As Leituras do Pedro: Tex Gigante 40 – Nas montanhas Sierrita

As Leituras do Pedro*

Tex Gigante 40 – Nas montanhas Sierrita
Jacopo Rauch (argumento)
Giuseppe Palumbo  (desenho)
Mythos Editora
Brasil, Outubro de 2024
185 x 275 mm, 240 p., pb, capa cartão
R$ 79,90

Triste excepção à regra

Tenho escrito recorrentemente que uma das características das edições Bonelli é a apreciável qualidade média das suas propostas, quer no que respeita aos argumentos, quer, especialmente no que respeita ao desenho. Infelizmente – mas necessário para haver uma regra – há excepções.

A mais recente, no que às minhas leituras de respeito, foi o Tex Gigante 40 – Nas montanhas Sierrita, cujo traço de Giuseppe Palumbo chegou a incomodar-me, tornando de alguma forma difícil, a espaços mesmo penosa, a leitura.

Na realidade, o traço quase semi-caricatural do desenhador italiano revelou-se de todo inadequado para um western com as características de Tex: duro, violento, dinâmico e com sucessivos confrontos sem quartel, o que nalguns casos retira qualquer credibilidade às cenas. Isto choca mais, sabendo que estamos perante um Tex Gigante (o italiano Texone), geralmente reservado a grandes nomes da banda desenhada.

Palumbo – que demorou anos a desenhar este álbum! – foi incapaz de manter o seu Tex com um aspecto regular, com variações assinaláveis e incómodas ao longo das pranchas e sempre distante daquela imagem dura que é seu apanágio.

Outro aspecto que me incomodou, foi a forma como ele utiliza linhas mais finas e outras mais grossas quase arbitrariamente, não no sentido de dar volume ou estabelecer distância do leitor em relação à cena, cuja dinâmica na verdade, para mim, funcionou muito mal. Não coloco em causa o estilo ou a capacidade artística de Palumbo, apenas aponto que não era de todo o artista que convinha a Tex.

Em termos de argumento, se não há nada de especialmente inovador na trama desenvolvida por Jacopo Rauch, também não foi capaz de contrabalançar a má impressão que o desenho causou ao longo de todo o livro. Tex e Carson, de novo na companhia de um agente da Pinkerton, perseguem um bando que assaltou um banco e feriu outro agente, mas a sua acção vai cruzar-se com um outro segmento, que passa por uma tentativa de chantagem sobre um poderoso rancheiro com métodos pouco honestos.

A junção dos dois ramos narrativos irá dar algum protagonismo a uma personagem feminina, o que não é muito frequente em Tex, apesar da sua presença ser mais visual do que interventiva. Outro aspecto positivo é a introdução de um fora-da-lei que, de alguma forma, foge ao habitual preto e branco que é marca das histórias do ranger, colocando-o, de certo modo, com um pé de cada lado da lei.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(capa disponibilizada pela Mythos Editora; pranchas disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nelas para as apreciar em toda a sua extensão)

Um comentário

  1. Texto interessante. Giuseppe Palumbo tem uma sólida carreira como ilustrador e é considerado um mestre dos quadrinhos na Itália O que por si só torna compreensível a sua escolha para ilustrar um Texone. Faz um certo tempo que conheci os seus trabalhos na área da ilustração e apreciei muito. O mesmo porém não aconteceu com o seu trabalho em Tex. Eu achei a caracterização de Tex e demais personagens ficou até boa. Algumas sequências boas. Porém achei o seu trabalho bem inconsistente. Os desenhos em muitos quadros achei muito banais conseguindo sintetizar pouco ou nada dos elementos necessários para dar vida a uma aventura de Águia da Noite. Palumbo pode até ser considerado um mestre na Itália mas o nível gráfico desse Texone está muito abaixo mesmo. Talvez essa história teria sido mais adequada para ser publicada em um Maxi, e não a um Texone. O roteiro de Rauch não está entre os melhores que já apareceram em Tex mas também não está entre os piores, muito pelo contrário!Acredito que foi muito prejudicado pela arte. Quem sabe que se esse Texone tivesse sido ilustrado por artistas como por exemplo os Irmãos Cestaro ou Gianluca Acciarino o roteiro não acabasse se sobressaindo?

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