Póster Tex Nuova Ristampa 315

Póster Tex Nuova Ristampa 315

Nesta ilustração realizada por Claudio Villa, vemos Tex Willer e Kit Carson, a defender, de Winchesters nas mãos, os limites do rancho de Starrett, que estava protegido por estacas com arame farpado, o único modo de impedir que o gado de Tessy Malone pudesse  invadir os pastos destinados à forragem para o Inverno.

Desenho usado no Brasil como capa de Tex em Cores #21 e inspirado na história “I cavalieri del Wyoming” de Claudio Nizzi e Fernando Fusco (Tex italiano #485 a #487).
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Texto de José Carlos Francisco

SECRET ORIGINS: TEX CLASSIC 3

Por Saverio Ceri [1]

Terceiro encontro com as “origens secretas” das capas da colecção Tex Classic, com duas capas pelo preço de uma! O terceiro número da mais recente proposta das aventuras de Águia da Noite possui, de facto, uma bela capa vintage assinada por Galep, que no entanto tem o “defeito” (do ponto de vista desta rubrica) de ter uma história editorial bastante curta, por esse motivo aproveitaremos o espaço restante para falar sobre outra imagem da capa que tem algo mais a dizer-nos, como você, prezado leitor, descobrirá em breve.

Vamos então falar do Tex Classic nº 3, que foi publicado no dia 31 de Março de 2017; A ilustração de capa deste terceiro Classic apareceu pela primeira vez em Agosto de 1952 como capa do sexto “Albo d’Oro“, como pode ser visto de seguida, graças, como sempre, ao incomparável trabalho do site www.collezionismofumetti.com.

Albo D’oro Tex #6

Esta bela capa, nunca mais foi usada desde então. A comparação entre as duas imagens deixa claro como a colorização moderna dos nossos dias, infelizmente, não consegue recriar as atmosferas do passado.

Tex Classic #3 – Fuoco nella notte

Passemos agora para uma das capas “ignoradas” da colecção Albo d’Oro.
Com as suas 64 páginas, o Tex Classic reproduz exactamente as histórias contidas em dois “Álbuns d’Ouro“, utilizando então como ilustração de capa apenas uma das duas capas publicadas originalmente na colecção nascida em 1952. Entre as capas não utilizadas destaca-se uma “vítima ilustre”, a do quarto Albo d’Oro que pode ser vista abaixo:

Albo D’oro Tex #4

Os leitores de Tex, mas nem só, não terão dificuldades em reconhecer nesta imagem acima a do primeiro e mítico volume do Tex actual.  Como era costume à época na editora Bonelli, para as capas das republicações reformulava-se as capas antecedentes, e Tex 2ª Série Gigante (nome da actual série principal de Tex), mais não era do que uma nova reedição das aventuras do Ranger de G.L. Bonelli a partir da primeira vinheta. Mas o destino quis que se tornasse uma colecção com vendas estonteantes, tanto que hoje, quase 60 anos após a sua estreia, continua a ser a série de banda desenhada mais vendida em Itália.

Com o termo “reformulação” queremos dizer: pegar o desenho original, retalhá-lo fisicamente para isolar a imagem a ser reutilizada, anexar o modelo noutra folha e redesenhar a “nova” capa ao redor. Foi assim, que naqueles anos, novas capas foram criadas a partir das edições anteriores. A capa do primeiro Tex, deste ponto de vista é exemplar: Abaixo pode ver-se a imagem cortada e rodada em relação ao eixo original, colocada numa nova folha, na qual uma nova capa alternativa foi desenhada, adicionando um círculo e o novo título.

A reformulação feita com a mítica capa de Tex número 1

A silhueta dos dois personagens da capa, inseparáveis, mostra um claro recorte de contorno, e atrás do coldre de Tex, um pedaço de linha cinética não eliminada que fazia parte da capa original. Estes dois elementos ainda podem ser vistos, precisamente na zona do revólver, na capa original do Tex nº 1, de 1958. 

Tex nº 1, 1958

Nos anos Oitenta do século passado com Tutto Tex, estes pequenos defeitos na imagem são eliminados, enquanto as cores mantêm-se mais ao menos fiéis às da edição de 1958, muito diversas da capa original de 1952.

Tutto Tex nº 1 – La mano rossa

Tex Nuova Ristampa nº 1 – La mano rossa

Tons mais escuros, por sua vez, para a Nuova Ristampa lançada nos anos Noventa, exibida acima, enquanto para uma das capas alternativas do Tex Classic 1, divulgada por ocasião do lançamento desta última série, limparam as cores clássicas.

Capa alternativa do Tex Classic nº 1

Encerramos por hoje com uma homenagem à lendária capa do Tex nº 1, realizada por Claudio Villa para a revista Dime Press nº 7, de Maio de 1994, em memória de Aurelio Galleppini, acabado de falecer à data.

Homenagem realizada por Claudio Villa à lendária capa do Tex nº 1

Saverio Ceri

P.S. – Pequeno teste para os fãs de Tex: A prática de reconstruir capas de imagens usadas de edições precedentes foi utilizada até tempos não muito distantes. Alguém recorda-se, ou quer tentar adivinhar, qual foi a última capa “recuperada” de Tex?

Encontre todas as outras origens das capas de Tex Classic na rúbrica Secret Origins: Tex Classic

[1] Material apresentado no blogue Dime Web em 18/04/2017; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 2017 Saverio Ceri

As Leituras do Pedro: Chanbara – El rayo y el trueno

As Leituras do Pedro*

Chanbara – El rayo y el trueno

Chanbara – El rayo y el trueno
Le Storie
Roberto Recchioni (argumento)
Andrea Accardi (desenho)
Panini
Espanha, 14 de Maio de 2020
195 x 259 mm, 112 p., p&b, capa dura
ISBN: 9788413343747
18,00 €

Outra vez

Com a Espanha (também) em fase de desconfinamento, a vida editorial do país vizinho retoma (algum)a normalidade, por isso estão de regresso as edições da Panini Comics espanhola. E, entre elas, como tem sido hábito ao longo dos últimos meses e recorrentemente destacado aqui no blogue, estão obras oriundas da Sergio Boonelli Editore.
Este mês de Julho, cabe a vez ao segundo tomo de Chanbara.
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A história contada é quase tão velha como as formas narrativas: a junção de um grupo de heróis para fazerem face a um bando (maior) de fora-da-lei. Dos Sete samurais, de Kurosawa a Comanche: Os Xerifes, de Greg e Hermann, com uma longa lista de outras obras de permeio, são muitas as abordagens feitas com temática similar. Embora não muitas vezes com a violência explícita e a crueza de algumas cenas como acontece nesta narrativa ambientada no Japão feudal, em que reencontramos Ichi, o samurai cego que terá de enfrentar a ameaça sanguinária do Diabo Branco.
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Chanbara – El rayo y el trueno

A procura dos companheiros ideais, o ultrapassar dos diferendos e questiúnculas internas e a adequação das capacidades individuais de cada um ao interesse do grupo, preenchem a centena de páginas deste livro, até um (primeiro) confronto, num relato ágil e rápido, que deixa água na boca para mais… e para a continuação que (ainda) falta.
É mais uma sólida edição da Panini espanhola, que encerra com um texto explicativo do argumentista, Roberto Recchioni, e alguns desenhos e esboços do desenhador, Andrea Accardi.

Em relação a anteriores similares – e em especial ao primeiro volume – Chanbara: El camino del samurai – um destaque para a opção pelo preto e branco original, e não pela versão colorida a posteriori para edição em livro. Não que a cor do primeiro tomo não fosse bastante interessante, mas a edição a preto e branco permite destacar uma das principais características das edições Bonelli: o elevado nível gráfico da maioria dos desenhadores contratados, cujos originais são geralmente mais interessantes sem cor.
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Chanbara – El rayo y el trueno

Neste caso, realce para a expressividade das personagens, o dinamismo das cenas, a conseguida utilização de sombras e a variedade de técnicas empregues que justificam que nos deixemos perder nas pranchas após a leitura rápida que Reecchioni nos impõe.
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*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

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Resgatando o passado: Relato da viagem de Fernanda Martins a Portugal e dos seus encontros com coleccionadores de Tex (2004)

Por Fernanda Martins (Maio de 2004)

PARTE 1: A (RE)DESCOBERTA
ANADIA E REGIÕES VIZINHAS

Sexta feira, 14 de Maio de 2004

Ó mar salgado. Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal…

Não, meu xará Fernando, não foram lágrimas que nos esperavam no Porto, em Portugal, e sim risos. E de um Duque. Ao atravessarmos, eu e Henk, a barreira da ansiedade, como chamo as portas que separam o saguão dos passageiros do hall principal do aeroporto, pois tanto os que chegam quanto os que esperam dividem esse sentimento, avistamos um atarefado Zeca (José Carlos Francisco), ligado ao telemóvel (esta e tantas outras palavras farão parte deste relato para acompanhar o vernáculo lusitano), fazendo contactos com texianos em Portugal, tarefa esta que ocupa grande parte do seu tempo.

Falar sobre primeiras impressões é algo delicado. Um primeiro encontro reafirma expectativas mas também desmorona sonhos. Bem, neste caso específico, o primeiro contacto carregou em si uma imensa sensação de reencontro. Apontei-lhe um dedo como a dizer “és tu” e ele abanou a mão em reconhecimento. Camisolas, pósters ou revistas do TEX não foram necessários para que nos (re)conhecêssemos. Havia TEX nos nossos gestos e nos nossos sorrisos.

O nosso encontro foi tarefa fácil. Localizar o Duquemóvel (ou TEXmóvel como queiram) já não foi tão simples assim. Enveredando por caminhos errados e labirínticos corredores conseguimos finalmente (antes de dar de cara com algum minotauro!) encontrar o carro.

Depois de aproximadamente uma hora de viagem, na qual conversamos um pouco sobre TEX e alguns amigos em comum, chegamos ao Ducado, onde fomos recepcionados por uma ansiosa princesa, a Andreia, que nos conduziu através da já famosa BiblioTEX até seu quarto, gentilmente cedido para nos abrigar (na primeira noite tive que lutar com umas 100 bonecas e bichinhos de pelúcia que ocupavam toda a cama e as prateleiras ao redor).

A famosa BiblioTEX

José Carlos Francisco e Fernanda Martins na Bibliotex

Famoso póster do GGCarsan com as primeiras 400 capas de Tex

Malaposta, município de Anadia e sede oficial do Ducado, embora pequena, tem nome e história. Aqui paravam as diligências com as malas postais para serem distribuídas a todo o país. A antiga casa dos correios é hoje um restaurante em cuja ementa consta o famoso leitão de Anadia (aqui não me posso alongar pois esse delicioso prato não constou da nossa glutónica e já cheia agenda).

Ao final da tarde conhecemos a duquesa Fátima, a quem fomos esperar à saída do trabalho. Nessa primeira noite, do alto do mirante no apartamento ducal, tivemos a nossa primeira visão panorâmica de Malaposta. A imponente chaminé de tijolos vermelhos, lembrança de uma fábrica de cerâmicas já extinta, marca indubitavelmente o cenário idílico da cidade, emoldurada pelas colinas distantes da Serra do Bussaco.

O mirante e ao fundo a chaminé de tijolos vermelhos

Nas ruas quase não se vê ninguém. No interior das casas prepara-se o jantar, assim como aqui no apartamento dos Franciscos, onde seríamos introduzidos à primeira das muitas delícias que nos fariam adquirir alguns quilos durante a semana. Para preparar essa especialidade lusitana, onde o bacalhau é assado no carvão, tivemos que arregaçar as mangas e esmurrar as batatas. Sim, porque o nome desse prato deriva exactamente daí: Bacalhau com Batatas ao Murro. E que murros, dignos do nosso TEX. Estas são assadas no forno e depois esmurradas ainda quentes para em seguida serem jogadas na panela de azeite com o bacalhau. Junto com as batatas, nós, eu, Andreia e Fátima, esmurrávamos também Mefistos, Yamas e Tigres Negros.

Esmurrando as batatas na presença da Fátima

O que fora planejado para depois do jantar não pôde esperar: a troca de presenTEXs. Enquanto o bacalhau na panela aguardava a sua hora, papéis eram rasgados numa ânsia de fazer revelar seu conteúdo. E assim foram surgindo TEX alemão e italiano, pósters e pin, quebra-cabeças tridimensionais, vinhos do Porto e até queijos da Holanda, com sabor irresistível que nem o velho camelo do Carson resistiria. Nesse mesmo dia, após o jantar, ainda caminhamos até a velha fábrica para saborear um delicioso expresso português.

Sábado, 15 de Maio de 2004

Forças recuperadas, o sábado nos encontrou dispostos já bem cedo, prontos a explorar os roteiros da Bairrada. Depois do pequeno almoço (que de pequeno nada tinha) entramos no TEXmóvel e partimos. Após um rápido reconhecimento de terreno por Anadia, o nosso Duque nos levou a um monumento em forma de obelisco que marcava o local onde, em 1810 as tropas portuguesas, auxiliadas pelas inglesas sob o comando de outro Duque, desta vez o de Wellington, rechaçaram as ideias conquistadoras de Napoleão e derrotaram o exército francês, disposto a invadir Portugal. Daí seguimos para a Serra do Bussaco, atravessando o parque florestal do mesmo nome. Agora podíamos nós, a banda feminina da trupe, tranquilamente percorrer estes caminhos, porque nos idos de 1622, quando a floresta e o convento, posteriormente reformado em um palácio real de verão e actualmente abrigando o luxuosíssimo Hotel Palácio, eram ainda administrados pelos padres de Coimbra, havia um edito papal que excomungava as mulheres que ali entrassem.

Palace Hotel do Bussaco

Fernanda Martins no Palácio Bussaco

Descendo a Serra do Bussaco, visitamos as Termas do Luso onde tomamos a água cristalina da fonte, cujas virtudes terapêuticas são conhecidas em todo o país. Aí mesmo, num restaurante aconchegante comemos uma Chanfana Assada no Forno a Lenha (para os leigos brasileiros, como eu, carneiro assado). Depois de nos deixarmos levar pelos pecados da gula partimos à procura de rotas mais espirituais. A caminho de Leiria e Fátima, alcançamos o sítio arqueológico de Conimbriga. Entre as ruínas, num sol ofuscante, podíamos sentir o sopro dos tempos que remontavam ao ano de 2 A.C. quando os romanos, expulsando os celtas, ali se estabeleceram.

Henk, Zeca, Fátima e Andreia, alguns dos “romanos” em Conimbriga

Continuando nosso trajecto, descemos ao Sul, subimos às nuvens e, do alto do castelo de Leiria, através dos arcos e das janelas do tempo, apreciamos a cidade que se espraiava a nossos pés.

Henk, Zeca, Fátima e Andreia no Castelo de Leiria

Turistas em Cunímbriga

Nos passos dos peregrinos que se dirigiam ao santuário de Fátima (a cidade e não a duquesa) paramos em Valinhos, na casa de Francisco e Jacinta e na de Lúcia, os três pastorzinhos que foram abençoados pela visão da Virgem Maria. Mais adiante visitamos um dos locais do milagre. No Poço do Arneiro, um anjo branco nos lembra a força da fé e, em silêncio, rezamos. Voltamos para casa cansados, todavia com os olhos cheios das tantas belezas descobertas.

Fernanda, Fátima e Andreia na casa da Pastorinha Lúcia em Fátima

Domingo, 16 de Maio de 2004

Aniversário de Fátima (a duquesa, não a cidade) e final da Taça de Portugal, Benfica contra Porto. Na casa dos Francisco o movimento começa cedo. A família vai toda se reunir para o almoço. Descemos à padaria e compramos milhares de doces (adeus silhueta!) : Batido de Claras, Molotof, Natas do Céu. Em casa, Fátima havia preparado já de véspera um Doce de Café, preferido do Duque, e que passou também a ser o meu predilecto (ainda empunhamos as machadinhas durante dois dias pelos últimos pedaços).

Fernanda e Andreia na Curia

Saindo à caça de tomates, paramos no parque da Curia, estação termal e hotel de veraneio. Em casa, o burburinho começava e a família estava a chegar. Sr. Monteiro, pai do Zeca, trouxe o almoço: Bacalhau à Zé do Pipo, regado com muito vinho. Sentamos todos à mesa: eu e Henk, Andreia, Fátima, Zeca, Sr. Monteiro e Sra. Nazaré, pais do Zeca, João Miguel, irmão do Duque, e a namorada Cláudia, Sr. Amaro, pai da Fátima e sua madrinha, Sra. Preciosa. Entre o prato principal e a sobremesa Fátima abria os presentes, auxiliada por uma impaciente Andreia que mal se continha para ver logo o conteúdo dos pacotes.

Família à mesa no aniversário da Fátima

Após o almoço seguimos às Vendas para saborear um delicioso expresso no restaurante do Sr. Monteiro. A hora da final do campeonato se aproximava e a exaltação crescia. A Sra. Nazaré preparava a casa de cima a baixo para a grande decisão. Do quarto à sala, tudo era vermelho e branco. Tudo era Benfica : colchas, bonecos, quadros, pósters, enfim, nenhum espaço escapara de ser revestido com as cores do clube preferido dos Francisco.

Retornamos para assistir ao jogo em casa. Foram 90 minutos em que Zeca, Fátima, Andreia e uma prima passaram de esperançosos para desesperados para ao final explodirem num êxtase só de vitória, enquanto eu, por outro lado, mantinha aquela impassível calma característica dos botafoguenses, para quem a esperança nunca morre e se não for neste jogo, quiçá no próximo.

Os Benfiquistas

Com a vitória do Benfica, a pequena Malaposta se transformou num caótico buzinar de carros e gritos de alegria. Juntamo-nos a essa trupe barulhenta e fomos comemorar a conquista da Taça na casa dos Francisco pais. A mãe do Zeca mostrou-me um caderno de poesias por ela escritas, demonstrando seu amor pelo clube da capital portuguesa. Já convidada várias vezes a lê-lo em público ela não se cansava de se extasiar com a vitória benfiquista.

Festa Benfiquista

Segunda, 17 de Maio de 2004

A semana começou e Fátima, Zeca e Andreia seguiram para suas lides habituais. Partimos então, eu e Henk, de Malaposta a Mogofores (andando!) para pegar o comboio com destino a Aveiro e Porto.

Para se chegar à plataforma do comboio em Mogofores atravessa-se um labirinto de rampas. Sobe e desce, vai e volta, numa arquitectura e lógica só encontradas em Portugal. Mas enfim, tanto exercício servia para perdermos os quilos ganhos com as guloseimas da Fátima.

Chegou o comboio. Aos pobres estrangeiros que não dominam o idioma português resta a sorte. Não há placas visíveis nas estações intermediárias para que se possa facilmente identificá-las. O nome do local pode estar em qualquer lugar: na parede lateral da estação, atrás das árvores, numa caixa d’água. Por sorte nosso destino era Aveiro e posteriormente Porto, duas cidades grandes e conhecidas.

Saltamos em Aveiro, numa estação em reformas e descemos a rua principal com destino ao porto, para ver se observávamos os famosos barcos de Aveiro. Andamos mais de meia hora e o máximo que conseguimos vislumbrar foi uma vela ao longe. Ficava para a próxima, então. Queríamos ir ao Porto.

Chegamos ao Porto e mais uma vez, pois não era a primeira que íamos àquela cidade, nos deslumbramos com os azulejos que enfeitam as paredes da estação. Como já conhecíamos a maioria dos pontos turísticos, nos dedicamos a passear pelas ruas do Centro, pelo mercado e pela grande loja da FENAC. Depois, almoçamos no famoso Majestic Café, que desde 1921 tem suas portas abertas na Rua de Santa Catarina, nr 112 para aqueles que desejam apreciar não só uma comida muito gostosa como também um lugar de uma arquitectura lindíssima. A atmosfera lembra o Café Colonial localizado no centro do Rio de Janeiro, com sua atmosfera elegante, estagnada no tempo.

Cansados e com algumas sacolinhas de compras pegamos o comboio de volta a Mogofores/Malaposta onde já nos esperavam dois portugas sorridentes : Zeca e Andreia.

PARTE 2: OS ENCONTROS
COIMBRA, LISBOA, BRAGA E GUIMARÃES

Terça-feira, 18 de Maio de 2004

Hoje fomos, eu e Henk, a Coimbra com uma missão: visitar parentes. Se já disse, desculpem-me a repetição, mas para os que ainda não o sabem meu avô era português, nascido na cidade do Porto. Imigrando adolescente para o Brasil, deixou irmãos e família em Portugal. Irmãos esses cujos filhos são meus primos. Durante muito tempo não tivemos contacto com eles, mas na minha primeira visita a Portugal, acompanhada da minha tia (filha do meu avô), descobrimos o elo perdido e passamos a nos comunicar.

Ao chegarmos em Coimbra nos encontramos com Graça, ex-esposa do meu primo Toni e com ela almoçamos e passeamos pela cidade durante sua folga do meio-dia. Depois que ela nos deixou para retornar ao trabalho fomos conhecer a Cidade dos Pequeninos. Um verdadeiro encanto. Lá pode-se ver em miniatura uma réplica de Portugal, com seus variados monumentos e estilos arquitectónicos, representando as diversas regiões do país.

Voltamos no meio da tarde para Malaposta e esperamos a chegada de Zeca e Fátima para partirmos em seguida de volta a Coimbra onde iríamos jantar com o resto da minha família. Marcamos encontro perto do estacionamento de um supermercado e os parentes foram chegando um a um. Pedro , a esposa Maria João e o filho ; Guilhermina e o Tó, este um brasileiro do Pará mas que tantos anos de Portugal já carregou de sotaque luso e por último Toni. Pronto, estavam todos lá. Depois que fiz as apresentações da Família Francisco passamos à parte mais difícil: a escolha do local onde iríamos jantar. Depois de uma longa discussão decidiu-se por um restaurante perto de onde estávamos onde a ementa era variada. A noite transcorreu agradável e terminou com promessas de sempre nos revermos quando possível.

Quarta-feira, 19 de Maio de 2004

Saindo cedo da estação de Coimbra-B, a segunda estação dos comboios de Coimbra, onde Zeca foi nos deixar, pegamos, eu e Henk, o Alfa Pendular, o trem expresso e muito confortável, para Lisboa. Umas duas horas depois descíamos na moderníssima Estação do Oriente na capital portuguesa, onde meu amigo de adolescência e ex-texiano, Ney Bello Filho foi nos buscar.

Na sacola eu levava presentes para ele, sua esposa Gabriella e os dois filhos, Ludmilla e Guilherme. Havia também algo especial, uma surpresa do Zeca para o meu amigo, o Tex Anual Rio Hondo, para que estimulasse Ney a voltar ao prazer da leitura do nosso ranger. Qual não foi nossa surpresa ao ver que quem se abraçou com a revista e não parou até terminar toda a história foi seu filho Guilherme, de 10 anos.

Como Ney tinha alguns compromissos para aquele dia, pois ele estava em Lisboa fazendo um curso que tinha a duração de um ano, fomos com Gabriella visitar as praias de Estoril, onde apreciamos pelo lado de fora o belíssimo casino, Cascais e a impressionante Boca do Inferno.

Cascais – perto da Boca do Inferno

No apartamento dos Bello tudo era agitado e mal chegamos partimos para as Docas. Antiga área de armazéns do porto, essa região de Lisboa foi totalmente restaurada e transformada em agradáveis bares e restaurantes com música ao vivo.

Quinta-feira, 20 de Maio de 2004

Aproveitando para dormir pelo menos um dia até mais tarde saímos quase perto da hora do almoço, mais uma vez com Gabriella, para Sintra. Lá chegando fomos directo visitar as ruínas do Castelo dos Mouros. Mais do que o Castelo em si, do qual existem apenas algumas construções de pé, a vista magnífica da cidade de Sintra e seus arredores vale o longo caminho que se faz a pé pelo bosque para chegar até lá.

O Castelo dos Mouros e alguns mouros perdidos por lá

Impressionante mesmo é o Palácio da Pena que visitamos em seguida. Situado num dos cumes da Serra de Sintra este Castelo da Pena, como é popularmente conhecido em Portugal, foi construído sobre as ruínas do Mosteiro Jerónimo de Nossa Senhora da Pena. Inspirado em castelos da Baviera, o Palácio chama a atenção pela ousadia de suas cores amarela, roxa e vermelha contrastando, entretanto, harmoniosamente com a paisagem local. Sentamos no restaurante em uma das alas do castelo e sob um delicioso sol português apreciamos a linda vista que se espraiava a nossos pés.

Henk no Palácio da Pena

Descemos a Serra e paramos ainda em Sintra onde comemos os famosos travesseiros, deliciosos pastéis de massa fina, recheados com um creme de ovos, tradicionais dessa região.

Mais uma vez retornamos ao apartamento dos Bello, jantamos às pressas um bacalhau abrasileirado e partimos, já atrasados e debaixo de chuva, para uma casa de fado. Não existe nada que expresse melhor a alma portuguesa do que ouvir um fado cantado numa tasca à meia-luz, ao sabor de um vinho suave.

Sexta-feira, 21 de Maio de 2004

Retornamos de Lisboa e começamos a nos preparar para o dia mais esperado da semana: o dia em que iríamos conhecer e jantar com alguns texianos portugueses. Assim que Zeca e Fátima chegaram do serviço pegamos o TEXmóvel e nos pusemos na estrada a caminho de Braga. O telemóvel não parava de tocar. Saímos recolhendo texianos pelo caminho. Em determinados pontos do caminho eles foram se juntando a nós e a caravana aumentava.

Começamos a subir o morro do Sameiro onde ficava o restaurante Maia. A cada curva, por entre as árvores tínhamos uma visão magnífica da cidade de Braga.

A cúpula da Catedral do Sameiro apareceu iluminando o sopé do morro. Parqueamos o carro e tive o prazer de conhecer os pards portugueses Luís Jorge Pereira e Jorge Carvalho, que faziam parte da nossa caravana.

José Carlos Francisco e Fernanda Martins defronte do Maia Restaurante Sameiro

No restaurante Álvaro Machado com sua esposa Cláudia já nos esperavam. Um pouco mais tarde Hernâni Castanhas uniu-se também a nós. Feitas as apresentações e quebrada a timidez inicial dos primeiros encontros, passamos a falar da nossa grande paixão. É maravilhoso descobrir nessas horas como TEX quebra barreiras, constrói pontes e cria laços. Embora em quatro línguas, espanhol (a Cláudia é colombiana), inglês (falado pelo Henk, por mim, Zeca e Hernâni), português e português (sim, porque em alguns momentos o português de Portugal torna-se uma língua adicional), a nossa conversa fluiu homogénea e versou do mundo das BDs aos filmes de faroeste. As atenções foram divididas entre o bacalhau posto à mesa e as várias revistas que levamos para dividir com os amigos. Assim, passaram de mãos em mãos TEX de várias nacionalidades, entre elas italiano, brasileiro, alemão, holandês e inglês. Não faltaram elogios também aos pins que eu e Zeca usávamos. Obviamente que depois do ágape a lembrança daquele momento teria que ser preservada. Única representante feminina ali presente do selecto grupo dos texianos tive a honra de estar nas fotos com tão especiais cavalheiros.

Os participantes do Jantar Texiano

Jantar texiano

Jantar texiano

Como tudo que é bom dura muito pouco, chegava a hora de partir. Mas a conversa estava tão agradável que ainda passamos uns bons minutos conversando no estacionamento. Apertos de mão, abraços afectuoso e com a certeza de que alguns laços foram criados, seguimos de volta ao Ducado de Malaposta.

Sábado, 22 de Maio de 2004

O sábado nos levou de volta a Braga, agora para ver à luz do dia essa bonita cidade. Mas antes passamos por Guimarães onde entramos nas ruínas do Castelo de Guimarães, cidade onde Portugal nasceu, pois segundo a tradição, ali, naquele Castelo, teria nascido D. Afonso Henriques, o pai de Portugal, e não em Coimbra como conta a história.

Fernanda Martins e o Castelo de Guimarães

Perto dali também aproveitamos para conhecer o Palácio (ou Paço) dos Duques de Bragança. Construído no século XV e abandonado no século XVI, o palácio foi finalmente restaurado na primeira metade do século XX e hoje possui um Museu, além de ser a Residência Presidencial do Norte do País.

O Paço dos Duques de Bragança – com as respectivas duquesas

A Catedral de Guimarães

Depois, subimos novamente o Morro do Sameiro, onde na véspera havíamos tido o nosso jantar texiano. Pudemos então apreciar toda a beleza da catedral e da área ao redor, que estava bastante movimentada pois havia um ensaio de danças folclóricas para as festas juninas.

Catedral do Sameiro e as danças folclóricas

Restaurante Maia – onde houve o jantar texiano – Zeca saindo de ressaca – de Coca-cola, lógico

Saímos então por Braga para localizar a famosa igreja com as escadarias brancas entre-cruzadas. Demorou um pouquinho pois Zeca e Fátima tentavam lembrar o nome da catedral de acordo com a minha descrição. Mas finalmente lá chegamos: a Igreja de Bom Jesus de Braga. Para termos a foto que aqui insiro, descemos e depois subimos todos os degraus. Só Henk ficou a nos esperar lá em cima do morro. Mas tanto esforço valeu a pena.

Bom Jesus de Braga – depois da descida

No meio da tarde encontramos o pard Álvaro Machado e fomos visitar a casa nova que ele e a esposa haviam comprado. Além da casa, olhamos um pouco da colecção texiana do nosso amigo, ainda encaixotada à espera de um lugar nobre para ser exibida.

No final da tarde retornamos à Malaposta para jantarmos com os pais, irmão e cunhada de Zeca. Cozinheiro de primeira mão, o Sr. Monteiro nos brindou com uma deliciosa macarronada e galinha cozida. Conversamos, comemos e bebemos sem nem querer nos lembrar que aquele era o último dia da nossa visita ao Ducado.

Jantar de despedida

Domingo, 23 de Maio de 2004

Depois de tantos dias maravilhosos não queríamos acreditar que a semana já havia passado e era hora de retornamos aos Países Baixos. Zeca, Fátima e Andreia nos acompanharam ao aeroporto. A emoção da despedida era tanta que nem chegamos a conversar muito. Não havia palavras suficientes para agradecer a acolhedora estadia que tivemos com essa família tão maravilhosa. Chegamos como amigos, saímos como irmãos, com a certeza de que não estávamos dizendo adeus, mas sim até breve.

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