Texto da secção Recensões e Críticas de Janeiro/Fevereiro – 2008
Por Pedro Cleto
Almanaque Tex #30 – O preço da honra/A força do destino
Claudio Nizzi (arg) e Venturi (des) Mythos Editora (data previsível de distribuição em Portugal: Início de Abril)
Numa série como Tex, com produção regular mensal (com tudo o que de bom e de mau este conceito acarreta), e uma qualidade média bastante razoável, as histórias mais interessantes, a nível de argumento, para mim, acabam por ser aquelas que fogem mais aos estereótipos normalmente associados ao herói.
Ou pela abordagem de temáticas distintas ou por se atreverem a um tratamento diferente do (tão imutável) protagonista (que é assim, porque é assim que os leitores gostam, por muito que alguns “críticos” gostassem de ver outros temas/situações nas suas histórias).
Um desses casos é o díptico publicado neste número do Almanaque Tex, colecção que publica histórias inéditas de Tex originalmente publicadas na série italiana “Almanacco del West” ou histórias que ficaram por publicar quando era a Editora Vecchi a responsável pela edição brasileira de Tex.
Numa história recente, de 2006, como habitualmente bem narrada e estruturada, funcionando à base de constantes flash-backs, aparentemente dentro dos códigos que regem um dos mais famosos e populares westerns europeus, há uma diferença fundamental: Tex, geralmente dono e senhor da situação, infalível e (quase) omnipotente, falha estrondosamente. E logo por três vezes. Primeiro, quando não consegue evitar o fim trágico de Natay, o índio rebelde que quase lhe rouba o protagonismo da narrativa. Depois, quando não consegue que o verdadeiro criminoso, o oficial do exército corrupto, seja levado à justiça.
Finalmente, quando não consegue evitar ou pelo menos atenuar o castigo (apesar de tudo justo) do seu assassino. Motivos suficientes – mas há mais, que deixo aos leitores descobrir – para mergulhar na leitura destas mais de 200 páginas.
PS – A titulo de curiosidade, uma nota: se o desenho de Venturi é profissional q.b., eficiente, expressivo e dinâmico, não deixa de ser interessante reparar como o Tex das situações em flash-back é igualzinho ao Tex das cenas passadas na actualidade. Isto, apesar dos cerca de 20 anos que medeiam entre as duas. Mais uma prova da imutabilidade de Tex e de que os grandes heróis são mesmo eternos!
Copyright: © 2008 BDJornal; Pedro Cleto
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Ainda para 2008 a Mythos Editora está a preparar outras surpresas, que deverão ser anunciadas no decorrer do ano. Afinal, convém transmitir esse tipo de notícias em “doses homeopáticas”, para que os leitores Bonellianos não comecem a sofrer de ansiedade extrema.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Giovanni Ticci. Com o título original Il Pueblo Perduto, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 7 em 1994 e no Brasil pela Mythos Editora em 2000.
O Pueblo Perdido é um western grandioso, pleno de suspense, onde tudo gira em torno de um mapa que poderá levar a um eventual tesouro arqueológico. Nizzi confere um tempo próprio ao desenrolar da acção, tudo é contido, tudo tem o seu tempo e tudo nos é apresentado no tempo e ritmo certos. O enredo surge-nos sempre ao mesmo ritmo que aquele que a personagem do Prof. Montoya quer chegar ao tesouro. O seu guia (Shepard) insiste com ele, pretendendo saber sempre mais dos planos para chegar ao tesouro, mas é sempre refreado nos seus intentos pelo Professor: cada coisa no seu tempo.
Para além desta sensação de western ritmado, Nizzi faz gala de toda uma panóplia de cenários grandiosos e reveladores do nosso imaginário do velho oeste: a reserva índia, o rancho de Jackson, a cidade fronteiriça de Tupac, as grandes planícies, o perturbante deserto e, em clímax final, o pueblo perdido.
Existe em Ticci uma profunda e latente necessidade de expansão e liberdade, uma apetência natural pelos grandes espaços e por planos de conjunto, traduzíveis mesmo em variadas cenas de interior. As cenas de uma panorâmica geral transcritas nas páginas 110/111 são de grande intensidade, parecendo o próprio leitor ficar esmagado (é este literalmente o termo) pela força conferida no desenho de Ticci. A própria expressão de Tex (na pág. 110) é fantástica, rigorosíssima e perfeitamente identificável com o que o herói está a passar.
Por isso e, em resumo, quando nos é dado ler um álbum como este Pueblo Perdido, com um argumento pausado e credível, servido por um superior desenho, só poderemos sentirmo-nos felizes por gostarmos tanto de BD e de Tex em particular.