As Leituras do Pedro – Tex Willer Especial #1: Fantasmas de Natal

As Leituras do Pedro*

Tex Willer Especial #1
Fantasmas de Natal
Mauro Boselli (argumento)
Marco Ghion (desenho e cor)
Mythos Editora
Brasil, Dezembro de 2020
145 x 210 mm, 128 p., pb+cor, capa cartão

R$ 29,90

Quem conta um conto…

Num ano em que as editoras nacionais parecem rendidas ao western – Undertaker, Duke, Tex, O último homem…, Lucky Luke… – li finalmente este Fantasmas de Natal, (justamente) muito bem referenciado.

[Antes de entrar na análise propriamente dita, faço um ponto de ordem. Como leitor (errante) de Tex, não vejo – não via… – qualquer necessidade nem razão autoral para evocar a juventude do ranger de forma regular, numa colecção dedicada a essa época da vida do herói, embora compreendo a óbvia razão mediática e a operação de marketing, que estão por detrás dessa opção.

Agora, depois da leitura de duas histórias do (assim designado) Tex Willer – três com esta, na verdade – sinto a minha posição reforçada. Numa delas, o protagonismo é entregue ao seu irmão ‘pacifista’; na outra – nas outras, na verdade – o protagonista ser o jovem Tex Willer ou o Tex ‘homem feito’ que nós conhecemos, pouco ou nada altera em termos narrativos, podendo o protagonismo ser entregue a um ou outro com ajustes mínimos do argumento.]

Tex Willer Especial #1 – Fantasmas de Natal – Página 22

É o que acontece com este Fantasmas de Natal. E, o melhor elogio que se lhe pode fazer, é dizer que, com Tex Willer, Tex ou outro qualquer protagonista, estamos perante um belo western a toda a prova.

Começo por informar que esta é uma obra inspirada nos contos de terror natalícios clássicos – com o Conto de Natal de Dickens à cabeça – e nos romances em ambiente adverso, entre os quais se conta Jack London, cuja adaptação por Chabouté pudemos ler recentemente na Novela Gráfica 2020.

Tex Willer Especial #1 – Fantasmas de Natal – Página 56

De forma sintética, pode apontar-se que esta narrativa decorre a dois tempos: por um lado, o jovem Tex, ainda fora-da-lei, foge face à perseguição que lhe movem homens da lei; por outro, um grupo de agentes da Pinkerton persegue três bandidos, encarregados de lhes entregar um resgate que leve à libertação da filha de um banqueiro.

Obviamente, estes dois relatos acabarão por se cruzar, quando todos – Tex, os Pinkerton e os raptores com a sua vítima – convergirem para uma cabana isolada nas montanhas cobertas de neve e geladas por temperaturas negativas, cenário ideal para uma história natalícia.

Tex Willer Especial #1 – Fantasmas de Natal – Página 66

Essa cabana, local central do drama que se desenrola perante o olhar dos leitores, irá servir também de palco a uma série de contos – com diferentes narradores – que servirão para adensar o clima de algum terror e até sobrenatural que assim ganha predominância, a espaços, no relato, ao mesmo tempo que traz ao de cima os medos mais íntimos dos protagonistas. Estes momentos – estes contos curtos – entremeados na narrativa base – surgem nela com a aplicação de uma cor (verde, castanho, azul) e aguadas que os distinguem facilmente – sendo pena que a edição da Mythos as exiba ‘borratadas’ aqui e ali. Se esse efeito gráfico realça a sua inserção ‘forçada’ na história de Tex Willer, os seus efeitos – e algo mais… – serão determinantes para o desfecho da mesma.

Dessa forma, o argumento de Mauro Boselli apresenta-se mais cerebral do que é costume em Tex, muito mais denso e de leitura bem pausada, chegando o leitor ao final com a impressão que leu bem mais do que as 126 pranchas que tem em mãos.

Tex Willer Especial #1 – Fantasmas de Natal – Página 76

O trabalho gráfico de Marco Ghion é globalmente bem conseguido, apesar de algumas vinhetas que surgem menos trabalhadas, assente num traço fino e num bom uso de contrastes de branco e negro que dão consistência e credibilidade ao cenário coberto pela neve, ao frio de rachar e às diversas cenas nocturnas. E a forma como trabalha as aguadas nas páginas a uma cor, deixa vontade de ver uma história completa com esta técnica num futuro que se deseja próximo.

A temática fora do comum nas aventuras do ranger (e do futuro ranger!) e a opção pela aplicação pontual de cor faz de Fantasmas de Natal uma edição (mesmo) especial, mas é realmente pela sua qualidade intrínseca que deve ser lida.

Tex Willer Especial #1 – Fantasmas de Natal – Página 104

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro
.
(capa disponibilizada pela Mythos Editora; pranchas disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nelas para as apreciar em toda a sua extensão)

Vídeo: Tex Álbum “A Chicotada” no canal vídeo ZOMBI tv

O canal vídeo ZOMBI tv (canal português de cultura pop onde se pode encontrar tudo sobre Cinema, Tv, Comics, Literatura, Jogos de Tabuleiro, Videojogos, Brinquedos e Vlogs de Viagem) através de Édi Miguel fez, no decurso desta semana, um vídeo de crítica ao primeiro volume da nova colecção do Ranger com o selo da editora A Seita, o Tex Álbum: “A Chicotada“, com argumento de Pasquale Ruju, desenhos de Mario Milano e cores de Matteo Vattani, uma crítica bastante positiva!

Trata-se de uma boa oportunidade para quem não conhece este deslumbrante livro, e a fantástica arte de Mario Milano, poder ver do que se trata, e porque é que andam a dizer que Mario Milano é um novo Moebius!

Entrevista com o fã e coleccionador: Misac Braga Cruz

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Misac Braga Cruz: Me chamo Misac Braga Cruz, nasci e moro na cidade de Canindé, estado do Ceará. Atualmente sou funcionário público da autarquia responsável pelo abastecimento e saneamento básico da cidade (SAAE).

Quando nasceu o seu interesse pela banda desenhada?
Misac Braga Cruz: Inicialmente veio pelas tirinhas que sempre acompanhava nos livros escolares, diferente de muitas crianças que acompanhavam através dos gibis da turma da Mônica ou Disney, isso nunca aconteceu comigo. Entretanto a paixão veio mesmo graças aos mangás, isso já na fase da adolescência, visto que, desde a infância a maior influência que tive foi com os personagens da cultura nipônica, seja através de animes, vídeo games, brinquedos e outras mídias.

Quando descobriu Tex?
Misac Braga Cruz: Sempre foi um personagem que eu notava a existência ao visitar a banca de jornal da cidade, porém nunca me interessou, talvez porque nunca encontrei alguém que me falasse dele. Mas minha primeira leitura veio mesmo após a Salvat anunciar a coleção, o que despertou meu interesse, afinal, já acompanhava outras coleções lançadas por ela. Em mais uma visita à banca notei a edição gigante n°32 com a história: O magnífico fora da lei, então decidi comprá-la, já que não queria esperar a Salvat lançar, pois o lançamento ainda iria demorar bastante.

Porquê esta paixão por Tex?
Misac Braga Cruz: O personagem me fisgou logo na primeira história, me dava uma sensação de nostalgia ao me lembrar dos filmes de velho Oeste que costumava assistir junto com meu pai, e claro, pela qualidade da história, era diferente da maioria das minhas leituras da época, possuía um roteiro mais adulto, nenhum pouco previsível, bons personagem, excelentes desenhos, tanto na caracterização dos personagens como na arte sequencial, e claro, dosada de uma boa ação. Todos esses fatores me fizeram querer me aprofundar cada vez mais no mundo de Tex.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Misac Braga Cruz: A coerência com a qual ele é feito me agrada bastante, possui fortes ideias de justiça e nunca os abandonou. Já vi, por exemplo, muitos outros heróis virarem vilões, mudarem seus ideais e até as características básicas. E a grande capacidade dos argumentista de fazerem boas histórias ao longo desses anos é de se admirar.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Misac Braga Cruz: 157 revistas, sendo a maioria da edição histórica, já que são as que foco prioritariamente. A mais importante com certeza é edição gigante 32, afinal foi a primeira que li.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Misac Braga Cruz: Apenas os quandrinhos mesmo.

Qual o objecto Tex que mais gostaria de possuir?
Misac Braga Cruz: Adoraria ter Action Figures. Mas se pudesse ser mais ambicioso adoraria ter algum original escrito pelo Bonelli ou desenhado pelo Galleppini, mas nem sei se esses itens existem para comercialização, já que conheço apenas alguns autores e pouquíssimas editoras que fazem essa prática.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Misac Braga Cruz: Histórias preferida é difícil, pois adoro muitas, mas já que só posso escolher apenas uma, escolho: A grande invasão ( Tex ouro 83). Desenhista: Aurelio Galleppini. Argumentista: Mauro Boselli.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Misac Braga Cruz: Adoro a ambientação e os personagens, até dos secundários, pois alguns deles, por mais que apareçam apenas em uma única história conseguem marcar na memória de alguma forma. Já o que mais me desagrada é a falta de vilões que realmente sejam verdadeiros desafios para o Tex, pois como ele é um personagem que possui forte faro para achar rastros, mira quase perfeita, força física acima da média, e companheiros muito bem preparados, torna-o um personagem extremamente difícil de ter antagonistas à altura.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Misac Braga Cruz: O respeito às raízes do personagem, pois o Tex que vemos sair nas revistas atuais é o mesmo que saiu na revista número 1, onde ainda há a mesma concepção do personagem criado pelos autores. Diferente de super-heróis, por exemplo, que por decisões editoriais, ou algum outro motivo, costumeiramente perdem suas raízes.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Misac Braga Cruz: Não, na minha cidade conheço no máximo dois ou três, e só os encontro esporadicamente.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Misac Braga Cruz: Com bons olhos, graças à internet vejo novos leitores surgindo a cada dia, e são pessoas que se tornaram realmente fãs. E como esse é um fator importante para a sustentação da revista, creio que ele ainda terá uma vida longeva.

Prezado pard Misac Braga Cruz, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

O autógrafo de… Ken Parker e o coleccionismo na arte de Sílvio Raimundo

Ken Parker foi o primeiro personagem Bonelliano que Sílvio Raimundo leu (é interessante, mas, quando o Sílvio fala desse Ken Parker #19 – “Um homem inútil”, ele diz conseguir sentir o cheiro da tinta impressa no papel), ou melhor dizendo, que descobriu sem a influência do seu pai.

E na arte que o Sílvio nos enviou, em rigoroso exclusivo, para além de homenagear Ken Parker, o Sílvio Raimundo coloca-se ao lado do próprio personagem, o que é o sonho de qualquer leitor, mas, critica esse exagero de hoje em dia em tudo virar item de coleccionador e com isso meio que se está a perder o prazer de ler em detrimento ao acumular, ou seja, o coleccionismo dita a regra nos dias de hoje… mas melhor do que  palavras deliciemo-nos com a sua incrível arte:

O autógrafo de… Ken Parker e o coleccionismo na arte de Sílvio Raimundo

(Para aproveitar a extensão completa da ilustração, clique na mesma)