Texto do jornal Diário “As Beiras” de 10 de Maio de 2003 João Miguel Lameiras
O Tex de Alfonso Font
Para além das tradicionais edições em pequeno formato, o regresso do catálogo da Editora Bonelli aos quiosques nacionais, pelas mãos da Mythos, permite aos leitores portugueses descobrirem os sempre interessantes “Texones”, edições anuais em formato maior e com uma produção mais cuidada, em que autores de renome tem a sua oportunidade de imprimir a sua marca pessoal ao mais popular cowboy da BD italiana, o ranger Tex Willer, em histórias de longo fôlego, com mais de 200 páginas.
Já por duas vezes objecto de referência nesta secção (ver Diário “As Beiras” de 11/3/1995 e 5/4/1996), a propósito dos Texones desenhados por José Ortiz e Victor De La Fuente, estas edições especiais de Tex valem sempre a pena, não só pela qualidade da arte e das histórias, mas também porque dão a conhecer uma faceta pouco habitual de autores que construíram toda uma carreira noutras paragens. E mais uma vez, “Os Assassinos”, este último número desenhado por Alfonso Font, não foge à regra.
Quarto espanhol a desenhar o ranger criado por Giovanni Bonelli e Aurelio Galleppinni, depois de Jordi Bernet e dos já citados Ortiz e De La Fuente, Alfonso Font é mais um grande autor do país vizinho, cuja obra não está suficientemente divulgada em Portugal, o que aumenta a importância desta edição da Mythos.
Nascido em Espanha em 1946, Font é um veterano da BD europeia, com uma sólida carreira construída sobretudo em Espanha e França. Uma carreira marcada pela versatilidade e pela eficácia, em que abordou os mais diversos géneros, da ficção centífica em “Clarke e Kubrik”, à aventura romântica em cenários exóticos, na linha de Conrad e Stevenson, no magnífico “John Rohner”; passando pelo policial e espionagem em “Taxi” e “Privado” e pelo romance histórico em “Bri d’Alban”.
Infelizmente, de toda esta vasta produção espalhada por revista como a “Cimoc”, “Circus”, “Pif- Gadget”, “Rambla” e “1984”, apenas chegaram a Portugal alguns episódios de “Taxi” e de “Histórias Negras”, publicados nas “Selecções BD” e o primeiro volume da série “Alise e os Argonautas”, uma transposição para um registo de ficção científica da lenda dos Argonautas, escrita por Patrick Cothias, e que a Meribérica, como aconteceu com muitas outras séries do seu catálogo, deixou incompleta.
Este “Os Assassinos”, significa um regresso às origens por parte de Alfonso Font, que começou a sua carreira desenhando histórias de cowboys para a revista “Hazanas del Oeste” e que depois deste “Texone” se tornaria, tal como já tinha sucedido antes com Victor de la Fuente e José Ortiz, um dos desenhadores regulares das aventuras do popular ranger. Mas falemos da história em si, em que o argumentista Mauro Boselli substitui (quanto a mim, com vantagens) Claudio Nizzi, o argumentista normalmente responsável por estas edições especiais do ranger Tex, conseguindo prender o leitor ao longo das mais de 200 páginas de uma complexa história de vingança, que em alguns momentos (como a cena que escolhi para ilustrar este texto) me trouxe à memória “Aconteceu no Oeste” o filme clássico de Sérgio Leone, o mestre do “Western spaguetti”, que é uma referência recorrente na série.
Outro aspecto interessante no trabalho de Boselli, muito bem servido pelo dinamismo e eficácias habituais de Font, é o facto de evitar maniqueísmos excessivos no tratamento dos personagens, com destaque para o vingador Mitch, ou para a “femme fatalle” Lisa, que se revelaram bastante mais interessantes do que o próprio Tex e os seus habituais companheiros de aventura.
Tendo em conta o preço bastante acessível e a quantidade de extras (entrevista com Alfonso Font e um interessante texto de enquadramento histórico de Renato Genovese), aliados à qualidade da história, esta é uma edição a não perder, até porque tem o interesse suplementar de permitir conhecer um pouco melhor o imenso talento de Alfonso Font.
(“Tex Gigante nº 7: Os Assassinos”, de Mauro Boselli e Alfonso Font, Mythos Editora, 242 pags, 4,50 €)
O ano de 2007 foi um ano de transição, um ano onde acima de tudo começaram a notar-se algumas das mudanças que se perspectivam para 2008. Mudanças no staff de autores, com a chegada de novos desenhadores como Pasquale Del Vecchio, Dante Erasmo Spada, Corrado Mastantuono e Garcia Seijas, se bem que nem todos fiquem no staff, mas também a estreia de Tito Faraci como argumentista, o que vem trazer nova dinâmica à série e criar naturais expectativas para os próximos tempos.
Foi também um ano caracterizado pela mudança numa certa filosofia reinante na SergioBonelli Editore que, com a chegada da Collezione Storica a Colori, acaba por deixar o exclusivo do preto e branco como imagem de marca da casa, patrocinando a publicação das primeiras aventuras da série em versão colorida, no que acabou por ser um êxito, cimentado na edição de mais 34 números relativamente aos 50 inicialmente anunciados.
Mas foi também um ano doloroso e triste porque assistiu à morte de dois desenhadores aplaudidos a nível mundial, Manfred Sommer e Carlo Rafaelle Marcello. O espanhol regressara à banda desenhada expressamente convidado por Sergio Bonelli para desenhar Tex, enquanto que o italiano, apesar de já se encontrar afastado das páginas texianas desde há algum tempo, continuava a ser recordado por, em conjunto com Mauro Boselli, ter sido o autor de grandes aventuras do ranger.
Ainda falando de desenhadores, merece especial realce o facto de Fernando Fusco ter desenhado mais uma aventura, mesmo depois de ter anunciado a sua retirada, continuando afinal como um dos desenhadores da série, apesar de aceitar apenas trabalhar em argumentos menos extensos.
2007 foi ainda um anno horribilis para Claudio Nizzi, que continuou a escrever a maior parte das aventuras de Tex, denotando sempre pouca motivação, algum cansaço e sobretudo quase nenhuma imaginação.
Finalmente, o facto de que ainda não foi este ano que assistimos a uma nova aventura desenhada pelo magnífico Claudio Villa, apesar do deleite que cada capa deste extraordinário artista nos oferece, e também a ausência dos irmãos Cestaro, uma grande dupla de desenhadores que começam a criar saudades nos apaixonados.
As Aventuras La Bandadei Tre escrita por Claudio Nizzi e desenhada por Fabio Civitelli, conta a história de Elmer Daves um xerife que, chegado à reforma, resolve ir em busca dos assassinos da sua mulher, morta 15 anos antes durante um assalto a um banco. A ideia de Claudio Nizzi foi boa, ao colocar lado a lado Tex com Daves, dois homens que sofreram a mesma experiência dramática, o assassinato da sua mulher, mas acabou por fracassar na pouca credibilidade dos factos apresentados. Realce para o desenho limpo, elegante e perfeito de Civitelli, um autor que esteve por terras lusas, como convidado do Festival de Banda Desenhada de Moura onde espalhou simpatia e granjeou ainda mais adeptos. Uma nota para o facto de Civitelli estar a ultimar a aventura que comemorará o nº 600 da edição italiana. Morte Nella Nebia escrita por Mauro Boselli e desenhada por Alfonso Font, pode ser considerada a melhor história de 2007. Sem estar ao mesmo nível de grandes aventuras como O Passado de Kit Carson ou Os Invencíveis, ainda assim uma aventura de grande qualidade que marca o reencontro de Kit Willer com o seu amigo Bronco Lane (Os Sete Assassinos). Uma aventura onde mais uma vez Boselli confere especial protagonismo ao jovem Kit Willer.
Apesar de não ser a primeira aventura escrita para Tex, Evasione, com desenho de José Ortiz, marcou a estreia de Tito Faraci junto dos leitores, isto porque os irmãos Cestaro ainda estão a desenhar o seu primeiro argumento, perspectivando-se a sua publicação durante 2008. Sem revolucionar, Faraci escreveu mesmo assim um argumento pleno de dinamismo e ritmo, que leva Tex até uma prisão mexicana com o objectivo de conseguir a fuga de um fora da lei e trocar este por Carson que se encontra cativo dos seus cúmplices. É uma aventura que pode marcar uma viragem na série, porque o Tex de Faraci mostrou ser actuante e empreendedor, inteligente e imaginativo, em contraponto ao que Nizzi vem fazendo com a personagem. Moctezuma é o canto do cisne de Nizzi, uma aventura quase completamente falhada e seguramente a menos conseguida do ano. Tal como na aventura de Faraci, Tex vai até ao México, onde acabará por resgatar uma jovem cativa de um senhor local. Um argumento simples, mas que Nizzi não consegue dar o dinamismo de Faraci ou a espessura de Boselli, primando pela superficialidade e alguns erros infantis. Apesar da idade, Fusco não acusa em demasia o peso dos anos, conseguindo expandir bem as suas qualidades de paisagista. Soldi Sporchi marca a estreia de Pasquale Del Vecchio numa aventura de Tex, onde o seu desenho acaba por ser a melhor parte de mais uma aventura pouco conseguida de Claudio Nizzi. Uma patrulha do exército que transporta o pagamento dos militares é atacada, tudo levando a crer por índios yaquis. Tex e Carson após investigarem concluem que afinal os brancos podem estar por detrás de tudo. Del Vecchio já trabalhara para a Sergio Bonelli Editore, desenhando aventuras de Nick Raider e Napoleone, mas também para o exigente mercado franco-belga onde desenha a série Russel Chase. Um desenho clássico, elegante e claro que apenas terá que melhorar na sua composição do ranger.
Erasmo Dante Spada estreou-se em Spedizione in Messico, mais uma aventura interessante de Mauro Boselli e que leva Tex e os pards novamente até ao México, onde a pedido do exército norte-americano pretende trazer de volta o chefe coyotero Calvado, fugido há meses da sua reserva. Uma aventura onde o perigo e a suspeita espreitam em cada página e que testemunha um trabalho de grande nível de Spada, com um desenho muito expressivo e paisagens fantásticas. Mas a sua integração no staff não é certa, uma vez que o autor acaba de regressar a Martyn Mystère.
A série normal terminou com La Sentinella, que narra a descoberta por parte de Tex e Carson de um oficial sulista que vive há anos como um eremita numa caverna e que acredita que a Guerra da Secessão ainda não terminou. Uma aventura onde se pode optar por duas leituras. Se for um daqueles críticos acérrimos de Nizzi, trata-se de mais uma prova cabal da falta de dinamismo e motivação do autor, cometendo ingenuidades e incoerências. Se conseguir ultrapassar isso, o leitor descobrirá na aventura uma visão do sul do pós guerra da Secessão, de uma época de reconstrução e de regresso à civilização, de uma época onde, apesar do final da escravatura, o negro ainda não era aceite socialmente. Uma aventura onde o argentino Miguel Angel Repetto assina eventualmente o seu melhor trabalho em Tex.
O Almanacco Del West testemunhou, junto dos leitores, a estreia de Garcia Seijas em Tex. Tal como com Faraci, se bem que por motivos diferentes, Polizia Apache não é a primeira aventura desenhada pelo excelente artista argentino, uma vez que o seu primeiro trabalho para Tex ainda aguarda publicação num Albo Speciale (Tex Gigante). PoliziaApache é escrita por Mauro Boselli e debruça-se num tema, baseado em factos reais e sempre presente em Tex, índios confinados em reservas que não aceitam a autoridade que lhes é imposta. Graficamente, o trabalho de Garcia Seijas não merece reparos, muito pelo contrário, ele é merecedor dos mais rasgados elogios, apesar do seu Tex não recolher eventualmente a unanimidade no modelo do autor.
Em matéria de estreias, o Speciale trouxe mais uma, a do romano e versátil Corrado Mastantuono, sobejamente conhecido no mercado italiano e franco-belga. Il ProfetaHualpai conta a história de Manitary, um profeta que, após uma visão, sente-se investido a dar seguimento à sagrada missão de reunir as tribos índias debaixo de um só comando, com o objectivo de expulsarem os brancos das suas terras. Escrita por Claudio Nizzi, é uma aventura interessante no tema focado, mas sem criar grandes emoções. Mastantuono tem uma representação gráfica perfeita dos pards e o seu Tex vai melhorando com o decorrer da aventura. O autor imprime sempre um desenvolvimento dinâmico à aventura realizando planos de conjunto soberbos.
Por fim, o Maxi Tex com a aventura Fort Sahara, escrita por Claudio Nizzi e desenhada por Roberto Diso. A aventura consegue fazer bem a ponte entre realidade histórica e ficção quando a Legião Estrangeira prestou auxílio ao imperador mexicano Benito Juarez entre 1864 e 1867, reflecte timidamente sobre a disciplina militar, mas traz os defeitos habituais em Nizzi. Pelo lado do desenho, as coisas também não foram melhores, porque Roberto Diso, não discutindo as suas qualidades, não tem um estilo ou um traço que permita criar um verdadeiro ambiente texiano.
Os Desenhadores
Um ano, como já afirmado, marcado pela estreia de novos autores em Tex, por força do desaparecimento de alguns artistas, mas também pelo ritmo que as novas aventuras vêm impondo. Pasquale Del Vecchio, Erasmo Dante Spada, Corrado Mastantuono e Garcia Seijas, cada qual a seu modo, deu o melhor de si e isso foi notório, porque os seus trabalhos merecem nota positiva. Mas cresce a dúvida em saber quem afinal continuará na equipa, porque para já Erasmo Dante Spada parece ter saído para Martin Mystère e o seu trabalho em Tex foi muito bom. Del Vecchio está novamente a desenhar para o mercado francófono, enquanto que tudo leva a crer que Mastantuono e Seijas continuarão.
Boas provas de Civitelli, que sempre nos habituou a excelentes trabalhos, Repetto com o seu melhor trabalho na série, o espanhol Font que sobe sempre a sua fasquia de qualidade, são aspectos positivos a realçar, não esquecendo que, apesar da idade, Fusco não desaprendeu (talvez o estilo já seja algo datado) e que outro espanhol, José Ortiz, continua em bom nível, mas quer-nos parecer que o seu ritmo elevado de trabalho acaba por influenciar negativamente o resultado final. Apenas Diso parece sobressair pela negativa na qualidade global.
Uma palavra para o trabalho ao nível das capas por parte de Claudio Villa. Qual delas a melhor? Em face de excelentes trabalhos, torna-se difícil escolher uma, todas elas são um regalo que importa apreciar ao pormenor. Moctezuma e Uccidete Kit Willer têm grande impacto, Spedizione in Messico impõe-se pela figura texiana, Morte Nella Nebia deixa uma sensação fria, Evasione cativa, enfim, estamos em presença de um notável desenhador e nunca é demais realçá-lo.
Os Argumentistas
2007 acentuou o declínio de Claudio Nizzi. Aquele que ainda é considerado como o verdadeiro herdeiro de G. L. Bonelli acusou erros e ingenuidades em demasia, alicerçados em argumentos sem alma e incapazes de cativar verdadeiramente, demonstrando que quantidade não é sinónimo de qualidade. Escreveu mais de mil páginas, Boselli cerca de metade, enquanto Faraci ficou-se por pouco mais de duzentas. 2007 evidenciou que Nizzi atingiu os limites da sua veia inspiradora, deu tudo o que de melhor tinha à personagem durante tantos anos, mas chegou a hora de uma desejável retirada, pelo simples motivo que pouco mais trará à personagem. O Tex nizziano foi-se arrastando ao longo do ano em aventuras que primaram pela superficialidade, apesar de alguns aspectos interessantes, referidos ao longo deste artigo, reiterando a ideia que o autor acusa cansaço e não dá provas de poder inverter o rumo.
Pelo contrário, Mauro Boselli afirma-se como um criador de histórias com muito maior interesse e espessura, tendo já dado provas que pode ser o autor capaz de renovar o mito e trazer novos rumos à série. Em 2007 Boselli não assinou uma obra-prima, mas escreveu duas boas aventuras, Morte NellaNebia e Spedizione in Messico, duas histórias onde as qualidades do autor estão bem presentes. Qualidades que passam muito por uma notável construção das personagens, alterando os códigos narrativos nizzianos. Gradualmente, Boselli vai assumindo o papel de principal argumentista o que é uma boa notícia para 2008, criando acrescidas expectativas nestes tempos de mudança.
Tito Faracci deixou uma boa impressão com Evasione. Já dissemos que não veio, para já, revolucionar nada, mas deixa antever algo de diferente para mais tarde. Para já o autor não entrou a querer mudar, quis sim ser honesto com os leitores e com os fãs, por isso foi buscar alguns dos atributos do Tex bonelliano e escrever uma história simples, mas capaz de atrair pela dinâmica, pela movimentação e por esse facto já apontado de trazer um Tex como nos habituámos a apreciar.
Um ponto parece ter sido comum nos três: nenhum trouxe uma aventura sobre a temática do fantástico ou passada em ambientes exóticos. Neste ponto em concreto de ambiente e temas, Morte Nella Nebia e La Sentinella fogem um pouco do lugar comum, a primeira pelos ambientes a segunda pela visão que traz do pós-Guerra da Secessão.
Veremos o que nos reserva 2008, com a gradual e anunciada retirada de Nizzi, a afirmação crescente de Boselli, a continuidade de Faraci, sem esquecer Pasquale Ruju que, depois de Demian, regressa a Tex com a aventura do Almanaque, Manfredi, Segura e o próprio Guido Nolitta (aliás Sergio Bonelli) que com Boselli e Ticci (no desenho), cria naturais expectativas para uma aventura a três a publicar já em Março.
Se em 2007 a Collezione Storica a Colori marcou a revolução da cor nas aventuras de Tex Willer, de acordo com as palavras do próprio Sergio Bonelli, 2008 poderá ser o ano da evolução e de algumas mudanças. As expectativas são grandes!
Desenho nocturno realizado por Claudio Villa, onde vemos Tex Willer após um “banho” em pleno Rio Pecos, entrando furtivamente no navio Isabel, aproveitando um momento em que a tripulação estava ocupada, descarregando lenha no porão do navio que tranportava ilegalmente rifles Spencer.
Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #58 e inspirado na história, “La legge di Roy Bean” de G. L. Bonelli e Guglielmo Letteri (Tex italiano #117 a #120).
(Para aproveitar a extensão completa do póster, clique no mesmo)
Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Carlos Rico e Mário João Marques na formulação das perguntas e de Gianni Petino e Paulo Guanaes (tradutor de Tex para o Brasil) na tradução e revisão.
Claudio, que lugar teve a Banda Desenhada, especialmente a BD “Bonelli” na sua infância? Claudio Villa: Muito importante: quando eu era criança, meu pai, como grande aficionado, trazia muitas revistas de banda desenhada para casa: Tex, Zagor, Batman, Super-Homem… uma colecção que na Itália se chamava I classici dell’Audacia e continha as histórias de Michel Vaillant, Ric Roland, e o melhor da banda desenhada europeia da época.
No início, eu senti-me atraído por Zagor e por seu traje de super-herói. A história da qual mais gostei foi O Rei das Águias (Zagor 30 – Editora Vecchi), junto com a de Moloch (desenhada por aquele que se viria a tornar o meu mestre: Franco Bignotti). Mais tarde descobri Tex e o seu mundo, e também os super-heróis americanos (um Batman ainda com o traje vermelho e um Super-Homem que se chamava Nembo Kid, sem a letra esse no peito).* * Quando o Super-Homem foi publicado pela primeira vez na Itália, em 1939, foi baptizado de Ciclone. E assim ficou até 1954, quando mudou de editora e passou a ser conhecido como Nembo Kid. Só em 1971 é que a personagem foi denominada como na origem: Superman. Até essa data, o Super-Homem italiano usava o emblema do uniforme alterado, sem o “S” e todo amarelo.
Como chegou a desenhador de BD? Por vocação ou por acaso? Claudio Villa: Nada acontece por acaso…
Ao olhar para trás, vejo a “estrada” com as incríveis “encruzilhadas” que me trouxeram até aqui. De minha parte, esforcei-me muito para fazer a coisa certa e responder à responsabilidade e ao dom que Deus me deu.
Quais são as suas influências? Claudio Villa: Muitas: Curt Swan (Super-Homem), Neal Adams (Batman) Galep, Ferri, Ticci, Bignotti, Diso, Civitelli… continuo a “olhar as figuras”, como as crianças, e sempre me sinto fascinado por um “belo desenho”.
Actualmente, acompanho o trabalho de Alex Ross e encontro novos estímulos.
Quais são as suas fontes? Dedica muito do seu tempo a documentar-se? Claudio Villa: São múltiplas: desde os filmes às bandas desenhadas de faroeste, que uso para a documentação dos ambientes. Quanto aos cavalos, “saqueei” quiosques em busca de revistas adequadas e acabei reunindo um arquivo importante.
Leva tempo, é verdade, mas o arquivo e o conhecimento são duas coisas importantíssimas para o meu trabalho.
Como foi o seu encontro com Tex e o que é que ele representa para si? Claudio Villa: Como leitor, por volta dos 13/14 anos, fiquei fascinado com a história “Sulle piste del nord” (no Brasil: Flechas Pretas Assassinas – Tex 50 a 52, Editora Vecchi), que ainda hoje releio com prazer, como se fosse a primeira vez. Foi ali que conheci o verdadeiro Tex: determinado, com valores sólidos no coração, cercado por parceiros que dariam a vida um pelo outro e que não se detêm diante de nada. Uma companhia de heróis.
Hoje, Tex representa o mito.
O que representa para si, ser o desenhador oficial das capas de Tex, mais a mais substituindo o seu criador gráfico Galleppini? Claudio Villa: Uma grande honra, mas também uma grande responsabilidade.
Em relação a quem trabalhou antes de mim e em relação aos leitores que têm o direito de “reconhecer” o “seu” Tex nas bancas…
Pode-nos dizer como é todo o processo de criação de uma capa de Tex. Que critérios são utilizados para escolher o desenho de uma capa? Quem escolhe a cena que serve de capa? Há algum cuidado em escolher uma cena importante ou que represente o climax da história ou, pelo contrário, escolhe-se outra cena qualquer de modo a não revelar ao leitor o final da história? Claudio Villa: Tudo nasce na editora, onde Sergio Bonelli examina pessoalmente a história em questão. Procura uma cena “de capa” entre as vinhetas desenhadas, elabora um esboço veloz que me é enviado por fax, junto às cópias das páginas correspondentes (em geral, duas ou três).
A partir daí, começo a trabalhar, preparando a cena “de capa”.
Em síntese, é preciso cuidar do enquadramento, da luz e do movimento das personagens: a capa deve contar sem revelar, deve ser legível e imediata, deve interessar e ser suficientemente dinâmica.
Às vezes, falta uma cena significativa e então ela é “construída” com os elementos extraídos da história.
Quantas maquetes faz, em média, para o desenho de uma capa? E quanto tempo leva em média a fazer uma capa de Tex? Claudio Villa: Depende da dificuldade da cena. Algumas vezes, para conseguir o melhor, cheguei a seis, sete esboços. É incrível de quantas maneiras se pode contar, em igualdade de situação, uma cena. E cada vez descobrir uma “temperatura” diferente, só deslocando o ponto de vista, a luz ou a disposição das personagens.
Se houver necessidade de alguma modificação depois de concluída, como é que a editora procede? Claudio Villa: Avisa-me e o trabalho é executado pelos competentes artistas gráficos internos.
É o responsável pela cor dos desenhos das capas ou esse trabalho é feito por outro artista? Claudio Villa: Eu dou uma “indicação” de cor: faço uma fotocópia em A4 a preto e branco e passo a colori-la com tintas líquidas, pintando-a como gostaria de vê-la impressa, pois é o impressor que deve, com os seus instrumentos, aproximar-se daquilo que fiz…
De entre as inúmeras capas que já realizou para Tex, houve alguma que lhe tenha dado especial trabalho? Recorda-se de algum pormenor, alguma situação, algum personagem que tenha sido especialmente difícil de desenhar numa capa de Tex? Claudio Villa: São todas difíceis, quanto mais não fosse pelo número de capas existentes e haver o risco contínuo de se assemelharem.
Não me recordo de particulares dificuldades, porque o grau de dificuldade é sempre bastante elevado…
Como está a ser a experiência de realizar capas de Tex para a “Collezione Storica a Colori”, já que é posta em prática uma técnica totalmente diferente daquela usada por si nas capas da série inédita e nos “pósteres” incluídos em Tex Nuova Ristampa? É que as capas recordam as primeiras vinhetas executadas por Galep nos anos cinquenta… Claudio Villa: As capas lembram as primeiríssimas vinhetas executadas por Galep nos anos cinquenta.
A ideia era mesmo aquela: restituir a atmosfera de Galep daqueles anos, respeitando “o olho” de 2007. Não foi fácil, porque eu tinha de modificar o meu estilo e o tormento de não conseguir “agarrar” o “modo” de Galep era grande…
Está ciente que você é um dos melhores desenhadores de sempre da série e que os leitores guardam sempre grandes expectativas perante os seus trabalhos? Claudio Villa: Bondade deles… eu sei apenas que a cada dia aguarda-me um trabalho novo para o mito de Tex.
Como se processa o seu relacionamento e o trabalho com os argumentistas que escreveram aventuras texianas para si? Claudio Villa: Lentamente…
Os roteiros que recebe são em geral muito ou pouco detalhados no que diz respeito à arte? Claudio Villa: Detalhados na medida certa, para deixar a imaginação trabalhar.
Qual foi para si o melhor trabalho para Tex? E o mais difícil? Claudio Villa: Espero sempre que seja o próximo. O mais difícil? Mefisto.
Como é que lida com o constante assédio dos leitores a pedirem mais aventuras de Tex? Claudio Villa: Armando o cão do colt.
Ainda vamos ver uma aventura de Tex também escrita por si? Claudio Villa: Duvido…
O que nos pode dizer da história de Mauro Boselli que está a desenhar? Claudio Villa: É belíssima.
Como é o seu processo de criação? Faz uma página completa e depois passa a outra? E que materiais utiliza? Claudio Villa: Procuro fazer uma página completa, com lápis e acabamento. Os materiais são os clássicos: lápis, nanquim, pincel fino e caneta de ponta porosa…
De que modo é que o Claudio Villa consegue trazer novos leitores para Tex? Claudio Villa: Não sei se consigo, mas procuro fazê-lo cuidando da “montra” de Tex: a capa.
No Brasil, “Tex Edição Histórica” sempre teve capas tuas, extraídas dos teus pósteres em Tex Nuova Ristampa, mas hoje em dia a Mythos Editora também os usa para a capa das séries “Grandes Clássicos do Tex“, “Tex Férias” e “Tex Ouro“, devido aos inúmeros elogios dos leitores. O que sente ao saber que a editora brasileira está a apostar forte nesses seus desenhos? Claudio Villa: Enche-me de satisfação e preocupa-me pela responsabilidade…
Em Portugal tivemos em 2007 uma antestreia mundial de quinze novos desenhadores de Tex. Como vê esta entrada de tantos novos desenhadores para o staff de Tex? Será que isto pode marcar uma nova fase na vida da série? Claudio Villa: É inevitável que aconteça. Espero que aconteça sempre, quer dizer que Tex terá continuidade…
O facto de Tex ser desenhado por vários autores (de estilos bem diferentes) é, na sua opinião, mais ou menos vantajoso para a série? E porquê? Claudio Villa: É, sem dúvida, uma vantagem, mas Tex deve permanecer Tex.
Acha que também deverá haver entrada de novos argumentistas? Claudio Villa: Já está ocorrendo.
Qual será o futuro de Tex? Claudio Villa: Enquanto houver leitores, ele estará nos quiosques a esperá-los.
E qual o futuro de Claudio Villa? Claudio Villa: Enquanto houver Tex…
Dentro da BD, os fumetti da SBE foram sempre o seu objectivo ou teria preferido fazer “BD de autor” como Pratt, Battaglia, Toppi ou Manara? Claudio Villa: Gosto de desenhar e não vejo distinção entre BD de autor e não de autor. A diferença que vejo é entre uma história bem feita e uma história não bem feita. Procuro criar histórias que sejam bem feitas…
Pode nos contar como foi a sua recente experiência em desenhar os heróis da Marvel? Será uma experiência a repetir no futuro? Claudio Villa: Foi como dar um mergulho em um outro oceano.
Belo e agradável, não muito longo e, quando voltei, estava mais motivado com Tex, embora eu nunca o tenha abandonado…
Não sei se haverá uma outra experiência…
Quais são as bandas desenhadas que lê actualmente ou com que mais se identifica? Claudio Villa: Olho as figuras. E as que olho com mais prazer são as de Alex Ross.
Para além de banda desenhada, que tipo de livros lê? E a nível de cinema e de música, quais são as suas preferências? Claudio Villa: Li e reli o livro de Zanardi (um piloto de corridas, campeão de Kart em 1997 e 1998) porque sou apaixonado por corridas… gosto um pouco de toda a música “tranquila”, da clássica aos cantores-autores italianos (Baglioni) e, quanto aos filmes, não tenho autor ou género preferido. Gostei muito de Matrix.
Claudio, em nome dos Texianos portugueses, muito obrigado pela entrevista que gentilmente nos concedeu. Claudio Villa: Saúdo calorosamente os leitores portugueses!
Fotografias de José Carlos Francisco e Omar “Stimeex”
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