Poker de Ases (os quatro pards), por Moreno Burattini

Por Moreno Burattini*

Tex e seus pards por Claudio Villa

No imaginário coletivo a personagem de Tex encontra-se intimamente ligada à dos seus pards: Kit Carson, companheiro de mil aventuras, Kit Willer, digno filho do pai, e Jack Tigre, o índio irmão de sangue. Impossível vê-los galopar todos juntos e não nos sentirmos transportados por eles, e com eles, em direção às terras da Aventura, onde o sonho é um sol que nunca se põe e onde se respira o vento inebriante da emoção. Tex, Carson, Kit e Tiger não são apenas heróis, são amigos. Amigos leais e de confiança para uma vida inteira. 

Quatro pards: um poker de ases que não é jogado em cada aventura, apesar de frequentemente o vermos colocado na mesa. Contudo, é mais habitual ver atuar in tandem a parelha entre Tex e Carson. Mas é o quarteto em conjunto, aquele que chama pelo leitor desde o clássico frontispício de cada álbum, que garante o máximo das emoções em qualquer tipo de ambiente, seja com os pards cavalgando ao longo dos rochedos empoeirados do Arizona ou nos desertos ensolarados do México, seja a deslocarem-se entre as florestas das Montanhas Rochosas ou nas encostas do Grande Norte.

No entanto, no início Tex era um herói solitário. Na verdade, era mesmo um fora da lei: vítima de uma atroz injustiça, era procurado por todos os xerifes. O quarteto forma-se alguns anos após o início da saga e, mesmo antes de ser absolvido, Tex será reabilitado e integrado no corpo dos Rangers ao lado de Carson. 

Tex e seus pards homenageiam Sergio Bonelli

Cabelos de Prata 

O primeiro encontro entre Tex Willer e Kit Carson dá-se no oitavo álbum da primeira série em tiras, intitulado El Diablo, no longínquo ano de 1948. Ou seja, pouco tempo depois do aparecimento nas bancas da nova publicação e do novo herói da camisa amarela e do esvoaçante lenço negro. Quando as tiras foram reeditadas em volumes gigantes (as do formato atual), este primeiro encontro com o futuro Cabelos de Prata é inserido no primeiro número, La mano rossa. Na realidade, trata-se apenas de uma fugaz aparição. Carson ainda não é o velho camelo que vamos aprender a conhecer: nesta altura, os seus cabelos, a barba e o bigode são pretos e o seu rosto tem traços de jovem. Entre ele e Tex há apenas um apertar de mão, que os dois trocam quando Willer é integrado no corpo dos Rangers. Mas rapidamente se cumprimentarão, uma vez que há uma missão iminente. A amizade, firme e viril, nascerá mais tarde: agora há uma menina a salvar. Perante esta emergência, nada pode reter o nosso herói, acabado de transformar-se de presa em caçador: na verdade, até há bem pouco tempo era, mesmo que injustamente, considerado um fora da lei. No entanto, Tex tinha ajudado um ranger, Jeff, contra El Diablo, um latifundiário mexicano que tinha ao seu serviço um exército pessoal e por isso conquistado a estima de Herbert Marshal, chefe dos Texas Rangers, assim como de Kit Carson, um dos seus melhores homens. E será este que irá propor a Tex que integre os Rangers.

Só algum tempo depois é que Tex e Carson se reencontram e vivem juntos a primeira de uma extensa série de aventuras. Acontece no episódio La banda di Kid Billy, que se inicia no décimo nono album da primeira série em tiras, posteriormente reeditado no segundo volume da série gigante. São apenas 43 pranchas, mas memoráveis, porque é a partir daqui que os rangers iniciam a sua parceria, destinada a revelar-se à prova de bala. A parceria entre Águia da Noite e Cabelos de Prata, a mais frequente ao longo da série (nem sempre os quatro pards atuam em conjunto, mas Carson está quase sempre ao lado de Tex), é uma das mais bem sucedidas na história da banda desenhada e seguramente uma das razões do sucesso das aventuras texianas. As longas cavalgadas lado a lado, as divertidas escaramuças verbais entre os dois, as visitas ao restaurante para devorar bifes com dois dedos de altura, enterrados numa montanha de batatas fritas, os tiroteios e os acontecimentos vividos em conjunto, a constante entreajuda, tornam este duo de velhos amigos num ícone único do imaginário coletivo.

Tex e Carson em acção na arte de Gianluca Cestaro

Embora seja sem dúvida inteligente, ao ponto de também poder ser considerado um herói por inteiro, Kit Carson é de alguma forma o representante do leitor dentro da história, na comparação com o protagonista que é sempre Tex. É com Cabelos de Prata que Águia da Noite faz o ponto da situação e examina os elementos das suas investigações e é a ele que explica os seus planos e exemplifica as hipóteses, de modo a que o leitor seja informado. Tal como aconteceria com o leitor, Carson resmunga e considera uma loucura os planos audazes do seu amigo, mas depois não hesita em segui-lo. O Velho Camelo, tal como acontece com Yanez com Sandokan, nunca rouba o protagonismo a Tex. Este reconhece ao seu velho amigo a sabedoria, a experiência amadurecida com a idade e adquirida com as missões realizadas, enquanto que Cabelos de Prata, por seu lado, sabe que Tex vence sempre os seus desafios com o destino, mesmo os mais difíceis.

Gianluigi Bonelli pediu emprestado o nome de uma figura histórica para o seu herói: um scout do exército, que efetivamente se relacionou com os Navajos, mas como adversário. Trata-se do Kit Carson que passou da História do Oeste para a lenda do western, sobre quem já desde a sua época se escreveram dezenas de romances baratos, como aconteceu com Buffalo Bill ou David Crockett. No entanto, para além do mesmo nome e do facto de ambos serem heróis da epopeia do Oeste, nenhuma outra relação pode ser feita entre o Carson da História e o Carson da saga de Tex.

Pequeno Falcão 

No início da saga, o ainda jovem Tex Willer casou com Lilyth, uma jovem índia destinada a sair de cena muito em breve, vítima de uma epidemia de varíola provocada deliberadamente por brancos sem escrúpulos, contra os quais se voltou a implacável vingança de Tex. Com a morte do sogro Flecha Vermelha, torna-se líder dos Navajos, investido com o nome de Águia da Noite. Da união de Tex com Lilyth nasceu Kit, batizado em honra de Carson, mas chamado de Pequeno Falcão pela tribo da mãe. Mesmo que se possa ver neste nome uma comparação entre ele e o pai (maior do que ele, evidentemente), o jovem não se sente seguramente ofuscado pela figura paterna: para ele, Tex não é um monumento embaraçoso que lhe faz sombra, mas um mestre de vida que o ilumina. Pouco se sabe da sua infância: sabemos que frequentou por pouco tempo uma escola de missionários e que depois regressou à aldeia navajo.

Habituados a seguir Tex aventura atrás de aventura, como se cada missão cumprida cedesse a sua vez, sem uma relação de continuidade, a uma nova missão a cumprir, é de admirar que, no início da saga de Águia da Noite, encontrem-se bem evidentes dois notáveis saltos temporais. O álbum do início da terceira série de tiras de Tex (reeditado no décimo álbum gigante, Il tranello), de facto mostra pela primeira vez os futuros quatro pards em conjunto, acrescentando a Carson e a Jack Tigre, já vistos anteriormente, também o pequeno Kit Willer. Datado de 22 maio de 1951, o episódio intitulado L’orma della paura começa com uma nítida diferença relativamente ao último episódio da série anterior. Entre a última aventura da segunda série e esta, de facto Tex viveu alguns acontecimentos. A sua mulher Lilyth morreu em circunstâncias que viremos a conhecer em flashback apenas mais tarde, enquanto Tex vive entre os Navajos junto do filho Kit, apelidado pelos índios de Pequeno Falcão, e do sogro Flecha Vermelha. O início da história é marcado pela chegada de Carson à aldeia, que vem pedir a Tex para reintegrar os Rangers, propondo-lhe que use de novo a estrela que Águia da Noite tinha devolvido numa aventura anterior.

E chegamos ao segundo salto temporal: com a história seguinte inicia-se a quarta série de tiras (posteriormente reeditada nos álbuns gigantes 12 e 13) e Pequeno Falcão cresceu. Apesar de ainda um adolescente, Kit pode entrar em ação com o pai e Kit Carson contra um certo Black Sam e o seu bando de encapuçados. Depois de terem criado e deixado fora de cena o jovem Kit, Bonelli e Galleppini zelam também pelo seu crescimento, inserindo uma explicação: “depois de ter frequentado por um certo período de tempo a escola dos Padres Missionários de Santa Anita, Kit regressou à aldeia navajo de Flecha Vermelha onde vive com Tex. Kit deu provas da sua grande inteligência, mas nas suas veias flui o sangue do pai e o seu instinto impele-o para a vida selvagem das amplas pradarias e não para a vida monótona das cidades”. Com estas palavras ficou traçado um retrato eficaz do jovem mestiço: a Fronteira, se bem que perigosa, é de igual forma incomparavelmente mais fascinante do que a Civilização. 

Numa das mais belas aventuras de toda a série, aquela que se inicia com o álbum Il solitario del West, escrita por Guido Nolitta e desenhada por Giovanni Ticci, o jovem Willer fica perturbado com a morte de um amigo índio. Ouvindo as palavras sentidas de conforto ditas pelo pai para elevar-lhe o ânimo e vendo a preocupação de Águia da Noite pelo tormento interior de Pequeno Falcão, que se prolonga no tempo, observamos a indiferença do jovem, que todos adoram, para com os seus pares na aldeia navajo e para com as raparigas da tribo, sublinhando o facto de que, em circunstâncias normais, Kit tem uma vida social e sentimental, da qual geralmente pouco se sabe. Numa outra bela história, escrita por Claudio Nizzi e desenhada por Claudio Villa, L’uomo senza passato, Pequeno Falcão perde a memória depois de ter sido ferido, apaixonando-se pela sua salvadora, Flor de Lua, a mais bela donzela da tribo dos Utes, que o trouxe das águas do rio onde caiu. Mas tal como já acontecera com o seu pai, também Kit perde tragicamente a mulher amada. Também Kit Willer tem a sua Lilyth.

Sangue navajo

Forte é a ligação entre Kit Willer e Jack Tigre, um homem de poucas palavras, mas de olhar intenso. Olhar que pode transmitir algo ou permanecer impenetrável. Quem não o conhece será levado a pensar que debaixo daquele olhar não existem emoções. Não é assim, como bem sabem os seus amigos, aqueles que conhecem a dor que marcou o seu passado, que  carrega consigo com dignidade, acompanhando-o desde então. E a dor é uma boa professora quando se é um grande aluno.

Foi durante o confronto com o bando dos Dalton, numa célebre aventura que podemos encontrar nos álbuns gigantes 8 e 9, que Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini introduziram na saga uma nova personagem: Jack Tigre. “Kit! Este é Jack Tigre, o meu companheiro índio” disse Tex a Carson quando lhe apresentou o orgulhoso navajo. Desengane-se quem pense que o fiel navajo é apenas um mero executor de ordens ou um ajudante, um esmerado criado pronto a seguir as ordens e obedecer cegamente às mesmas apenas com um estalar de dedos. Jack Tigre mantém com Tex um relacionamento de igualdade: não discute a sua autoridade de chefe, mas reconhece-a com base no carisma de Águia da Noite. Para Tex, Jack Tigre é um amigo, não um mero seguidor ou servidor. Para Tex, Jack Tigre não é um guarda-costas, um guia ou um mero acompanhante. É um pard, um companheiro fiel, e a sua amizade sã e viril representa um símbolo em como homens de diferenças raças e culturas diversas podem viver lado a lado em estima recíproca, iguais em dignidade, amizade e fraternidade.

Tex e Jack Tigre em acção na arte de Gianluca Cestaro

Uma vez que Gianluigi Bonelli não disse mais nada sobre a personagem, coube a Claudio Nizzi, através dos desenhos de Giovanni Ticci, contar o passado de Jack Tigre numa longa aventura narrada em flashback nos álbuns gigantes 384 a 387. Nesta, descobrimos que um drama pessoal sepultado no seu passado é semelhante ao vivido por Tex: ambos sofreram a morte, violenta e injusta, mas implacavelmente vingada, das mulheres que amavam. Como é que Águia da Noite e Jack Tigre se conheceram? Tex tinha reparado no índio, entre os outros guerreiros, desde a sua chegada à aldeia de Flecha Vermelha, mas no início os dois não mantiveram qualquer relação em particular. Naquela altura, Tex ainda usava um casaco de peles com franjas e cavalgava com Dinamite. E é montado no seu fiel cavalo que Willer segue o rasto de sangue deixado por Jack Tigre, que partira em busca da sua amada, Taniah, raptada por brancos. Em Santa Fé, Tex salva Jack Tigre de um bando de desordeiros que o queriam linchar, e a partir daquele momento os dois tornaram-se como irmãos, inseparáveis. A morte violenta de Taniah forjou na dor um rapaz desesperado num incansável justiceiro. E esta transformação ocorreu após um período de retiro monástico nos montes Navajos. “Tiger Jack partiu em meados de novembro”, recorda Tex, sentado junto aos seus pards, atentos a escutar o seu relato. “Em breve começou a nevar e aquele ano ficou na memória como um dos mais agrestes. Passaram três meses e Tigre não voltava. Não fui ao seu encontro, sentia que não era justo. Finalmente, chegou a Primavera, a neve começou a derreter engrossando as correntes, e um dia, finalmente, Tigre regressou. A sua face estava mais magra e seca, marcada pelo vento e pelas tempestades, mas o seu olhar revelava uma nova vontade em viver. Desde então, como sabem, permaneceu sempre comigo, tornando-se praticamente na minha sombra. E alguns anos mais tarde, quando perdi a minha adorada Lilyth e ele teve que enfrentar essa mesma tragédia, nenhum outro esteve sempre ao meu lado”. Silencioso e orgulhoso, amigo para sempre. 

Poker de Ases na interpretação de Galep

* Texto de Moreno Burattini publicado originalmente na Revista nº 5 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2016.

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Últimas correcções (de Mauro Boselli) para o retorno do Padma

É já no mês de Agosto que em Itália teremos, na edição 742 da série principal de Tex, o retorno do monge chinês Padma (um velho Lama dotado de extraordinários poderes, que iniciou Mefisto nas mais ocultas artes mágicas), retorno esse integrado na grandiosa saga do regresso de Mefisto que continua a sair mensalmente em terras transalpinas. 

A aventura que trará o retorno do Padma tem desenhos de Fabio Civitelli e inclusive tem como título ‘Il ritorno di Padma‘ como se pode constatar na deslumbrante capa desenhada por Claudio Villa, como podemos ver de seguida:

Tex #742 – ‘Il ritorno di Padma’

Mas o motivo principal do post de hoje é dar a conhecer aos nossos leitores algumas das últimas correcções (pela mão do editor Mauro Boselli) efectuadas aquando da última revisão antes da edição ser impressa em série:

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O triunfo de Mefisto, em Outubro, com 16 páginas de brinde

Em Outubro, na Itália, teremos na série mensal de Tex a conclusão da épica saga do retorno de Mefisto (num seu novo regresso à ribalta), o arqui-inimigo mor do Ranger. Uma saga em sete capítulos, que se iniciou em Abril, escrita por Mauro Boselli e desenhada na primeira fase (Tex #738 a #740) pelos irmãos Gianluca e Raul Cestaro e na fase actual (segunda, Tex #741 a #744) por Fabio Civitelli, com a particularidade da Sergio Bonelli Editore oferecer como brinde, 16 páginas suplementares, páginas essas que permitirão o triunfo de Mefisto como se intui do título do volume em questão: “Il trionfo di Mefisto“, título esse exibido na fantástica capa desenhada por Claudio Villa e que damos hoje a conhecer a todos os nossos leitores, devido à prova tipográfica que Mauro Boselli autografou para um amigo de Giorgio Giusfredi de visita à via Buonarroti:

O triunfo de Mefisto; Tex #644

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Os sinos dobram por Lucero!

Por Jesus Nabor Ferreira*

“No Arizona, ao lado da trilha que liga Nogales a Tucson, passando pelos contrafortes orientais da Cordilheira Santa Rita. Uma dupla de condutores leva a diligência pela estrada que conduz a Tubac (pequeno povoada na trilha para Nogales) sem desconfiar que os seus destinos e os de todos os passageiros está selado. Escondidos no alto de uma encosta, um grupo de apaches prepara o seu ataque sanguinário.” Assim começa uma das mais eletrizantes aventuras texanas criadas por Gianluigi Bonelli e Guglielmo Letteri.

Os apaches atacam

Um bando de selvagens apaches aterroriza a região da fronteira entre o México e os Estados Unidos. O bando leva o terror a todos os que cruzam as fronteiras entre os estados do Arizona e Novo México, nos Estados Unidos, e Sonora, no México. A violência com que empreendem os seus ataques só é superada pela astucia em desaparecer completamente dos locais dos assaltos. Mesmo sendo perseguidos por xerifes, militares e rangers, os misteriosos mescaleros desaparecem sem deixar rasto algum. As buscas pelo seu esconderijo resultam infrutíferas, ficando apenas a certeza de que novos ataques virão, espalhando medo e desespero entre todos aqueles que precisam viajar pelas poeirentas e perigosas trilhas do velho oeste.

Impotentes para fazerem frente aos ataques dos mescaleros, os militares pedem a ajuda de Tex e dos seus amigos, na tentativa de que estes possam, devido à sua fama de lidarem com situações parecidas e das quais saíram vitoriosos, solucionar o mistério que envolve o perigoso bando. Ao tomar conhecimento dos factos, Tex logo percebe que há uma diferença entre estes ataques praticados pelo grupo de selvagens e as demais ações envolvendo grupos de índios rebeldes: os índios atacam caravanas, ranchos e diligências, apenas para provarem o seu valor em combate, a sua bravura, levando como saque os animais, geralmente cavalos ou gado, e também armas ou bebidas. No caso de ataques mais violentos, retiram também os escalpes das suas vítimas. Mas nunca saqueiam valores económicos, dinheiro, joias ou ouro, estes itens não têm valor para os índios, eles são objeto de cobiça do homem branco. Tex percebe que, neste caso em particular, os mescaleros assassinam, escalpam e roubam as suas vítimas. Fica visível que os ataques têm como motivação a obtenção de dinheiro. Isto faz com que o ranger perceba tratar-se de um caso incomum e que, aliado ao facto de os mescaleros conseguirem desaparecer após cada ataque, acrescentando que os atacantes não deixam ninguém vivo, nenhuma pista, demonstra que os quatros amigos estão diante de um adversário astuto e impiedoso.

Não há pistas que possam  identificar os foragidos, o seu esconderijo e a motivação para tais ataques e massacres impiedosos.  Mas o destino vai jogar uma cartada decisiva nesta partida mortal entre os nossos heróis e o temível bando dos mescaleros. Por um puro golpe de sorte, no último ataque praticado um homem sobrevive e, antes de perder completamente a consciência, escuta uma frase que vai decidir o destino dos apaches mescaleros.  A mão negra e descarnada da morte começava a apontar o seu fétido e gélido dedo em direção ao homem chamado Lucero!  

O homem chamado Lucero

Uma velha missão Jesuíta, a Missão de San Xavier. Alguns anos antes, um grupo de padres ministra os ensinamentos religiosos do homem branco a um grupo de jovens apaches e, entre estes, um em especial se destaca: o jovem Lucero é um aluno excecional que traz grande orgulho aos seus professores, que veem nele um futuro Homem de Deus. Mas o jovem mescalero tem outros planos para a sua vida e, logo após concluir o curso, foge da missão, levando todo o dinheiro e também um lindo e valioso crucifixo do seu mentor, o padre Tomas.

Lucero transformou-se num importante e rico “estanceiro”[i] que atende pelo nome de Don Fabio Esqueda, proprietário de extensas terras entre o sul do rio Alisos, indo em direção ao planalto dos Montes Coroados, na região de Sonora. Tendo como principal negócio a criação de cavalos e ovelhas, o inteligente índio dispõe de uma cobertura inocente para as suas verdadeiras atividades criminosas, arquitetando um estratagema eficaz e simples para o despistar e ocultar dos seus perseguidores: o bando dos mescaleros. Após a aplicação de cada golpe, os índios misturam-se com pastores de ovelhas, disfarçando-se de inocentes mexicanos, enquanto as pistas deixadas pelo bando acabam por se perder no meio dos rastos dos animais. Poucas vezes se viu um ardil tão simples e eficiente, que acaba por confundir e frustrar os perseguidores do bando.

Cochise, o irmão de sangue de Águia da Noite  

O lendário chefe chiricahua, que durante muitos anos combateu os soldados americanos e mexicanos para defender a sua gente, é também um dos principais amigos de Tex Willer. Em diversas ocasiões, o ranger apelou ao amigo apache para resolver ou intermediar conflitos entre índios rebeldes. Nesta aventura, tanto o chefe dos chiricahua como o ranger têm interesse em desmantelar o bando dos mescaleros, pois os apaches de Cochise estão a ser alvo do ódio e da desconfiança das autoridades. Cochise irá usar a sua influência para descobrir informações sobre o misterioso Lucero.

O xerife de Tombstone

Após fazer o seu relatório ao coronel Brockman, Tex e os seus amigos dirigem-se para a cidade de Tombstone, para depois seguirem em direção aos Montes Coroados. E é em Tombstone que o destino vai colaborar para que Lucero não fique sem punição. Por uma incrível coincidência, o xerife de Tombstone lembrava-se de, alguns anos antes, ter conhecido na missão jesuíta um jovem índio que se chamava Lucero. Muito inteligente e talentoso, o jovem era o orgulho da missão. Tex não acredita em coincidências e decide ir até à missão investigar.

Nico Medranos, o espião dos Mescaleros

Mais uma demonstração da excecional inteligência do chefe dos mescaleros é a utilização do mascate[ii] mexicano Nico Medranos como espião, pois este tem o perfeito disfarce para circular tranquilamente entre os povoados sem levantar suspeita alguma, levando e trazendo informações sobre as movimentações do exército, dos transportes de valores e também levando mantimentos para os índios de Lucero. Nico Medranos também terá participação importante na derrocada do bando de mescaleros.

O crucifixo do padre Tomas

Esta aventura, que num primeiro momento parece ser apenas mais uma das muitas histórias clássicas do velho oeste, envolvendo confrontos entre índios e brancos, ao ser analisada de uma maneira mais profunda irá mostrar a razão de Gianluigi Bonelli ser considerado um dos mais geniais autores de sua geração. Bonelli pai, sempre engenhoso a criar as suas tramas cheias de drama, ação, violência, não dececiona os seus leitores e apresenta uma grande trama, onde estão presentes todos estes elementos e algo mais. Bonelli cria um antagonista aos nossos heróis dotado de uma inteligência superior e uma determinação em atingir os seus objetivos, não importando o que tenha de ser feito. Lucero não se detém diante de nada nem de ninguém, nem mesmo o homem que lhe salvou a vida é poupado.

Mas os pecados devem ser redimidos, os crimes castigados, e o preço da redenção muitas vezes é a morte. Com a devolução da cruz do pobre padre Tomas à Missão de San Xavier, o círculo finalmente fecha-se, cai a cortina final no grande drama protagonizado pelo mescalero Lucero no seu grande sonho de conquista e riqueza. Um dos mais implacáveis e inteligentes adversários que os rangers encontraram na sua carreira, finalmente encontra o seu derradeiro fim entre os muros da velha missão.

Algumas interessantes curiosidades a considerar sobre esta aventura

1 – Apesar de toda a astúcia, coragem e habilidade dos quatros pards, todas as pistas sobre os mescaleros acabam por incrivelmente vir parar às suas mãos por acaso. A única contribuição real para a solução do mistério é oferecida por Tex, que por duas vezes suspeita das estranhas coincidências envolvendo o nome de Lucero e também das atividades do mascate Nico. Tudo o resto deve-se ao acaso ou então ao destino, que já tinha apontado o seu dedo para o implacável líder dos mescaleros;

2 – Esta é a segunda vez, pelo menos nestas aventuras do ranger consideradas clássicas, onde Tex nunca se confrontará frente a frente com o seu adversário principal na trama. A outra situação iremos perceber na aventura O Filho de Mefisto, onde Tex e os seus amigos não se encontram em momento algum com Yama;

3 – Mesmo tendo como premissa uma aventura repleta de cenas de ação e violência, neste arco de histórias vemos muito pouco os rangers em ação. A bem da verdade, com exceção da luta mortal entre Jack Tigre e um índio mescalero ou a emboscada que irá determinar o  fim do bando dos mescaleros,  há pouca ou quase nenhuma cena de ação explosiva, tão comum a Tex e seus amigos.  Aliás, parece mesmo que Gianluigi Bonelli quis que todo o protagonismo desta aventura fosse mesmo de Lucero, pois é ele quem tem as melhores cenas (lembramos que nos foi dito que ele era um ator nato quando estava entre os Jesuítas), deixando para Tex e seus pards o papel de atores coadjuvantes que cumprem à risca um script belamente elaborado com inteligência e perícia. Ao chegarmos ao fim desta aventura, não fica difícil torcer (um pouquinho que seja) para que finalmente Lucero encontre a sua redenção. O carisma do inteligente mescalero, que desejava que o seu povo pudesse viver livre, mesmo que lutando, desafiando o poder do homem branco invasor, que lhes tomou as terras e os obrigou a viver em reservas, não deixa de ter o seu encanto. O homem inteligente, que compreendeu que não poderia vencer o homem branco, mas que poderia enganá-lo, transformando um lobo num criador de cordeiros, um selvagem mescalero num Don (rico proprietário de terras), tem o seu fascínio como grande adversário de Tex. O seu lugar está ao lado dos grandes e implacáveis inimigos do ranger;

4 – Analisando mais profundamente o enredo desta aventura, encontramos um detalhe que passa despercebido num primeiro momento e que é mais uma prova da inteligência de Lucero (Gianluigi Bonelli): o implacável chefe mescalero ataca sempre as suas vítimas do lado americano, vivendo disfarçado no México. Ele não teme os xerifes ou os soldados, pois sabe que estes têm de obedecer às leis e aos limites das fronteiras. Mas isso não vale para os rangers.

OS APACHES – “Apache quer dizer inimigo!”

Os apaches, uma das mais antigas nações indígenas dos Estados Unidos, habitavam o Arizona, norte do México, Novo México, oeste e sudoeste do Texas e o sul do Colorado. Viviam geralmente entre as montanhas altas, os vales que contivessem água e fossem protegidos, as planícies e o deserto do sul. Hoje vivem em reservas indígenas designadas pelo governo americano.

Com o intuito de facilitar a colonização do oeste americano, o governo travou diversas guerras índias e dizimou a maior parte da população indígena do país. Os que não foram mortos nas guerras índias acabaram em reservas administradas pelo governo, geralmente em lugares inóspitos e bastante diferentes daqueles a que estavam habituados. A falta de liberdade para se deslocarem, o confinamento, os maus tratos e a negligência das autoridades, fizeram com que muitos chefes se revoltassem e fugissem das reservas.

 Alguns dos maiores chefes apaches no período das guerras foram Cochise, uma das figuras mais conhecidas dentro e fora da ficção, Gerónimo, um dos mais ferozes líderes apaches e que causou diversas baixas aos soldados americanos e mexicanos nas chamadas guerras índias, e Mangas Coloradas, que acabou traído pelos militares.

A tribo dos apaches mescaleros foi reconhecida pelo governo americano em 1874 e hoje vive numa reserva no Novo México.

Cochise na ficção Bonelli

Muitos leitores não sabem, mas foi Guglielmo Letteri quem criou visualmente o grande chefe chiricahua Cochise, na edição número 83 da coleção italiana do Ranger, na aventura Il passato di Tex, publicada no Brasil pela editora Vecchi, no número 25, com o título A lança sagrada. Letteri cria uma figura imponente, dotada de grande dignidade e carisma. Outro grande desenhador que também retratou de maneira soberba o grande chefe chiricahua foi Erio Nicolò em Fantasmas do deserto. 

O Cochise de Gianluigi Bonelli é um sábio chefe que procura o bem estar do seu povo e tem em Tex Willer, ou melhor, em Águia da Noite, o seu grande amigo e irmão de sangue. Os dois chefes entendem-se e o mútuo respeito entre ambos está presente em todos os encontros.  Bonelli, ao criar a personalidade do líder apache, decalcou da figura real aqueles aspetos mais favoráveis, como a inteligência, a forte personalidade e o carisma do grande chefe. Propositadamente, deixou de lado o caráter violento e combativo do Cochise real, que enfrentou e massacrou diversos inimigos ao longo da sua vida. Esta face do mítico líder guerreiro não deixaria, porém, de ser representada na banda desenhada, pois outro grande autor da casa Bonelli, Gino D’Antonio, criou a sua versão ficcional de Cochise.  Na sua grande saga Storia Del West[iii], D´Antonio retrata o altivo chefe apache como um homem de extrema inteligência e ferrenha vontade, que considerava todos os homens brancos como seus inimigos. Como ele costumava dizer, Cochise só confiava em dois homens brancos:  “Os Apaches não têm amigos brancos. Mas tenho dois inimigos em quem posso confiar: Tex Willer e Tom Jeffords[iv], meus irmãos de sangue.”

Referências

Tex nº 62, 63 e 64 –  Editora Vecchi
Storia Del West – Gino D´Antonio, Sergio Bonelli Editore
Epopéia Tri – Editora Ebal
Cochise e Apache – Wikipédia

[i] Fazendeiro

[ii] Comerciante que viaja de cidade em cidade oferecendo os seus produtos. O nome foi dado no Brasil aos mercadores ambulantes e, embora o vocábulo seja utilizado em Portugal com o mesmo significado, o termo ficou associado à imigração àrabe no Brasil, devido ao elevado número de imigrantes, sobretudo do Líbano e da Síria, que se dedicaram a esta atividade.

[iii] Publicada no Brasil pela editora Ebal com o nome de Epopéia Tri.

[iv] Thomas Jefferson Jeffords, scout apache do exército norte-americano, agente índio e prospetor. Personagem verídica que manteve amizade com Cochise, por isso, nesta afirmação está a intenção em juntar a fantasia com a realidade, uma vez que Tom Jeffords realmente nunca surgiu na saga de Tex Willer.

* Texto de Jesus Nabor Ferreira publicado originalmente na Revista nº 5 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2016.

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