Por Fabio Civitelli*
Tex Gigante nº 91, “Vendetta Indiana“
Li com interesse o texto do Mauro Boselli sobre a sua prancha preferida de Tex, publicada no número anterior da revista, onde deixava evidente a sua dificuldade em escolher apenas uma prancha entre as milhares já publicadas. Sinto o mesmo e o pedido que desta vez me foi dirigido pelo Clube Tex Portugal criou-me o mesmo embaraço.
Leio Tex desde miúdo, quando, fascinado pelos desenhos de Galep, tentava copiar os seus belíssimos cavalos nos meus cadernos escolares. Apreciava, de igual modo, o seu dinamismo e a sua pincelada suave, tanto que tentei imitá-la usando, para o efeito, apenas uma esferográfica, até descobrir, mais tarde, que ele afinal usava o pincel e a tinta. Estava de tal forma habituado ao seu estilo, que a publicação do nº 91 da série gigante, com o título Vendetta Indiana, constituiu para mim quase que um choque!
O estilo era também muito dinâmico, mas mais seco e “angular”, as sombras mais nítidas, com negros plenos e expressivos. As paisagens eram quase hiper-realistas, com mesas e rochas como eu nunca tinha visto antes e o Forte Lewis desenhado com grande precisão histórica. O rosto de Tex, embora muito reconhecível, denotava expressividade e uma enorme virilidade, assim como os seus pards. De início, pensava tratar-se de um desenhador americano, mas o seu apelido, Ticci, transportava-me de volta para terras mais familiares e, de facto, anos mais tarde descobri que ele morava na Toscana e apenas a uma hora de carro da minha casa.

Tex “Vendetta Indiana” reimpressão da história em livro de capa dura o qual foi vendido em conjunto com o jogo “Tex Monopoly” (2017)
Anos depois, quando Sergio Bonelli me convidou para fazer parte da equipa de desenhadores de Tex, eu, que nunca tinha desenhado histórias de western, fui dominado pelo receio de não conseguir estar à altura do desafio. O Giovanni Ticci ajudou-me, sem o saber, pois ele era a minha principal fonte de documentação para o vestuário, ambientes e sobretudo para os cavalos, o que sempre constitui uma das principais dificuldades para os desenhadores quando abordam o western.
Alguns anos após a minha estreia na série, a editora colocou-me em contacto com a Monica, a talentosa letrista e esposa do Giovanni e, desde então, a nossa amizade ficou de tal maneira fortalecida que, pelo menos a cada dois ou três meses, tenho o imenso prazer de ir a Siena visitá-la, com a desculpa de levar-lhe as pranchas para legendagem e, assim, passar uma tarde muito agradável na companhia deste belo casal.
Giovanni Ticci é e continuará a ser uma grande fonte de inspiração e ver os seus trabalhos provoca-me sempre um enorme sentido de responsabilidade. Por isso, quero aqui deixar a minha justa homenagem ao mostrar a sua primeira prancha de Vendetta Indiana. Se eu desenho histórias aos quadradinhos desde há 47 anos e tenho o meu estilo, muito se deve a esta sua primeira história de Tex. É uma dívida de gratidão que nunca deixo de lembrar ao meu amigo Giovanni Ticci.
* Texto de Fabio Civitelli publicado originalmente na Revista nº 14 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2021.
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