As Leituras do Pedro: Rattlesnake

As Leituras do Pedro*

Rattlesnake
João Amaral
Escorpião Azul
Portugal, Abril de 2022
170 x 240 mm, 80 p., cor, capa cartão com badanas

Experiências

Primeira experiência ‘oficial’ de João Amaral no western, um tipo de narrativa que tanta admira, Rattlesnake é uma obra de contrastes.

O ponto de partida é um dos estereótipos do género: um rico e influente proprietário de terras, habituado a ser obedecido e prepotente, com uma pequena cidade dominada por si, tenta anexar mais uma propriedade ao seu vasto erário, tendo que lidar com a recusa do dono e uma inesperada oposição.

Narrada – melhor ou pior – inúmeras vezes, esta história sofreu por parte de João Amaral a introdução de alguns elementos capazes de fazer alguma diferença.

O primeiro, é o facto de Rattlesnake ter como protagonista uma mulher, ainda jovem. Não sendo a primeira vez que acontece, não é vulgar. Faltou (neste volume?) justificar essa escolha – nada no argumento marca a(s) diferença(s) que se poderia(m) esperar – e dar-lhe espessura e carácter, por exemplo através de saltos temporais que encontrassem no seu passado, a razão para as suas (pouco habituais) opções presentes.

Outro facto, embora menor, que introduz um carácter distintivo, é a questão do racismo associada à tentativa de expropriação, pois os donos do terreno são negros.

Apesar destes pontos originais, Rattlesnake, para lá do já indicado, revela diversas fragilidades.

A primeira revela-se ao nível dos diálogos – e aqui convém relevar que João Amaral é autor completo, o que acontece pela primeira vez num projecto desta dimensão – algumas vezes excessivos e com uma linguagem demasiado cuidada – mais própria do registo escrito do que do registo oral expectável – que não se enquadra com as personagens nem com o tempo e local.

Apesar disso, o João Amaral escritor conseguiu imprimir ao seu relato um certo tom ponderado e pausado que acentua e potencia o clima de tensão crescente, mas esse aspecto retirou-lhe (em termos de páginas) a possibilidade de gerir melhor algumas das cenas (a inicial, no bar, o desvio da água, o assédio final…), resolvidas de forma demasiado simplista e apressada, o que acaba por lhes retirar credibilidade. E mais, à tensão crescente referida, faltou um clímax de acção mais prolongado e efectivo e um final menos expedito e linear.

Mudando a agulha para o João Amaral desenhador, a um tempo veterano e novo autor, ele não ficou atrás do seu ‘parceiro escritor’, neste clima de contrastes.

Veterano pelos muitos títulos já editados, João Amaral desenha aqui pela primeira vez um álbum inteiramente a aguarelas, embora com alguns ajustes digitais nas cenas nocturnas. Talvez por isso, por essa ‘inexperiência’, se há cenas e/ou pranchas que surgem mais agradáveis e balanceadas, outras indiciam a necessidade de mais trabalho, com as questões técnicas a influenciarem o tratamento desequilibrado da figura humana ao nível dos corpos, das expressões e do dinamismo que se espera associado a um western. Curiosamente, João Amaral sai-se bem melhor da representação dos cavalos, que geralmente são o calcanhar de Aquiles daqueles que abordam o género. Da leitura, quase me ficou a sensação de João Amaral ter utilizado dois tipos de traço: um mais realista, menos conseguido, e outro (quase) semi-caricatural, que acaba por se revelar mais equilibrado e mesmo funcional no conjunto do livro.

Finalmente, referenciando o terceiro (!) João Amaral, o colorista, se é verdade que nos cenários diurnos se estaria à espera de tons mais quentes e opressivos compatíveis com os cenários exteriores de deserto ou planícies secas e rochosas, a verdade é que os tons aplicados não se revelam desajustados do conjunto.

Duas questões finais. A primeira, a pose ‘canhota’- também ela recorrente em tantos westerns! – que a protagonista exibe na capa, mas que a realidade interior desmente. A segunda, a longa saia que veste, que soa ‘funcionalmente’ incompatível com as acções que pratica.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

(capa disponibilizada pela Escorpião Azul; imagens disponibilizadas pelo Tex Willer Blog; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

Entrevista exclusiva: Laura ZUCCHERI

* Entrevista conduzida por Pedro Cleto

Convidada da 7.ª Mostra do Clube Tex Portugal, que teve lugar no Museu do Vinho Bairrada, nos passados dias 30 de Abril e 1 de Maio, Laura Zuccheri, a primeira mulher a desenhar Tex – A Vingança de Doc Holliday – concedeu uma entrevista ao Jornal de Notícias, publicada na edição online de 29 de Abril.

Fica agora a versão integral dessa conversa, feita à distância, e que não teria sido possível sem as valiosas colaborações de José Carlos Francisco e Júlio Schneider, a quem agradeço.

Pedro Cleto – Como é ser mulher num mundo de homens (o dos desenhadores de BD)?
Laura Zuccheri – Não é fácil, principalmente porque era um sonho meu fazer parte da equipa do Tex, um mundo exclusivo de colegas do sexo masculino. Para além disso, este trabalho exige muita dedicação e deixa pouco espaço para a vida privada.

Pedro Cleto – E como foi passar de Júlia, uma personagem tão realista e feminina, dos nossos dias, para Tex, quase um super-homem, que vive em um passado feito de cenários tão específicos?
Laura Zuccheri – Para mim foi fácil porque desde criança sempre vivenciei o género western em todos os seus aspectos heróicos.

Pedro Cleto – Entre as duas séries qual a que levantou maiores dificuldades?
Laura Zuccheri – Foi mais difícil Júlia, porque não gosto de policiais demasiado realistas.

Pedro Cleto– O facto de ser mulher fez com que trouxesse algo de diferente para o universo de Tex?
Laura Zuccheri – Não sei se ser mulher pode trazer algo diferente… talvez mais atenção aos detalhes e uma melhor interpretação das personagens femininas. De resto, é preciso paixão e disciplina para representar um género tão difícil.

Pedro Cleto – Acha que Mauro Boselli entregou algum protagonismo a duas figuras femininas no Tex Gigante A Vingança de Doc Holliday por ser uma mulher a desenhá-lo?
Laura Zuccheri – Creio que o Mauro Boselli aproveitou as minhas capacidades para descrever e dar espaço às heroínas daquela época, que foram muitas. As personagens femininas são mais complexas e cheias de nuances.

Pedro Cleto – A participação de uma figura histórica como Doc Holliday ajudou ou atrapalhou?
Laura Zuccheri – Desenhar o Doc foi muito interessante e emocionante, devido à complexidade da personagem. Mas não foi simples dar-lhe um rosto convincente.

Pedro Cleto – Entre Júlia e Tex, ao lado de quem fica o coração de Laura Zuccheri?
Laura Zuccheri – Ao lado de Tex, sem dúvida.

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O lançamento de “Rattlesnake” na 7ª Mostra do Clube Tex

Lançamento de ‘Rattlesnake’ na 7ª Mostra do Clube Tex Portugal

Fotos: Cristina Costa Amaral e Orlando Silva

Conforme anunciado previamente, foi durante o fim-de-semana de 30 de Abril e 1 de Maio que ocorreu o lançamento do mais recente trabalho do consagrado autor João Amaral: Rattlesnake. Tratando-se esta obra de um western fazia então todo o sentido que o lançamento ocorresse durante a Mostra consagrada a um dos heróis do género que o João Amaral muito admira: o carismático Tex Willer.

E foi de facto um fim-de-semana intenso, para já, porque foi nesta altura que o autor viu pela primeira vez o livro como objeto físico, mas esses foram também dias carregados de emoções e muito trabalho, que, no entanto, superaram todas as suas melhores expectativas, segundo nos confidenciou. Tendo tido o privilégio de dar autógrafos ao lado de Laura Zuccheri, a primeira mulher a desenhar Tex, João Amaral aproveitou para “deixar aqui expresso um grande obrigado a todos os elementos do Clube que me proporcionaram com toda a sua amizade e carinho momentos que para mim se tornarão para sempre inesquecíveis.“.

Mas melhor que tudo aquilo que o João nos possa dizer, deixamos então algumas fotos que ilustram um pouco do que foi esse grande fim-de-semana de aventura para o autor.

Apesar de revelarem apenas uma pequena parte de tudo o que se passou nesse fim de semana, sempre dão uma ideia do que foram alguns dos momentos vividos pelo João Amaral (e pela sua esposa Cristina Amaral, sócia do Clube Tex Portugal) e servem então para que todos os que não puderam estar presentes no Museu do Vinho Bairrada, possam ter uma ideia do que por lá se passou.


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Vídeos: Discursos e agradecimentos na inauguração da 7ª Mostra do Clube Tex Portugal, em Anadia

Por José Carlos Francisco (texto) e Orlando Santos Silva (foto e vídeos)

Foi em ambiente festivo que pelas 15.00 horas do passado dia 30 de Abril decorreu, no Auditório do Museu do Vinho Bairrada, situado na cidade de Anadia, a Cerimónia de Inauguração da 7ª Mostra do Clube Tex Portugal, presidida por José Carlos Francisco, na presença do Exmº Sr. Dr. Lino Pintado, Vereador da Câmara Municipal de Anadia, do Exmº Sr. Fernando Adelino Pina Fernandes, Presidente da União das Freguesias de Arcos e Mogofores e do Exmº Sr. Director do Museu do Vinho Bairrada, o Dr. Pedro Dias, bem como dos vários convidados presentes e texianos em geral.

Cerimónia de Inauguração da 7ª Mostra do Clube Tex Portugal

A cerimónia teve início com um discurso inaugural da autoria do Presidente do Clube Tex Portugal, José Carlos Francisco, onde se deu as boas-vindas e se agradeceu aos presentes nesta Cerimónia de Inauguração, para além de se falar deste e de anteriores eventos realizados em Portugal, abordando um pouco da cavalgada do Tex pela Bairrada, assim como do relevo deste sétimo grande evento realizado pelo Clube que contou com a presença da primeira autora a desenhar oficialmente o Tex, tornando-se em mais um marco importantíssimo da sua ainda curta mas já brilhante história.

Seguiram-se as intervenções do Exmº Sr. Dr. Lino Pintado, em representação da Câmara Municipal de Anadia e do Exmº Sr. Director do Museu do Vinho Bairrada, o Dr. Pedro Dias, agradecendo ambos ao Clube Tex Portugal e à consagrada desenhadora italiana Laura Zuccheri, para além de augurar mais um evento de grande sucesso e desejando que esta 7ª Mostra do Clube Tex Portugal fosse um novo sucesso.

De seguida tomou uso da palavra Laura Zuccheri sobretudo para agradecer (em italiano) o facto de ter sido convidada para tão especial acontecimento mostrando-se agradada por saber que também em Portugal a banda desenhada italiana, Tex em particular, ser muito apreciada, mostrando-se também muito agradada pela forma como foi acolhida em Portugal, mas também muito encantada com o local muito sugestivo desta 7ª Mostra do Clube Tex Portugal e de como a mesma foi organizada, afirmando ainda ter a certeza que passaria dois dias muito agradáveis com a simpática família texiana de Portugal. A tradução foi realizada por Júlio Schneider, o intérprete oficial do evento bairradino, que também não se coibiu de fazer comentários mostrando o quanto se sentia honrado por estar em Anadia junto de uma autora espectacular.

Para finalizar a memorável Cerimónia de Inauguração desta 7ª Mostra do Clube Tex Portugal e antes do Espumante de Honra (não nos esqueçamos que o evento foi na capital da Bairrada) oferecido pela Direcção do Clube Tex Portugal, foi exibido ainda um curto vídeo, realizado por Andreia Sofia Francisco, sobre as anteriores presenças dos autores de Tex no nosso país mostrando o porquê de Anadia ter assumido o estatuto de Capital Portuguesa do Tex!

A capa, a apresentação e a periodicidade de Tex Omnibus “#1 – O TOTEM MISTERIOSO e muitas outras histórias”

Tex Omnibus Vol. 1

Tex Omnibus Vol. 1

Capa dura – Laminação Brilhante • Miolo offset
804 páginas • PB
Formato:
 23,3 x 17 cm
A coleção definitiva de Tex! O Maior Ranger da história dos quadrinhos ganhou uma edição luxuosa e em ordem cronológica! 800 páginas de pura aventura!
Tex Omnibus Vol. 1 compila os seguintes arcos:
O totem Misterioso;
A mão Vermelha;
O Bando de Kid Billy;
O Mistério do Ídolo de Ouro;
O Bando do Vermelho;
A Trágica Noite;
Satânia.
De R$ 259,90 por R$ 129,95 na pré-venda disponível no site da Mythos Editora!

Quem é Tex…

Tex Willer é o mais famoso personagem dos quadrinhos da Itália. Criado em 1948 por Gianluigi Bonelli (textos) e Aurelio Galleppini (desenhos), começou a ser publicado em formato de tiras semanais com 32 páginas. O incrível sucesso que alcançou levou a que, posteriormente, suas histórias começassem a ser publicadas em revistas no formato 16 x 21 cm, como acontece até hoje. Nascido numa época em que os “bons” eram os brancos e os “maus” eram os índios, Tex antecipou-se aos tempos e integrou-se na vida dos pele-vermelhas ao casar-se com a índia Lilyth, tornando-se, depois, chefe da tribo navajo com o nome de Águia da Noite, e sendo também o agente do Governo na reserva. Antes, foi um fora da lei procurado pelas autoridades porque decidiu justiçar todos os que assassinaram seu pai. Inocentado, entrou para o corpo dos rangers para combater as injustiças. Quase sempre acompanhado pelo inseparável parceiro Kit Carson, e muitas vezes também pelo filho Kit Willer e pelo navajo Jack Tigre, Tex tem um senso inato de justiça, que muitas vezes o leva a ultrapassar os limites da Lei. Irônico, honesto, inteligente, inimigo jurado da burocracia, de qualquer forma de corrupção, dos poderosos sem escrúpulos e das obtusas hierarquias militares, Tex é um herói puro, um justiceiro sem superpoderes, um homem completo. Uma espécie de utopia, porque o bem nem sempre vence o mal, mas é, sobretudo, a personificação de uma ideia… a de que nesta sociedade da indiferença sobreviva o conceito de justiça.

Tex Omnibus Vol. 1

Esta coleção contará a saga de Tex desde a primeira aventura, em edições semestrais, sempre com um número colossal de páginas.

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