Blueberry e Tex por Orestes Suárez

Por Afrânio Braga, criador do blogue Blueberry, Uma Lenda do Oeste: https://blueberrybr.blogspot.com

Tex e Blueberry por Orestes Suárez

Orestes Suárez Lemus em seu estúdio de trabalho

O meu nome é Orestes Suárez Lemus, eu nasci na província de Pinar del Río, Cuba, no ano de 1950. Actualmente, eu vivo em Havana, a capital de Cuba.

Graduado electricista industrial, em um instituto tecnológico de Havana, em 1971. Trabalhei como electricista da Empresa de Obras de la Construcción Provincial e anos depois na Industria Ligera, de 1971 a 1977. Enquanto eu trabalhava como electricista de manutenção, estudei no curso nocturno da Escuela Nacional de Diseño Gráfico.

Em meio a essa etapa de trabalho diurno e estudo nocturno, contrataram-me para ilustrar o meu primeiro livro: “Zoia y Shura”, 1976, editora Gente Nueva do Instituto del Libro de la Habana, baseado em factos reais durante a 2ª Guerra Mundial; uma novela da escritora russa L. Kosmodemianskaia. Em 1979, graduei-me na Escuela Nacional de Diseño Gráfico de la Habana.

Etapa de trabalho editorial

Em 1977, deixei de trabalhar como electricista e comecei a trabalhar como desenhador ilustrador do Departamento de Diseño y Propaganda de la Organización de Pioneros José Martí de Cuba. Mesmo se oficialmente eu era o desenhador ilustrador da equipa de desenho eu pude participar directamente das diferentes especialidades do desenho editorial: desenhei livros, dobraduras, outdoors, logotipos, emblemas, etc. Entre outras coisas eu ilustrava anúncios de textos, cartazes; ilustrei livros, eu diagramei folhetos e livros de pequeno formato, entre eles o livro intitulado “La Evolución de una Pregunta”, 1978, de tema científico.

A história aos quadradinhos

O meu primeiro trabalho como quadrinista começou com a série infantil “Inés, Aldo y Beto”, 1979, com roteiro de Ernesto Padrón, para uma publicação de pequeno formato chamada “Pásalo” – chamava-se assim porque era sem custo algum e era só para a distribuição entre os estudantes dos ensinos fundamental e médio. A primeira história aos quadradinhos que nós fizemos foi “Viaje de exploración a un extraño dibujo”, 1979; “El Planeta Dividido”, 1979; “Una aventura por error”, 1979; “Asalto al Castillo”, 1980; “Las tres frases mágicas”, 1980; “Imperio Inca”, 1980; “La emboscada”, 1982; “El Ataque”, 1986.

Paralelamente, às publicações das três crianças, pude atender outras ofertas de trabalhos como a história em banda desenhada do género ficção científica “Trampa de Estrellas”, 1984, uma adaptação de Ana Galindo sobre um conto de Y. Filenki, semanário “Pionero”, editora Abril. Pouco depois, eu recebi a oferta para desenhar “Timur y su pandilla”, 1984-1985, que foram publicadas no semanário “Pionero”. Uma história em banda desenhada escrita e adaptada por Agustín Urra Brito, sobre um conto do escritor russo Arkadi Gaidar e editada pela editora Abril.

Ocorreu-me intentar fazer uma primeira história de banda desenhada, de minha autoria, com um tema real histórico sobre um dos caudilhos mambises mais importantes da Guerra de Independência Cubana do domínio espanhol do século XIX em Cuba: “Voluntad Férrea”, 1985, editora Pablo de la Torriente. “Días heroicos de Girón”, 1986, roteiro de Manuel Pérez Alfaro, história baseada em um facto real durante a invasão norte-americana da Baía dos Porcos, Cuba, editora Pablo de la Torriente; “La última sonrisa”, 1986, roteiro de Ana Núñez Machín, baseada sobre um facto real histórico, editora Pablo de la Torriente.

A personagem Camila

No meu começo como desenhador, a banda desenhada de aventura foi uma das minhas preferências. Em união com Manuel Pérez Alfaro, meu amigo e escritor cubano, nós demos vida a uma personagem feminina, uma moça cubana, Camila. Jornalista, aficionada à fotografia e amante da preservação da natureza e, além disso, praticante das artes marciais. Ela acompanha o seu pai, um eminente doutor ecologista, em suas pesquisas nas profundezas da Amazónia.

As histórias aos quadradinhos de Camila

A primeira história dessa personagem é “Camila”, 1987, roteiro de M. Pérez Alfaro, editora Pablo de la Torriente;
“Camila II”, 1988, roteiro de M. Pérez Alfaro, editora Pablo de la Torriente;
“Camila III” Primera parte, roteiro de M. Pérez Alfaro, editora Pablo de la Torriente;
“Camila III” Segunda parte, 1988, roteiro de M. Pérez Alfaro, editora Pablo de la Torriente;
“Camila III” Final, 1988, roteiro de M. Pérez Alfaro, editora Pablo de la Torriente;
“Camila”, 1989, “La Crecida”, roteiro de M. Pérez Alfaro. Editora Pablo de la Torriente;
“Camila”, 1989, “Enemigo Conocido”, roteiro de M. Pérez Alfaro;
“Camila”, 1989, “La Captura”, roteiro de M. Pérez Alfaro, editora Pablo de la Torriente;
“Camila”, 1989, “El Desafío”, roteiro de M. Pérez Alfaro. Editora Pablo de la Torriente;
“Camila”, 1990, “El Combate”, roteiro de M. Pérez Alfaro, editora Pablo de la Torriente;
Para um total de 10 historias.

Meu personagem Yakro

Yakro é um personagem de minha autoria. É uma história em banda desenhada de ficção científica sobre um homem-lagarto acompanhado de seu assistente D-Lax, o andróide. A sua nave sofre uma avaria em pleno voo espacial e ele se vê obrigado a uma aterragem forçada no planeta Terra, na Era Quaternária. Ia ser uma novela gráfica, porém por limitações editoriais e a falta de papel nas impressoras converteu-se numa série de quatro capítulos.

De quatro se publicarão só três capítulos:
Primeiro capítulo: “Yakro” (1987), editora Pablo de la Torriente;
O segundo: “Yakro, D-Lax el androide”, 1989, editora Pablo de la Torriente;
O terceiro: “Yakro, Hacia las Estrellas”, 1990, editora Pablo de la Torriente;
E o quarto: “Yakro, Hacia las Estrellas”, Final, 1990, editora Pablo de la Torriente.

Por fim se pôde publicar completa as quatro histórias de Yakro em uma edição especial dedicada a promover as obras dos autores veteranos da história aos quadradinhos cubana. Essa edição especial intitulou-se “Yakro. Clásicos de la historieta cubana. Orestes Suárez”, Ediciones Luminaria, Sancti Spíritus, Cuba.

Mais histórias de banda desenhada conformam o aval de um grande sonho por alcançar e uma experiência que se desenrolava. Essa outra obra ocorre em um cenário etíope durante a guerra na Etiópia e em Angola. História aos quadradinhos de ficção: “El Jinete del Domingo”, 1988, roteiro de Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente; “Contra los Contras”, 1990 – em tempo das lutas de libertação da Nicarágua -, roteiro de Ernesto Padrón, periódico “Juventud Rebelde”; a história aos quadradinhos de humor e de fantasia sempre estavam ligadas a mim tanto como ilustrador como quadrinista e essa vez trabalhando na revista infantil “Zunzún”. É uma série de quatro capítulos publicada para crianças: “La Pañoleta Encantada”, 1990-1993, roteiro de Ernesto Padrón, revista “Zunzún”, Editora Abril.

Nós não tínhamos publicações especializadas para publicar histórias variadas, com possibilidade de abordar todos os géneros. Por sorte para os quadrinistas nacionais, a editora Pablo de la Torriente criou duas publicações de muitíssima importância para nós, “Pablo” e “Comico”, na segunda metade dos anos 1980. Surgiu por bem uma esteira de produções de histórias de banda desenhada onde todos participavam – humoristas, escritores, editores, desenhadores gráficos – e, incluso, se começou a organizar diferentes eventos culturais referentes ao género da história aos quadradinhos pela primeira vez no país. Surgiram as Bienales de los Historietistas en la Habana e depois Los Encuentros Nacionales e Internacionales de los Historietistas Iberoamericanos. Houve então uma importante aproximação participativa de muitos criadores estrangeiros aos ditos encontros da história aos quadradinhos em Havana. Essas publicações só duraram um período de tempo até que chegou nos anos 1990 o nosso período especial pela queda do campo socialista na Europa. Ao desaparecer os recursos desapareceram as únicas possibilidades de publicar a nossa história em banda desenhada.

Uma de minhas propostas foi o género terror: “El Gato Negro” de Edgar Allan Poe, uma adaptação de Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente, 1991. Publicado na revista “El Gallito Inglés”, México; também foi publicado na revista espanhola “Creepy” nº 14.

Em Havana, no Encuentro Internacional de la Historieta Latinoamericana, eu recebi o prémio La Palma Real, 1993, junto ao roteirista Juan Padrón pela história de banda desenhada humorística “Las manos doradas del traidor”. Nesse mesmo ano saiu a história de ficção “Lobos” de minha autoria, editora Pablo de la Torriente. “Lobos” foi publicada, anos depois, na revista “El Gallito Inglés”, México, e na revista belga “Napartheid”.

Em plena etapa do chamado período especial, eu tive a oportunidade de conseguir um novo contacto editorial, graças à ajuda de bons amigos e um desses foi Sergio Bonelli por mediação de outro grande amigo, Dario Mogno. Fez-se um contacto importante com o periódico Eura S.p.A de Roma, Itália, em 1993. Eu fui contratado para fazer duas histórias: “L’amore de Burton”, com roteiro de Mazzitelli, publicada na revista “Scorpio” nº 20; e a história intitulada “Rushter è tornato” com roteiro de Dempsey, publicada na revista “Lanciostory” nº 23, 1994.

Voltando ao âmbito nacional, foi-me proposto a história em banda desenhada de género histórico – eu já era muito solicitado para realizar esses temas -, essa vez sobre a Guerra Civil Espanhola com o título “Me voy a España”, 1995, roteiro de Ana Núñez Machín, editora Pablo de la Torriente.

Auto-caricatura de Orestes Suárez

Sergio Bonelli visita Havana em 1994 e por proposta do amigo Dario Mogno, que também se encontrava desfrutando do Encuentro de Historietistas Iberoamericanos na capital havanesa naquele momento, se encarregou de nos apresentar. Sergio Bonelli pediu-me para ver as minhas páginas de banda desenhada que eu fazia para as editoras nacionais. Ele valorizou os meus trabalhos e propôs-me imediatamente formar parte da sua equipa da editora Sergio Bonelli Editore como desenhador de histórias aos quadradinhos. Eu estou cerca de completar 27 anos de trabalhos contínuos graças à percepção e à amabilidade de Sergio Bonelli.

Eu não recebi mais ofertas por parte da editora Eura Editore e entreguei-me por completo a trabalhar para a editora Sergio Bonelli Editore com um contrato inicial de 10 anos.

O meu primeiro trabalho foi desenhar as histórias de “Mister No”: o primeiro número foi intitulado “Razza selvaggia” nº 239 (1995), textos: Mignacco-Colombo;

“Il giorno degli avvoltoi” nº 240, (1995), textos: Luigi Mignacco-Colombo;
“Giochi pericolosi” nº 245 (1995), textos: Marco del Freo;
“Il mostro della palude” nº 251 (1996), textos: Colombo-Mignacco;
“Notte di morte” N. 261 (1997), textos: Stefano Marzorati;
“Agli ordini della CIA” nº 269 (1997), textos: Stefano Marzorati;
“Nel centro del Mirino” nº 272 (1998), textos: Masiero-Marzorati;
“Le notti di Bahia” nº 286, (1999) textos: Luigi Mignacco;
“I ribelli del Sertão” nº 287 (1999), textos: Luigi Mignacco;
“Vent’anni dopo” nº 292 (1999), textos: Mignacco-Masiero, dibujos: Diso-Suárez;
“Terra e libertá” nº 293 (1999), textos: Mignacco, dibujos: Suárez-Diso-Busticchi & Paesani;
“Caccia spietata” nº 309 (2001), textos: Luigi Mignacco;
“Territorio Jivaro” nº 321 (2002), textos: Stefano Marzorati;
Duas edições em uma: “L’idolo Maya” nº 352 (2004), textos: Masiero-Mignacco, desenhos: Alessandro Bignamini.
“Le Grotte del Vento”, textos: Michele Masiero, desenhos: Suárez;
“Giustizia Yanoama” nº 353 (2004), textos: Michele Masiero;
“Sangue in paradiso” nº 354 (2004), textos: Michele Masiero.

“Mister No” deixou de ser publicado no ano de 2006. Eu não voltei a fazer histórias de Jerry Drake.

Por sorte o senhor Sergio Bonelli seleccionou-me para desenhar os “Texones”:  Albo speciale nº 24, “I ribelli di Cuba”, 2010, argumento de Guido Nolitta, roteiro de Mauro Boselli;
Segunda edição em cores de “I ribelli di Cuba” nº 24, 2012, textos de Guido Nolitta – Mauro Boselli. Edição especial para o Gruppo Editoriale L’Espresso S.p.A.  realizada em colaboração com a editora Sergio Bonelli Editore;
“I rapitori”, “Tex Almanacco del West” 2014, textos de Tito Faraci;  reedição em cores;
“I rapitori”, 2014, textos de Tito Faraci.  “I Fumetti di Repubblica-L’Espresso”, “Collezione Storica a Colori” 30, “Le foreste degli spiriti”.
Terceira edição, em cores, no Brasil de “Os Rebeldes de Cuba” nº 12, 2018, textos de Guido Nolitta – Mauro Boselli. Editora Salvat do Brasil Ltda.;

Neste momento, eu me encontro terminando o desenho de uma nova novela gráfica, um romance, escrita por Michele Masiero, em torno de 300 páginas, que ainda não tem título.

Histórias em quadrinhos humorísticas

Colecção de histórias de banda desenhada de humor (contos curtos), 1986 – 2001:
“Cosa de la vida”, 1986, autor: Orestes Suárez, editora Pablo de la Torriente;
“El Acecho”, 1986, autor: Orestes Suárez, editora Pablo de la Torriente;
“Los refranes”, 1986, autor: Orestes Suárez, editora Pablo de la Torriente;
“El Caballero”, 1988, autor: Orestes Suárez, editora Pablo de la Torriente;
“¡Niño!”, 1990, 3 contos curtos, autor: Orestes Suárez, editora Pablo de la Torriente;
“El Último Acto”, 1994, roteiro: M. Pérez Alfaro, revista “Mi Barrio”;
“Mujer con Suerte”, 1994, roteiro: Manuel Pérez Alfaro, revista “Mi Barrio”;
“Salidero”, 1996, roteiro: Manuel Pérez Alfaro, revista “Mi Barrio”;
“Secuencias y Consecuencias”, 2001, roteiro: M. Pérez Alfaro, revista “Mi Barrio”.

“Blito y Pupi”, 1994, série de personagens infantis criados para as crianças menores, em formato de tiras curtas; revista “Zunzún”, Editora Abril.

Seguindo o ritmo do humor na história aos quadradinhos, nós começamos a tocar temas sociais urbanos na capital havanesa – o roteirista Jorge L. Guerra e eu com o desenho. Esta série nós a intitulamos “Vitralitos”:
A primeira história foi “La Guagua”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
Seguida por “El mejor amigo”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
 “Lo que no nace no crece”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
“¡Agárrate de la bamba!”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
“Destino Terminal”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
 “Un Cablegrama”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
“Edificio Georgina”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Abril;
“Rodilla abajo”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
“Un hombre con una línea puede…”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
“Amor y Piropos”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
“Cada loco con su tema”, 1989, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
“El Misionero”, 1990, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente;
“Los derechos urbanos”, 1990, roteiro: Jorge L. Guerra, editora Pablo de la Torriente.

Tex e Blueberry por Orestes Suárez

A série “Blueberry” foi criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud
Blueberry © Jean-Michel Charlier / Jean Giraud – Dargaud Éditeur

A personagem Tex foi criada por Giovanni Luigi Bonelli e realizada graficamente por Aurelio Galleppini
Tex © Sergio Bonelli Editore

Agradecimentos a Orestes Suárez pelo desenho de Blueberry e Tex, lendas do Oeste, para o blogue.
Afrânio Braga

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As Leituras do Pedro – Mister No: Rio Negro/O Templo dos Maias

As Leituras do Pedro*

Mister No #6: Rio Negro
Mister No #7: O Templo dos Maias

Guido Nolitta
(argumento)
Roberto Diso (desenho)
Editora Record
Brasil, 1991
150 x 210 mm, 168 p., pb, capa cartão

O melhor e o menos bom

Considerado por muitos a melhor história de Mister No, este díptico com a assinatura de Sergio Bonelli (sob o pseudónimo de Guido Nolitta) e Roberto Diso espelha o melhor e o menos bom desta série – e, de certa forma, de toda a banda desenhada da casa editora italiana, justificando o seu cariz popular e o segredo de tantos sucessos.

Datada de 1976, fica desde logo marcada pelo primeiro encontro entre o protagonista, o ex-piloto da II Guerra Mundial Jerry Drake, conhecido como Mister No, que deixou a civilização para se refugiar dela e dos seus males em Manaus, no Brasil, às portas da selva amazónica, e a bela aventureira Patrícia Rowland, com quem irá desenvolver uma longa (embora intermitente) relação de (muita) paixão e, se não ódio, pelo menos (alguma) animosidade.

Como em tantas das suas histórias, um começo aparentemente inócuo – ou pouco mais – vai mergulhar os seus protagonistas numa longa e perigosa aventura, desta vez na procura de ruínas maias na selva brasileira.

Uma boa parte do relato acompanha o seu percurso até ao local procurado, enquanto enfrentam os perigos com que se deparam naquela natureza selvagem. É nesta ambiguidade – que ao leitor não importa – entre o que é real (ou tem um fundo de realidade) e o que é ficcionado (em nome da ‘grande aventura’) que reside boa parte do encantamento desta história – e de outras da mesma época – aliando a uma ingenuidade genuína – que a indisponibilidade de informação possibilitava – a forma de destacar o melhor de uma personalidade controversa.

Porque, sejamos claros, se em Mister No – como em Tex ou Zagor, por exemplo – há pouco espaço para zonas cinzentas, com quase tudo a ser preto, preto ou branco, branco, o que mais destoa é o seu protagonista, a um tempo solidário e disponível, tanto quanto intratável e conflituoso, negacionista da boca para fora – daí o seu apelido – tanto quanto possuidor de um enorme coração, bêbado inveterado mas também sensível e humano.

Depois, acaba por predominar a já citada ‘grande aventura’, com os perigos – humanos e animais – a multiplicarem-se, o mistério associado às construções das grandes civilizações desaparecidas, muita acção, alianças e traições, descobertas e romance… que conduzem a um final em crescendo que perdurará na memória do leitor.

…e, numa publicação periódica, como era então o caso de Mister No, levará à compra do número seguinte.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

(Pranchas disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão – Como curiosidade, refira-se a ‘remontagem’ das tiras nesta edição da Record, o que faz com que as páginas aqui mostradas não correspondam às que podem ser encontradas nos livros.)

Entrevista com o fã e coleccionador: Alex Nascimento

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Alex Nascimento: Bom, eu nasci na cidade do ouro, a cidade histórica de Ouro Preto, no dia 17 de Setembro de 1985. A minha profissão é a de pizzaiolo, mas também trabalho no ramo da construção civil. Gosto de música, de esportes e também possuo o dom de desenhar.

Quando nasceu o seu interesse pela banda desenhada?
Alex Nascimento: Sempre fui apaixonado pela arte do desenho, quando jovem ganhava a vida com desenho artesanal, já que a região onde moro também sobrevive do turismo. Era fã, tanto dos quadrinhos coloridos, mas também dos a preto e branco.

Quando descobriu Tex?
Alex Nascimento: Descobri Tex por volta de 2001/2002 por influência do meu irmão, que por sinal é mais novo do que eu.

Porquê esta paixão por Tex?
Alex Nascimento: Minha paixão por Tex existe por vários motivos, existem várias situações diferentes nas histórias do Tex, assim como muito humor. É um personagem de cinema, pois possui drama, suspense, terror, assombro, etc., mas o que mais me chama a atenção em Tex é o sentimento de justiça, o que nos leva a crer que o crime não compensa.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Alex Nascimento: Bom, não precisamos mencionar o que há de diferente (…risos…), tudo!

Os desenhos, os diálogos, os cenários, a forma em que é retratada todas as formas de injustiça. O castigo que todo o patife merece. O respeito com todas as tribos indígenas é a forma clara de como deveriam ser tratados os políticos corruptos e todos os fora da lei.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Alex Nascimento: Olha, já tive muitas revistas, já tive a oportunidade de apreciar inúmeras edições do personagem, mas hoje o que me resta é um total de 31 edições que guardo com carinho e a mais importante para mim é a Tex nº 552 “Caçada Sinistra”, me identifiquei muito com essa história. Também há outra edição de muita importância para mim: Tex nº 57 “O Destino de um Bravo”, minha primeira leitura do Tex…

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Alex Nascimento: No momento coleciono apenas alguns livros do Tex, mas em breve colecionarei tudo que tiver ao meu alcance, livros, camisas, objetos, etc.

Qual o objecto Tex que mais gostaria de possuir?
Alex Nascimento: Gostaria de possuir aquilo que em minha opinião é o mais emblemático, o par de botas.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Alex Nascimento: A minha história favorita é a publicada no Tex nº 57 “O Destino de um Bravo”, a trágica história do Apache Kid. Admiro os desenhos de Aurelio Galleppini e também a arte do Corrado Mastantuono. Quanto aos melhores textos, são os de G. L. Bonelli.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Alex Nascimento: Sabemos que Tex já foi um fora da lei que se redimiu e passou a combater todo o tipo de patifaria. E o que me agrada é isso, a redenção de um fora da lei que passou a lutar e a desejar a justiça. O que me agrada menos é saber que ele é apenas um personagem, que representa a justiça que deveria ser surda, cega e muda, mas sabemos também que ele é um personagem e sendo assim não pode fazer nada por nós aqui no Brasil.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Alex Nascimento: O que faz de Tex o ícone que é, é a sua longevidade. As suas várias formas de ser retratado por artistas e argumentistas diferentes faz dele, um personagem que foi criado há décadas, um sobrevivente entre vários outros que já foram criados e hoje não são mais lembrados.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Alex Nascimento: Não costumo mais conversar ou me encontrar com colecionadores, pois moro no interior e aqui são muito poucos. Apenas aquele colecionador que influenciou o meu irmão e indiretamente me influenciou e se encontra hoje atrás das grades, pois resolveu ser um fora da lei, infelizmente.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Alex Nascimento: Olha, peço para aqueles que possuem pequenas ou grandes coleções, que as guardem com carinho, e que passem para os seus filhos, seus filhos passem aos seus netos e assim o bem hereditário prevalecerá e Tex não morrerá nunca.

Prezado pard Alex Nascimento, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

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Giampiero Casertano não pára de surpreender: Novos esboços alternativos para as capas do Texone nº 37 – “Old South” e do cartonado “Aguas Negras”

Depois de termos dados a conhecer aqui mesmo no Tex Willer Blog diversos esboços alternativos realizados por Giampiero Casertano para a capa do Texone nº 37 – “Old South”, como pode ser visto clicando aqui e aqui, assim como de “Aguas Negras”, o novo cartonado a publicar na Itália, em Fevereiro, como também pode ser visto clicando aqui, Casertano não pára de nos surpreender, informando-nos que ainda fez mais dois esboços diferentes de capas, mais um esboço para a capa do Tex Gigante e outro ainda para a capa do cartonado e são esses dois esboços que vamos dar a conhecer de seguida e pela ordem citada, aos nossos leitores, devido à gentileza de Giampiero Casertano:

Novo esboço alternativo da capa do Albo Speciale (Texone) #37 ‘Old South‘, da autoria de Giampiero Casertano

Novo esboço alternativo da capa da edição número 14 da série Tex Romanzi a Fumetti, da autoria de Giampiero Casertano

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Os vídeo-jogos dos Heróis Bonelli!

Por Luca Del Savio [1]

A partir de 1986 com uma aventura na forma de texto dedicada a Martin Mystère, as personagens de banda desenhada da Sergio Bonelli Editore foram protagonistas de numerosos vídeo-jogos de produção italiana. O vídeo que mostramos de seguida e que foi realizado para a exposição “Bonelli Story – Ottant’anni a fumetti“, apresenta rapidamente alguns deles:

A história dos vídeo-jogos tendo como protagonistas os Heróis Bonelli teve início em pleno boom dos computadores domésticos, em meados dos anos 80 do século passado. A abrir o caminho, o mais multifacetado e mais multimédia dos personagens da via Buonarroti: o Detective do Impossível, protagonista de uma aventura totalmente escrita, “Martin Mystère and the secret of the birdman“: uma listagem para ZX Spectrum publicada na revista Personal Computer em 1986 e que permaneceu confinada entre essas páginas.

Foi o Espírito da Machadinha, por sua vez, o primeiro a estrear comercialmente, com um título lançado pela Systems Editoriale, numa disquete anexada ao número 3 da revista Commodore 64 Club (1987). Inspirada no homónimo episódio zagoriano de 1978, “La fortezza di Smirnoff“, programado por Marco Corazza para o Commodore 64, é uma aventura textual, uma espécie de livro virtual, por assim dizer. O primeiro Zagor digital só pode ser admirado exclusivamente na tela que antecede o longo carregamento antes do início do jogo.

No ano seguinte cabe ao Investigador do Pesadelo: novamente a Systems Editoriale e de novo para o Commodore, propõe um par de jogos, incluídos na mesma disquete vendida nas bancas. A agradável, embora limitada, aventura “Le notti della Luna piena” (baseada no homónimo terceiro volume da série em banda desenhada) e “Dylan Dog e il castello delle illusioni“, aparentemente realizado usando o então difundido Shoot’Em Up Construction Kit.

Em 1992, a empreendedora Simulmondo de Francesco Carlà assina um acordo com a Sergio Bonelli Editore para publicar “Dylan Dog – Gli uccisori“, aventura lançada no Commodore 64, Amiga e MS-DOS. A este título que marca um progresso técnico notável comparativamente aos anteriores, seguem-se outros, em grande parte distribuídos nas bancas e todos livremente inspirados  nos volumes do personagem de Tiziano Sclavi. Em 1993, é sempre a Simulmondo a levar o mais popular herói bonelliano para o universo  dos vídeo-jogos, com “Tex – Piombo caldo”, idealizado por Ivan Venturi: repleto de vinhetas digitalizadas e coloridas, alternando entre fases calmas e outras repletas de acção. Seguir-se-ão 12 lançamentos tendo sempre como protagonista o Ranger.

Apenas um ano após o seu nascimento, o Agente Especial Alfa de Medda, Serra & Vigna faz a sua estreia no Amiga, com “Nathan Never – The arcade game“, produzido pela Genias. Trata-se de uma aventura de acção que oferece um pouco de jogabilidade a bordo de veículos voadores exibidos com um sugestivo efeito de perspectiva para simular uma espécie de tridimensionalidade. 

O advento do CD-ROM permite um salto de qualidade para as versões digitais dos heróis Bonelli. Enquanto Martin Mystère é protagonista de softwares populares, é novamente Dylan Dog a regressar aos ecrãs dos computadores em 1999, com “Dylan Dog Horror Luna Park“, produzido pela Rizzoli New Media e levado às bancas pelo Corriere della Sera. Não obstante uma dobragem (dublagem no Brasil) exagerada (sim, é a primeira vez que o inquilino da Craven Road recebe uma voz!), a aventura de “apontar e clicar” é dotada de uma certa atmosfera, embora se vista com os olhos de hoje, tal como os títulos anteriormente citados,nos possam fazer sorrir um pouco.

O tempo passa e sobe-se de nível, graças à Artematica que, em 2005 traz para os PC “Martin Mystère – Operazione Dorian Grey“: será o cunho de Mister Jinx mas a aventura, também um “aponta e clica”, está entre as transposições digitais mais bem conseguidas dos personagens Bonelli. É novamente a Artematica, capitaneada por Riccardo Cangini, a estar a trabalhar num jogo “bonelliano” em 2010: “Julia – Innocent Eyes“, dividido em três capítulos, vendidos separadamente (“Parole non dette“, “Istinto predatore” e “Lacrime nere“).

Esta visão geral rápida, não muito exaustiva, só pode terminar com um olhar para o futuro: o que dizem de um jogo de RPG dedicado ao Dragonero? Em breve saberão mais a propósito…

[1] (Artigo publicado originalmente no Sítio Internet Sergio Bonelli Editore, em 28 de Janeiro de 2022) – Copyright: © 2022 Sergio Bonelli Editore & Luca Del Savio.

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