Tex Série Normal (Itália): Soldi sporchi

Soldi sporchiTex 561 – “Soldi sporchi” de Julho de 2007 e Tex 562 – “Sandy Well” de Agosto de 2007.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de Pasquale Del Vecchio e capas de Claudio Villa. História inédita no Brasil e Portugal.

Clássico, elegante, claro, polido, preciso ou nítido, são adjectivos que podem caracterizar eficazmente o desenho de Del Vecchi, mais um dos novos desenhadores numa época que é de renovação no staff texiano. Depois de Mario Milano, de Garcia Seijas ou ainda de Corrado Mastantuono, surge agora a vez de Pasquale Del Vecchio desenhar a sua primeira aventura para Tex.

Del Vecchio é um nome conhecido não só no panorama dos fumetti, tendo sobretudo desenhado para Nick Raider e Napoleone, mas também do exigente mercado franco-belga, onde trabalha para a editora Humanóides Associés desenhando a série Russel Chase. Ao longo das páginas, apesar da estreia, o autor consegue assumir o espírito texiano e denota forte personalidade, manifestada na construção do seu Tex que, se por um lado foge um pouco dos modelos conhecidos, por outro apresenta um olhar semelhante ao Tex de Nicoló.

Arte de Del VecchioApesar do bom trabalho do autor, a verdade é que Nizzi não escolheu bem a aventura para a estreia de Del Vecchio em Tex e vejamos porquê.
Primeiro a história, que começa em pleno deserto, no Arizona e a sul do rio Gila, quando uma patrulha do exército que deveria levar o pagamento aos militares de forte Gila é brutalmente atacada, tudo levando a crer, por um grupo de índios. Tex e Carson suspeitam dos indícios e encontram a pista de dois cavalos ferrados, acreditando que no meio de tudo possam estar brancos. Os dois rangers lançam-se então nessa pista e em breve descobrem os autores do assalto, também eles vítimas do ataque de um grupo de índios yaquis, estes sim na posse do dinheiro.

Kit Carson por Del VecchioA sua missão é recuperar esse dinheiro e descobrir quem poderá ter planeado o roubo.
Tudo gira então num espaço preciso que se encontra delimitado pelo deserto com o forte Gila a servir de principal cenário. Este espaço bem delineado e pouco expansivo poderia e deveria dar azo a Nizzi para centrar o argumento eventualmente mais na caracterização das personagens, primando e exaltando as características e as atitudes de cada uma.

Pelo contrário, Nizzi manifesta sempre alguma superficialidade nesse domínio. Os índios surgem sempre como figurantes da trama principal, muito maniqueístas no seu comportamento e sem qualquer espessura psicológica. O mesmo sucede com as personagens de Leffert, Ryan e Becker, que surgem de modo esporádico na aventura, apenas para sabermos que tomaram parte no plano de assalto. O próprio sargento Tamblin tem um papel pouco preponderante e as despesas acabam por estar com o tenente Hogins ou com o capitão Patton.

Sandy WellFalta emoção, porque esta trama está já demasiado vista e revista e mesmo a identidade de quem está por trás do plano do roubo do dinheiro acaba por não surpreender. Muitas vezes temos uma aventura que parte de uma boa ideia, mas que falha no seu desenvolvimento. Desta vez, Nizzi está também falho de ideias, as ingenuidades são importantes (porque razão o capitão em fuga com o dinheiro pensa em juntar-se logo com a primeira mulher que lhe surge pela frente?) e a criatividade ausente (qual a razão de toda a cena final?). O grande Nizzi, o mesmo autor que soube substituir mestre Bonelli com competência dá não só mostras de fadiga, mas principalmente de desmotivação.

Prova que a renovação em Tex não será feita com ele e comprova à galeria dos apaixonados que o seu tempo já foi, o seu papel na série está feito e terá que ser não só preservado, mas sobretudo respeitado, o que parece ser esquecido por muitos.

TexImporta então sublinhar que se a aventura falha, não é com toda a certeza pelo trabalho gráfico de Del Vecchio, porque o desenhador denota quase sempre firmeza e segurança no traço, não receando enfrentar o grande desafio, interpretar graficamente o ranger e toda a aura de uma série mítica.

Texto de Mário João Marques

Tex na Argentina: Ascensão e queda do Ranger italiano

Colt, o JusticeiroEm 10 de Outubro de 1949, cerca de um ano após o seu nascimento na Itália, foi na Argentina, que pela primeira vez em toda a América, apareceu no número 1 da revista semanal “Rayo Rojo” (revista que apresentava uma tira por página) da editora Abril de Buenos Aires, o western italiano Tex Willer (rebaptizado de Colt Miller ou também de Colt, o Justiceiro) de Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini, que obtém rapidamente um notável sucesso, apesar dos seus autores não serem conhecidos, dado que, os seus nomes não eram mencionados, facto que para dizer a verdade, na época não interessava muito ao leitor.

Revistas Rayo RojoRayo Rojo era uma revista de aspecto humilde e cuja medida não ultrapassava os 15 x 6,50 cm, enquanto as outras revistas semanais tinham todas um formato maior, mas o certo é que a revista tinha tiragens extraordinárias graças ao western italiano.

A revista da Abril hospedou com o tempo outras personagens originárias da Itália como “Bill contra la atomica”, “Gordon Jim”, “Ted el heroe del espacio”, “Kim de la nieve”, etc. Mas sem dúvida que Tex continuou a ser a série mais apreciada do público argentino de Rayo Rojo, que vendia milhares de cópias.
Em 1953, porém, acontece um facto que se revelou fundamental na mudança de gosto popular em desfavor da personagem italiana. Na revista também semanal, Misterix, irmã mais velha de Rayo Rojo, iniciou-se a publicação de El Sargento Kirk, um western escrito por Oesterheld e desenhado por um quase desconhecido Hugo Pratt. Era uma série que poderemos classificar “para um público adulto”, que agradava imenso aos fãs do western. O Sargento Kirk torna-se quase imediatamente um sucesso irresistível, originando tiragens espectaculares para a revista Misterix. Era produzido na Argentina e poderemos considerá-lo responsável pelo nascimento da banda desenhada do género western para adultos.

Colt, el justicieroTex não se ressente de modo drástico desta “concorrência”, mas Rayo Rojo começou todavia a sofrer diminuições importantes das suas tiragens, enquanto Misterix as aumentava graças ao Sargento Kirk. Os responsáveis de Rayo Rojo, ou seja, a editora Abril, verificando que as vendas da revista diminuíam e não confiando suficientemente em Colt Miller , decidiram modificar o aspecto da revista e juntaram novas personagens realizadas por outros profissionais, além de modificarem o formato inicial, aumentando-o para um tamanho ligeiramente superior, 18 x 9 cm, passando deste modo a revista a ter duas tiras por página, em vez de uma, como até então.

Rayo RojoAssim, com uma nova capa matizada desenhada por um magnífico ilustrador chamado Csecs, começaram a ser publicadas no número 297, datado de 13 de Junho de 1955, novas séries como “Uma-Uma”, de Sotano Lopez – Oesterheld, “Mart Cabot” de Carlos Vogt – Ongaro e “El Indio Suarez” de Carlos Freixas – Oesterheld, sem entretanto ser interrompida a publicação do mítico Tex, seguido por muitos fãs do western italiano que jamais o abandonaram.

Foi o próprio “Indio Suarez”, uma série que narrava a história de um pugilista argentino em Nova York, a derrotar definitivamente a preferência dos leitores por Tex. As grandes tiragens da pequena revista semanal da Abril voltavam assim ao sucesso dos velhos tempos, enquanto Misterix continuou com o sucesso reconquistado por Sargento Kirk, até 1975, ano em que a personagem terminou a sua aparição na revista, sendo substituída por um outro western de qualidade, “Joe Gatillo”, do duo Ray Collins no argumento e Carlos Vogts nos desenhos, que sucede no posto de Kirk com igual grado perante os leitores. Oesterheld continuou a produzir westerns de qualidade, como por exemplo “El Mezcalero”, com desenhos de Ivo Pavone, “Leonero Brent”, desenhado por Jorge Moliterni, “Randall the Killer”, com desenhos de Arturo Del Castillo, e “Verdugo Ranc”, desenhado também por Pavone, enquanto Tex continuou a perder admiradores porque era considerado pelos novos leitores como uma literatura de evasão, de rápido consumo, para passar o tempo, ou seja, uma aventura, pela aventura. Precisamente o contrário do que produzia o escritor argentino, que propunha histórias com conteúdos muito mais profundos.
Assim se prefigurava o fim de Tex na Argentina, fim que chegou em 1963, pouco antes que Rayo Rojo se interrompesse em 1964.

De seguida, uma curiosidade ainda relativa a Tex. Vemos um exemplo da remontagem das tiras de Tex para o formato de Rayo Rojo, que impunha por vezes o acrescento de legendas não existentes na versão italiana.

Página argentina de Tex
Anos mais tarde, Tex retornou à Argentina, se bem que através das edições espanholas da editora Zinco e ao que apuramos obteve pouquíssima procura nas bancas argentinas. O mesmo aconteceu mais recentemente, quando em 2002, a editora espanhola Planeta deAgostini lançou a colecção Biblioteca Grandes del Cómic: Tex, uma edição primorosa em formato italiano, com 160 páginas e novamente o público argentino não correspondeu à iniciativa. Tanto na Argentina, como na Espanha…

Produção própria

Como já se disse, Colt Miller, aliás Tex Willer, foi por anos a personagem de ponta de Rayo Rojo, ao ponto da sua ausência na revista ser considerada inaceitável pelos leitores. Por essa razão, para os números extra (Super Rayo) onde eram necessárias histórias mais breves para poderem ser publicadas completas, os editores foram constrangidos a recorrer a histórias apócrifas da personagem, realizadas por profissionais que não tinham nada a ver com a produção italiana. Tratavam-se de Julio Almada (pseudónimo de Julio Portas), nos argumentos e Carlos Cruz, espanhol, nascido a 1 de Julho de 1930, nos desenhos.

Foram realizados na Argentina, sem conhecimento da matriz italiana, um total de oito episódios de Colt Miller (cinco para Super Rayo Rojo e três para Super Misterix), todos eles creditados aos seus autores argentinos, ao contrário do acontecido com as histórias oriundas da Itália.

Primeira pagina de edição argentina de Tex
Para finalizar o texto, uma curiosidade sobre o desenhador das histórias do Tex feitas na Argentina. Carlos Cruz foi escolhido propositadamente por ser um “copiador” perfeito, ou seja, o estilo do desenhador era imitar o traço do desenhador que editor precisava. Neste caso, ele imitou Galep…

Texto de Jesus Nabor Ferreira e José Carlos Francisco
Fonte: Fumo di China #149, de Abril de 2007

Ernesto Rudesindo García Seijas: A Biografia

Ernesto Garcia SeijasErnesto Rudesindo García Seijas, nasceu a 1 de Junho de 1941 na cidade de Ramos Mejía, província de Buenos Aires (Argentina) e desde muito tenra idade começou a desenhar em cada pedaço de papel que lhe caía nas mãos. Quando jogava futebol com os seus amigos, logo deixava a bola, para desenhar na calçada, com pedaços de giz, daí ser apelidado na época como “Pincelito“.

Motivado pela admiração ao seu irmão 12 anos mais velho, que era desenhador publicitário, decidiu ingressar com 12 anos na Escola Secundária de Belas Artes, a qual abandonou pouco tempo depois por falta de interesse em todas as demais disciplinas que não o desenho, coisa que lhe custou uma tareia do seu pai.
Pouco tempo depois inscreve-se na Academinas Pitman, onde estuda desenho por dois anos. Porém a sua curiosidade de aprendiz não se ficou só por aí, pois comprou vários livros do conceituado desenhador norte-americano Andrew Loomis, de quem aprendeu o que lhe faltava para lançar-se a desenhar profissionalmente.

Arte de Ernesto Garcia SeijasSeu primeiro trabalho pago como desenhador foi na Editorial Fascinación, onde devia completar os quadros que faltassem nas novelas ilustradas que vinham de Itália. Em pouco tempo começa a desenhar para a revista Totem uma história que se intitulava Bill y Boss, cujo argumento era de Oesterheld. Como essa banda desenhada anteriormente era desenhada por outro desenhador chamado García, que tinha ido viver para França, Ernesto decidiu agregar o apelido materno: Seijas.

No ano de 1958 começou a trabalhar para a revista “Bucaneros, el gigante de la historieta“, onde desenhava os piratas que davam o título à revista. Muito jovem, com 17 anos já trabalhava rotineiramente com desenhos, tanto que alguns o confundiam com o ajudante de García por vê-lo tão jovem levando os originais de Aventuras do Oeste escritas por Alfredo Grassi. A década de 60 encontrou o jovem porém maduro desenhador, abrangido na escola de Alex Raymond, com traços cada vez mais belos e pouco a pouco mais pessoais.

L'huomme de RichmondColaborou para quase todas as revistas argentinas daquela época: Frontera, Hora Cero, Misterix (onde ilustrou no ano de 1963 León Loco, uma história de adolescentes e barcos com argumento de Oesterheld), Rayo Rojo e por fim Intervalo.
Também por essa altura ilustrou muitíssimas capas da colecção de livros Robin Hood. Na revista Intervalo, presumidamente feminina, da Editorial Columba, Ernesto Garcia Seijas ilustrou “novelas” românticas e séries intermináveis, assim como  adaptações de clássicos do cinema de então.

Em pouco tempo confiam-lhe Helena, personagem de Robin Wood, que permitiria ao artista utilizar toda a gama de recursos de que era capaz: uma mulher belíssima, heróis e vilões sofisticados, um ambiente tão realista que por vezes se dizia que era fotográfico. Indubitavelmente o melhor que publicou a revista Intervalo desde a sua aparição até ao seu encerramento.
Por essa altura começou a colaborar com as Ediciones Record. Foi nessa editora que teve a possibilidade de criar sem limites e dar rédea solta tanto à sua imaginação como aos seus estupendos recursos técnicos: Black Soldier, Skorpio, Mandy Riley, El pequeño Rey, La estirpe de Josh, onde Oswal fazia o lápis e Ernesto os finalizava com tinta, Los aventureros e El hombre de Richmond. Começa também a desenhar novamente para Columba, neste caso para a revista Nippur, o personagem Kevin.
No ano de 1987 sai a primeira tira ilustrada para o diário Clarin: El Negro Blanco. Desta série surge um personagem que conquista vários corações: Flopi.

Mulher-Maravilha e TarzanPorém a Arte de Garcia Seijas não termina nas fronteiras latino-americanas. Seus desenhos podem ser apreciados em países como Espanha, Estados Unidos da América e Itália, países onde se publicaram e se publicam historietas como El Negro Blanco, Mandy Riley, Príncipe de las arenas, Bambi y Lenny, Radzel.
O Mestre argentino também fez diversas capas para edições encadernadas de personagens como Wonder Woman, Tarzan, Fantomas, Lone Rager, etc, para a Acme Agency, que distribuía os comics da Editorial Navarro.
Entrado nos anos 90, começa uma historieta de terror, que sai como suplemento da revista Espectador da Editorial Perfil.
Também passa pelo mítico diário La Prensa, onde ilustra o personagem Bardo.

Tex Willer de SeijasEm 2005, faz a sua estreia na Sergio Bonelli Editore com o número 80 de Julia, embora anteriormente tenha desenhado durante 4 anos, uma história para a série Tex Gigante, história que somente deve ser editada no próximo ano, aquando dos 60 anos do Ranger. Após o seu trabalho em Julia, foi inserido definitivamente no staff de Tex, tendo visto precisamente em Janeiro deste ano de 2007, ser editada a sua primeira (que foi na realidade a segunda, já que a do Tex Gigante continua inédita) história de Tex; “Polizia apache“, no Almanacco del West 2007.

Tex de SeijasNo presente está a desenhar a sua terceira história na saga, ele que é referenciado como um especialista em desenhar mulheres bonitas e bem feitas, como é o caso do seu trabalho em Helena, a sua obra mais apreciada na Itália, onde há quem o considere mesmo como um dos melhores desenhadores do mundo.

Para finalizar, diga-se que Seijas, é dos únicos grandes desenhadores da época de Ouro da historieta argentina que ainda tem tido material seu publicado, mesmo que em reedições.

Texto de Jesus Nabor Ferreira e José Carlos Francisco.
Fonte: http://www.garciaseijas.com.ar/cv.php