Resgatando o passado: Tex pelas trilhas lusitanas e espanholas

Por José Carlos Francisco (Maio de 2002)

Encontro Festivo no aeroporto

Aeroporto de Lisboa, 25 de Abril de 2002 – Paulo Silva, Fábio Teixeira, Paulo Madeira, José Carlos Francisco, Dorival Vitor Lopes e Orlando Santos Silva

Só um personagem como Tex poderia proporcionar momentos maravilhosos e inesquecíveis nos quais pessoas e famílias que não se conhecem, são capazes de vencer centenas de quilómetros somente pelo prazer de estarem juntas e conviverem umas com as outras espontaneamente, vivendo a alegria da confraternização proporcionada por um herói de papel, criado no distante Setembro de 1948, fruto da mente criativa de G.L.Bonelli e da pena de Aurelio Galleppini…

No dia 25 de Abril último (dia da Revolução dos Cravos) a capital de Portugal, situada entre sete colinas, foi palco de um encontro memorável que o Blogue do Tex não pode deixar sem registar. Dorival Vitor Lopes, o editor de Tex no Brasil, chegou a Lisboa para uma visita de dez dias à Península Ibérica. Estava acompanhado de sua esposa Helenice e de muitas revistas Tex.

No aeroporto da Portela esperava pelo Editor um alegre grupo de portugueses, fãs lusitanos da revista TEX, cada um deles levando alguma revista do nosso Ranger nas mãos, o salvo conduto combinado anteriormente pela Internet e telefone, já que alguns ainda não se conheciam pessoalmente.

4 pards no aeroporto

Na zona de desembarque reinava um ambiente de impaciência, de alegria e de ansiedade. Um certo nervosismo invadiu a todos quando ouviram o anúncio da aterragem do voo TAP proveniente de São Paulo, o sinal evidente de que se aproximava o momento tão especial que esperavam: o reencontro para uns e do primeiro encontro para outros.

Assim que o célebre editor de bermudas chegou junto aos lusitanos, foi literalmente tomado de assalto, uma vez que trazia consigo as revistas do Ranger mais temido do Oeste, encomendadas por todos os presentes, os quais manifestaram uma alegria simples e autêntica, com risos amigáveis e barulhentos, além de palmas incontidas. Certas pessoas que passavam achavam graça por tanto entusiasmo, outras reprovavam aquela agitação com um olhar frio, mas a grande confusão era plenamente compreensível desde que conhecidas as causas: ocorre que a fome a saciar era muita, já que alguns dos presentes não liam Tex há vários anos, desde que a revista deixou de ser distribuída em terras lusitanas.

O comité de boas vindas era constituído por Paulo Silva, Fábio Teixeira, Paulo Madeira, José Francisco e Orlando Santos Silva, além das esposas e filhas de dois deles. Após os alegres momentos iniciais, o grupo dirigiu-se para um pequeno bar do aeroporto, onde fizeram as devidas apresentações, conhecendo melhor uns aos outros.

Rota turística

Depois de momentos agradáveis junto aos texianos em Lisboa, Dorival e sua esposa Helenice, acompanhados de José Francisco, sua esposa Fátima e filha Andreia, seguiram com a diligência da Overland em direcção à cidade do Porto, distante 300 km ao norte da capital portuguesa, onde se encontrariam com outro texmaníaco, chamado Hernâni. Lá chegando, este os aguardava sorridente, já com um vagão inteiro da West Pacific reservado (uma carrinha de passageiros Mercedes alugada) para o passeio que viria a seguir. Animado, o Hernâni propôs-se mostrar aos novos amigos a mais antiga região de Portugal: o Porto, cidade que faz jus à sua vocação marítima e mercantil, tendo sido esta cidade que deu nome a Portugal e também a um vinho especialíssimo muito apreciado em todo o mundo.

Assim que o grupo acomodou-se, o veículo pôs-se em marcha, dirigindo-se para a zona litorânea. Após vencerem o Cais da Ribeira, seguiram por uma estrada junto ao rio, da qual era possível ver um belo panorama composto das muralhas fernandinas, do postigo do carvão e das casas típicas da zona.

No centro desta encantadora cidade os presentes visitaram a Estação de S. Bento, onde admiraram o átrio repleto de peças de rara beleza e imponência, decorados com lindíssimos azulejos que retratam artisticamente cenas históricas.

Guiados pelo texmaníaco Hernâni, puderam apreciar os morros íngremes que descem até ao rio Douro, de onde vê-se o conjunto ímpar e inconfundível da arquitectura do casario da região, que tem um centro histórico classificado pela UNESCO como Património Histórico da Humanidade, devido à sua importância, e também os Monumentos onde a cor predominante é o cinza do granito.

Jantar de Confraternização

Texianos participantes do jantar

O entusiasmo crescia à medida que o próximo compromisso aproximava-se. Do Porto o grupo seguiu para a cidade de Gaia, na margem sul do rio Douro, onde estava marcado um jantar com os texianos do norte de Portugal, os quais já aguardavam o grupo ansiosamente.

O saloon escolhido pelos cobóis para molhar a garganta foi a Adega Presuntaria Transmontana, situada às margens do lindo rio Douro. Este estabelecimento teve o privilégio de receber para o jantar em suas dependências o selecto grupo de 13 pessoas, texianos e texianas, sim, texianas, pois que além de oito apaixonados leitores do nosso Ranger, também estavam presentes as esposas e namoradas, além da pequena Andreia Sofia. E elas rapidamente integraram-se neste convívio, compartilhando do espírito texiano que presidiu o encontro.

Conversas texianas à mesa

Após as devidas apresentações – e graças a Tex, naturalmente – parecia que todos já se conheciam há muitos anos. Participaram do jantar em homenagem ao editor de Tex os seguintes apreciadores do nosso pard: Dr. Francisco Costa e esposa, José Carlos Francisco, esposa e filha, Álvaro Machado e namorada, Hernâni Castanhas, Pedro Vasconcelos, Professor Eduardo e Jorge Carvalho, para além do homenageado e da sua simpática esposa.

A recepção ao nosso querido editor, foi calorosa. Os agradecimentos e elogios ao trabalho do editor de bermudas na ocasião foram muitos, todos direccionados ao tratamento gráfico e editorial “impressionante” imposto pela Mythos às publicações de Tex, padrão que nenhuma editora anterior tinha conseguido dar, além da ênfase nas publicações das edições especiais, que tanto agradaram os leitores portugueses. Além disso, o encontro foi marcado por um pedido especial: os texianos portugueses pediram ao Dorival que distribuísse novamente a revista Tex nas bancas de revistas de Portugal, o que de pronto ele respondeu que esse assunto já estava na agenda.

Família texiana à mesa

Como a mesa era grande, Dorival Vítor Lopes ia mudando de cadeira e conversando um pouco com cada um. As revistas que trouxe para estes leitores (todas encomendadas e pagas com antecedência) circulavam de mão em mão e arrancavam exclamações de êxtase. Alguns dos presentes haviam comprado apenas as edições mensais de Tex, entretanto, ao verem os Gigantes, os Almanaques e as Edições Históricas de outros, logo arrependeram-se e pediram essas também, querendo inclusive pagar na hora com medo de ficarem sem essas edições. Dentre estes, o Jorge Carvalho era o mais deslumbrado e dizia de quando em vez: “Eu quero tudo. Mande-me tudo o que a Mythos faz. Quero as revistas Marvel, Batman, todos os Tex antigos, tudo mesmo…

A composição do ambiente, que já estava agradabilíssima sob a luz do pôr-do-sol, beirou à perfeição com o barulho das ondas a bater no cais. E na hora da refeição, os famosos bifes do velho Oeste com três dedos de altura sepultados numa montanha de batatas fritas deram lugar à deliciosa comida caseira portuguesa, acabada de sair do forno.

À saída do jantar texiano

O tema dos debates e rodas de conversação durante o jantar neste saloon d’além mar destacavam o mundo dos quadradinhos e das aventuras do Ranger mais temido do Oeste. Dorival confidenciou que nunca esteve tanto tempo sentado numa mesa de refeição e destacou que, motivados por uma força interior, ninguém tinha pressa em levantar, como que desejando eternizar aquele momento de convívio tão agradável.

No final, como apoteose, todos os presentes brindaram a Tex, ao Dorival e ao futuro da Mythos Editora, registando o momento numa fotografia, a qual fará com que este evento seja sempre lembrado por todos os presentes. Durante as despedidas, a promessa evidente de um novo encontro a realizar no próximo ano, se possível com mais caras novas, ou seja, com novos fãs de Tex.

Espanha, terra de surpresas!

José Carlos, Dorival e Luís Sierra

Assim como os pards deslocam-se rompendo fronteiras para fazer cumprir os desígnios da aventura, os nossos aventureiros partiram rumo à Espanha (sempre com as revistas TEX a tiracolo), com destino ao famoso Santiago de Compostela, onde encontrariam Luís Sierra, leitor do Ranger brasileiro em virtude de Tex também ter deixado de ser editado na Espanha há muito.

Após as devidas apresentações, o Luís levou o grupo à descoberta de Santiago, local de romarias e peregrinações vindas de toda a Europa e mesmo de outros locais do mundo. O local outrora deserto hoje é uma magnífica cidade com vários monumentos, destacando-se entre eles a majestosa Catedral de Santiago de Compostela, local que na Idade Média foi um dos principais pontos de peregrinação, tão famoso e conhecido quanto Roma e Jerusalém, devido a ali estar localizado o túmulo de S. Tiago, apóstolo de Jesus.

José Carlos, Luis Sierra e Dorival no Bodegon do Xulio

Como curiosidade destas terras, todos tiveram uma surpresa agradabilíssima: nesta mesma cidade descobriram um estabelecimento comercial de nome “Bodegon do Xulio“. Será que este Bodegon espanhol e a Taberna do Julio (esta última localizada no Golfo da Guinea e citada no Zagor Italiano nº425) fazem parte da mesma rede de restaurantes que pertence ao coleccionador bonelliano Júlio Schneider?! Interrogamos o barman e descobrimos que o proprietário do Bodegon não poderia tirar esta dúvida do grupo porque estava viajando ao Brasil, em férias no paradisíaco recanto de Itapoá, litoral norte de Santa Catarina. Será???

Vila Praia de Âncora, de volta a Portugal

Para cumprir outra escala, foi preciso atravessar novamente a fronteira e regressar a Portugal, desta vez a Vila Praia de Âncora, onde o texiano Dr. Francisco Costa, uma pessoa carismática, alegre e sempre de bem com a vida, os aguardava. Assim como Tex e Carson pouco dormem quando visitam El Morisco, apreciando sua biblioteca, a sua colecção de espécimes raros e objectos de toda espécie, também os nossos aventureiros pouco dormiram nas duas noites em que pernoitaram na casa de Francisco Costa. Quiseram aproveitar o máximo de tempo junto à biblioteca pessoal deste que é considerado um dos maiores coleccionadores de Revistas de Banda Desenhada de Portugal.

A biblioteca de Francisco é o um refúgio seguro depois de cada dia de trabalho, na qual encontramos milhares de exemplares de revistas, algumas raríssimas, datadas do início do século passado. Em relação a Tex, Francisco possui colecções fabulosas, entre elas todas as publicações italianas de Salvatore Taormina e todas as edições de Cronaca di Topolinia, inclusive os pósteres de Tex, Ken Parker, Diabolik e também a revista colorida “Fumetti, O melhor dos Quadrinhos Italianos“, editada no Brasil pela Editora Globo em Novembro de 1993. De quebra, tem também os Tex Gigantes franceses (que maravilha de papel) e muitas colecções de outros personagens Bonelli.

José Carlos, Dorival e Dr. Francisco Costa

A ambição actual de Francisco Costa é conseguir toda a colecção de Tex original italiana, mas somente da primeira edição, objectivo difícil de ser concretizado em virtude da antiguidade das primeiras edições. Mas as dificuldades não o fazem desistir desta meta, ao contrário, reforçam a sua determinação em busca deste objectivo.

Durante a agradável estadia junto ao Dr. Francisco Costa, o grupo fez um roteiro turístico encantador e conheceu o Parque Nacional da Peneda-Gerês, o mais lindo de Portugal, onde puderam descobrir in loco e entender todas as acções dirigidas para preservar um recanto onde tudo é ainda (mas por quanto tempo?) belo, selvagem, agreste e puro, resumindo numa única palavra: natural.

Salamanca, novamente Espanha

Na pista de outro texiano e motivados pelos convívio agradável em parte graças ao mundo de Tex Willer, evocado a cada conversa e a cada nova paisagem, o grupo retornou novamente a Espanha, desta vez com destino a Salamanca. Com o título outorgado pela UNESCO em 1988 como “Cidade Património da Humanidade”, Salamanca é famosa por reunir o esplendor da sua arquitectura renascentista a um clima alegre típico de uma cidade universitária, localizada no Oeste da Espanha, a 119 km da fronteira com Portugal.

Juan Eguiluz Pacheco, José Carlos e Dorival à conversa num bar em Salamanca

Ao adentrar na cidade, o grupo pôde deleitar-se com um verdadeiro espectáculo arquitectónico, pois todos os estilos fazem-se presentes nesta famosa cidade, na qual os edifícios, construídos em Pedra de Villamayor, proporcionam uma identidade própria e outorgam a Salamanca o título de “cidade dourada”.

José Carlos, Dorival e Juan Eguiluz em Salamanca

Na Plaza Mayor, considerada pelo conjunto arquitectónico como uma das três praças mais bonitas da Europa, ao lado de Veneza e Praga, outro fã do Ranger Tex Willer aguardava o grupo: Juan Eguiluz Pacheco, professor da Universidade de Salamanca, a mais antiga da Espanha e uma das quatro mais antigas do mundo.

Juan de imediato soube cativar os viajantes e, com muito apreço, fez com o grupo um pequeno tour histórico. Num clima fraterno de hospitalidade do velho Oeste, Juan contou muito da história da cidade e levou o grupo a visitar os principais monumentos de Salamanca e as catedrais Nueva e Vieja, além de uma curiosa Casa das Conchas.

Juan Eguiluz Pacheco é um texmaníaco que também precisou buscar alternativas para não ficar sem ler as aventuras de Tex depois que o mesmo parou de ser publicado na Espanha. Ele também recebe as revistas do nosso Águia da Noite directamente do Brasil, através da Mythos Editora e do próprio Dorival Vitor Lopes.

Peripécias de um Herói de Papel

Mas, assim como uma óptima aventura de Tex também termina num certo ponto, também o passeio do grupo pelas trilhas lusitanas e espanholas chegaria ao fim. No dia 5 de Maio voltaria ao Brasil Dorival Vitor Lopes e esposa. Mas, no aeroporto, outra agradável surpresa: o encontro com outro texiano português de nome Nelson Dias, que ao entrar em contacto com o Portal Tex, soube por intermédio de Gervásio Santana que o Editor Dorival estava em terras lusitanas.

Nelson Dias considerou a notícia dada pelo Portal Tex como “quase um milagre”, já que também estava buscando as revistas de Tex desde que acabou a distribuição da mesma em Portugal. Decidido, não pensou muito, pois numa única oportunidade retomaria a colecção de Tex e ainda poderia conhecer a pessoa que “faz” o Tex no Brasil, e viajou vários quilómetros só para conhecer o Editor e estar presente nas despedidas.

Aeroporto de Lisboa, 5 de Maio de 2002 – José Carlos, Paulo Madeira, Nelson Dias e Dorival Vitor Lopes

Após vários anos sem ler Tex, Nelson também teve o privilégio de reencontrar o caminho das aventuras do Ranger mais temido do Oeste, especialmente porque a Mythos ainda tem em stock todas as revistas a partir de TEX-351, números que ele, além de encomendar junto ao Dorival, ainda confirmou a assinatura de todas as séries de TEX (Tex Normal, Tex Edição Histórica, Tex Coleção e também os novos Almanaques).

Geralmente num bom best seller o final gera uma expectativa para além da imaginação e também nesta despedida as surpresas renovaram-se, pois além da presença do Nelson e do José Francisco, também se deslocou ao aeroporto o texiano Paulo Madeira, que além de estar presente no dia da chegada do Editor a Lisboa, também teve o prazer de ser o anfitrião do Dorival nos últimos dias da sua permanência em Portugal.

O último adeus do editor Dorival antes do embarque para o Brasil

As despedidas foram simples e fraternas, em clima de “volte em breve”. Com braços no ar, no último adeus, a emoção foi imensa, sendo preciso segurar a custo lágrimas teimosas que insistiam em saltar olhos afora. Nos que ficaram em terra, a esperança e a certeza de que os viajantes que sumiam nos céus do horizonte a bordo de um moderno avião levavam em seus corações lembranças especiais dos texianos portugueses e espanhóis que tiveram o privilégio de conhecer.

É, certamente o nosso texto termina exactamente por onde começou: só um personagem como Tex poderia proporcionar momentos maravilhosos e inesquecíveis nos quais pessoas e famílias que não se conhecem, são capazes de vencer centenas de quilómetros somente pelo prazer de estarem juntas e conviverem umas com as outras espontaneamente, vivendo a alegria da confraternização proporcionada por um herói de papel, criado no distante Setembro de 1948, fruto da mente criativa de G.L. Bonelli e da pena de Aurelio Galleppini…

* Este texto foi escrito por José Carlos Pereira Francisco, de Anadia, Portugal, por ocasião da visita de Dorival Vitor Lopes a Portugal e Espanha em fins de Abril e início de Maio de 2002.

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