra, tal como as quatro anteriores e as que se seguirão nesta  recente colecção, é da autoria do conceituado desenhador Maurizio Dotti, capa essa que divulgamos hoje aqui no blogue do Tex acompanhada dos esboços iniciais, assim como da arte finalizada a tinta da china e da capa original pintada igualmente por Maurizio Dotti, devido à gentil cortesia do próprio Dotti:

Primeiro esboço para a capa do Tex Willer Extra #5, da autoria de Maurizio Dotti

Segundo esboço para a capa do Tex Willer Extra #5, da autoria de Maurizio Dotti

Terceiro esboço para a capa do Tex Willer Extra #5, da autoria de Maurizio Dotti

Arte final a tinta da china da capa do Tex Willer Extra #5, da autoria de Maurizio Dotti

Ilustração para a capa do Tex Willer Extra #5, com as cores originais de Maurizio Dotti

Capa do Tex Willer Extra #5 – “Giovani cowboys”

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Póster Tex Nuova Ristampa 334

Póster Tex Nuova Ristampa 334

Nesta ilustração desenhada por Claudio Villa vemos, perto da fronteira Navajo, o surgimento de um redemoinho de areia, sem que houvesse o menor sopro de vento, redemoinho esse que tomou a forma de Mefisto e que destilava ameaças várias a Tex e seus pards

Desenho INÉDITO no Brasil e inspirado na história “Mefisto!” de Claudio Nizzi e Claudio Villa (Tex italiano #501 a #504).
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Texto de José Carlos Francisco