TEX no Diário do Alentejo: 14 de Abril de 2007

Texto do Suplemento Alentejo Ilustrado de 14/04/2007
Espaço bd
Por Luiz Beira

Aqui há gato!…

Aqui há gato - Espaço BDPois! Vai ser uma encantadora gataria desenfreada!
O 16° Salão Internacional de Banda Desenhada de Moura, o “Moura – BD/2007″, a acontecer de 26 de Maio a 3 de Junho, tem como tema fundamental “O Gato na Banda Desenhada”.

E há uma infinidade deles, desde gatos heróis-BD (Félix, Garfield, Fritz, Blacksad, O Gato de Geluck, Hórus, Crazzy, Poussy, Silvester, Zú, etc., etc.) a simples figurantes notórios (como se observa em duas pranchas de “Camões” por Carlos Alberto, ou em “Vers 1’Oasis” de Demblans), passando por casos muito especiais como o siamês das aventuras de “Tintim” (inspirado no gato “Taíque” de Hergé), “Nanar” (das aventuras de Ric Hochet), o gato de “Gaston Lagaffe, “Iris” (de Didier Comès) ou “Ii Faut y Croire pour le Voir” (pela parceria Jean-Claude Forest – Alain Bignon).
José Abrantes (criador também de duas séries com gatos, “Hórus” e “Zú”) e Catherine Labey (ex-cidadã francesa, desenhista, colorista, tradutora e legendista), são os dois grandes artistas nacionais que receberão o Troféu Balanito na sessão solene do dia 2 de Junho (sábado). Desde já, parabéns a ambos!

Mas aqui também há um justiceiro…

Trata-se de “Tex”, o famoso “cowboy”, criação da portentosa editora italiana Boneili.
E, para grata surpresa, o Salão contará com a presença de um dos actuais e mais valorosos desenhistas de “Tex”, o italiano Fabio Civitelli, que também receberá o Troféu Balanito, na categoria de autor estrangeiro.
O espaço autónomo de “Tex” será comissariado por José Carlos Francisco (que aqui apresentei e entrevistei a 10 de Novembro de 2006), representante em Portugal das Ed. Bonelli e da Mythos Editora (editora brasileira da série “Tex”, que deverá marcar presença com um representante no referido evento).

Como outro notável espaço autónomo, conta-se com o que será dedicado a uma jovem autora nacional, desta vez, Susa Monteiro.

Copyright: © 2007 Diário do Alentejo; Luiz Beira
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Póster Tex Nuova Ristampa 44

Póster Tex Nuova Ristampa 44

Mais um belo desenho de Claudio Villa, onde vemos Tex Willer num rigoroso dia de Inverno, viajando velozmente de trenó puxado por cães, no meio de um fascinante cenário de uma paisagem perdida nas neves eternas do Alasca, a caminho do Vale da Longa Esperança, situado nos Montes Fumegantes, onde viviam os descendentes de uma família oriunda de São Petersburgo, que tinha sido condenada pelo Czar da Rússia a um exílio na longícua Sibéria, devido a uma conspiração palaciana contra a Imperatriz Catarina.

Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #41 e inspirado na história, “La freccia nera” de G. L. Bonelli e Galleppini com a colaboração de Francesco Gamba (Tex italiano #75 e #76).
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Texto de José Carlos Francisco

Moura – XIV Salão Internacional de Banda Desenhada – MOURABD2007

De 26 de Maio a 3 de Junho de 2007, realizar-se-à na cidade alentejana de Moura, o XVI Salão de Moura – MouraBD 2007, cujo tema central aborda a temática ”O Gato na Banda Desenhada“, mas onde também não deixará de estar presente em grande destaque a personagem Tex Willer, não só pelas exposições associadas ao Ranger, mas também pela presença do conceituado desenhador italiano Fabio Civitelli.

O blogue do Tex tem o privilégio de divulgar em mais uma antestreia, o cartaz do evento, onde pela primeira vez em Portugal, Tex Willer aparece num cartaz oficial de um evento deste quilate, assim como de divulgar a sinopse do que se poderá visualizar, visitando o Salão, já que como se poderá ver de seguida há uma série de razões para os bedéfilos de todo o país fazerem uma visita a Moura.

A cidade e o Salão BD justificam a viagem.

MOURA BD 2007

16º Salão de Banda Desenhada

Data: 26 de Maio (Sábado) a 3 de Junho (Domingo) de 2007
Locais: Castelo de Moura (exposições) e Cine-Teatro Caridade (homenagens e entrega de prémios).
Tema: O Gato
Homenageados: José Abrantes, banda desenhista português, Fabio Civitelli, italiano (a quem serão outorgados os troféus “Balanito de Honra”) e Catherine Labey (a quem será outorgado o “Balanito Especial”).

Cartaz MouraBD2007

EXPOSIÇÕES:

01) José Abrantes – Retrospectiva da obra deste autor, onde se incluem trabalhos como as aventuras do Gato Zú e do Gato Hórus, entre muitos outros, numa selecção feita pelo próprio José Abrantes, banda desenhista com mais de três décadas de carreira.

02) Fabio Civitelli – cerca de duas dezenas de pranchas do autor, seleccionados pelo próprio, pretendem dar, aos visitantes do Moura BD, uma visão geral acerca da colaboração mais recente deste consagrado desenhador italiano para com a Sergio Bonelli Editore. Poderemos ver pranchas de três histórias de Tex, nomeadamente, La banda dei tre (Tex italiano 554, acabada de sair em Itália e portanto inédita em Portugal), L’uomo venuto dal fiume ( Tex italiano 476) e Il presagio (Tex italiano 475).

03) Catherine Labey – Catherine é um nome incontornável na BD portuguesa dos últimos 30 anos. A sua obra estende-se em áreas tão diferentes como a legendagem, a tradução de álbuns, edição e paginação de fanzines, para além da ilustração e do desenho.

04) Os gatos na BD – Panorâmica geral sobre este tema na banda desenhada. O Gato é um dos animais preferidos pelos autores de BD quando se trata de criar uma série ou um herói de personalidade bem vincada. Os exemplos são inúmeros: desde o gato Félix (um dos mais antigos personagens de desenho animado), passando por Garfield, “Fritz, the Cat”, Catwoman, Aristogatos, Silvester, “Tom & Jerry”, Top Cat, etc… até ao mais recente “BlackSad”.

05) 14º Concurso de Banda Desenhada e Cartoon – exposição dos melhores trabalhos concorrentes (tema: O gato).

06) 11º Concurso Escolar de Banda Desenhada – dedicado, exclusivamente, às escolas do concelho (tema: O gato).

07) A nova vaga de desenhadores de Tex – um dos mais famosos “cow-boys” da banda desenhada (criado há 60 anos pelo italiano Bonelli), tem, talvez, a maior equipa de autores para um só personagem no mundo da BD. Muitos dos tradicionais desenhadores começam a dar lugar a uma nova geração. Em Moura teremos, em exclusivo mundial, 15 exemplos desta nova vaga de desenhadores, através de 30 belíssimas pranchas seleccionadas pela Sergio Bonelli Editore. Os seus nomes: Corrado Mastantuono, Rossano Rossi, Marco Torricelli, Dante Erasmo Spada, Pasquale Del Vecchio, Orestes Suarez (Cubano), Alessandro Piccinelli, Ugolino Cossu, Pasquale Frisenda, Bianchini & Santucci, Giovanni Bruzzo, Giacomo Danúbio, Lucio Filippucci, Franco De Vescovi. Absolutamente a não perder!

Colecção italiana de José Carlos Francisco08) Em Portugal, temos, também, um caso raro de dedicação a Tex. Trata-se de José Carlos Francisco, que colecciona tudo o que tenha, directa ou indirectamente, a ver com o personagem, desde há cerca de vinte anos. Revistas, pósters, originais autografados, miniaturas em plástico… Enfim, tudo aquilo que mostre a figura de “Tex” é coleccionado e arquivado religiosamente por José Carlos. É essa colecção de objectos que teremos ocasião de expor em Moura, graças à gentileza do coleccionador (que, diga-se, é representante em Portugal da Mythos Editora, a editora que publica “Tex” no Brasil).

09) “Nas garras felinas do humor” – exposição comissariada por Osvaldo de Sousa. Como sempre, a componente do “cartoon” estará presente no nosso salão graças à exposição que Osvaldo de Sousa nos apresenta. A deste ano chamar-se-á “Nas garras felinas da sátira” e fará uma retrospectiva sobre a figura do gato como interveniente na sátira social, política e desportiva, terminando com sete trabalhos inéditos, por sete caricaturistas actuais (numa alusão às sete vidas do gato).

10) Susa Monteiro – teremos sempre, a partir da edição deste ano do Moura BD, um espaço autónomo para um jovem autor nacional, que se destaque pela qualidade do seu trabalho. Susa Monteiro é um desses casos. Embora ainda jovem, o seu estilo deixa já antever um futuro promissor quer na banda desenhada quer na ilustração.

ACTIVIDADES PARALELAS:

1) Cinema – Serão projectados filmes de animação ou adaptações de BD’s ao cinema, durante o decorrer do salão.

2) Espaço Ludoteca – vocacionado para as visitas das escolas do concelho, funcionará, durante os dias de semana e por marcação prévia. No segundo dia do salão funcionará, também, para o público infantil em geral, com marcações na hora.

3) Feira do livro BD – onde estarão à venda as últimas novidades BD bem como as edições que a Câmara Municipal de Moura tem lançado nos últimos anos durante o salão.

4) Diplomas-Moura BD / ano 2006 – Este ano, pretendemos introduzir uma inovação no Moura BD. Trata-se da entrega dos Diplomas-Moura BD, onde iremos premiar o que de melhor se editou, no campo da BD, em 2006, nas seguintes categorias: Melhor Álbum Português; Melhor Álbum Estrangeiro; Melhor Álbum Traduzido para Português. Os Diplomas serão entregues na Cerimónia de Encerramento do salão.

5) Sessões de autógrafos – está prevista uma sessão de autógrafos no dia 2 de Junho com os autores homenageados: José Abrantes, Catherine Labey e Fabio Civitelli.

EDIÇÕES PROGRAMADAS:

1) Programa-catálogo – Com informação detalhada acerca das exposições, dos autores, do programa e do historial do salão, é de distribuição gratuita entre os visitantes.

2) Cadernos Moura BD (nº7) – a colecção “Cadernos Moura BD”, desde que se iniciou em 1999, leva já seis números editados. O objectivo da colecção é, desde o início, a divulgação junto das gerações mais jovens, da obra dos autores nacionais mais consagrados. O sétimo número será lançado no primeiro dia do salão e recupera alguns trabalhos de José Abrantes.

3) “O Western na BD Portuguesa” – estudo de Jorge Magalhães acerca da temática do “western” em edições portuguesas. Será um fanzine dentro da mesma linha do que lançámos em 2005, “BD e Ficção Científica – As Madrugadas do Futuro”, profusamente ilustrado e com a qualidade garantida pelo nome do autor.

4) “Nas garras felinas do Humor” – catálogo da exposição com o mesmo nome.

Civitelli e os autógrafos

MOURA BD 2007
16º Salão Internacional de Banda Desenhada
Câmara Municipal de Moura – Praça Sacadura Cabral, 7860.207 Moura
T
lef. 285 250 400 ou 285 250 478     Fax: 285 25 17 45     e-mail: mourabd@iol.pt http://www.cm-moura.pt

Entrevista exclusiva: FABIO CIVITELLI

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Carlos Rico e Nuno Pereira de Sousa na formulação das perguntas e de Gianni Petino e Júlio Schneider na tradução e revisão.

Graças à presença de Fabio Civitelli, desenhador da personagem Tex Willer, no XVI Salão Internacional MouraBD, que ocorrerá no nosso país de 26 de Maio a 3 de Junho de 2007, o blogue português do Tex convidou o famoso desenhador italiano para responder a algumas perguntas para o público texiano português e de outros países que o visitam; sentimo-nos honrados com a entrevista exclusiva que o artista nos concedeu, que nos dá a oportunidade de conhecê-lo melhor, tanto do ponto de vista pessoal como do profissional em relação a Tex.
Civitelli que está a trabalhar na edição histórica comemorativa dos 60 anos de Tex (Setembro 1948/2008) respondeu a todas as perguntas com o máximo afecto e disponibilidade, além de uma rapidez semelhante à de Tex com o gatilho do seu Colt…

Fabio Civitelli no Torino Comics 2005

Fabio Civitelli, desenhador italiano de banda desenhada, nasceu na província de Arezzo, em Lucignano, a 9 de Abril de 1955 e o seu nome está há muitos anos ligado ao de Tex Willer.
O seu estilo é caracterizado por uma grande atenção aos mínimos detalhes e a um habilidoso uso do preto e branco, além de possuir um traço extremamente preciso. A sua versão de Tex, uma das mais apreciadas pelos leitores das séries Bonelli, respeita a tradição, ao mesmo tempo em que é moderna e cativante.
Como ele próprio nos confessou no passado, entre as suas principais influências estão os autores da editora americana Marvel e da italiana Bonelli, além de Alex Raymond, grande desenhador norte-americano dos anos 40 e 50, criador, entre outros, de Flash Gordon.

EIS A ENTREVISTA INTEGRAL:

Para começar, os seus dados: nascimento, estudos e profissão.
Fabio Civitelli: Eu nasci em Lucignano, um pequeno povoado do Vale de Chiana, na província de Arezzo, Toscana, em 9 de Abril de 1955. Estudei no Liceu Científico de Arezzo, e depois de diplomado comecei a trabalhar como desenhador de banda desenhada, ofício que não mais abandonei (na verdade eu comecei a desenhar profissionalmente durante o último ano de liceu e levava as páginas para as aulas de Educação Artística, o que divertia muito os meus companheiros, pois eu trabalhava na época com quadradinhos eróticos!).

Quando se apercebeu que sabia desenhar? E quando soube que o seu futuro era ser um desenhador profissional?
Fabio Civitelli: Quando eu era muito pequeno a minha mãe, para me manter sossegado, colocava-me à frente lápis e papel. Eu sempre gostei muito de desenhar, a ponto de cultivar a convicção de fazer disso uma profissão. Mas tinha a convicção de não saber desenhar como eu gostaria, e só uma grande paixão permitiu-me superar os vários obstáculos técnicos e expressivos que se apresentam a qualquer pessoa que pretenda contar histórias por imagens.

Tex e Dinamite por Fabio CivitelliComo entrou para a Sergio Bonelli Editore? Qual foi o seu primeiro trabalho? E o que sentiu quando mais tarde recebeu o convite para integrar a equipa de Tex Willer?
Fabio Civitelli: Aos dezanove anos (1974) eu comecei a colaborar com o Estúdio Origa de Milão, onde permaneci até 1979, quando um encontro com Fernando Fusco, um dos mais importantes desenhadores de Tex, fez crescer em mim a vontade de me apresentar pessoalmente ao grande editor italiano de banda desenhada, Sergio Bonelli – de cuja amizade e estima sinto-me honrado – que, para minha grande surpresa, mostrou conhecer e apreciar o meu estilo, apesar de eu jamais ter assinado algum trabalho com o meu nome verdadeiro. Logo nesse primeiro encontro começou uma longa colaboração, primeiro com Mister No e, a partir de 1984, com Tex.

Como analisa a evolução da sua carreira?
Fabio Civitelli: De modo muito positivo: eu sou um homem de sorte que faz o trabalho que sempre desejou. Além disso, tenho a oportunidade de colaborar com a mais importante personagem italiana e de trabalhar numa empresa que sinto ser como uma grande família. Por isso, ao contrário de muitos colegas, nunca senti a necessidade de tentar trabalhar também com outros editores, sobretudo estrangeiros.

Normalmente, como se realiza o processo criativo a nível da arte? E que materiais utiliza?
Fabio Civitelli: Quando recebo o argumento e o roteiro de uma nova história, primeiro eu leio atentamente e faço anotações sobre o material iconográfico que me será útil, e que depois procurarei entre os meus livros, na internet e ao assistir filmes de faroeste. A partir daí começo a desenhar, uma página de cada vez, que após o lápis recebe a tinta, antes de passar à página seguinte. Eu uso papel Fabriano Técnico 6 áspero em tamanho A3, lápis 0,5 mm de gradação dura (2H ou 3H) e pincéis Windsor & Newton n°1 e n° 2, com os quais faço 90% da arte-final (inclusive as casas, os interiores e as armas), e lanço mão de pincéis cortados a metade, pequenas esponjas e marcadores para os reticulados e os efeitos de luz.
Águia da Noite por Fabio Civitelli
Qual é o papel da Sergio Bonelli Editore no mercado editorial de banda desenhada italiano?
Fabio Civitelli: Esta pergunta não devia ser feita a mim, mas é inegável que a Sergio Bonelli Editore conquistou ao longo dos anos uma posição absolutamente dominante no mercado, e isso graças à qualidade e quantidade das propostas que todos os meses chegam aos quiosques.

Se o Tex e as demais personagens bonellianas não tivessem sido criadas e não tivessem exercido a sua influência, como imagina que seria actualmente o mercado editorial de Banda Desenhada em Itália?
Fabio Civitelli: Eu penso que, a seguir esta nefasta hipótese, o mercado da banda desenhada ter-se-ia reduzido a bem pouca coisa, se não desaparecido de todo. Permaneceria um nicho de produção de autor no restrito mercado das lojas especializadas em BD, enquanto nos quiosques se veria a total predominância de produtos estrangeiros, tipo manga ou super-heróis.

Sabemos que está a trabalhar numa história comemorativa dos 60 anos de Tex, totalmente a cores, a editada no Verão do próximo ano. Foi, aliás, segundo sabemos, uma sugestão que partiu de si e que foi muito bem acolhida na Sergio Bonelli Editore. Qual é o segredo para que, seis décadas depois, Tex consiga manter os leitores interessados nas suas aventuras?
Fabio Civitelli: Ter sido escolhido para celebrar este importante aniversário é, para mim, motivo de grande satisfação e orgulho. Já há alguns meses que eu tinha conversado sobre este assunto na Editora, porque é um acontecimento ao qual eu gostaria muito de dar a minha contribuição: será uma história fechada, de uma só edição, a cores, na qual Tex evocará uma aventura do passado, vivida na companhia da sua amada esposa Lilyth, e onde o veremos jovem e atrevido, como nas primeiríssimas histórias assinadas por Bonelli e Galleppini (de quem inspirei-me muito para as roupas e expressões do jovem Tex). A segunda parte da pergunta mereceria um longo tratado, mas limitar-me-ei a dizer que foram decisivos os traços de carácter e de comportamento colocados em Tex pelo seu criador Gian Luigi Bonelli, que fizeram dele um caso provavelmente único no panorama da banda desenhada italiana (e não só).

Dinamite e Tex por Fabio CivitelliOs argumentos que recebe são em geral muito ou pouco detalhados no que diz respeito à arte? Quais são os argumentistas com os quais gosta mais de trabalhar?
Fabio Civitelli: Cada escritor tem o seu estilo ao realizar os roteiros: seja Claudio Nizzi, com o qual colaboro há mais de vinte anos e que é o autor desta história comemorativa, seja Gianfranco Manfredi, com o qual estou a trabalhar numa história em duas edições que deverá ser publicada em 2009, ambos têm uma forma de escrever muito precisa e detalhada, mas que por vezes permito-me não seguir ao pé da letra, especialmente na sequência das cenas e no ponto de vista dos enquadramentos. Com o passar dos anos a parceria artística com Nizzi transformou-se numa verdadeira amizade, e isto permitiu-nos trabalhar sempre com grande sintonia e entendimento, inclusive de modo a permitir-me colaborar com ele na elaboração de argumentos (até agora foram publicadas cinco histórias derivadas de ideias minhas).

Pensa que um dia veremos uma história de Tex, não somente com um argumento seu, mas também com o roteiro escrito por si?
Fabio Civitelli: Espero que sim. Eu gosto muito de escrever e, no último Verão, apresentei um novo argumento com muitas páginas de roteiro, o qual foi bastante apreciado pelo director Decio Canzio, mas por azar não foi aceite porque era muito semelhante a outra história que está em fase de elaboração e que eu não podia saber. De todo o modo, isso me faz querer tentar novamente, naturalmente depois de concluir as duas histórias que agora estou a desenhar.

Pensa que será possível, um dia, existir uma personagem portuguesa semelhante a Tex, quiçá desenhada por um português?
Fabio Civitelli: Sinto muito por não conhecer nem o mercado nem tão-pouco os autores portugueses, mas naturalmente desejo que tal um dia possa ocorrer: Tex é uma personagem fantástica, ele é forte e irónico, decidido e capaz, um verdadeiro monumento à arte da banda desenhada. Seria bonito se existissem muitas personagens desta espécie!

Tex de Civitelli em PortugalTex é uma personagem importante na sua carreira, sem dúvida, mas consegue imaginar-se, daqui a 10 ou 20 anos ainda a desenhar a série ou ambiciona, um dia, experimentar algo que nunca tenha desenhado? Tem algum projecto em mente onde sonhe trabalhar no futuro?
Fabio Civitelli: Não só me imagino como espero com fervor: actualmente não me interessa trabalhar com outras personagens ou outros editores. O que espero é conquistar um espaço criativo nesta mesma série que me permita porventura um dia realizar inclusive os textos das minhas histórias.

Quais são as Bandas Desenhadas que lê actualmente ou com que mais se identifica?
Fabio Civitelli: Leio boa parte da produção bonelliana actual, mas não só: também gosto da banda desenhada de autor (um dos meus autores preferidos é Vittorio Giardino, e dentre os do passado gosto muito de Dino Battaglia) e algumas produções americanas (os meus autores preferidos são Neil Gayman, Allan Moore, Alex Ross, Mark Millar e Bryan Hitch e outros, nos quais vejo a capacidade de renovar um género muitas vezes fechado em si mesmo como é o dos super-heróis).

Tem algum contacto com a banda desenhada que se faz em Portugal? Conhece algum autor como por exemplo E. T. Coelho, considerado por muitos como o melhor banda desenhista português de sempre e que também viveu e trabalhou durante muitos anos na Itália?
Fabio Civitelli: Lamento não conhecer publicações nem autores portugueses. Espero que a minha visita a essa bela terra me permita preencher esta minha lacuna.

Para que acha que deve servir um festival de banda desenhada?
Fabio Civitelli: Do meu ponto de vista o objectivo principal destas manifestações, mais até que o aspecto comercial, é servir para autores e leitores se encontrarem: nós trabalhamos sozinhos, fechados nos nossos pequenos estúdios e estas manifestações são oportunidades para estabelecermos um contacto com muitos dos nossos leitores e ouvir deles opiniões, críticas e sugestões.

Tex de Civitelli em MouraHá autores que preferem o ambiente dos salões de banda desenhada menores em vez do espírito comercial dos grandes festivais. Será esse o seu caso? O que levou Fabio Civitelli, um autor de ressonância mundial, a aceitar um convite de um Salão de média expressão como é o de Moura, com meios muito mais reduzidos do que, por exemplo, o Festival da Amadora? Que expectativas tem em relação a Moura?
Fabio Civitelli: Ao navegar na Web, entre os tantos sítios que falam de Tex eu notei o grande entusiasmo que anima os aficionados de Portugal e do Brasil: foi sobretudo isso que me levou a aceitar este gentil convite, convencido de que conhecerei muitos leitores atentos e preparados, e porventura mostrar-lhes algumas páginas em antestreia.
Ao andar pela Itália com a minha mostra pessoal, que foi acompanhada de um catálogo (O OESTE SEGUNDO CIVITELLI), em várias ocasiões apreciei muitíssimo o clima amigável que se estabelece nas pequenas localidades e nas feiras menos famosas, quando posso sentar-me à mesa com uma dezena de leitores e com eles trocar críticas e pareceres. Eu penso que em Moura estarei entre amigos e que será uma experiência agradável e construtiva.

Fale-nos das surpresas mais agradáveis nas sessões de autógrafos. E desagradáveis, teve?
Fabio Civitelli: Eu gosto bastante de cavaquear com cada um dos leitores no momento dos autógrafos, mesmo que isso atrase um pouco o andar da fila, mas penso que cada leitor merece igual atenção e consideração, porque afinal são vocês que nos permitem viver a fazer este trabalho belíssimo. Momentos verdadeiramente desagradáveis nunca os tive. A única dificuldade que encontrei foi dedicar desenhos a rapazes estrangeiros com nomes difíceis de escrever.

Tex Willer por Fabio CivitelliPara além de banda desenhada, que tipo de livros lê? E a nível de cinema e de música, quais são as suas preferências?
Fabio Civitelli: Quando o trabalho me permite, leio muitos livros: gosto de Andrea Camilleri, de quem li praticamente tudo, e, entre os estrangeiros, leio os autores de policiais Connelly e Crais e muitos livros de ficção científica. Mas o autor que mais me impressionou nos últimos dez anos foi, com certeza, Cormac Mc Carthy, e também apreciei muito os livros de Neil Gayman, que também admiro imenso pelos seus quadradinhos, especialmente Sandman, e depois naturalmente autores mais clássicos como Simenon, Bulgakov, Kundera e outros. A respeito de música, posso dizer que o meu aparelho de som está sempre ligado e os meus desenhos nascem com uma trilha sonora muito variada que vai da música clássica, de Mozart a Debussy, ao rock anos Setenta – Genesis, Santana e alguns outros – e ao jazz, que é a minha música preferida em absoluto: para dizer alguns nomes, cito John Coltrane, Miles Davis, Bill Evans, Weather Report e sobretudo Keith Jarrett, de quem possuo uma vastíssima discografia, e, entre os mais recentes, Brad Mehldau. Sobre o cinema, acompanho os (poucos) faroestes produzidos nos últimos anos, mas a minha preferência é a ficção científica (Matrix é o filme que mais me impressionou nos últimos dez anos) e o “cinema de autor” internacional (considero como o director mais interessante M. Night Shyamalan) e também o italiano.

Fabio, em nome dos Texianos portugueses, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Fabio Civitelli: Eu é que agradeço muito pelo interesse demonstrado a meu respeito e espero que seja do vosso agrado que retribua ao apresentar em antestreia mundial duas páginas da história (para aproveitar a extensão completa das imagens, clique nas mesmas) dos sessenta anos de Tex com o título (provisório) A MISSÃO ASSEDIADA.
Fabio Civitelli

Prancha 7 da história dos 60 anos

Prancha 8 da história dos 60 anos