
Tex na interpretação de Luca Corda

Tex na interpretação de Luca Corda
Diz a tradição que, para um católico, uma viagem a Roma não fica completa se não se for ver o Papa. No meu caso, como grande fã de Banda Desenhada em geral e dos fumetti da Bonelli em particular, havia um local incontornável em Milão, para além da Catedral, do Teatro Scala, ou da Pinacoteca de Brera, que queria muito visitar: os escritórios da Sergio Bonelli Editore.
Graças a uma “cunha” do meu amigo José Carlos Francisco, que os italianos conhecem por Zeca, não foi nada difícil concretizar esse sonho, quando em Junho do ano passado, fui uma semana de férias a Milão, com um grupo de amigos. Foi assim, que quando a meio da manhã de 9 de Junho de 2016, toquei à campainha de um discreto prédio habitacional no nº 38 da Via Buonarroti, tinha à minha espera Giovanni Boninsegni, o simpático responsável de imprensa da Bonelli, que ia ser o meu guia nesta curta mas inesquecível viagem aos escritórios da editora Bonelli, que ocupam três andares desse prédio.
A visita começou no primeiro piso, onde estão os editores de séries como Tex e Zagor e foi aí que encontrei Mauro Boselli rodeado de papéis por todo o lado, num caos mais ao menos organizado, dividido entre a revisão de provas e a leitura de um mail com páginas a lápis e a tinta de Raul Cestaro para uma próxima história do Tex. Para ajudar à confusão, chegou então Maurizio Dotti, que eu tinha conhecido meses antes na Anadia, por ocasião da 3ª Mostra do Clube Tex Portugal, que tinha passado pela editora para entregar em mão uma dezena de pranchas originais de uma história do Tex passada em Nova Iorque que estava a desenhar.
Não perturbando mais quem trabalha, visitámos rapidamente o resto do andar e subimos ao andar de cima, onde ficava o escritório de Sergio Bonelli e fica agora o do seu filho Davide, que tive o prazer de conhecer pessoalmente. Esse segundo andar é um verdadeiro Museu, pois tirando as inúmeras estantes, não há um espaço de parede que não esteja ocupado por um desenho original de alguns dos maiores nomes da BD Mundial, desde os clássicos americanos, até aos maiores nomes da BD italiana, como Hugo Pratt, Guido Crepax, ou Sergio Toppi, que Sergio Bonelli editou na mítica colecção Un Uomo un’Avventura. E estes verdadeiros tesouros não estavam circunscritos às zonas comuns, ou às salas de reuniões, pois todos as salas tinham originais de BD emoldurados nas paredes, com a excepção da sala onde Sergio Bonelli tinha o seu gabinete, cujas paredes estavam decoradas com recordações das suas inúmeras viagens.
Para de ter tido a honra de conhecer Michele Masiero, o director editorial da Bonelli e ser recebido pelo próprio Davide Bonelli, tive ainda o prazer de reencontrar o mais português dos desenhadores do Tex, o italiano Fabio Civitelli, que me autografou a magnífica edição de Il Segreto degli Anasazi, que Davide Bonelli me tinha oferecido.
Como já não dava tempo de visitar o terceiro piso, onde é feita a produção e a legendagem das histórias, a minha visita terminou no arquivo da editora, onde o meu anfitrião, Giovanni Boninsegni me ofereceu uma série de livros da editora, desde os três primeiros números da série UT, ilustrada pelo meu desenhador favorito da Bonelli, Corrado Roi, a uma série de números de Dylan Dog e Dampyr, até os três números da revista Tutto Tex dedicados ao passado de Kit Carson. Um espólio que só não foi maior porque o espaço disponível na mala não o permitia.
Em suma, foi uma manhã que passou num instante e que foi o ponto mais alto da minha última viagem a Itália. Um momento inesquecível em que, graças ao respeito e ao carinho que todos, na Sergio Bonelli Editore têm pelo José Carlos Francisco, fui recebido quase com honras de chefe de estado.
* Texto de João Miguel Lameiras publicado originalmente na Revista nº 6 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2017.
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Por Saverio Ceri [1]
O Classic como sempre, tem por base as capas da colecção Albo d’Oro, a primeira que publicava as páginas de Tex montadas em três tiras. Entre as duas capas elegíveis, desta vez, a escolha recaiu na mais famosa:
Esta icónica posição de Tex foi utilizada uma infinidade de vezes por parte dos editores do personagem ao redor do mundo; segue-se uma curiosa versão em que Tex, graças a esta capa “encontra” um outro bem conhecido personagem da banda desenhada italiana, ainda que da concorrência: Kinowa.
A imagem, além de ter sido reutilizada para uma das raccoltine de Tex, graças à conclusão do desenho no canto superior esquerdo com o título (que coincidentemente também lembra o do Classic de que estamos a abordar hoje), está repleta de mudanças cromáticas clássicas, típico do período, também foi escolhida por Claudio Villa como ponto de partida para a capa do quinto volume da Collezione Storica a Colori publicada pelo La Repubblica na década passada.
Saverio Ceri
Encontre todas as outras origens das capas de Tex Classic na rubrica Secret Origins: Tex Classic
[1] Material apresentado no blogue Dime Web em 01/01/2018; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 2018 Saverio Ceri
Tex Willer é o mais longevo personagem de western que galopa nas bancas, quiosques e livrarias de vários cantos do mundo. Verdadeira instituição cultural na Itália, dono de números impressionantes de tiragens e vendas, o cowboy criado em 1948 por Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini tem um pequeno mas fiel público em Portugal, destacando-se, pela paixão, os associados do Clube do Tex, a quem esta revista é dirigida em primeiro lugar.
Maior do que o luso – quantitativamente, não necessariamente no tamanho da paixão – é o público leitor do outro lado do Atlântico, no Brasil, onde Tex aportou nos anos Cinquenta. Em ambos os lados do oceano, durante muitas décadas as revistas da personagem foram publicadas apenas a preto e branco, e a ausência de cores mostrou-se um dos pontos fortes da saga editorial, apreciado pela grande maioria dos texianos: as aventuras do Ranger são sempre bem desenhadas e todos os artistas chamados a ilustrar as histórias dão o melhor de si, sabedores que eventuais imprecisões nas imagens não podem ser mascaradas pela aplicação das cores. No mesmo período, as cores foram reservadas apenas para as edições centenárias (n° 100, 200, 300…), como a marcar um evento temporal extraordinário, mas cujos resultados cromáticos nem sempre podem ser considerados excelentes.
Com a evolução das técnicas de colorização, o panorama começou a mudar nos anos 2000, quando as histórias do protagonista começaram a ser republicadas nas séries italianas que, no Brasil (e exportadas a Portugal), receberam os títulos de Tex em Cores e Tex Gigante em Cores, e viu-se que belos desenhos podem ser valorizados se coloridos com técnicas esmeradas.
Com a ótima acolhida dos leitores à nova roupagem, a Sergio Bonelli Editore decidiu apostar também em séries inéditas do cowboy lançadas diretamente a cores e, com isso, as coleções tradicionais, a preto e branco, continuam a ser publicadas com o sucesso de sempre, tanto na Itália quanto no Brasil (Tex mensal e reedições, almanaques, gigantes), e de recente também editadas em Portugal (livros especiais), mas agora acompanhadas da Edição Especial Colorida, publicada na Terra Brasilis pela Mythos Editora desde 2012, e da série de graphic novels com seus esplêndidos livros de 48 páginas (poucas, para os padrões a que os leitores texianos estão acostumados).
Numa coisa todos estão de acordo: cheias de cores ou ao tradicionalmente a preto e branco, as aventuras de Tex são sempre uma garantia de bom entretenimento. E, como todo sócio do Clube Tex Portugal bem o sabe, catalisadoras de fortes amizades.
* Texto de Júlio Schneider publicado originalmente na Revista nº 5 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2016.
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