Resgatando o passado: Tex pelas trilhas lusitanas e espanholas

Por José Carlos Francisco (Maio de 2002)* 

Encontro Festivo no aeroporto

Aeroporto de Lisboa, 25 de Abril de 2002 – Paulo Silva, Fábio Teixeira, Paulo Madeira, José Carlos Francisco, Dorival Vitor Lopes e Orlando Santos Silva

Só um personagem como Tex poderia proporcionar momentos maravilhosos e inesquecíveis nos quais pessoas e famílias que não se conhecem, são capazes de vencer centenas de quilómetros somente pelo prazer de estarem juntas e conviverem umas com as outras espontaneamente, vivendo a alegria da confraternização proporcionada por um herói de papel, criado no distante Setembro de 1948, fruto da mente criativa de G.L.Bonelli e da pena de Aurelio Galleppini…

No dia 25 de Abril último (dia da Revolução dos Cravos) a capital de Portugal, situada entre sete colinas, foi palco de um encontro memorável que o Blogue do Tex não pode deixar sem registar. Dorival Vitor Lopes, o editor de Tex no Brasil, chegou a Lisboa para uma visita de dez dias à Península Ibérica. Estava acompanhado de sua esposa Helenice e de muitas revistas Tex.

No aeroporto da Portela esperava pelo Editor um alegre grupo de portugueses, fãs lusitanos da revista TEX, cada um deles levando alguma revista do nosso Ranger nas mãos, o salvo conduto combinado anteriormente pela Internet e telefone, já que alguns ainda não se conheciam pessoalmente.

4 pards no aeroporto

Na zona de desembarque reinava um ambiente de impaciência, de alegria e de ansiedade. Um certo nervosismo invadiu a todos quando ouviram o anúncio da aterragem do voo TAP proveniente de São Paulo, o sinal evidente de que se aproximava o momento tão especial que esperavam: o reencontro para uns e do primeiro encontro para outros.

Assim que o célebre editor de bermudas chegou junto aos lusitanos, foi literalmente tomado de assalto, uma vez que trazia consigo as revistas do Ranger mais temido do Oeste, encomendadas por todos os presentes, os quais manifestaram uma alegria simples e autêntica, com risos amigáveis e barulhentos, além de palmas incontidas. Certas pessoas que passavam achavam graça por tanto entusiasmo, outras reprovavam aquela agitação com um olhar frio, mas a grande confusão era plenamente compreensível desde que conhecidas as causas: ocorre que a fome a saciar era muita, já que alguns dos presentes não liam Tex há vários anos, desde que a revista deixou de ser distribuída em terras lusitanas.

O comité de boas vindas era constituído por Paulo Silva, Fábio Teixeira, Paulo Madeira, José Francisco e Orlando Santos Silva, além das esposas e filhas de dois deles. Após os alegres momentos iniciais, o grupo dirigiu-se para um pequeno bar do aeroporto, onde fizeram as devidas apresentações, conhecendo melhor uns aos outros.

Rota turística

Depois de momentos agradáveis junto aos texianos em Lisboa, Dorival e sua esposa Helenice, acompanhados de José Francisco, sua esposa Fátima e filha Andreia, seguiram com a diligência da Overland em direcção à cidade do Porto, distante 300 km ao norte da capital portuguesa, onde se encontrariam com outro texmaníaco, chamado Hernâni. Lá chegando, este os aguardava sorridente, já com um vagão inteiro da West Pacific reservado (uma carrinha de passageiros Mercedes alugada) para o passeio que viria a seguir. Animado, o Hernâni propôs-se mostrar aos novos amigos a mais antiga região de Portugal: o Porto, cidade que faz jus à sua vocação marítima e mercantil, tendo sido esta cidade que deu nome a Portugal e também a um vinho especialíssimo muito apreciado em todo o mundo.

Assim que o grupo acomodou-se, o veículo pôs-se em marcha, dirigindo-se para a zona litorânea. Após vencerem o Cais da Ribeira, seguiram por uma estrada junto ao rio, da qual era possível ver um belo panorama composto das muralhas fernandinas, do postigo do carvão e das casas típicas da zona.

No centro desta encantadora cidade os presentes visitaram a Estação de S. Bento, onde admiraram o átrio repleto de peças de rara beleza e imponência, decorados com lindíssimos azulejos que retratam artisticamente cenas históricas.

Guiados pelo texmaníaco Hernâni, puderam apreciar os morros íngremes que descem até ao rio Douro, de onde vê-se o conjunto ímpar e inconfundível da arquitectura do casario da região, que tem um centro histórico classificado pela UNESCO como Património Histórico da Humanidade, devido à sua importância, e também os Monumentos onde a cor predominante é o cinza do granito.

Jantar de Confraternização

Texianos participantes do jantar

O entusiasmo crescia à medida que o próximo compromisso aproximava-se. Do Porto o grupo seguiu para a cidade de Gaia, na margem sul do rio Douro, onde estava marcado um jantar com os texianos do norte de Portugal, os quais já aguardavam o grupo ansiosamente.

O saloon escolhido pelos cobóis para molhar a garganta foi a Adega Presuntaria Transmontana, situada às margens do lindo rio Douro. Este estabelecimento teve o privilégio de receber para o jantar em suas dependências o selecto grupo de 13 pessoas, texianos e texianas, sim, texianas, pois que além de oito apaixonados leitores do nosso Ranger, também estavam presentes as esposas e namoradas, além da pequena Andreia Sofia. E elas rapidamente integraram-se neste convívio, compartilhando do espírito texiano que presidiu o encontro.

Conversas texianas à mesa

Após as devidas apresentações – e graças a Tex, naturalmente – parecia que todos já se conheciam há muitos anos. Participaram do jantar em homenagem ao editor de Tex os seguintes apreciadores do nosso pard: Dr. Francisco Costa e esposa, José Carlos Francisco, esposa e filha, Álvaro Machado e namorada, Hernâni Castanhas, Pedro Vasconcelos, Professor Eduardo e Jorge Carvalho, para além do homenageado e da sua simpática esposa.

A recepção ao nosso querido editor, foi calorosa. Os agradecimentos e elogios ao trabalho do editor de bermudas na ocasião foram muitos, todos direccionados ao tratamento gráfico e editorial “impressionante” imposto pela Mythos às publicações de Tex, padrão que nenhuma editora anterior tinha conseguido dar, além da ênfase nas publicações das edições especiais, que tanto agradaram os leitores portugueses. Além disso, o encontro foi marcado por um pedido especial: os texianos portugueses pediram ao Dorival que distribuísse novamente a revista Tex nas bancas de revistas de Portugal, o que de pronto ele respondeu que esse assunto já estava na agenda.

Família texiana à mesa

Como a mesa era grande, Dorival Vítor Lopes ia mudando de cadeira e conversando um pouco com cada um. As revistas que trouxe para estes leitores (todas encomendadas e pagas com antecedência) circulavam de mão em mão e arrancavam exclamações de êxtase. Alguns dos presentes haviam comprado apenas as edições mensais de Tex, entretanto, ao verem os Gigantes, os Almanaques e as Edições Históricas de outros, logo arrependeram-se e pediram essas também, querendo inclusive pagar na hora com medo de ficarem sem essas edições. Dentre estes, o Jorge Carvalho era o mais deslumbrado e dizia de quando em vez: “Eu quero tudo. Mande-me tudo o que a Mythos faz. Quero as revistas Marvel, Batman, todos os Tex antigos, tudo mesmo…“

A composição do ambiente, que já estava agradabilíssima sob a luz do pôr-do-sol, beirou à perfeição com o barulho das ondas a bater no cais. E na hora da refeição, os famosos bifes do velho Oeste com três dedos de altura sepultados numa montanha de batatas fritas deram lugar à deliciosa comida caseira portuguesa, acabada de sair do forno.

À saída do jantar texiano

O tema dos debates e rodas de conversação durante o jantar neste saloon d’além mar destacavam o mundo dos quadradinhos e das aventuras do Ranger mais temido do Oeste. Dorival confidenciou que nunca esteve tanto tempo sentado numa mesa de refeição e destacou que, motivados por uma força interior, ninguém tinha pressa em levantar, como que desejando eternizar aquele momento de convívio tão agradável.

No final, como apoteose, todos os presentes brindaram a Tex, ao Dorival e ao futuro da Mythos Editora, registando o momento numa fotografia, a qual fará com que este evento seja sempre lembrado por todos os presentes. Durante as despedidas, a promessa evidente de um novo encontro a realizar no próximo ano, se possível com mais caras novas, ou seja, com novos fãs de Tex.

Espanha, terra de surpresas!

José Carlos, Dorival e Luís Sierra

Assim como os pards deslocam-se rompendo fronteiras para fazer cumprir os desígnios da aventura, os nossos aventureiros partiram rumo à Espanha (sempre com as revistas TEX a tiracolo), com destino ao famoso Santiago de Compostela, onde encontrariam Luís Sierra, leitor do Ranger brasileiro em virtude de Tex também ter deixado de ser editado na Espanha há muito.

Após as devidas apresentações, o Luís levou o grupo à descoberta de Santiago, local de romarias e peregrinações vindas de toda a Europa e mesmo de outros locais do mundo. O local outrora deserto hoje é uma magnífica cidade com vários monumentos, destacando-se entre eles a majestosa Catedral de Santiago de Compostela, local que na Idade Média foi um dos principais pontos de peregrinação, tão famoso e conhecido quanto Roma e Jerusalém, devido a ali estar localizado o túmulo de S. Tiago, apóstolo de Jesus.

José Carlos, Luis Sierra e Dorival no Bodegon do Xulio

Como curiosidade destas terras, todos tiveram uma surpresa agradabilíssima: nesta mesma cidade descobriram um estabelecimento comercial de nome “Bodegon do Xulio“. Será que este Bodegon espanhol e a Taberna do Julio (esta última localizada no Golfo da Guinea e citada no Zagor Italiano nº425) fazem parte da mesma rede de restaurantes que pertence ao coleccionador bonelliano Júlio Schneider?! Interrogamos o barman e descobrimos que o proprietário do Bodegon não poderia tirar esta dúvida do grupo porque estava viajando ao Brasil, em férias no paradisíaco recanto de Itapoá, litoral norte de Santa Catarina. Será???

Vila Praia de Âncora, de volta a Portugal

Para cumprir outra escala, foi preciso atravessar novamente a fronteira e regressar a Portugal, desta vez a Vila Praia de Âncora, onde o texiano Dr. Francisco Costa, uma pessoa carismática, alegre e sempre de bem com a vida, os aguardava. Assim como Tex e Carson pouco dormem quando visitam El Morisco, apreciando sua biblioteca, a sua colecção de espécimes raros e objectos de toda espécie, também os nossos aventureiros pouco dormiram nas duas noites em que pernoitaram na casa de Francisco Costa. Quiseram aproveitar o máximo de tempo junto à biblioteca pessoal deste que é considerado um dos maiores coleccionadores de Revistas de Banda Desenhada de Portugal.

A biblioteca de Francisco é o um refúgio seguro depois de cada dia de trabalho, na qual encontramos milhares de exemplares de revistas, algumas raríssimas, datadas do início do século passado. Em relação a Tex, Francisco possui colecções fabulosas, entre elas todas as publicações italianas de Salvatore Taormina e todas as edições de Cronaca di Topolinia, inclusive os pósteres de Tex, Ken Parker, Diabolik e também a revista colorida “Fumetti, O melhor dos Quadrinhos Italianos“, editada no Brasil pela Editora Globo em Novembro de 1993. De quebra, tem também os Tex Gigantes franceses (que maravilha de papel) e muitas colecções de outros personagens Bonelli.

José Carlos, Dorival e Dr. Francisco Costa

A ambição actual de Francisco Costa é conseguir toda a colecção de Tex original italiana, mas somente da primeira edição, objectivo difícil de ser concretizado em virtude da antiguidade das primeiras edições. Mas as dificuldades não o fazem desistir desta meta, ao contrário, reforçam a sua determinação em busca deste objectivo.

Durante a agradável estadia junto ao Dr. Francisco Costa, o grupo fez um roteiro turístico encantador e conheceu o Parque Nacional da Peneda-Gerês, o mais lindo de Portugal, onde puderam descobrir in loco e entender todas as acções dirigidas para preservar um recanto onde tudo é ainda (mas por quanto tempo?) belo, selvagem, agreste e puro, resumindo numa única palavra: natural.

Salamanca, novamente Espanha

Na pista de outro texiano e motivados pelos convívio agradável em parte graças ao mundo de Tex Willer, evocado a cada conversa e a cada nova paisagem, o grupo retornou novamente a Espanha, desta vez com destino a Salamanca. Com o título outorgado pela UNESCO em 1988 como “Cidade Património da Humanidade”, Salamanca é famosa por reunir o esplendor da sua arquitectura renascentista a um clima alegre típico de uma cidade universitária, localizada no Oeste da Espanha, a 119 km da fronteira com Portugal.

Juan Eguiluz Pacheco, José Carlos e Dorival à conversa num bar em Salamanca

Ao adentrar na cidade, o grupo pôde deleitar-se com um verdadeiro espectáculo arquitectónico, pois todos os estilos fazem-se presentes nesta famosa cidade, na qual os edifícios, construídos em Pedra de Villamayor, proporcionam uma identidade própria e outorgam a Salamanca o título de “cidade dourada”.

José Carlos, Dorival e Juan Eguiluz em Salamanca

Na Plaza Mayor, considerada pelo conjunto arquitectónico como uma das três praças mais bonitas da Europa, ao lado de Veneza e Praga, outro fã do Ranger Tex Willer aguardava o grupo: Juan Eguiluz Pacheco, professor da Universidade de Salamanca, a mais antiga da Espanha e uma das quatro mais antigas do mundo.

Juan de imediato soube cativar os viajantes e, com muito apreço, fez com o grupo um pequeno tour histórico. Num clima fraterno de hospitalidade do velho Oeste, Juan contou muito da história da cidade e levou o grupo a visitar os principais monumentos de Salamanca e as catedrais Nueva e Vieja, além de uma curiosa Casa das Conchas.

Juan Eguiluz Pacheco é um texmaníaco que também precisou buscar alternativas para não ficar sem ler as aventuras de Tex depois que o mesmo parou de ser publicado na Espanha. Ele também recebe as revistas do nosso Águia da Noite directamente do Brasil, através da Mythos Editora e do próprio Dorival Vitor Lopes.

Peripécias de um Herói de Papel

Mas, assim como uma óptima aventura de Tex também termina num certo ponto, também o passeio do grupo pelas trilhas lusitanas e espanholas chegaria ao fim. No dia 5 de Maio voltaria ao Brasil Dorival Vitor Lopes e esposa. Mas, no aeroporto, outra agradável surpresa: o encontro com outro texiano português de nome Nelson Dias, que ao entrar em contacto com o Portal Tex, soube por intermédio de Gervásio Santana que o Editor Dorival estava em terras lusitanas.

Nelson Dias considerou a notícia dada pelo Portal Tex como “quase um milagre”, já que também estava buscando as revistas de Tex desde que acabou a distribuição da mesma em Portugal. Decidido, não pensou muito, pois numa única oportunidade retomaria a colecção de Tex e ainda poderia conhecer a pessoa que “faz” o Tex no Brasil, e viajou vários quilómetros só para conhecer o Editor e estar presente nas despedidas.

Aeroporto de Lisboa, 5 de Maio de 2002 – José Carlos, Paulo Madeira, Nelson Dias e Dorival Vitor Lopes

Após vários anos sem ler Tex, Nelson também teve o privilégio de reencontrar o caminho das aventuras do Ranger mais temido do Oeste, especialmente porque a Mythos ainda tem em stock todas as revistas a partir de TEX-351, números que ele, além de encomendar junto ao Dorival, ainda confirmou a assinatura de todas as séries de TEX (Tex Normal, Tex Edição Histórica, Tex Coleção e também os novos Almanaques).

Geralmente num bom best seller o final gera uma expectativa para além da imaginação e também nesta despedida as surpresas renovaram-se, pois além da presença do Nelson e do José Francisco, também se deslocou ao aeroporto o texiano Paulo Madeira, que além de estar presente no dia da chegada do Editor a Lisboa, também teve o prazer de ser o anfitrião do Dorival nos últimos dias da sua permanência em Portugal.

O último adeus do editor Dorival antes do embarque para o Brasil

As despedidas foram simples e fraternas, em clima de “volte em breve”. Com braços no ar, no último adeus, a emoção foi imensa, sendo preciso segurar a custo lágrimas teimosas que insistiam em saltar olhos afora. Nos que ficaram em terra, a esperança e a certeza de que os viajantes que sumiam nos céus do horizonte a bordo de um moderno avião levavam em seus corações lembranças especiais dos texianos portugueses e espanhóis que tiveram o privilégio de conhecer.

É, certamente o nosso texto termina exactamente por onde começou: só um personagem como Tex poderia proporcionar momentos maravilhosos e inesquecíveis nos quais pessoas e famílias que não se conhecem, são capazes de vencer centenas de quilómetros somente pelo prazer de estarem juntas e conviverem umas com as outras espontaneamente, vivendo a alegria da confraternização proporcionada por um herói de papel, criado no distante Setembro de 1948, fruto da mente criativa de G.L. Bonelli e da pena de Aurelio Galleppini…

* Este texto foi escrito por José Carlos Pereira Francisco, de Anadia, Portugal, por ocasião da visita de Dorival Vitor Lopes a Portugal e Espanha em fins de Abril e início de Maio de 2002.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

As Leituras do Pedro: Dragonero – Nacido de las llamas

As Leituras do Pedro*

Dragonero: Nacido de las llamas
Luca Enoch
(argumento)
Alfio Buscaglia (desenho)
Panini Comics
Espanha, 25 de Junho de 2020
195 x 259 mm, 208 p., cor, capa dura
ISBN: 9788413344133
22,00 €

Vendável

Geralmente pouco receptivo ao género narrativo, confesso-me rendido a Dragonero, por estes dias possivelmente a mais vendável franquia ‘moderna’ da Sergio Bonelli Editore.

Na verdade, volume após volume – disponíveis em edições robustas e generosas da Panini espanhola, compreensivelmente a cores, embora em termos pessoais talvez as preferisse no preto e branco original, tal como as está a publicar a Mythos no Brasil – Dragonero vai ganhando consistência e unidade, ao mesmo tempo que se expande pelos reinos de Erondar que lhe servem de cenário(s).

Desta vez, o aparecimento de um inusitado ser, que se revela mortal e apresenta uma conexão mental com Ian, leva este caçador de dragões e Gmor, o ogre que é seu companheiro, em mais uma perigosa missão nos confins da zona civilizada, onde as surpresas, os adversários e as vítimas se irão multiplicando.

Com uma narrativa sólida, feita de avanços e recuos, fortes momentos de acção e com as revelações a surgirem de forma progressiva, Nacido de las llamas, para além de envolvente, serve também para alargar o conhecimento dos leitores sobre o universo de Dragonero, os seus protagonistas e a sua fauna.

Como complemento, este volume apresenta ainda El último vuello, uma narrativa curta – para os padrões Bonelli, pelo menos – que, a posteriori, explica a origem do ser que Ian defronta na primeira história, fechando de alguma forma o círculo implícito. E fá-lo de forma muito interessante, pelo modo assertivo com complementa algumas lacunas que a narrativa principal (implicitamente) deixara.

Nota final

Vale o que vale – e até não seria a minha primeira escolha – mas se desejasse editar alguma série Bonelli em Portugal, a seguir a Tex – estando Dylan Dog de fora uma vez que já está de alguma forma em curso de publicação – Dragonero parece-me a escolha mais óbvia, comercialmente falando.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Tiger Jack na magnífica Arte de AMoreira

Um dos mais ilustres sócios do Clube Tex Portugal e também um dos principais colaboradores do Blogue do Tex, Antonio Carlos S. Moreira (AMoreira), volta a deslumbrar os nossos leitores com uma magnífica ilustração de sua autoria. Ilustração essa onde vemos Tiger Jack, ou Jack Tigre como é apelidado no Brasil, numa homenagem ao irmão de sangue de Tex, o verdadeiro chefe e defensor dos Navajos. E o nosso artista AMoreira já há algum tempo que não desenhava nada do mundo Tex, então para deleite dos fãs do Ranger resolveu brindar-nos com um dos seus personagens preferidos…

Tiger Jack na magnífica Arte de AMoreira

(Para aproveitar a extensão completa da ilustração acima, clique na mesma)

Resgatando o passado: LEITURAS E APONTAMENTOS TEX 2014

Por Mário João Marques *

Leituras e apontamentos 2014, por Mário João Marques – Página 15

Evolução da Série

Desde que Boselli assumiu o papel de curador da série que temos vindo a assistir, de modo mais ou menos gradual, a algumas evoluções que importa registar. Em 2014, Boselli manteve o estatuto de autor com mais histórias, mas é no início do ano, com El Supremo e Il Prigioniero di Yuma, que apresenta os seus melhores trabalhos, mais pela evolução que estes imprimem à série do que propriamente pela originalidade dos argumentos.

Girando em redor do auxílio prestado por Tex e os seus pards ao mítico e romântico Montales, El Supremo parece ser um regresso às origens bonellianas, um recuar até ao tempo em que o criador de Tex nos oferecia aventuras plenas de ação, de ambientes e de um imaginário de personagens capaz de sobreviver ao longo de décadas. Para regalo do leitor, esta aventura vai passar sucessivamente pela Baixa Califórnia, na fronteira com o Arizona, por San Diego (na Califórnia), pelo deserto de Altar no México, por uma ilha perdida e quase inexpugnável no Pacífico ao largo da Baixa Califórnia, e ainda por São Francisco, palco de tantas aventuras memoráveis, recuperando toda a panóplia e fina flor bonelliana que vive na grande cidade, como Tom Devlin, Mike Tracy, Lefty Potrero, Bingo e Angelo.

A acompanhar este elenco de luxo de convidados, existe toda uma galeria extensa de personagens, umas naturalmente mais decisivas que outras, com destaque para Donen e Mike, inicialmente do mesmo lado da barricada, mas que os acontecimentos e as contingências da aventura rapidamente vão colocar em lados opostos. Com um final aberto em relação a ambas as personagens, Boselli deixa margem de manobra para que possam reaparecer em futuras aventuras, existindo assim uma estratégia de continuidade que o autor parece adotar e que passa por dotar a série de um conjunto de personagens capazes de serem identificáveis pelo leitor.

Pranchas de Maurizio Dotti e Alfonso Font

Apesar de algum excesso de diálogos em determinadas passagens, El Supremo apetece ler e reler, apreciar um detalhe antes despercebido, compreender o ambiente histórico, o enquadramento social e político, as reais motivações das personagens, mas sobretudo reter as caraterísticas evolutivas que Boselli parece querer impor para a série: Kit Willer e Jack Tigre assumindo um protagonismo que muitas vezes falta; novas personagens que deixam a ideia de não abandonar definitivamente o “palco” e poder vir a regressar no futuro; um argumento que, ao apresentar uma plenitude de situações e ambientes, não se limita a uma aventura de puro oeste, passando também por outros registos.

A estratégia de continuidade acima assume outros contornos em Il Prigioniero di Yuma, porque desta vez Boselli junta duas personagens por si criadas, Durango em Terre Maledette e Kid Rodelo em I Sette Assassini, cujas origens remontam a diferentes aventuras, ligando-as por um laço familiar que todos estaríamos longe de imaginar. Esta estratégia, como atrás referido, acaba por criar laços de identificação para com o leitor, conferindo uma certa continuidade e coerência. Se G.L. Bonelli foi capaz de criar um imaginário, rapidamente aceite e assumido pelos leitores, Boselli parece acreditar na mesma fórmula como ponto de uma estratégia evolutiva pretendida.  

Leituras e apontamentos 2014, por Mário João Marques – Página 16

Outro traço evolutivo a considerar prende-se com o tratamento dado a determinadas caraterísticas da série, encontrando-se bem evidente no modo como em Il Prigioniero di Yuma Boselli sublinha a eterna dualidade entre a justiça da lei e a lei da justiça. Ao longo das páginas, Tex é confrontado e depara-se com o dilema em ter que decidir qual a melhor e mais justa decisão a tomar perante um grupo de três irmãos que assalta bancos e mata a sangue frio, quando a tal obrigados. Será que os atribulados acontecimentos do seu passado justificam a conduta presente e os anseios de vingança dos jovens? Será a justiça da lei, que levará o grupo até à barra dos tribunais e porventura à pena capital, o desenlace mais justo? Neste sentido, esta é uma daquelas aventuras que o leitor é levado, por força dos acontecimentos, pela personalidade dos intervenientes ou pelos motivos que movem a sua conduta, a torcer por quem não está necessariamente do lado certo da lei. Já na mítica aventura Caçada Humana de Guido Nolitta, ao conduzir um jovem acusado até um juiz, Tex vai gradualmente mudando a sua opinião em função da força dos acontecimentos e do julgamento que, ao longo da aventura, vai fazendo do jovem. A aventura, ainda hoje considerada por muitos como a melhor de sempre, marcou uma geração de leitores e apresentou um Tex diferente, puramente nolittiano, um Tex que duvida e cuja ação não se reduzia a impor a lei.

Desenho de Corrado Roi para a capa “L’Orda del Tramonto”

Nesta aventura de Boselli, Tex também manifesta as mesmas dúvidas, assume o mesmo comportamento, analisa a situação e interroga-se legitimamente sobre o real valor da lei dos homens quando esta não serve a justiça, afinal e desde sempre, o principal valor para Tex. Há, no entanto, uma diferença fundamental, porque este Tex que Boselli nos apresenta não vai decidir sozinho, vai ouvir a opinião dos outros pards e por isso parece adquirir uma nova caraterística. Este Tex aceita a vontade da maioria, mesmo que contrária à sua. Este Tex certamente que também duvida, mantém as suas convicções, continua a seguir os seus instintos, mas adquire outros contornos quando deixa de alguma forma de concentrar em si mesmo a decisão final, fazendo-a depender de prévia discussão e de uma “vontade colegial”.

Não deixando de admitir que uns possam considerar ser esta uma postura “historicamente” inaceitável e que se afasta dos cânones bonellianos, acredito que nesta abordagem de Boselli residirá muito do interesse que a personagem continua a irradiar. Será que as séries e os heróis são imutáveis? Será que o próprio Sergio Bonelli/Guido Nolitta estava errado quando abordou a personagem de modo diferente da do seu pai? Essa visão porventura impediu-o de escrever algumas das melhores aventuras de Tex? Creio, no fundo, que muito da habilidade de Boselli está bem patente nesta evolução que vem impondo, já que, ao manter as principais caraterísticas da personagem, o autor não hesita em introduzir alterações capazes de a adaptar às novas realidades e aos novos tempos.

Outros Trabalhos, Outras Abordagens

Depois de excelentes trabalhos em séries por si idealizadas e criadas, como Demian ou Cassidy, ou noutras, onde se mantém como um dos argumentistas, como Dylan Dog, Pasquale Ruju tem vindo a assumir em Tex um papel cada vez mais importante e sobretudo apreciado pelos leitores. O autor tem vindo a provar ser um valor seguro na série, não só pelas ideias fortes que consegue transmitir nos seus argumentos, pelo equilíbrio com que articula e organiza as aventuras, pela capacidade de alternância da ação entre diferentes ambientes e personagens, mas sobretudo no modo e na forma como consegue construir personagens fortemente caraterizadas para enfrentar Tex.

Em Furia Comanche, a personagem de Wasape sublinha e comprova esta habilidade do autor, já que, ao tornar-se num guerreiro imortal, pelo menos aos olhos de alguns, a personagem assume contornos fantásticos e uma força que vai para além do racional, dificultando a ação e o papel de Tex.

Leituras e apontamentos 2014, por Mário João Marques – Página 17

Também L’Orda del Tramonto, aventura publicada no Tex Gigante do ano, apresenta um adversário bem definido e caraterizado na figura de Vladar. Alto, forte, rápido e certeiro no gatilho, com uma notável capacidade em ver na escuridão, Vladar é um antagonista interessante do ponto de vista da construção da personagem e dos motivos que movem a sua ação, o amor e a paixão por uma mulher, afinal algo que o levará à derrota final. 

Esta aventura é ainda interessante do ponto de vista da sua preparação e da atmosfera desenvolvida. Podia ter sido uma aventura de Dylan Dog ou de Dampyr, mas afinal Tex e Carson são os protagonistas de uma história escrita por Ruju propositadamente para o traço gótico de Corrado Roi, artista muito apreciado em Itália e um dos pesos pesados da Sergio Bonelli Editore, onde já desenhou quase todas as personagens.

Conhecedor do talento de Roi (com quem trabalha em Dylan Dog) para determinados ambientes e atmosferas, Ruju escreveu uma aventura fora dos cânones da série, assumindo um risco perfeitamente definido, já que podia ir contra as expetativas dos mais conservadores. Por isso, para quem aguardava por um western clássico com muitos cowboys, tiroteios, xerifes, saloons ou extensas pradarias, desiluda-se, porque o leitor vai encontrar-se perante uma aventura de traços góticos.   

Já Tito Faraci parece estar a perder alguma força. O próprio autor, ao afirmar ser muito difícil escrever para Tex, parece acusar esta debilidade. Não partilhando da opinião de alguns, que acusam Faraci de ainda não ter escrito uma grande história para Tex, mesmo assim sou levado a considerar que os seus últimos trabalhos pecam por alguma consistência, porque o autor tem vindo ultimamente a privilegiar a ação em detrimento da trama.

Prancha de Civitelli para “Delta Queen”

Nem sempre foi assim, no início com Il Sceriffo Indiano, por exemplo, Faraci construiu a sua melhor aventura de Tex, sobrepondo os relacionamentos humanos e a espessura psicológica das personagens à ação, sem descurar esta. Mesmo uma das aventuras seguintes l’Uomo di Baltimora, onde se estreou Giovanni Bruzzo, parece ser interessante, construindo uma personagem, na figura um lord inglês em busca de aventura, que testemunha, através da sua escrita e do seu desenho, vários episódios do oeste americano.

Ciente da dificuldade em escrever para Tex, Faraci tem vindo desde então a optar por uma receita que já deu mostras de sucesso, apresentar um ranger infalível, muito interventivo, liderante, uma certa forma do próprio autor se proteger perante os mais exigentes. Faraci acredita assim ter encontrado um refúgio, uma base que lhe permita meter o pé em terreno seguro. Apesar de escrever aventuras agradáveis, como é o caso de L’Indomabile, faltará dar um passo em frente, o passo seguinte, o salto qualitativo que prometeu nos primeiros trabalhos, assumindo o seu modelo para Tex sem desvirtuar as principais caraterísticas da personagem. Talvez por isso, talvez ciente disso, o autor assuma a sua dificuldade em escrever para Tex.

Um Grande Civitelli e uma Grande Estreia

Num ano onde registamos a ausência de desenhadores consagrados como Giovanni Ticci, Andrea Venturi, os irmãos Cestaro ou Corrado Mastantuono, Fabio Civitelli fez as “honras da casa”, ao apresentar mais um excelente trabalho, assim como assistimos à estreia na série de um valor seguro, Maurizio Dotti.

Assumindo aqui a minha admiração pelo autor e pela pessoa, Civitelli regressou em força com mais um trabalho de evidente profissionalismo, permanente vontade em explorar novos caminhos e experimentar novas fronteiras gráficas, com um resultado final de elevada qualidade. O desenhador aretino é desde há anos um dos valores seguros e firmes do desenho italiano e um verdadeiro embaixador da série. O seu traço realista e elegante de grande qualidade, assim como o tratamento de ambientes, tudo é insuperável em Civitelli. O trabalho em Delta Queen, que explora desta vez os ambientes fluviais, faz justiça ao que de melhor o autor tem apresentado, mesmo levando em linha de conta o facto de não ter utilizado com tanta frequência o seu célebre pontilhismo, adotando fundos mais ligeiros e menos elaborados, devido à necessidade de posterior colorização.

2014 foi também o ano de estreia em Tex de outro grande desenhador: Maurizio Dotti, que já tinha tido uma passagem fugaz pela série quando, com Alarico Gattia, desenhou Glorieta Pass para o Almanacco del West 1998.

Leituras e apontamentos 2014, por Mário João Marques – Página 18

Habituado a ambientes muito concretos e definidos em Dampyr, Dotti revela nesta nova fase toda as suas potencialidades, confirmando ser um desenhador de enorme talento. E isso torna-se mais evidente e motivo de realce pelo facto do caderno de encargos de Boselli em El Supremo ir muito além do expetável para um desenhador recém-chegado à série. Dotti tem que enfrentar diferentes situações, uma extensa galeria de personagens, mas sobretudo tem que desenhar muitos e diferentes ambientes. Em tudo revela um enorme virtuosismo, uma enorme capacidade de recriação, um domínio quase perfeito das personagens, deixando aqui um trabalho de grande superação gráfica. Quer nos ambientes de puro oeste com paisagens áridas e agrestes, noites fustigadas pela chuva, fortes militares, tabernas ou mesmo o mosteiro logo na cena inicial, quer nos ambientes citadinos de São Francisco, divididos entre a elegância do urbanismo da cidade e os locais mais recônditos, envoltos num manto de nevoeiro noturno, para terminar no épico combate na ilha de El Supremo, Dotti revela ser um desenhador de traço realista e elaborado que joga muito com os efeitos entre o claro e o escuro e que prefere os enquadramentos menos clássicos, compondo cenas onde as personagens surgem dos mais diversos ângulos e perspetivas. A sua composição dos quatro pards parece quase conseguida e definitiva, com notáveis Kit Willer e Jack Tigre, faltando apenas aperfeiçoar o seu Tex, cujo modelo, se bem que imponente, parece ainda não estar completamente definido pelo autor.

Sem deixar de referir os desenhadores das aventuras curtas, publicadas em Color Tex, Giampiero Casertano, Sandro Scascitelli, Nicola Genzianella e Stefano Biglia, este último com a melhor prestação, aponto baterias para os restantes trabalhos, os quais foram apresentados por autores de diferentes origens, os espanhóis Alfonso Font e José Ortiz (cujo desaparecimento nos referimos mais à frente), o argentino Ernesto Garcia Seijas, o cubano Orestes Suarez e o italiano Corrado Roi.

Prancha de Ernesto Garcia Seijas para “Furia Comanche”

Alfonso Font parece predestinado a desenhar excelentes aventuras texianas, muito por força dos argumentos de Boselli, quase sempre de elevada qualidade e que Il Prigioniero di Yuma veio, mais uma vez, demonstrar. Não é verdadeiramente um desenhador de traço elaborado, por vezes é mesmo acusado de um traço algo caricatural e que tende a ser sintético, mas a verdade é que, aprecie-se ou não o estilo, o autor espanhol consegue ser sempre eficaz na construção de ambientes e compor trabalhos com uma atmosfera de western puro. 

Por seu lado, Ernesto Garcia Seijas parece ter cimentado o seu lugar na série, sendo Furia Comanche a sua sexta aventura, mantendo assim um ritmo de publicação que apraz registar. Num trabalho isento de falhas, o autor parece ter abandonado em definitivo a caraterização de um Tex muito sorridente e pouco consentânea com a imagem mais dura, incisiva e cínica do ranger bonelliano. Aquele Tex assemelhava-se muito aos cowboys dos velhos e clássicos seriados americanos, onde os heróis adotavam sempre uma postura mais romântica. Seijas vai definindo e aperfeiçoando o seu Tex, desenhando-o mais de acordo com as caraterísticas que lhe deram fama.

Desenhador que domina a construção de ambientes e a caraterização das personagens, revelando estar à vontade no western e apresentando páginas de enorme detalhe, Orestes Suarez falha contudo na composição do ranger, apresentando um Tex granítico, incapaz de demonstrar emoções e sentimentos.

Depois de ter desenhado muitas das personagens da Sergio Bonelli Editore, Corrado Roi, que já tinha realizado uma interpretação pessoal de Tex no portfolio I Volti Segreti di Tex, publicado em 1993, afirma ter chegado ao topo da extensa lista com este seu trabalho em L’Orda del Tramonto, aventura precedida de muita curiosidade.  

Muito apreciado sobretudo pela notável capacidade em que consegue construir ambientes de uma grande riqueza crepuscular e por um estilo gráfico inconfundível, creio no entanto que semelhantes elogios serão sempre mais justificados no Corrado Roi ilustrador do que propriamente no desenhador. As capas feitas, sobretudo para Dylan Dog, revelam um autor dotado no tratamento das cores escuras e que consegue retratar a contento personagens e ambientes, talento que não sobressai da mesma forma quando chamado a compor cenas sucessivas, onde parece faltar um certo dinamismo e onde algumas personagens se assemelham muito entre si.

Mais à vontade nos ambientes escuros e lúgubres, nem sempre o trabalho do autor assume o mesmo nível e harmonia ao longo das páginas de L’Orda del Tramonto, onde toda a cena final, quando Tex e Carson enfrentam Vladar no escuro, parece ser o seu ambiente de eleição e onde Roi acaba por exaltar mais as suas qualidades.

Leituras e apontamentos 2014, por Mário João Marques – Página 19

Obrigado Senhor Ortiz

Apesar do último trabalho de José Ortiz só vir a ser publicado no Maxi Tex de 2015, L’Indomabile deixa mesmo assim um certo simbolismo, já que a sua publicação surge poucos meses após o falecimento do autor. Depois da sua estreia em 1993, com a aventura O Grande Roubo, Ortiz nunca mais deixou de trabalhar para Tex, o que permitiu ao autor, e apesar da idade, desenhar ainda várias aventuras e permanecer na história da série como um dos seus mais importantes desenhadores.

Ortiz desenhou páginas intensas em aventuras inolvidáveis: o já referido O Grande Roubo, mas também Os Assassinos de Lincoln (que marcou a sua estreia na série normal), Rumo a Forte Apache, O Trem Blindado, O Ouro dos Confederados ou ainda O Caçador de Fósseis, estas três últimas aventuras escritas por Antonio Segura, igualmente espanhol e também recentemente desaparecido.

O seu Tex, decalcado do modelo ticciano, sempre foi cínico e duro, imponente em páginas plenas de negros intensos, uma caraterística do autor que sempre dividiu os leitores, conferindo-lhe uma imagem de marca que muitos chegaram a apelidar de estilo porco, sem que esta classificação contenha em si alguma conotação negativa. Por outro lado, as suas personagens sempre foram vincadas na sua construção, muito maniqueístas, na medida em que rapidamente o leitor as identificava e rotulava com a sua própria natureza e com o papel que desempenhavam na ação. No entanto, desde há alguns anos que o seu traço acusava o passar do tempo, não apresentando a segurança e o detalhe que fizeram de Ortiz um autor muito apreciado no panorama da banda desenhada internacional.

Prancha de José Ortiz para “L’Indomabile”

Em jeito de homenagem, Boselli escreveu que o western é feito de sangue, suor e muita pólvora, onde a dura lei da natureza convive permanentemente com a liberdade dos grandes espaços. Os homens deste velho oeste devem ser duros e monumentais e Ortiz foi um dos artistas que soube captar e caraterizar bem esta verdadeira atmosfera e estas personagens. Nem mais!

Color Tex – Laboratório Experimental?

Inicialmente de periodicidade anual, o Color Tex passou entretanto a semestral, alternando números com aventuras mais extensas, desenhadas geralmente por um autor da equipa regular, com outros números onde se publicam quatro pequenas histórias, desenhadas por autores externos à série. Desta forma, a Sergio Bonelli Editore adotou uma política que constitui um marco na vida editorial da série, uma vez que, pela primeira vez, uma publicação de Tex apresenta exclusivamente histórias completas. Não é a primeira vez que os leitores de Tex têm o prazer de ler histórias mais curtas do ranger, mas os trabalhos anteriores de Galep, Ticci ou Civitelli tinham sido apresentados de forma isolada, nunca em seguimento de alguma opção editorial.

Diferenças também no papel utilizado e na colorização adotada, as aventuras mais extensas publicadas no papel habitualmente utilizado pela editora, com uma colorização mais uniforme, elementar e conservadora, alternando com os números que apresentam as aventuras curtas em papel couché brilhante, com uma colorização mais viva e moderna, sem que isso signifique uma melhor qualidade.

A Sergio Bonelli Editore parece ter aqui um desafio, não efetuar uma transição radical do preto e branco para a cor, numa série com décadas, sem ferir os mais puristas. Certamente que Tex não deixará de ser uma série fundamentalmente a preto e branco e apreciada por isso mesmo. No entanto, isso não invalida que a editora não possa e não deva adotar estratégias e políticas tendentes a conquistar novos leitores e outros nichos de mercado, seja por via de projetos editoriais específicos, como a parceria com os jornais La Repubblica e L’Espresso, seja por continuar a publicar aventuras a cores em cada número centenário da coleção principal ou através de novas coleções como este Color Tex.

Vejo com toda a naturalidade o caminho que a Sergio Bonelli Editore está a trilhar, o qual poderá ser mais ou menos longo conforme seja a resposta do mercado, mas sobretudo quais os ensinamentos a recolher deste laboratório de experiências que, no fundo, parece-me estarmos a assistir. A atmosfera de Tex, caraterizada por ambientes puros, poeirentos e que vive muito da caraterização da natureza e dos grandes espaços, estará mais ou menos preservada e defendida consoante a escolha do papel, o tipo de colorização e sobretudo do trabalho dos desenhadores, que deve ser previamente preparado em função e tendo em atenção a sua posterior colorização. Por exemplo, em entrevista concedida a propósito do seu trabalho em Delta Queen, Civitelli veio afirmar o cuidado que teve em não utilizar com tanta frequência o seu célebre pontilhismo, adotando fundos mais ligeiros e menos elaborados, devido à necessidade de posterior colorização da aventura.

Leituras e apontamentos 2014, por Mário João Marques – Página 20

Há ainda um ponto que me parece importante sublinhar e que se refere especificamente à opção por publicar aventuras mais curtas. Sempre tive preferência por aventuras mais extensas que permitam aos autores estenderem ação e personagens com maior desenvolvimento e densidade. Tex é uma série que vive muito dos tempos da narração e dos grandes espaços do oeste. Aventuras plenas de diálogos, sobretudo entre Tex e Carson, que se desenrolam em vários cenários, são uma das imagens de marca da série. De certa forma, as aventuras mais curtas não permitem o mesmo desenvolvimento, apelando antes a um maior impacto da ação, intensidade constante, outra capacidade para os autores poderem de algum modo surpreender o leitor. Numa linguagem bem própria, os autores têm que jogar rapidamente todos os seus cartuchos, o que por vezes não conseguem.

Color Tex

Não quero com isto dizer que esta opção editorial não tenha ou não possa vir a conquistar o seu espaço, muito pelo contrário, acho que é uma aposta da Sergio Bonelli Editore que tem tudo para dar certo. Tex é a série que iniciou a bem sucedida aventura editorial da Bonelli, é a série que mais vende, uma imagem de marca editorial e, por tudo isso, esta aposta tem tudo para dar certo. Permitirá apreciar o trabalho de desenhadores fora do staff normal da série, permitirá ver o herói em aventuras menos densas e com tempos mais concretos, apresentando-o dessa forma em registos menos habituais.

As Pinturas de Villa

E não nos esqueçamos das magníficas capas de Claudio Villa. Creio que 2014 foi mesmo um ano de excelente “colheita” neste aspeto. Repare-se em Delta Queen, com uma verdadeira pintura de um Tex em primeiro plano, atuante, perfeitamente enquadrado perante as águas do Mississipi iluminadas pelo luar e onde navega um luxuoso Delta Queen.  Detenhamo-nos na primeira e na última capa da aventura El Supremo ou na de L’Indomabile, para por fim apreciar aquelas que considero serem as melhores, as duas capas que Claudio Villa compôs para Il Prigioniero di Yuma. Se a primeira retrata Tex e Carson perante a campa do casal Rainey, em busca de respostas que escasseavam, a segunda capa revela uma inovação na série normal, já que, pela primeira vez, retrata duas situações diferentes no tempo e no local, contemporaneamente presentes.

As Pinturas de Villa

Nota: As aventuras Il Ricatto di Slade (de Tito Faraci e Giovanni Bruzzo), La Stirpe dell’Abisso (de Mauro Boselli e Alessandro Piccinelli) e L’Avamposto dell’Infamia (de Pasquale Ruju e Roberto Diso), foram publicadas em Itália já após a escritado presente artigo, pelo que os comentários aqui feitos não tiveram em consideração as mesmas.

* Texto de Mário João Marques publicado originalmente na Revista nº 1 do Clube Tex Portugal, de Novembro de 2014.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)