“Ano novo, vida nova”; no sentido de que assim que o Tex Classic entrou no seu segundo ano de vida editorial, parece que a redacção mudou sua lógica na escolha das capas. Assim como na edição anterior, também desta vez a capa utilizada não está directamente ligada aos acontecimentos editoriais das histórias contidas no volume. Os álbuns reunidos neste Tex Classic vão do número 28 ao número 33 da terceira série de strisce (tiras) do personagem; o primeiro dos seis números dá título a este volume. Trata-se dos números finais da série lançada entre Novembro de 1951 e Janeiro de 1952, reunidos pela primeira vez no seu formato atual em Setembro de 1954 na série Albo d’Oro números 55 e 56, que por sua vez fecham a primeira série dessa colecção.
Tex Classic #28 – Alla di morte
Os leitores históricos de Tex conhecem bem a capa escolhida: foi a usada na Primavera de 1960 para a capa do número 8 da segunda série gigante (ou seja, a série actual). Por ocasião desta reimpressão, a “câmara” foi afastada para tornar a imagem horizontal e, portanto, mais adequada para o grafismo da recente série texiana.
Tex #8 – Due contro cento
A propósito de reedições, abaixo disponibilizamos as versões da capa em questão para as séries Tutto Tex (1986) e Tex Nuova Ristampa (1996). Em comparação com estes, inalterados ao longo do tempo, a versão deste Tex Classic 2018 tem um céu azul em vez de amarelo.
Tutto Tex #8 – Due contro cento
Tex Nuova Ristampa #8 – Due contro cento
Porém, como acontecia frequentemente naqueles primeiros números do Tex, a capa não era nova, mas retirada da capa de uma edição anterior. Este não é excepção, aliás vem, como as outras, da série Tex Albo d’Oro; em concreto do décimo número da segunda série. A imagem original, que se pode ver abaixo, tem diferenças notáveis em relação à mais famosa de Due contro cento: a batalha que acaba de terminar entre Tex e o adversário move-se do deserto ardente para uma sala bizarra com perspectivas impossíveis.
Albo d’oro Tex #10
Se quiséssemos deter-nos sobre o pé direito de Tex e tentar perceber se penetrou ou não no solo, por exemplo, poderíamos recorrer à edição “Sunset Ranch“, a 150ª da actual série, que tem a curiosa característica de repropor em 1973 quase exatamente a mesma posição de Tex, mas espelhada.
A dúvida permanece: o pé em questão, que entretanto se tornou esquerdo, fica novamente tapado. Em edições posteriores, no entanto, aparece um pano de fundo; como se descobrirá olhando abaixo, em sequência, todas as capas das várias edições de “Sunset” Ranch.
Tex #150 – “Sunset” Ranch
Tutto Tex #150 – “Sunset” Ranch
Tex Nuova Ristampa #150 – “Sunset” Ranch
Mas ainda não acabou. Esta pose de Sunset Ranch, invertida em relação à anterior, lembra muito um cartaz hollywoodiano do filme Duelo ao Sol (Duel in the Sun), de 1946. Será que Galep se inspirou neste cartaz, espelhando-o já na primeira versão?
Depois de quase dois anos de ausência, foi lançada a vigésima primeira edição da Tex Wiler Magazine, a revista (italiana) amadora dedicada a Tex e ao seu mundo pelos frequentadores do Tex Willer Fórum. 96 páginas de artigos, entrevistas e análises.
Estávamos em Outubro de 2009 quando os redactores doTex Willer Forumpublicaram a primeira edição de uma revista amadora que assumiu o nome TW Magazine. A vigésima edição dessa revista é datada de Abril de 2020, e demorou quase dois anos até que a vigésima primeira fosse lançada. Mas ei-la finalmente pronta, podendo ser descarregada gratuitamente através do próprio fórum.
Come sempre inteiramente dedicada a Tex, seus coadjuvantes e ao seu mundo, o TW Magazine 21 é composto por 96 páginas recheadas de informações e curiosidades, com artigos, análises e entrevistas sobre as novidades e sobre a história do Ranger mais famoso da banda desenhada italiana.
Entre os muitos conteúdos que certamente farão as delícias dos entusiastas, destacamos um artigo sobre os trinta anos de vida dosMaxi Tex, uma análise sobre o mítico Texone de Claudio Villa, uma entrevista quadrupla a Sandro Scascitelli, Massimo Rotundo, Stefano Andreucci e Maurizio Dotti, e naturalmente um exaustivo estudo sobre as figuras de Mefisto e da sua irmã Lily.
Para descobrir todos os outros conteúdos do TW Magazine 21, basta baixar o PDF das páginas do Tex Willer Forum.
TW Magazine 21 – A capa
Caso deseje aceder aos números anteriores desta excelente revista do fórum italiano dedicado a Tex Willer cliqueAQUI!
Em mais uma bela ilustração nocturna da autoria do Mestre Claudio Villa vemosTex, Carson e Tigre, em plena floresta junto à estrada que liga Helena a Great Falls, a surpreenderem um bando de facínoras comandados pelo sórdido Snake Bill, que por sua vez queriam surpreender os pards durante o sono num acampamento nocturno.
Desenho usado no Brasil como capa de Tex Ouro #84 e inspirado na história “Il mercante francese” de Claudio Nizzi e Fernando Fusco (Tex italiano #508 a #510).
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Quando nasceu TexWiller? A resposta parece ser muito simples: em 30 de setembro 1948, com o aparecimento, nas bancas italianas, do primeiro álbum de tiras da aventura O Totem Misterioso. Mas como se chegou até à publicação deste número histórico? Para podermos descobrir, será necessário recuarmos um pouco no tempo…
Estamos na primavera de 1945. Terminada a guerra e liberto da aviação, Aurelio Galleppini, na altura com 28 anos, encontra-se na sua Sardenha (considerava-se mais sardo do que toscano), em Cagliari, e sem uma Lira no bolso. Nesta cidade em reconstrução, cujo centro histórico tinha sido arrasado pelos bombardeamentos, Galep vive um momento de impasse artístico e é o seu amigo Marcello Serra, com quem divide o pequeno estúdio na Via Sardenha, que o vai apresentar gradualmente no ambiente literário e cultural da cidade. O encontro com o pintor Fantini revela-se decisivo, um famoso retratista com quem Galep, autodidata, vai aprender muito do ponto de vista da técnica. Ao longo do ano, prepara-se para duas mostras pessoais e participa com alguns dos seus trabalhos em mostras coletivas. Com os amigos Marcello Serra, Vittorio Stagno e Beppe Marongiu, dá vida ao semanário satírico L’Arcobaleno di Sera. Jago Mazza, proprietário de dois cinemas na Via Roma, o Éden e o Olimpia, encomenda-lhe os cartazes para os filmes, dada a dificuldade em fazer chegar os originais da Península, uma vez que as vias marítimas e aéreas ainda se encontram interrompidas.
O quadro de San Vincenzo (São Vicente) pintado por Galep, em 1947
Em agosto de 1946, Galep começa a colaborar com o diário l’Unione Sarda, para o qual ilustra as páginas de verão com caricaturas e retratos grotescos das figuras mais importantes da cidade, personalidades que se alternam na rotunda do Lido e do Poetto, a praia da cidade, onde à noite também se exibem os cantores populares da Rádio Sardenha. É mesmo no Poetto que Galep encontra pela primeira vez Gianluigi Bonelli, que se instala na ilha em férias. O pai de Tex fica fascinado pela beleza dos cartazes de cinema realizados por Galleppini!
As Surpreendentes Aventuras do Barão de Munchausen com ilustrações de Aurelio Galleppini
Com a pintura, através da qual passa a ser um dos nomes célebres da cidade, o artista consegue apenas um sustento modesto, sendo obrigado a alternar a sua atividade pictórica com o ensino em duas escolas de Cagliari, os Institutos Industrial e Salesiano. Naqueles anos, contará Galep, não era bem visto trabalhar nos fumetti. Não lhe restará senão abandonar a Sardenha, de modo a encontrar uma oportunidade na Península.
A ocasião chega com a editora florentina Nerbini, com quem já tinha colaborado durante o período da guerra. Nesta altura, nascem trabalhos como As Surpreendentes Aventuras do Barão de Munchausen e As Aventuras de Pinóquio de Carlo Collodi, este último realizado apenas em banda desenhada. Ao mesmo tempo, Galep retoma a colaboração com a editora Universo, para quem realiza outras ilustrações para clássicos da literatura como Os Três Mosqueteiros, As Mil e Uma Noites e Os Noivos de Alessandro Manzoni. No entanto, adensam-se nuvens negras no futuro do artista. De facto,no decorrer do ano, a editora Nerbini encontra-se em grandes dificuldades económicas e Galep é, infelizmente, obrigado a regressar a Cagliari.
As Aventuras de Pinóquio de Carlo Collodi com arte de Aurelio Galleppini
Estamos no final de 1947, quando Tea Bonelli, esposa de Gianluigi Bonelli e responsável da editora Audace de Milão, que naquela altura republicava episódios da série Furio e pensava em novas publicações destinadas aos jovens para relançar a sua atividade, vai contactar com Galep, pedindo-lhe para colaborar em regime de exclusividade para a sua editora. As novas publicações acabarão por ser Occhio Cupo e Tex, e é Galleppini quem propõe a Tea Bonelli um fumetto western. O género sempre lhe foi familiar, desde 1925, quando veio da Toscana instalar-se com a sua família na Sardenha, na cidade mineira de Iglesias, onde o tio era proprietário do único cinema e onde o jovem Galep tinha naturalmente livre acesso para admirar as películas de Tom Mix, Ken Maynard e de todo o cinema mudo de western. Nem mesmo um sucesso do fumetto western como Il Piccolo Sceiffo escapou a Galep, uma série que desde há algum tempo vinha sendo publicada, com genial intuição editorial, no conhecido formato de tiras. Na mente de Galep, onde sem dúvida ainda permanecia bem viva a recordação dos seus cartazes de cinema feitos para Jago Mazza, assim como, acrescentamos nós, os de Bonelli, o projeto começava a delinear-se lentamente: um western em formato de bolso, o preferido dos jovens pela facilidade com que se podia esconder, numa época onde o fumetto era ostracizado pelas cabeças bem pensantes. Restava apenas convencer Tea Bonelli!
Occhio Cupo, com arte de Aurelio Galleppini
O artista leva a peito a iniciativa, trabalhando no duro para desenhar a partir de recortes de trabalhos de Walter Molino, uma das suas fontes de inspiração, juntamente com o norte-americano Alex Raymond. Para protagonista, decide inspirar-se em dois atores como Gary Cooper e Randolph Scott, intérpretes de filmes que tinha visto e apreciado na sala do cinema Politeama Margherita em Cagliari. Os cavalos, elementos típicos das paisagens toscanas de Casale di Pari, onde Galep passou a sua infância, era um dos seus temas preferidos desde muito novo. Em 31 maio de 1948, Tea Bonelli escreve uma carta a Galep pedindo-lhe que vá a Milão conhecer as duas novas publicações. Galep apresenta então à senhora Tea os desenhos que tinha realizado, os quais serão em seguida enviados para Gianluigi Bonelli, que dará nome à personagem e escreverá a sua primeira história: Il Totem Misterioso.
Tex – Il Totem Misterioso, com arte de Aurelio Galleppini
O nome da personagem é-lhe sugerido por um armazém de vestuário denominado Tex Moda, localizado na Via XX Settembre em Génova, cidade onde o autor é anfitrião de um amigo editor para o qual estava a escrever curtas histórias, entre as quais a de Red Killer, que não é uma banda desenhada, mas que Galep considera estar na origem do nome de Tex. Não esqueçamos que, dentro de alguns meses, a personagem se chamará na verdade Tex Killer, nome que ainda iremos encontrar, por exemplo, no oitavo álbum de tiras. O nome não agrada muito a Tea Bonelli, uma vez que o herói da nova publicação é um paladino da justiça e a palavra Killer sugere aos leitores uma associação com aqueles contra quem ele se bate: bandidos e assassinos. Galleppini propõe à editora substituir com um V a letra inicial do apelido e Tex torna-se assim Viller. No entanto, esta solução também não agrada à senhora Tea e será ela própria que acabará por escolher para Tex o apelido de Willer, tão conhecido e popular junto dos leitores.
Primeira página original de Tex – Il Totem Misterioso; 1948 – Arte de Aurelio Galleppini
O resto da história já é conhecido. Galep realiza as primeiras tiras de Tex na Sardenha, mas rapidamente se instalará em Milão, trabalhando num pequeno quarto da modesta sede da editora, onde um jovem Sergio Bonelli o encontra a trabalhar horas extraordinárias (desenha Tex das oito da noite até às cinco da manhã) ou num estúdio que divide com um outro desenhador, o qual, para além de lhe oferecer hospitalidade, também escreve as legendas das primeiras histórias do Ranger. Trabalha-se afincadamente, com prazos de entrega obrigatórios. As primeiras tiras são desenhadas diretamente, sem a prévia ajuda dos esboços a lápis. Conforme admitido pelo próprio Galleppini, é um trabalho que no início revela um absoluto desconhecimento do western, por exemplo, com as armas a serem inventadas, caraterística que se manterá até à publicação de um ensaio fundamental elaborado pelo experiente e conhecedor Gattia. Gradualmente, a qualidade das tiras melhora, a começar nas calças pretas que Galep tinha vestido de início à personagem, fruto de um tratamento demorado, mas que se veio a revelar pouco eficaz nas cenas noturnas. As portas para um sucesso à escala mundial, que ainda hoje continua a surpreender os apaixonados, estavam doravante abertas para uma personagem… nascida um pouco por acaso!
Aurelio Galleppini e o jovem Sergio Bonelli
*Texto de Sandro Palmas publicado originalmente na Revista nº 8 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2018.
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