Devido a uma parceria entre as editoras A Seita (Portugal) e Mythos (Brasil) o livro da autoria de Mário João Marques “Tex: Mais que um Herói“, o primeiro livro temático, publicado em Portugal, dedicado à mítica personagem Tex Willer, nascida em Setembro de 1948 pela mente brilhante de Gian Luigi Bonelli e pela pena mágica de Aurelio Galleppini, estará à venda no Brasil, a partir do dia 31 deste mês de Outubro.
Trata-se da mais extensa obra (488 páginas no formato 207 x 286 mm, totalizando 1.680 kg) jamais publicada sobre o ranger eterno, que desvenda mais de sete décadas de autores, ilustradores, sagas e segredos desta personagem e que é ricamente ilustrada e recheada de anotações bibliográficas, sendo a história definitiva de Tex, mais do que uma personagem de Banda Desenhada.
Mas voltando ao Brasil, depois de já terem sido abertas as pré-vendas em Portugal e demais países da CEE, hoje, 15 de Outubro, iniciam-se as pré-vendas para os fãs e colecionadores de Tex do Brasil. O preço de venda ao público é de R$ 209,90 para quem retirar na Mundo Mythos, a Loja oficial da Mythos Editora em São Paulo e R$ 229,90 se a editora tiver que despachar para qualquer parte do Brasil. O pagamento pode ser no Pix ou cartão da Mythos. No momento, a Mythos só tem 12 livros, então só poderá atender às 12 primeiras encomendas. Depois disso informaremos quando será possível atender os pedidos que excederem esse número.
As encomendas de interessados residentes no Brasil devem ser enviadas para o email do Clube Tex Portugal (clubetexportugal@icloud.com) com identificação de nome, morada do comprador e informando se levantará em mãos ou se o livro terá de ser despachado. Na resposta ser-lhes-á dada a informação relativa aos dados de pagamento.
Estamos em crer que é uma excelente opção para os leitores brasileiros poderem adquirir esta fantástica obra, já que só em portes postais de Portugal para o Brasil os correios portugueses cobram 27,30€ (mais de R$ 140,90) na modalidade Correio Registado.
Tex é o ranger mais famoso da BD, um dos maiores heróis de western, e a personagem que mais impacto teve nos fumetti, a BD italiana. Desde 1948 que cavalga as planícies do Velho Oeste, e as páginas das revistas da célebre editora, Bonelli.
“Tex: Mais que um Herói” é o guia definitivo desta personagem, uma obra colossal e exaustiva, que com 488 pgs. nos conta a história de Tex como personagem de BD, dos seus criadores e dos muitos autores que trabalharam com ele, das revistas em que apareceu, da sua editora, do seu impacto no panorama da BD italiana, e muito mais… tudo o que alguma vez quiseram saber sobre Tex num livro magnificamente ilustrado, com inúmeras ilustrações originais! Escrito por Mário João Marques, fã de longa data do ranger, co-fundador do Clube Tex Portugal e director da revista do Clube Tex (a única revista sobre BD no nosso país), “Tex: Mais que um Herói” é um livro obrigatório para todos os entusiastas de Tex.
Pré-vendas para o público em geral:para todas as encomendas recebidas até ao final do mês A Seita oferece 10% de desconto (com os portes gratuitos) ou seja, 36€ em vez de 40€. As encomendas devem ser feitas para o e-mail da editora (aseita.encomendas@gmail.com).
Pré-vendas para os sócios do Clube Tex Portugal: O desconto é de 20% (com os portes gratuitos apenas para residentes em Portugal), ou seja, 32€ em vez de 40€. As encomendas de sócios do Clube Tex Portugal devem ser enviadas para o email do Clube Tex Portugal(clubetexportugal@icloud.com) com identificação de nome e morada do comprador.
Também são aceites encomendas de Itália e demais países da CEE. O preço será o PVP (40€) mas com portes gratuitos. A encomenda é feita nos mesmos moldes por email para o Clube Tex Portugal.(clubetexportugal@icloud.com). Para Itália, se o comprador dispuser de um número/identificação de IVA (por exemplo loja, empresa), pode indicar esse número que a editora emite fatura isenta de IVA.
Encomendas do Brasil A Seita está a estudar uma hipótese e em breve a editora dará mais pormenores.
Podem ver mais sobre o livro no vídeo que aqui colocámos à disposição dos leitores:
Leomacs pode ter chegado ao topo, com esta obra Ouro Negro! É a minha profunda convicção.
Não me arrependerei seguramente do que escrevo aqui para o universo Texiano. Ouro Negro é uma admirável obra artística que em bom momento a editora Polvo decidiu abraçar e incluir na coleção “Romance Gráfico” de Tex.
Tenho afirmado (para que conste) que não sou crítico de arte nem de Banda Desenhada, apenas apaixonado desde pequeno pelas histórias aos quadradinhos, leitor e admirador da arte aos quadradinhos (no particular em preto e branco) e depois diretor técnico do departamento de Banda Desenhada do GICAV (Viseu), a primeira instituição a convidar o José Carlos Francisco a mostrar publicamente e ao vivo o Tex aos portugueses (Viseu que viu ainda nascer este projeto do Clube Tex em Portugal, durante um Salão também dedicado ao herói ranger do Texas).
Propus-me escrever sobre este maravilhoso romance gráfico pelo respeito que devo ao José Carlos e aos apaixonados pelo Tex, e em segundo lugar porque continuo convicto admirador da arte aos quadradinhos a preto e branco. E esta obra acrescenta mérito ao género western a preto e branco, tal a qualidade que Leomacs empresta à narrativa de Manfredi em singularidades e pormenores artísticos de elevada qualidade.
Não me demorarei a escrever sobre a história em particular, uma narrativa que se apresenta para além das memórias históricas de um período de grandes mudanças na América e no mundo industrializado, onde a ambição dos lucros se confundia com as visões de um progresso imparável, fruto de inovações tecnológicas e utilização de novas fontes de energia (o petróleo). Uma narrativa que facilmente poderia transformar-se num sucesso cinematográfico.
A obra em análise, com apresentação pública na 4.ª Mostra Tex 2017 na Anadia (onde tive o prazer de conhecer Leomacs em pessoa), foi uma grande aposta, como vêm sendo as edições da coleção Tex Romance Gráfico. A qualidade do papel e da arte final/impressão, o tamanho escolhido, a capa original, tudo contribui para engrandecer esta obra. Mas para mim o fundamental encontra-se na arte de Leomacs, que que faz desta obra uma autêntica joia de colecionador.
O artista italiano, nascido em Roma em 1972, revela-se nesta obra um desenhador seguro, um passo à frente em relação a outros trabalhos anteriores, claramente à vontade na construção de ambientes e personagens western assumindo o estudo dos mesmos com um traço próprio expressivo, avolumando nas dinâmicas dos enquadramentos certos pormenores e detalhes que engrandecem a qualidade gráfica e narrativa.
Ao nível da construção das personagens, estas ganham força ao longo da narrativa na vitalidade ou singularidade dos gestos (Tex bebendo uma cerveja), no respeito pelas caraterísticas físicas e psicológicas, na qualidade dada aos planos aproximados (como na página 29) e na expressão das emoções claramente acentuada. A sensualidade serena das prostitutas, libertadas em grande parte da sua condição irreversível, é apresentada quase como um reflexo do humanismo artístico renascentista, tornando-se até decisivas na construção de um certo “happy end” da narrativa.
Ao nível da construção de impressões sensoriais, Leomacs não se poupou na procura de soluções simples para transmitir claramente a ideia do movimento das figuras, nos jogos do claro//escuro (nos planeamentos, nos ambientes, na profundidade de campo de algumas vinhetas, na distinção dos corpos e no trabalho pormenorizado das sombras e distâncias), no recurso a linhas paralelas e ritmadas ou manchas que se descobrem em direção à luz; as impressões da noite são maravilhosamente conseguidas obscurecendo artisticamente os rostos ou os fundos de paisagem e fachadas; a narrativa é constantemente enriquecida pelas sonoridades adivinhadas das bocas gritando, dos sons associados aos movimentos. As cenas de ação são repletas de ritmos e sons, onde os corpos se agitam e agigantam no uso de diversas perspetivas (como na página 78).
A perfeição do traço, leve na construção da ação narrativa, é extremamente confiante nos mais indispensáveis pormenores (nos pormenores do desenho de cavalos e de cenários, dos rostos e expressões faciais, no rigor de ambientes interiores e exteriores, na construção dos enquadramentos preenchendo vinhetas a toda a largura da prancha, e que quase sempre privilegiam a profundidade dos espaços) aproximando Leomacs de outros grandes desenhadores de Tex, colocando-o decisivamente na galeria dos maiores autores italianos desenhadores de Tex.
A narrativa termina com esta expressão conclusiva de Tex: ”Quanto mais alto se sobe, maior é a queda”! Mas esta máxima popular, tão do agrado dos portugueses, não se aplica de todo aos autores.
Leomacs traz um valor acrescido ao western e ao universo texiano, chegando ao topo com “Ouro Negro” e daí não sairá jamais!
* Texto de Carlos Almeida publicado originalmente na Revista nº 7 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2017.
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Primeiro surgiu a paixão pela leitura. Logo em seguida, o interesse pelo colecionismo. Assim que comecei a ler histórias em quadradinhos, por volta de 5 anos de idade, também passei a procurar por edições antigas, pois queria ir além daquilo que as bancas de jornais poderiam me oferecer. Teve início então o hábito que mantenho até hoje de “garimpar” em revistarias e lojas especializadas, muitas delas popularmente conhecidas no Brasil como “sebos”. Como o critério do bom estado das publicações sempre foi pré-requisito em minhas buscas, o grau de dificuldade para encontrá-las sempre foi bem alto. Nunca comprei nenhuma revista apenas para fazer parte da coleção, adquiro apenas aquilo que tenho real interesse em ler. Nas minhas viagens internacionais, sempre procurei conhecer de perto o mercado da banda desenhada em cada país, mas em função da pressa motivada na maior parte das vezes por motivos profissionais, nunca pude dedicar o tempo que realmente gostaria para essas “garimpagens”. Isso até a minha mais recente viagem à Itália.
Em Milão, lojas especializadas oferecem grande quantidade de títulos Bonelli
Para quem é apaixonado por Tex e pelas publicações Bonelli em geral, percorrer as fumetterie (lojas especializadas em quadradinhos) e edicole (bancas de jornais) italianas tem um significado muito especial. É um prazer indescritível encontrar o tempo todo seus títulos e personagens preferidos nas prateleiras. Realmente a Bonelli não poderia ter nascido em um lugar melhor: a Itália tem um grande amor e respeito pela banda desenhada, e isso eu pude presenciar pessoalmente durante três meses de uma verdadeira peregrinação em busca de publicações neste país maravilhoso.
Começando pela fantástica Milão, cuja praticidade permite o fácil deslocamento para qualquer lugar em poucos minutos. Minha primeira surpresa foi conhecer a espaçosa Supergulp no Naviglio Grande. Quando desci para o andar inferior, a alegria de ver prateleiras repletas de títulos Bonelli em ordem crescente de numeração e todos em estado impecável. Salvo raras exceções, a grande maioria por preço de capa ou muito perto disso. Ou seja, é possível comprar várias edições antigas gastando pouco. Fiquei horas admirando tudo aquilo, sem sentir o tempo passar. Conversei bastante com os atendentes, extremamente atenciosos e conhecedores dos produtos da loja. Outra ótima visita foi a que eu fiz a La Borsa del Fumetto, onde o que mais chama a atenção é o anexo denominado Il Borsino, onde há apenas edições antigas. Uma loja extremamente apertada, com quadradinhos do chão ao teto, com uma organização como eu nunca vi nos “sebos” brasileiros. Foi ali que, logo de cara, comprei a sequência de “O passado de Tex” (Tex #83, #84 e #85) e “O passado de Carson” (Tex #407, #408 e #409) que sempre tive vontade de ler nos seus originais italianos.
Em Roma, o festival Romics consegue lotar seis enormes pavilhões
A sensação de “respirar Bonelli” pode ser vivenciada em todos os cantos de Milão. A simples experiência de usar o Metropolitano para deslocamentos pela cidade possibilita isso. Em todas as estações – todas mesmo – existem bancas de jornais, e em todas elas é possível encontrar títulos Bonelli. Que bacana poder sair de manhã cedo, parar para tomar um café e comer uma brioche, e conferir se tinha algum lançamento naquele dia. Aliás, pela grande quantidade de títulos bonellianos, era difícil ficar mais de dois ou três dias sem comprar um novo título. Algo que para os italianos é totalmente normal, mas para mim era motivo de grande entusiasmo, tendo em vista que, infelizmente no Brasil, atravessamos um período de diminuição drástica de bancas de jornais, sem contar com a descaracterização das poucas que ainda restam e passam a comercializar todo tipo de produto, menos revistas em quadradinhos. O saudável hábito de leitura, também em queda livre no Brasil, mantém-se vivo no sangue italiano e pode ser visto dentro de trens, ônibus e em praças públicas. Além das bancas e lojas especializadas, os fumetti estão nas livrarias em edições de luxo, álbuns e livros. A mais famosa rede italiana, La Feltrinelli, dispõe de áreas específicas onde é possível encontrar grandes sagas de Tex em volumes grossos com histórias completas. Ali pude comprar edições temáticas dedicadas a importantes personagens como Morisco e Mefisto.
Mas a oportunidade de vivenciar as publicações Bonelli vai além de bancas, comic shops e livrarias. Ela é ricamente presente nos eventos. Se existe turismo histórico, turismo ecológico e turismo religioso, então eu posso garantir que a Itália tem também o turismo “fumettologico”. O adjetivo pode não existir, mas o conceito é real. Sempre há algum evento relacionado a quadradinhos ocorrendo em alguma parte do país. Como eu fiquei bem atento a sites e redes sociais, não perdi quase nenhum deles durante os meses nos quais fiquei em território italiano. Com a vantagem da fantástica rede ferroviária e seus trens de alta velocidade, o deslocamento para qualquer parte do país é fácil e prazeroso. Sendo assim, não perdi a chance de ir para Roma e passar um final de semana na Romics, evento que lota seis enormes pavilhões com uma extensa programação de palestras, encontros com autores e desenhistas, além de muitas fumetterie com seus preciosos acervos. Ali pude comprar muita coisa boa, como por exemplo os álbuns de figurinhas completos de Tex e Zagor. As editoras montam seus estandes oficiais e a Bonelli estava lá, com lançamentos, edições variantes, especiais e artigos como camisetas, canecas e chaveiros. Um evento realmente espetacular que reuniu aficcionados por quadradinhos de toda a Itália. Ainda bem que os trens italianos oferecem espaçosos bagageiros acima dos acentos, onde pude colocar as sacolas abarrotadas de revistas que comprei no evento!
Sergio Bonelli Editore sempre presente nos eventos e festivais por toda a Itália
Ainda em Roma, destaco a ótima loja Fumettopoli, com grande acervo e a simpatia de seu proprietário Fabio, com o qual fiquei horas conversando sobre nossas leituras, histórias preferidas de Tex e curiosidades dos demais títulos bonellianos. Uma rica troca de experiências entre leitores.
Na medida em que fui conhecendo outros eventos, entendi que não importava o tamanho e a quantidade de pessoas, mas sim o propósito. O interessante é que existem vários grupos e associações, de norte a sul da Itália, de fãs de banda desenhada que se encontram e organizam os festivais, recebendo o apoio das editoras e lojas que participam montando seus estandes. Continuei rodando o país e tive o prazer de visitar a Torino Comics, no Piemonte, e a Firenze Comics, na Toscana. Sempre encontrando leitores de Tex com os quais eu conversava, contava sobre a história editorial do personagem no Brasil e ouvia sobre o mercado editorial italiano. Foi muito interessante saber dos leitores italianos o que eles mais gostam nas histórias, seus roteiristas e desenhistas preferidos e a expectativa que têm para o futuro das publicações.
Mas não pense que os festivais de quadradinhos acontecem apenas nas grandes cidades italianas. Eles estão por todos os cantos. E resolvi também visitar os eventos menores, mas não menos interessantes. Um deles foi na simpática Piacenza, cidade natal do desenhista Paolo Bisi, responsável por belos trabalhos em Mister No e Zagor. Curiosamente, uma das sagas zagorianas que ele desenhou foi “Sertão”, que se passa justamente no Brasil. Não poderia perder a oportunidade de bater um bom papo com ele sobre o ótimo resultado da pesquisa que ele fez para retratar o sertão brasileiro. A recepção foi das mais calorosas possíveis, parecia que ele não acreditava que um leitor de tão longe estava ali elogiando e comentando detalhes sobre seu trabalho. Comecei a perceber o quanto os artistas da banda desenhada italiana são bacanas e o respeito que eles têm pelos seus leitores. Uma grata troca de energia entre quem cria e quem lê.
Alfredo Castelli mostra o computador de Martin Mystère em sua sala na Bonelli
O contato com o importante staff bonelliano foi intensificando-se. Em uma feira do livro na cidade de Rho, região metropolitana de Milão, tive o prazer de conversar com Fabio Civitelli, que até gravou um recado em vídeo a meu pedido para os leitores brasileiros e portugueses. Na ocasião, pude adquirir o especial de luxo de “O sinal de Yama”, belíssimo trabalho de Civitelli. Uma grande fila se formou no estande da Bonelli com muitos leitores em busca de autógrafos. Mais uma oportunidade imperdível de vivenciar e sentir a repercussão das publicações com os leitores italianos. Na sequência, fui até Sesto San Giovanni, também próxima a Milão, onde o pai de Martin Mystère dava uma palestra. Ao final, me aproximei me identificando e pedindo um autógrafo em um álbum gigante de Martin que eu tinha adquirido em uma das tantas fumetterie que havia visitado. A conversa extremamente agradável foi além das minhas expectativas. Ao final, Castelli me perguntou se eu já havia visitado a Sergio Bonelli Editore. Ao ouvir a minha negativa, pediu que eu marcasse seu telefone e que ligasse para marcar uma ida à editora. A receptividade e simpatia italianas me surpreendiam cada vez mais. E teria início ali uma amizade que eu jamais imaginaria que pudesse existir.
Confesso que visitar a Bonelli sempre esteve em meus planos, mas estava pensando como seria a melhor forma de realizar. Não queria chegar batendo na porta sem conhecer ninguém. Sendo assim, um convite de um dos mais importantes funcionários da editora era a oportunidade que tinha caído dos céus. Conforme combinado, liguei para Castelli e marquei o dia para ir até a famosa Via Buonarroti 38. Fui extremamente bem recebido naquela manhã de terça-feira e conheci uma equipe realmente fantástica, em todos os setores da editora, trabalhando com amor e empenho para presentear seus leitores com as edições maravilhosas que tanto gostamos. Ser recebido por Davide Bonelli na sala de seu pai e ouvir deliciosas histórias das viagens de Sergio ao Brasil realmente superou toda e qualquer expectativa. Estava ali a razão do sucesso de Tex e de tantos personagens: o respeito por cada leitor e a motivação de oferecer sempre o melhor. Foram horas muito agradáveis que culminaram em um simpático convite de Castelli para almoçarmos juntos. A conversa sobre quadradinhos se estenderia tarde afora e aquele seria o primeiro de muitos encontros.
Com Davide Bonelli na sala de seu pai: uma história de dedicação e respeito aos leitores
Descobri que o fumetto italiano, além das bancas, lojas, livrarias, eventos grandes, médios e pequenos, estava também no ambiente acadêmico. Alfredo Castelli é frequentemente convidado para seminários e aulas especiais nas mais diversas universidades. E logicamente que eu não poderia perder a oportunidade de acompanhá-lo nestas ocasiões. Cursos como literatura e artes gráficas abrem espaço para analisar e estudar a fundo a banda desenhada. Me enfiei ali no meio dos alunos para também aprender junto com eles. Não fazia ideia que o autor das aventuras do professor Mystère, que leio há 30 anos, era também um habilidoso docente que prende a atenção de uma grande plateia de alunos.
Em um dos encontros com Castelli, surge um convite para um evento que eu desconhecia, por mais ligado que estivesse em sites especializados e redes sociais. Tratava-se de uma feira na cidade de Reggio Emilia, na Emilia-Romagna. E Castelli foi enfático ao me explicar que, neste evento, eu encontraria apenas “roba vecchia” (coisas antigas). Achei ótimo, e lá fomos com o fantástico trem de alta velocidade. Ate aí, eu não tinha ideia de que estava prestes a visitar o mais espetacular evento de banda desenhada em toda a minha vida. Chegamos ao centro de eventos da cidade, nada fora do comum. Mas quando eu entrei e comecei a andar pelos corredores dos estandes, me impressionei de verdade. Nada de editoras, nada de lançamentos… apenas coleções e mais coleções, dos anos 1930 aos dias de hoje. Eu estava simplesmente na maior feira de quadradinhos antigos e colecionismo de toda a Itália. Tudo aquilo que eu “garimpava” nas dezenas de lojas pelo país reunido em um só lugar. A feira chama-se Mercato del Fumetto e é organizada pelo grupo Amici del Fumetto. Além da feira, eles também realizam uma premiação para os destaques do mercado editorial italiano. Nesse dia, Civitelli foi um dos premiados, e tive o prazer de revê-lo e conversar com ele novamente, desta vez sobre as novidades programadas para os 70 anos de Tex. Colecionadores e lojistas de toda a Itália estavam ali reunidos naquele sábado, com edições das mais raras e preciosas. Nada de cosplayers, nada de games… apenas quadradinhos! As primeiras edições de Tex no formato talão de cheques estavam ali, juntamente com toda a história editorial dos 70 anos do nosso querido ranger, além de todos os outros personagens bonellianos e de outras editoras italianas. Mais uma vez agradeço à companhia de trem pelo espaçoso bagageiro que acomodou as muitas sacolas de revistas que comprei nesta feira. O evento acontece duas vezes por ano e a cidade fica a menos de uma hora de trem de Milão. Extremamente recomendado para quem procura exemplares difíceis para completar coleções ou mesmo para quem quer adquirir edições mais recentes.
Com o mítico Fabio Civitelli e o seu autógrafo desenhado
A esta altura do campeonato, já com centenas de exemplares que havia adquirido em minhas peregrinações, resolvi começar a despachar um pouco para o Brasil através dos correios, pois não tinha me dado conta da quantidade de quadradinhos que se acumulava, tamanha a empolgação de conhecer e participar de tantas situações interessantes. Acabei fazendo amizade com as atendentes dos correios, que ficavam incrédulas quando eu declarava que o conteúdo daquelas enormes caixas era apenas e tão somente os famosos fumetti que eles tão bem produziam.
Os festivais, como citei no início, não cessam. E então parti para a Sicília para participar de um dos grandes, o Etna Comics, na Catania. Tirando a dificuldade inicial para compreender o sotaque siciliano, todo o resto foi sensacional. O evento aconteceu em uma grande fábrica desativada e ofereceu uma extensa programação. Além dos estandes de editoras e lojas especializadas, exposições e conferências temáticas. De todos os eventos que participei, este foi o que mais tempo permaneci em auditórios assistindo os debates. Isso porque muitos dos painéis apresentados foram sobre títulos Bonelli. Na ocasião, além do mestre Castelli, tive a satisfação de estar ao lado de Moreno Burattini, editor e roteirista de Zagor. Uma das conferências foi sobre o centenário de Aurelio Galleppini, o criador gráfico e desenhista de Tex. A organização ficou por conta do grupo Bonelliani Siculi, formado por leitores e colecionadores da Sicília. Roberto Recchioni, curador de Dylan Dog, fez uma ótima explanação sobre as novidades do personagem. Castelli e Burattini também falaram sobre Martin Mystère e Zagor, respondendo às perguntas do público. Momentos como esses são muito bacanas para aproximar os leitores dos profissionais que produzem as revistas que eles lêem todos os meses.
Em Bologna, a maior fumetteria da Itália, com entregas em todo o planeta
O Etna Comics contou ainda com um momento bem interessante. O tema de um dos painéis foi “A inovação na tradição” com as participações de Simone Airoldi, diretor geral da Bonelli, e Giovanni Boninsegni, diretor de marketing. Eles deram um panorama geral da editora e revelaram informações importantes. A primeira delas foi quanto à dimensão da Sergio Bonelli Editore. Airoldi divulgou um dado impressionante sobre o volume de produção: são 25 mil páginas por ano contra 23 mil da Marvel Comics. É isso mesmo! A Bonelli é a maior produtora de páginas de banda desenhada de todo o planeta. “Muitos podem questionar o fato de a Marvel ter mais títulos do que a Bonelli. Mas não esqueçamos que a média de páginas de cada título Bonelli é sempre superior a 100 páginas. Ou seja, temos menos títulos que a Marvel, porém com uma quantidade maior de páginas em cada um.” – explicou Airoldi. Ele ainda revelou que cada revista publicada tem uma média de um ano de preparação e que a Bonelli conta atualmente com 400 colaboradores.
Em outro momento da palestra, foi abordada a questão de novas mídias e a utilização dos personagens em animações, filmes e séries. Sem especificar quais seriam os primeiros a serem utilizados, Airoldi fez questão de deixar claro que o mais importante é manter o controle dos personagens para evitar que eles sejam descaracterizados. Pelo clima de expectativa quanto aos 70 anos de Tex, eu seria capaz de arriscar que são grandes as chances do ranger estrear essa nova plataforma. Foram abordadas também questões relativas ao futuro do mercado editorial. Novos formatos devem ser testados, seguindo por exemplo o que foi feito na recente mini-série de Chico, “Um passeio no tempo”, publicada a cores, em seis volumes de 64 páginas (quantidade menor do que o habitual bonelliano) e formato maior. Seria uma forma de atrair novos leitores que preferem uma leitura mais rápida. Também se falou de crossovers entre personagens, a exemplo de Dylan Dog e Dampyr. Será que o tão esperado entre Tex e Zagor pode ser o próximo?
Simone Airoldi, diretor geral da Bonelli: produção de mais páginas do que a Marvel
Seguindo com as visitas às fumetterie, parti para Bologna. E ali havia um motivo especial. Com o cancelamento por parte da Bonelli das expedições para fora da União Europeia, não foi mais possível comprar os títulos através do site da editora. Foi então que eu descobri a Alessandro Distribuzioni, única fumetteria italiana que entrega em qualquer parte do mundo. Satisfeito com as encomendas recebidas no Brasil, não poderia deixar de conhecê-la pessoalmente. E sem exagero, posso dizer que trata-se da maior fumetteria que visitei na Itália, em termos de espaço físico da loja e quantidade de títulos do acervo. Metade da loja é tomada pelos títulos Bonelli, cuidadosamente acomodados em prateleiras especiais em ordem numérica. Nos fundos, um arquivo dos clientes de todo o planeta, com etiquetas nominais e as respectivas revistas. É possível, por exemplo, reservar determinadas edições mensais e recebê-las em um pacote a cada três meses. Um sistema bem prático e funcional para receber os títulos bonellianos.
Mais uma cidade: Nápoles. Eis que desço na estação de trem com a minha lista de lojas para visitar. Passo pela primeira, pela segunda, pela terceira… até que entro naquela que iria me surpreender! E desta vez a surpresa não vinha do acervo, mas sim de seu proprietário. Foi em território napoletano que conheci o maior fã e colecionador de Tex da Itália. De tão incrível que foi esse encontro, resolvi escrever um artigo específico sobre ele, que pode ser lido na página 32.
Minha peregrinação “fumettologica” na Italia ainda não estava completa. Acabei descobrindo que o grande autor Tito Faraci, responsável por grandes aventuras de Tex e outros personagens, daria um curso de uma semana sobre roteiro de quadradinhos. Não poderia perder esta oportunidade. Me inscrevi e frequentei assiduamente e com muita atenção todas as aulas. Era a experiência que faltava para entender como funciona a produção de banda desenhada na Itália. Detalhes de narrativa, as indicações aos desenhistas, a construção da história da ideia inicial ao roteiro final. Não preciso nem dizer que, após as aulas, emendei longos papos com o Tito para falar ainda mais do assunto que tanto gostamos. Excelente profissional dos quadradinhos e com ótima didática para ensinar.
Curso de roteiro com Tito Faraci, autor de várias aventuras de Tex e outros títulos
Além de tudo o que relatei, lançamentos de novas edições em livrarias com a presença dos autores são frequentes e estive em muitos deles. Foi uma submersão no universo dos fumetti, uma aula de cultura, uma convivência prazerosa com o fantástico povo italiano… e o aumento da minha admiração pela Sergio Bonelli Editore!
*Texto de Thiago Gardinali publicado originalmente na Revista nº 7 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2017.
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