Os sinos dobram por Lucero!

Por Jesus Nabor Ferreira*

“No Arizona, ao lado da trilha que liga Nogales a Tucson, passando pelos contrafortes orientais da Cordilheira Santa Rita. Uma dupla de condutores leva a diligência pela estrada que conduz a Tubac (pequeno povoada na trilha para Nogales) sem desconfiar que os seus destinos e os de todos os passageiros está selado. Escondidos no alto de uma encosta, um grupo de apaches prepara o seu ataque sanguinário.” Assim começa uma das mais eletrizantes aventuras texanas criadas por Gianluigi Bonelli e Guglielmo Letteri.

Os apaches atacam

Um bando de selvagens apaches aterroriza a região da fronteira entre o México e os Estados Unidos. O bando leva o terror a todos os que cruzam as fronteiras entre os estados do Arizona e Novo México, nos Estados Unidos, e Sonora, no México. A violência com que empreendem os seus ataques só é superada pela astucia em desaparecer completamente dos locais dos assaltos. Mesmo sendo perseguidos por xerifes, militares e rangers, os misteriosos mescaleros desaparecem sem deixar rasto algum. As buscas pelo seu esconderijo resultam infrutíferas, ficando apenas a certeza de que novos ataques virão, espalhando medo e desespero entre todos aqueles que precisam viajar pelas poeirentas e perigosas trilhas do velho oeste.

Impotentes para fazerem frente aos ataques dos mescaleros, os militares pedem a ajuda de Tex e dos seus amigos, na tentativa de que estes possam, devido à sua fama de lidarem com situações parecidas e das quais saíram vitoriosos, solucionar o mistério que envolve o perigoso bando. Ao tomar conhecimento dos factos, Tex logo percebe que há uma diferença entre estes ataques praticados pelo grupo de selvagens e as demais ações envolvendo grupos de índios rebeldes: os índios atacam caravanas, ranchos e diligências, apenas para provarem o seu valor em combate, a sua bravura, levando como saque os animais, geralmente cavalos ou gado, e também armas ou bebidas. No caso de ataques mais violentos, retiram também os escalpes das suas vítimas. Mas nunca saqueiam valores económicos, dinheiro, joias ou ouro, estes itens não têm valor para os índios, eles são objeto de cobiça do homem branco. Tex percebe que, neste caso em particular, os mescaleros assassinam, escalpam e roubam as suas vítimas. Fica visível que os ataques têm como motivação a obtenção de dinheiro. Isto faz com que o ranger perceba tratar-se de um caso incomum e que, aliado ao facto de os mescaleros conseguirem desaparecer após cada ataque, acrescentando que os atacantes não deixam ninguém vivo, nenhuma pista, demonstra que os quatros amigos estão diante de um adversário astuto e impiedoso.

Não há pistas que possam  identificar os foragidos, o seu esconderijo e a motivação para tais ataques e massacres impiedosos.  Mas o destino vai jogar uma cartada decisiva nesta partida mortal entre os nossos heróis e o temível bando dos mescaleros. Por um puro golpe de sorte, no último ataque praticado um homem sobrevive e, antes de perder completamente a consciência, escuta uma frase que vai decidir o destino dos apaches mescaleros.  A mão negra e descarnada da morte começava a apontar o seu fétido e gélido dedo em direção ao homem chamado Lucero!  

O homem chamado Lucero

Uma velha missão Jesuíta, a Missão de San Xavier. Alguns anos antes, um grupo de padres ministra os ensinamentos religiosos do homem branco a um grupo de jovens apaches e, entre estes, um em especial se destaca: o jovem Lucero é um aluno excecional que traz grande orgulho aos seus professores, que veem nele um futuro Homem de Deus. Mas o jovem mescalero tem outros planos para a sua vida e, logo após concluir o curso, foge da missão, levando todo o dinheiro e também um lindo e valioso crucifixo do seu mentor, o padre Tomas.

Lucero transformou-se num importante e rico “estanceiro”[i] que atende pelo nome de Don Fabio Esqueda, proprietário de extensas terras entre o sul do rio Alisos, indo em direção ao planalto dos Montes Coroados, na região de Sonora. Tendo como principal negócio a criação de cavalos e ovelhas, o inteligente índio dispõe de uma cobertura inocente para as suas verdadeiras atividades criminosas, arquitetando um estratagema eficaz e simples para o despistar e ocultar dos seus perseguidores: o bando dos mescaleros. Após a aplicação de cada golpe, os índios misturam-se com pastores de ovelhas, disfarçando-se de inocentes mexicanos, enquanto as pistas deixadas pelo bando acabam por se perder no meio dos rastos dos animais. Poucas vezes se viu um ardil tão simples e eficiente, que acaba por confundir e frustrar os perseguidores do bando.

Cochise, o irmão de sangue de Águia da Noite  

O lendário chefe chiricahua, que durante muitos anos combateu os soldados americanos e mexicanos para defender a sua gente, é também um dos principais amigos de Tex Willer. Em diversas ocasiões, o ranger apelou ao amigo apache para resolver ou intermediar conflitos entre índios rebeldes. Nesta aventura, tanto o chefe dos chiricahua como o ranger têm interesse em desmantelar o bando dos mescaleros, pois os apaches de Cochise estão a ser alvo do ódio e da desconfiança das autoridades. Cochise irá usar a sua influência para descobrir informações sobre o misterioso Lucero.

O xerife de Tombstone

Após fazer o seu relatório ao coronel Brockman, Tex e os seus amigos dirigem-se para a cidade de Tombstone, para depois seguirem em direção aos Montes Coroados. E é em Tombstone que o destino vai colaborar para que Lucero não fique sem punição. Por uma incrível coincidência, o xerife de Tombstone lembrava-se de, alguns anos antes, ter conhecido na missão jesuíta um jovem índio que se chamava Lucero. Muito inteligente e talentoso, o jovem era o orgulho da missão. Tex não acredita em coincidências e decide ir até à missão investigar.

Nico Medranos, o espião dos Mescaleros

Mais uma demonstração da excecional inteligência do chefe dos mescaleros é a utilização do mascate[ii] mexicano Nico Medranos como espião, pois este tem o perfeito disfarce para circular tranquilamente entre os povoados sem levantar suspeita alguma, levando e trazendo informações sobre as movimentações do exército, dos transportes de valores e também levando mantimentos para os índios de Lucero. Nico Medranos também terá participação importante na derrocada do bando de mescaleros.

O crucifixo do padre Tomas

Esta aventura, que num primeiro momento parece ser apenas mais uma das muitas histórias clássicas do velho oeste, envolvendo confrontos entre índios e brancos, ao ser analisada de uma maneira mais profunda irá mostrar a razão de Gianluigi Bonelli ser considerado um dos mais geniais autores de sua geração. Bonelli pai, sempre engenhoso a criar as suas tramas cheias de drama, ação, violência, não dececiona os seus leitores e apresenta uma grande trama, onde estão presentes todos estes elementos e algo mais. Bonelli cria um antagonista aos nossos heróis dotado de uma inteligência superior e uma determinação em atingir os seus objetivos, não importando o que tenha de ser feito. Lucero não se detém diante de nada nem de ninguém, nem mesmo o homem que lhe salvou a vida é poupado.

Mas os pecados devem ser redimidos, os crimes castigados, e o preço da redenção muitas vezes é a morte. Com a devolução da cruz do pobre padre Tomas à Missão de San Xavier, o círculo finalmente fecha-se, cai a cortina final no grande drama protagonizado pelo mescalero Lucero no seu grande sonho de conquista e riqueza. Um dos mais implacáveis e inteligentes adversários que os rangers encontraram na sua carreira, finalmente encontra o seu derradeiro fim entre os muros da velha missão.

Algumas interessantes curiosidades a considerar sobre esta aventura

1 – Apesar de toda a astúcia, coragem e habilidade dos quatros pards, todas as pistas sobre os mescaleros acabam por incrivelmente vir parar às suas mãos por acaso. A única contribuição real para a solução do mistério é oferecida por Tex, que por duas vezes suspeita das estranhas coincidências envolvendo o nome de Lucero e também das atividades do mascate Nico. Tudo o resto deve-se ao acaso ou então ao destino, que já tinha apontado o seu dedo para o implacável líder dos mescaleros;

2 – Esta é a segunda vez, pelo menos nestas aventuras do ranger consideradas clássicas, onde Tex nunca se confrontará frente a frente com o seu adversário principal na trama. A outra situação iremos perceber na aventura O Filho de Mefisto, onde Tex e os seus amigos não se encontram em momento algum com Yama;

3 – Mesmo tendo como premissa uma aventura repleta de cenas de ação e violência, neste arco de histórias vemos muito pouco os rangers em ação. A bem da verdade, com exceção da luta mortal entre Jack Tigre e um índio mescalero ou a emboscada que irá determinar o  fim do bando dos mescaleros,  há pouca ou quase nenhuma cena de ação explosiva, tão comum a Tex e seus amigos.  Aliás, parece mesmo que Gianluigi Bonelli quis que todo o protagonismo desta aventura fosse mesmo de Lucero, pois é ele quem tem as melhores cenas (lembramos que nos foi dito que ele era um ator nato quando estava entre os Jesuítas), deixando para Tex e seus pards o papel de atores coadjuvantes que cumprem à risca um script belamente elaborado com inteligência e perícia. Ao chegarmos ao fim desta aventura, não fica difícil torcer (um pouquinho que seja) para que finalmente Lucero encontre a sua redenção. O carisma do inteligente mescalero, que desejava que o seu povo pudesse viver livre, mesmo que lutando, desafiando o poder do homem branco invasor, que lhes tomou as terras e os obrigou a viver em reservas, não deixa de ter o seu encanto. O homem inteligente, que compreendeu que não poderia vencer o homem branco, mas que poderia enganá-lo, transformando um lobo num criador de cordeiros, um selvagem mescalero num Don (rico proprietário de terras), tem o seu fascínio como grande adversário de Tex. O seu lugar está ao lado dos grandes e implacáveis inimigos do ranger;

4 – Analisando mais profundamente o enredo desta aventura, encontramos um detalhe que passa despercebido num primeiro momento e que é mais uma prova da inteligência de Lucero (Gianluigi Bonelli): o implacável chefe mescalero ataca sempre as suas vítimas do lado americano, vivendo disfarçado no México. Ele não teme os xerifes ou os soldados, pois sabe que estes têm de obedecer às leis e aos limites das fronteiras. Mas isso não vale para os rangers.

OS APACHES – “Apache quer dizer inimigo!”

Os apaches, uma das mais antigas nações indígenas dos Estados Unidos, habitavam o Arizona, norte do México, Novo México, oeste e sudoeste do Texas e o sul do Colorado. Viviam geralmente entre as montanhas altas, os vales que contivessem água e fossem protegidos, as planícies e o deserto do sul. Hoje vivem em reservas indígenas designadas pelo governo americano.

Com o intuito de facilitar a colonização do oeste americano, o governo travou diversas guerras índias e dizimou a maior parte da população indígena do país. Os que não foram mortos nas guerras índias acabaram em reservas administradas pelo governo, geralmente em lugares inóspitos e bastante diferentes daqueles a que estavam habituados. A falta de liberdade para se deslocarem, o confinamento, os maus tratos e a negligência das autoridades, fizeram com que muitos chefes se revoltassem e fugissem das reservas.

 Alguns dos maiores chefes apaches no período das guerras foram Cochise, uma das figuras mais conhecidas dentro e fora da ficção, Gerónimo, um dos mais ferozes líderes apaches e que causou diversas baixas aos soldados americanos e mexicanos nas chamadas guerras índias, e Mangas Coloradas, que acabou traído pelos militares.

A tribo dos apaches mescaleros foi reconhecida pelo governo americano em 1874 e hoje vive numa reserva no Novo México.

Cochise na ficção Bonelli

Muitos leitores não sabem, mas foi Guglielmo Letteri quem criou visualmente o grande chefe chiricahua Cochise, na edição número 83 da coleção italiana do Ranger, na aventura Il passato di Tex, publicada no Brasil pela editora Vecchi, no número 25, com o título A lança sagrada. Letteri cria uma figura imponente, dotada de grande dignidade e carisma. Outro grande desenhador que também retratou de maneira soberba o grande chefe chiricahua foi Erio Nicolò em Fantasmas do deserto

O Cochise de Gianluigi Bonelli é um sábio chefe que procura o bem estar do seu povo e tem em Tex Willer, ou melhor, em Águia da Noite, o seu grande amigo e irmão de sangue. Os dois chefes entendem-se e o mútuo respeito entre ambos está presente em todos os encontros.  Bonelli, ao criar a personalidade do líder apache, decalcou da figura real aqueles aspetos mais favoráveis, como a inteligência, a forte personalidade e o carisma do grande chefe. Propositadamente, deixou de lado o caráter violento e combativo do Cochise real, que enfrentou e massacrou diversos inimigos ao longo da sua vida. Esta face do mítico líder guerreiro não deixaria, porém, de ser representada na banda desenhada, pois outro grande autor da casa Bonelli, Gino D’Antonio, criou a sua versão ficcional de Cochise.  Na sua grande saga Storia Del West[iii], D´Antonio retrata o altivo chefe apache como um homem de extrema inteligência e ferrenha vontade, que considerava todos os homens brancos como seus inimigos. Como ele costumava dizer, Cochise só confiava em dois homens brancos:  “Os Apaches não têm amigos brancos. Mas tenho dois inimigos em quem posso confiar: Tex Willer e Tom Jeffords[iv], meus irmãos de sangue.”

Referências

Tex nº 62, 63 e 64 –  Editora Vecchi
Storia Del West – Gino D´Antonio, Sergio Bonelli Editore
Epopéia Tri – Editora Ebal
Cochise e Apache – Wikipédia

[i] Fazendeiro

[ii] Comerciante que viaja de cidade em cidade oferecendo os seus produtos. O nome foi dado no Brasil aos mercadores ambulantes e, embora o vocábulo seja utilizado em Portugal com o mesmo significado, o termo ficou associado à imigração àrabe no Brasil, devido ao elevado número de imigrantes, sobretudo do Líbano e da Síria, que se dedicaram a esta atividade.

[iii] Publicada no Brasil pela editora Ebal com o nome de Epopéia Tri.

[iv] Thomas Jefferson Jeffords, scout apache do exército norte-americano, agente índio e prospetor. Personagem verídica que manteve amizade com Cochise, por isso, nesta afirmação está a intenção em juntar a fantasia com a realidade, uma vez que Tom Jeffords realmente nunca surgiu na saga de Tex Willer.

* Texto de Jesus Nabor Ferreira publicado originalmente na Revista nº 5 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2016.

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