Tex Willer em 2008

Carlo Monni e José Carlos FranciscoDo nosso colaborador italiano, Carlo Monni (que vemos na foto ao lado, com José Carlos Francisco), recebemos um texto sobre a programação editorial dedicada ao Tex, pela Sergio Bonelli Editore neste ano de 2008, texto que nos apressamos a dar conhecimento a todos os frequentadores do blogue do Tex!

Aproveitando o início do ano e o facto de já estar definida praticamente a 100% a escala das histórias do ranger em 2008 pela Sergio Bonelli Editore e que só qualquer imprevisto pode levar a alguma alteração, aproveito para fazer uma análise preventiva do que nos espera em 2008.

Inicio dizendo que pela primeira vez em muitos anos, quase todas as histórias que veremos publicadas em 2008 estão já terminadas no momento em que escrevo este texto ou o serão dentro de poucas semanas no máximo. Como referi, tal não acontecia há anos e tal facto permitirá seguramente à redacção gerir a saída das histórias com mais tranquilidade.

Quanto às histórias, vamos então dar um rápido olhar a cada uma delas, na exacta ordem de aparição, propondo também (ou exclusivamente na maioria dos casos) em azul o título de trabalho, se conhecido.

2008

Pranchas de Rossano RossiJaneiro/Fevereiro – Tex n° 567/568: Nizzi & Rossi
“Dieci anni dopo” (“Inferno nella Terra Promessa“).
220 páginas. Estreia de Rossano Rossi na série regular. Retorno dos quakers de ”Terra Prometida” (Tex’s brasileiros nº 95, 96 e 97)

Janeiro – Almanacco del West 2008: Ruju & De Vescovi
“La palude nera” (“Sfida a Black Marsh“).
110 páginas. Uma outra estreia, desta vez Franco Devescovi, desenhador triestino, já veterano, que retorna ao género western depois de 25 anos de pausa.
No argumento, não teremos uma estreia, mas um retorno: Pasquale Ruju.
Os protagonistas da história são os cajun, pescadores da Louisiana de origem (e língua) francesa.

Março/Abril/Maio – Tex nº 569/571: Nolitta/Boselli & Ticci
“Buffalo Soldiers“.
291 páginas. História que nasce de uma ideia que Sergio Bonelli teve no longínquo 1993. O texto é de Boselli e os desenhos de Ticci. A história tem como protagonistas os célebres Buffalo Soldiers (soldados de cor). Visto o team criativo, o tema, a ambientação, direi que se candidata a ser a história do ano.

Maio/Junho – Tex nº 571/572: Boselli & Garcia Seijas
“Il killer“.
139 páginas. Num texto como habitualmente de Boselli, eis a estreia de Ernesto Garcia Seijas (já visto, recentemente no Almanaque Tex nº 33 no Brasil) na série regular. O mencionado título de trabalho será seguramente alterado, não podendo ser o título do álbum, visto que títulos com a palavra “killer” ou ”killers” existem já diversos.

Pranchas de Lucio FilippucciJunho – Texone n° 22: Nolitta/D’Antonio & Filippucci
Nenhum título conhecido.
224 páginas. Obra, infelizmente, única de Gino D’Antonio, baseada, ao menos em parte, numa ideia de Sergio Bonelli/Guido Nolitta, concebida no distante ano de 1993. Desenhos de Lucio Filippucci, também ele estreante em Tex depois de vários anos de honrada militância em Martin Mystere. É seguro que esta história retornará a qualidade(na verdade ultimamente demasiado baixa) dos  Texoni.

Julho/Agosto – Tex nº 573/574: Boselli & Font ou então Faraci & Cestaro
“Il vento“.
220 páginas. A premiada assinatura Boselli (ainda ele) & Font traz-nos uma aventura a qual fará de um tornado ou qualquer coisa de semelhante, o tema central.
Nota: Caso venha a ser terminada em tempo útil, no lugar desta história pode ser, pelo contrário, “Lo sceriffo indiano“, obra há longo tempo esperada de Faraci e os irmãos Cestaro. A história, como indicia o título provisório, tem como singular protagonista um xerife índio.

Setembro – Tex nº 575: Nizzi & Civitelli (a cores)
“La missione Assediata“.
110 páginas. História colorida, celebrativa dos 60 anos de Tex, com texto de um Nizzi surpreendentemente mais em forma do que ultimamente (não que o desejo muito). Um longo flashback com Lilyth como actriz de luxo (ambientada pouco depois da conclusão da história – Pacto de Sangue – Tex brasileiro nº 94) e a participação também de Dinamite e ainda de Flecha Vermelha, Ta Hu Nah e… Satã.
A história não será uma obra-prima, mas eleva-se decididamente da média nizziana dos últimos tempos e os desenhos de Civitelli fazem o resto.

Outubro – Maxi n° 12: Faraci & Diso
Nenhum título conhecido.
Por volta de 330 páginas.
Que será o Maxi de 2008 afirmou o próprio Diso em Lucca e ele deverá saber o que diz. De resto soube que a redacção dá a prioridade a uma história de um autor estreante como Faraci, que de outro modo em 2008 corre o risco de não ver publicada nenhuma história este ano.

Pranchas de Bianchini & SantucciOutubro/Novembro/Dezembro – Tex 576/577/578: Boselli & Bianchini/Santucci
“L’alchimista“.
330 páginas. Boselli (sempre ele) confecciona uma história de intrigas e mistérios tendo como pano de fundo a cidade de New Orleans, onde veremos o retorno de Nat Mac Kenneth, coadjuvado optimamente das estreias (de novo? Mas todos chegam a Tex este ano? – risos…) de Marco Santucci (lápis) e Marco Bianchini (arte-final).

Ao menos em teoria, prevê-se um ano bem diferente dos anteriores. Duas coisas parecem claras para este 2008 (e a mesma tendência deverá repetir-se também nos próximos anos): uma é a clara predominância de Boselli, que parece enfim ficar consagrado como escritor principal de Tex e a outra é o drástico redimensionamento (para não chamar outra coisa) de Nizzi.
De uma coisa penso estar certo, que também os novos autores, especialmente os argumentistas, nos farão continuar discutir, mesmo que a alguns eles apreciem mais e a outros menos, como de resto é justo que assim seja. Serão todavia discussões vivas e vivazes, bem diversas das cansadas e resignadas discussões das últimas histórias de Nizzi. Ou estarei enganado?

Texto de Carlo Monni (traduzido e adaptado por José Carlos Francisco)

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Romanzi a Fumetti Bonelli

Romanzi a Fumetti BonelliNo blogue do Tex, damos hoje espaço para a rubrica Outras personagens Bonelli, a uma colecção recente da Sergio Bonelli Editore, intitulada Romanzi a Fumetti Bonelli, apresentando a crítica de Mário João Marques aos dois números já existentes: Dragonero e Gli occhi e il buio.

Trata-se de uma colecção especial, já que são romances em forma de banda desenhada e cada número traz um romance novo, nada tendo a ver com o anterior. Em cada álbum desta colecção estarão presentes histórias de personagens diversas não estando excluído o retorno de algumas personagens que tiveram sucesso no passado e cada romance terá 200 a 300 páginas e a periodicidade será sensivelmente semestral.

Segundo apuramos os próximos romances, embora desconhecendo a sequência devem ser:

“Hit Moll Pulp“, texto de Enoch, desenhos de Andrea Accardi;
“Fanta-thriller“, texto de Paola Barbato;
“Serial-killer“, texto e desenhos de Gigi Simeoni

Dragonero
Romanzi a Fumetti Bonelli nº 1, editado em Junho de 2007;

DragoneroArgumento e roteiro: Luca Enoch e Stefano Vietti
Desenhos: Giuseppe Matteoni
Capa: Giuseppe Matteoni

Ian, antigo soldado do Império, agora dedicado a missões de inteligência nos territórios do Império, um homem relutante que prefere não enfrentar o seu passado; Gmor, um orgue com uma força enorme e que vive junto com os humanos; Alben um mago cheio de energia e de carisma e que sofre de vertigens; Myrva, irmã de Ian, pertence à casta dos tecnocratas, de carácter bem vincado e que usa as armas de fogo de modo letal; Ecuba, uma guerreira que tem a missão de proteger Alben; Sera, pequena e pacífica, complementar a Gmor. Estes são os protagonistas deste space-opera escrito em moldes de filme de grande acção, com excelentes efeitos especiais e de elevado orçamento. Enoch e Vietti idealizaram um mundo de fantasia num futuro em ambiente medieval, um mundo onde os dragões e as forças obscuras encontram-se dominados pelas forças do bem representadas pelo Império. Mas a ameaça paira no ar, estranhos acontecimentos parecem poder vir a alterar o equilíbrio existente. E só este grupo de heróis pode combater a ameaça.

DragoneroDragonero é um projecto já com alguns anos de Enoch (Gea, Morgana) e Vietti (Martyn Mystère, Nathan Never). Juntos amadureceram a ideia, implementaram algumas alterações e trouxeram Matteoti, um desconhecido, para dar vida gráfica à aventura. Uma aventura que respira o ambiente tolkieano por todo o lado: no grupo dos protagonistas, representado por um soldado, um mago, um orgue, uma guerreira, mas também na construção de todo um universo que bebe muito da sua inspiração na eterna luta entre o bem e o mal, entre um mago maléfico com um passado obscuro e que tenta conquistar o mundo e um outro, muito ligado aos métodos tradicionais e que representa um baluarte contra as forças do mal. Chegados aqui, a aventura afirma-se sempre muito linear, mas vai buscar grande parte da sua qualidade ao modo sempre enérgico e ritmado como é conduzida.

DragoneroOu seja, o leitor, apesar das suas quase 300 páginas, acaba por nunca relaxar, porque, após delinear muito bem os campos opostos, Enoch e Vietti oferecem um argumento grandioso na forma e no modo como tudo é conduzido. Dois campos que se opõem na eterna luta pelo poder mundial, mas também duas formas de ver o progresso e o combate às forças do mal. Aos métodos clássicos e que se inspiram em rituais antigos de Alben, contrapõe-se Myrva que representa o lado progressista e tecnológico da magia, nem sempre com os melhores resultados. São pontos a mais que os autores não descosem por completo, levando a crer que esta aventura completa pode muito bem vir a ter continuidade.

Matteoti faz aqui também um belo trabalho, mercê de um desenho preciso e detalhado e especialmente conseguido na interpretação dos ambientes arquitectónicos e naturais. Realce também para as várias sequências de acção, de que é perfeito exemplo toda a batalha final, e a construção de planos e enquadramentos.

Gli occhi e il buio
Romanzi a Fumetti Bonelli nº 2, editado em Novembro de 2007;

Gli occhi e il buioArgumento, roteiro, desenhos e capa: Gigi Simeoni

Tudo começa em Paris em 1907.
Alessandro Simonetti é um jovem pintor que teve uma infância difícil, mas que agora se prepara para casar com Luísa, uma jovem vinda da alta sociedade milanesa. Um dia acontece o drama e tudo muda quando Luísa morre num acidente de automóvel e Alessandro entra num estado de alucinação, interpretado como um sinal: no momento da morte da sua noiva, o jovem pintor vê nos olhos de Luísa a inspiração que buscava para aceder à arte pura. Um ano mais tarde, já depois de regressar a Milão, Alessandro continua a debater-se com o trágico passado que não lhe dá tréguas, atravessando um período de estagnação e acima de tudo recordando o que viu nos olhos de Luísa naquele fatídico dia. Um sinal, uma forma, algo de arte pura que o inspira a deixar a pintura clássica e a dedicar-se a outras experiências. Mas para isso Alessandro terá que buscar a mesma inspiração, terá que ver a morte nos olhos, terá que matar para procurar essa forma, esse sinal, essa arte pura.

Milão começa a ser atormentada por uma série de assassinatos sem que se saiba quem é o culpado. E é num perfeito clima de terror que o comissário Matteo De Vitalis e o jornalista Sante Ferrari começam a indagar e a investigar numa autêntica caça ao homem.
Escrito e desenhado por Gigi Simeoni (conhecido por Sime), “Gli Occhi e il Buio” custou dois anos de trabalho e é uma viagem alucinante entre razão e loucura, entre génio e raciocínio, entre liberdade expressiva e condicionamentos morais ou mais simplesmente, entre o bem e o mal. Em resumo, trata-se de uma bela surpresa, seguramente uma das melhores histórias que já li.

Gli occhi e il buioO argumento de Sime está cheio de pontos fortes, superiormente apresentados e desenvolvidos que lhe conferem uma qualidade que, mais do registar, importa pormenorizar. Toda a grandeza da obra começa no período escolhido, início do século XX, a Belle Époque, quando a Europa fervilhava de expansão e crescimento, um dinamismo que se estendia em todos os ângulos e que resultava num optimismo crescente. Sime oferece este retrato histórico, transpondo tudo para a realidade italiana da época, quando os periódicos “Il Secolo” e “Corriere della Sera” disputavam entre si a popularidade, quando o Futurismo preparava-se para trazer novos rumos e novas ideias a todos os campos da expressão artística ou quando a Itália orgulhosamente estava na vanguarda dos métodos científicos da investigação criminal. É neste cenário, neste ambiente e neste tempo que convincentemente Sime apresenta o seu argumento, feito de bases sólidas onde tudo é convincente, ritmado, com uma total ausência de cenas e diálogos gratuitos, que vem explorar o génio e a loucura de um pintor, mas também a razão e a inteligência de um comissário.

Tudo começa acidentalmente, quando Alessandro descobre uma forma nos olhos de Luísa no momento da morte desta. A transformação de Alessandro, um jovem pintor sensível e idealista num assassino compulsivo, frio e obcecado é então outro dos pontos fortes da obra. Esta descoberta vem inspirar o crivo artístico que Alessandro tanto almejava e procurava, levando-o a procurar novos caminhos para o seu processo criativo, de modo a poder reproduzir a sua imaginação nas telas. Este caminho leva-o à loucura da morte, da escuridão, da alteração completa da sua personalidade, deambulando entre génio e louco. A investigação inteligentemente conduzida pelo comissário De Vitalis, sempre em aproximação gradual ao assassino, é mais outro ponto forte do argumento. Numa altura em que os métodos científicos davam os primeiros passos na investigação criminal, De Vitalis tenta interpretar as atitudes do assassino, as suas motivações e os seus objectivos. No fundo, tanto Alessandro como De Vitalis surgem como intérpretes da alma humana. O jovem pintor logra manietar e iludir, enquanto o comissário interpreta as acções do criminoso, extraindo daqui uma coerente e racional explicação.

Gli occhi e il buioNão é apenas a temática que distingue a qualidade da obra, é sobretudo a narração fluida e moderna, sem pontos mortos, com diálogos bem construídos que, ao mesmo tempo, retratam a época. Todas as personagens são importantes ao desenrolar da acção, todas superiormente construídas, psicologicamente evoluídas, uma diversidade que contribui para uma dinâmica sempre em crescendo da trama. Exemplar o retrato dos dois protagonistas, cada um cerebral a seu modo e obcecados pelos seus objectivos. Alessandro vive atormentado pelo desejo de dar o salto criativo até outros patamares e outros horizontes, até ao ponto que permita a vanguarda artística. De Vitalis, a seu modo, também procura outros patamares, o da modernidade que representava a investigação por métodos científicos. Ambos lutavam contra o que estava estabelecido e será curioso salientar que é a morte de Luísa que vai permitir que ambos desenvolvam essa vertente.

A obra vale também muito pelo desenho detalhado, elegante e expressivo de Gigi Simeoni, um autor que já em 1996 recebera o prestigiado prémio “Fumo di China”para o melhor autor realístico ou ainda o prémio da crítica para a série “Hammer”. Sime não é portanto um desconhecido, os seus trabalhos também se estendem para séries como Lazarus Ledd, Nathan Never, Brandon ou Gregory Hunter. Graficamente “Gli Occhi e il Buio” constitui um trabalho maduro e de grande qualidade, com um traço a interpretar superiormente toda uma época, mas também a compulsiva loucura de um artista em busca de inspiração para novos rumos.
Numa verdadeira atmosfera de terror e crime, mas ao mesmo tempo fascinante, a obra é uma agradável surpresa que, como já alguém disse, é para ler como um romance mas para guardar como um filme.

Textos de Mário João Marques

Gian Luigi Bonelli fala do seu Tex Willer

São raras as entrevistas concedidas por Gian Luigi Bonelli (nascido em Milão, a 22 de Dezembro de 1908 e falecido em Alexandria, a 12 de Janeiro de 2001), autor italiano da 9ª arte, criador da personagem Tex Willer e por isso mesmo, conhecido como “O Pai de Tex“, ainda mais para a Fumo di China, por isso o blogue do Tex reproduz um trecho de uma entrevista realizada em 1982, com este mui amado patriarca dos fumetti italianos, onde fala de Mefisto, Yama, El Morisco e onde se pode ficar a conhecer de viva voz, um pouco mais do mito…

Antevisão Almanacco del West 2008, desenhado por Franco Devescovi

O blogue português do Tex, divulga em nova antestreia, 2 páginas de uma história de Tex, intitulada “La palude nera“, integrada no Almanacco del West 2008, a ser lançado pela Sergio Bonelli Editore no próximo dia 23 de Janeiro.
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Almanacco del West 2008Argumento e roteiro de Pasquale Ruju, com desenhos de Franco Devescovi, que se estreia no mundo de Tex Willer e capa de Claudio Villa.
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Entre o louco Dumont e o ex-caçador de recompensas Cannon intromete-se Tex, decidido a evitar que o sangue corra…

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No Sul do Texas, nas vizinhanças de Corpus Christi, move-se a quadrilha de Daniel Dumont, um patife evadido do manicómio criminal. O louco planifica os seus movimentos consultando as suas fieis cartas de tarot e são elas que o guiam no caminho da vingança: Hannibal Cannon deve morrer! Cannon é um ex-caçador de recompensas que, juntamente com Tex tinha contribuído para prender Dumont. Agora os três adversários estão para reencontrar-se…

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Franco Devescovi - Prancha AFranco Devescovi - Prancha B

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(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
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Passemos agora ao novo desenhador da saga de Tex….
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Franco DevescoviT
emos uma certa relutância em definir como “novo” um autor que já faz parte da história da banda desenhada italiana nos últimos quarenta anos.

Por um estranho acaso, na mais completa revista italiana não profissional que se ocupa da banda desenhada, Ink, o director editorial Paolo Telloli dedica-lhe uma longa e documentada entrevista que começa precisamente assim: “Presente na banda desenhada desde 1970, Franco Devescovi é um dos mais válidos desenhadores italianos. Procurado por diversas editoras italianas, passou por diversos géneros produzindo sempre pranchas de elevada qualidade. Depois de um parêntese de alguns anos dedicados à pintura retornou à banda desenhada e nestes últimos tempos está dedicando-se a Tex…”. Em suma, como agora viram, uma vez mais, para encontrar um ulterior “lápis” para juntar à já aguerrida esteira de prossecutores de Aurelio Galleppini, Sergio Bonelli não precisou atravessar os Alpes ou o Oceano, mas sim estar atento a um gabinete situado ao lado do seu.

Desde há dezassete anos, com efeito, na secretária “habitada” por Alfredo Castelli pousam as páginas de Martin Mystère realizadas por Devescovi. O seu clássico preto & branco tinha despertado a atenção de Sergio Bonelli, desde os tempos em que havia visto os seus primeiros trabalhos realizados para o “Intrepido”, um semanário publicado pela editora Universo, que, por decénios, constituiu o chefe de fila do mercado editorial italiano no quesito da banda desenhada. Atento e paciente como era no início da sua vida profissional, Sergio Bonelli, seguiu com curiosidade a passagem de Devescovi a um outro baluarte histórico do mercado editorial italiano, como era o Corriere dei Ragazzi que naquela época, podia gabar-se de apresentar nas suas páginas os maiores desenhadores italianos, de Dino Battaglia a Mario Uggeri, de Sergio Toppi a Ferdinando Tacconi, de Aldo Di Gennaro a Hugo Pratt.

E seguiu também em 1976, quando Devescovi (de quem vêem acima um auto-retrato) retornou à editora Universo, desenhando por anos personagens como Billy Bis, Cristal, Comissário Norton e Black Rider. Dado que as vias dos quadradinhos não são infinitas – e antes ou depois todos os profissionais desta área acabam por se encontrar um dia –  em 1990 apresentou-se a ocasião de Sergio Bonelli convidá-lo para fazer parte do grupo de autores da Via Buonarroti.

Tex de Franco DevescoviUma trintena de álbuns de Martin Mystère, três de Zagor e um de Mister No representam uma espécie de “exame” antes que decidissem, de comum acordo, de enfrentar a empenhada prova constituída pelo mundo do Tex (a este propósito, mostramos aqui ao lado uma pequena prova do seu trabalho). Por ser um veterano profissional, Franco Devescovi levou muito a sério o novo desafio. Tanto é verdade, que sempre roubando aos colegas da Ink algumas declarações da entrevista já citada, disse: “Por agora devo pensar somente em Tex. Devo empenhar-me completamente e tornar o meu traço mais rápido. As histórias western sempre me deram muito prazer, mas depois de tantos anos desenhando ambientações modernas, acabei me tornando lento, estou um pouco enferrujado. Devo encontrar a mão e a rapidez dos tempos de Black Rider”.

Estas palavras demonstram o grande profissionalismo do desenhador triestino, que esperamos, se afeiçoe a Tex Willer, como já sucedeu no passado com o herói de Castelli, no confronto dos quais deixou também à revista Ink um verdadeiro e próprio tributo de amor: “Amei sinceramente o Bom e Velho tio Marty e o amo ainda. Creio, ou melhor, foi a única personagem, entre tantas em que eu meti as mãos, que suscitou em mim um tal sentimento”.

Agradecemos à organização do XVI Salão Internacional de Moura, o MouraBD2007, por ter permitido a obtenção das fotografias, durante a exposição dedicada à nova vaga dos desenhadores de Tex Willer.

Fanzine “A Conquista do Oeste” – Maio/Novembro 2001 – Páginas 3 a 8 – 0 “WESTERN” NA BANDA DESENHADA PORTUGUESA

O ”WESTERN” NA BANDA DESENHADA PORTUGUESA

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 3As histórias de “cow-boys” em estilo realista, estiveram praticamente ausentes das revistas portuguesas até meados dos anos 30, mesmo entre as séries oriundas do estrangeiro. Como aconteceu lá fora, o Oeste americano, nas séries de feitura lusitana, estava limitado às peripécias caricaturais de façanhudos “cow-boys“, que provocavam apenas convulsões de riso, sem o palpitante arfar da emoção. Felizmente havia o cinema e os filmes de “Tom Mix” e “Buck Jones“…
Nomes de ilustres artistas estão ligados a essa paródica génese do “western” na BD portuguesa: Cottinelli Telmo com “A Grande Fita Americana” (ABC, 1920), António Cristino com “As Estupendas Façanhas do Cow-Boy  Façanhudo” (ABCzinho, 1926), Carlos Botelho com “Aventuras de Jim Boy” (ABCzinho, 1927) e João Barata com o “cow-boy” “Crista de Galo” (Pim-Pam-Pum, 1929).
Nos anos 30, foi a vez de “Tom Migas e o Seu Cavalo Caralinda” de Oscar Pinto Lobo (Senhor Doutor, 1934) e “Jim Kako, Rei dos Vaqueiros” de Arcindo Madeira (O Papagaio, 1934). Pela mesma altura, estreou-se entre nós a aventura “TinTin na América do Norte” (O Papagaio, 1936) – que não era um “western“, mas uma sátira ao capitalismo americano, principal motor da conquista do Oeste – cuja influência gráfica se nota noutra história publicada na mesma revista: “Arrepiado e Freitas, Cow-Boys” de Júlio Resende (1941). Também a “Família Patelhicas“, criação de Meço (O Papagaio, 1942), se viu envolvida com uma tribo de índios, tão ferozes que queriam chamuscar-lhes o pelo.
A transição para o estilo realista deu-se, ainda que algo timidamente, com “O Cavaleiro Misterioso“, desenhado por Fernando Bento no “Pim-Pam-Püm“, em 1941. Seria preciso esperar mais dois anos para ver surgir em “O Mosquito” um “western” fidedigno, com todos os elementos do género: cavalgadas na pradaria, combates entre brancos e índios, florestas em chamas, brigas no “saloon“, ataques a diligências, emboscadas de bandidos, perseguições, além de um ténue fio amoroso.

O autor dessa aventura, primorosamente desenhada e com um título sugestivo, “Falsa Acusação“, era um jovem estreante que, apesar das óbvias influências de Reg Perrott, estava destinado a fazer carreira, tanto em Portugal como no estrangeiro- Cabe, sem dúvida, a Vítor Péon a honra de ter sido o primeiro desenhador português a abordar com autenticidade e entusiasmo, um tema em que só os grandes mestres dão cartas. Porque na BD “western” é preciso aliar ao conhecimento do desenho, especialmente anatómico, a perfeita noção do ritmo e do movimento, como um operador de cinema que projectasse as suas imagens não numa tela, mas numa folha de papel. Depois de “Falsa Acusação“, Péon continuou a seguir a trilha do “western“, desenhando para “O Mosquito“, em 1944, “O Juramento de Dick Storn” e, para o “Pluto“, nos dois anos seguintes, com argumentos de Orlando Marques, “Três Balas“, “Traidor em Fuga” e dois “westerns” paródicos, “As Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota” e “Furacão e o Seu Cavalo Trovão“. “Três Balas“, uma aventura cheia de acção – inicialmente publicada a preto e branco e que ficou incompleta, pois o “Pluto” teve uma vida efémera – foi depois publicada, em versão mais curta, numa preciosa caderneta com estampas coloridas, que eram vendidas pela fábrica de rebuçados “A Oriental“: “Fred Bill, O Terror do Texas” (circa 1947).

O Rei da Campina

Outro desenhador realista digno de nota é António Barata, autor de “O Rei da Campina” (Faísca, 1944), um “western” nitidamente inspirado nas séries inglesas, com uma estrutura narrativa demasiado literária. Mas Barata saiu-se airosamente da tarefa, ilustrando com brio um argumento de Orlando Marques, experimentado novelista que em aventuras de “cow-boys” estava como peixe na água. Antes, também em o “Faísca“, Barata desenhara “O Gato do Diabo” (1943), num estilo ainda incipiente, decalcando sem pudor “The Lone Ranger” de Charles Flanders, processo que era, aliás, comum a vários colaboradores desta revista.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 4Em o “Faísca” vamos igualmente encontrar “Texas Bill, O Herói de 15 Anos” (1943), um trabalho de “Pina“, provavelmente também decalcado e “Rangers em Acção” (1944), cópia servil da série “The King of The Royal Mounted” de Jim Gary. Tentando fazer concorrência ao “Mosquito“, o “Faísca” recorreu a todos os expedientes. Apesar de possuir um lote de magníficos colaboradores, como António Barata, Orlando Marques, Rodrigues Neves e Carlos Cascais, faltava-lhe aquilo que “O Mosquito” tinha em abundância, ou seja, as séries inglesas e espanholas, magnificamente ilustradas e os dois maiores desenhadores realistas dessa geração: E. T. Coelho e Vítor Péon.
Os anos 40 seriam, aliás, férteis em histórias de “cow-boys” ilustradas por artistas portugueses de excelente craveira, que pouco a pouco se foram libertando dos condicionalismos dos “westerns” ingleses, sem balões e com legendas alinhadas debaixo das vinhetas. Pertence a Péon a primazia nesse domínio, pois soube recriar a genuína atmosfera do “western” da série B, doseando sabiamente todos os ingredientes que fizeram a glória do género e utilizando com acerto os balões.

Embora de qualidade desigual, as suas histórias de “cow-boys” merecem um lugar de destaque, pelo volume da produção e o impacto que tiveram junto dos leitores.
Continuando a aperfeiçoar a sua técnica, Péon passou de o “Pluto” — cuja colaboração artística quase inteiramente lhe pertence — para o “Diabrete“, onde realizou vários “westerns“: “Fred O’Neill em Acção” (1946), “Texas Moore” e “Billy Boger em A Revolta dos Navajos” (1947) e “Wapi, o Cão” (também em 1947), uma das suas melhores histórias desse período, cujo enredo se passava no Grande Norte, metendo acidentalmente em cena a Polícia Montada. Como desenhador e argumentitsa de Banda Desenhada, Péon atingiu em o “Diabrete” um dos seus pontos mais altos. Mas foi em “O Mosquito” — após breve passagem pelo “Camarada“, onde deu vida a um curioso “herói” mascarado, “Audaz, o Cow-Boy Justiceiro” (1949) — que produziu, nesse mesmo ano, um dos melhores “westerns” da sua carreira, “A Vingança do Jaguar“, cuja atmosfera exótica e barroca condiz bem com o temperamento vulcânico do artista. Seria Roussado Pinto, seu ex-companheiro de equipa no “Pluto“, a arrastá-lo numa nova aventura, a que ambos se entregaram cheios de entusiasmo. Aliado à febril imaginação de Roussado Pinto, o traço dinâmico e exuberante de Péon, por vezes tosco e apressado, mas sempre eficaz e apelativo, encheu as páginas do “Mundo de Aventuras” com histórias de todos os géneros, mostrando o seu inato talento para a Banda Desenhada de acção.

Tomahawk Tom

A essa época de ouro pertence o seu “herói” mais emblemático, “Tomahawk Tom“, cuja primeira aventura seria o prólogo de uma longa e aplaudida série – treze episódios de 1950 a 1975 -, em que o Roussado Pinto colaborou de início, com o pseudónimo de Edgar Caygill.
Saltando, sob o olhar dos seus criadores, das páginas onde tomou forma para o meio da pradaria, numa das mais originais apresentações de que há memória, “Tomahawk Tom” fascinou os leitores, à primeira vista, com o seu curioso traje franjado, à moda dos pioneiros, os seus mocassins índios, o seu fogoso “mustang” e o longo chicote que manejava com destreza. Uma combinação irresistível!… Pouco depois veio juntar-se-lhe um jovem vendedor de jornais chamado “Jackie“, o indispensável “sidekick“, que com o tempo se tornou um verdadeiro “cow-boy“, hábil com os “colts”, garboso na sela, bom conversador (como convém quando há outra companhia), de olho de lince e reflexos rápidos. Além disso, “Jackie” tem um passado e uma identidade facilmente reconheciveis, o que lhe dá um fundo mais humano que ao seu companheiro, joguete do destino mítico dos “heróis“, que surgiram do nada e não têm vida própria.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 5Outro jovem companheiro do Oeste, “Pirro“, criado pela mesma dupla, não passou discretamente do primeiro episódio: “Um Caso de Contrabando” (Mundo de Aventuras, 1953). Depois de uma tentativa frustrada, junto do King Features Syndicate, para internacionalizar “Tomahawk Tom“, Péon desenhou “O Bando da Cidade Perdida” (Colecção Audácia, 1953), que metia em cena uma mulher tão rápida no gatilho como o mais perigoso pistoleiro – singular paralelo com Sharon Stone em “Rápida e Mortal“, um filme dos anos 90.

Em 1956, antes de abalar para o estrangeiro, Péon publicou no “Valente” um “remake” de “A Flecha de Ouro“, de Reg Perrott, pálida cópia do original, mostrando como, entretanto, o seu estilo já absorvera outras influências. Nesse mesmo ano, surgiu no “Thriller”, revista inglesa que popularizou o formato de bolso, a história “Buffallo Bill And The Spectre of The Plains“, sem assinatura, mas obviamente da sua lavra. Instalado em Dundree, na Escócia, começou a colaborar em revistas de primeiro plano, como o “Beezer“, o “Dandy” e o “Beano“, anonimamente como a maioria dos artistas ingleses. Um dos seus primeiros trabalhos para a D. C. Thomson, a editora que o contratou, foi um “western“, “Buffallo Boy” (1958), publicado a cores no “Beezer“, uma revista de grande formato, embora continuasse, depois, a dispersar-se por múltiplos géneros, correspondendo à boa aceitação do seu estilo pelos leitores ingleses. O seu regresso ao “western” ocorreu nos anos 70, na onda nostálgica do “Jornal do Cuto” e do “Mundo de Aventuras“, que reeditaram vários episódios de “Tomahawk Tom“. A expensas próprias, lançou um álbum a cores com a aventura inédita “Tempestade no Dakota Sul” ou “O Regresso de Tomahawk Tom” (1975) e o “Vítor Péon Magazine“, que durou apenas três números.
Mas os ecos desse revivalismo não esmoreceram tão depressa: em 1988, a Editorial Futura reeditou o álbum “O Espírito de Manitú” e, mais recentemente, no início deste ano, os “Estudos da Aventura Gráfica” recuperaram “O Rapto de Jenny“, comemorando o 50º aniversário do nosso maior paladino do Oeste. Terá terminado aqui a longa vida de “Tomahawk Tom“?

Muitos outros desenhadores portugueses da “velha guarda” não resistiram também ao apelo do “western“, seguindo o exemplo dos seus confrades ibéricos, nomeadamente Blasco, Freixas e Cozzi. Quem não se recorda, entre os leitores dessa época, de histórias como “Nos Domínios do Sioux” – uma das melhores aventuras de “Cuto“, o grande “herói” de Jesus Blasco – “Primo Villa” e “A Máscara de Buffallo Bill” de Emílio Freixas, “O Tesouro do Comanche” de Puigmiquel, “Terramoto no Colorado” e “A Epopeia do Forte Arizona” de Cozzi, “Fora da Lei” de Iranzo, “Texas Kid” de White, “O Cobarde” de José Laffond e “Pistol Jim” de Carlos Freixas, publicadas em “O Mosquito” e no “Diabrete“?
É indesmentível a influência que o “western” espanhol, e sobretudo as virtualidades dos desenhadores do país vizinho, exerceram sobre os autores portugueses nos anos 40. Um dos exemplos mais marcantes é o de E. T. Coelho, o primeiro a absorver eficazmente os ensinamentos formais dessa nova escola e a apurar a fluidez, a harmonia e a liberdade de estilo, numa série de capas e ilustrações que acabariam por consagrá-lo como “o poeta da linha“, epíteto com que o crismou o grande Emílio Freixas. E essa liberdade foi também encontrá-la em temas como a África negra, com toda a sua deslumbrante fauna animal, e o “western“, com a sugestão de movimento e a euforia dos grandes espaços.

Falcão NegroEm 1943, no dealbar da sua prestigiosa carreira, E. T. Coelho ilustrou uma longa novela de Raul Correia, “Aventuras de Jim West“, um dos maiores êxitos de “O Mosquito“. “Fred“, o filho do protagonista, mais tarde baptizado com o cognome de “Falcão Negro“, tornou-se o “herói” central de quatro aventuras em Banda Desenhada, desenroladas no primeiro quartel do Século XIX, numa região bela mas selvagem, onde pululavam tribos de índios hostis: “Falcão Negro – O Filho de Jim West“, “Tempestade no Forte Benton“, “As Vítimas do Sol” e “Terra Turbulenta“, que “O Mosquito” publicou entre 1946 e 1949. Sempre acompanhado pela saudade da mãe, que morrera, entretanto, o jovem “Falcão Negro“, hábil atirador e exímio cavaleiro, enfrenta a revolta dos “Crows“, a captura e o terível suplício do ramo encurvado, mas é salvo pêlos “Chippewas” e consegue juntar-se aos seus companheiros, o taciturno “Jim West” e o picaresco “Nat Pig“. Esperam-no, depois, novas cavalgadas e combates com outras tribos, como os “Sioux” e os “Choctaws” (a verosimilhança histórica e geográfica não era um dos fortes da série), a par de complicações com os bandidos brancos, que começavam a enxamear o território e eram ainda piores do que os índios. O maniqueísmo patente em “Falcão Negro“, que teve um prolongamento em Espanha – dois episódios estreados na 2ª. Série da revista “Chicos“, em 1954, um deles inédito em português, o outro publicado no “Cavaleiro Andante” – não invalida a sua real qualidade gráfica.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 6E. T. Coelho não se ficou por aí no tocante ao “western“. Com o dinamismo habitual e uma crescente preocupação pelos temas – visível numa história de grande beleza lírica como “Lobo Cinzento” (O Mosquito, 1948), autêntico hino à comunhão espiritual com a natureza, elegia do poder do espírito sobre a força física, apesar da violência dos combates e da quantidade de vítimas que ficaram a juncar o solo -, ilustrou ainda “O Grande Rifle Branco“, o seu primeiro “western“, publicado em “O Mosquito” em 1946, mas realizado dois anos antes para o “Chicos” – que demonstrava já notáveis aptidões para o género, na linha das ilustrações anteriores -, e “O Mensageiro” (1948), além de “Bodas Índias” (Chicos, 1954), história inédita em Portugal, “Davy Crockett” (1957), em versão francesa — publicada por cá no “Mundo de Aventuras” -, e várias histórias curtas realizadas igualmente para o “Vaillant“: “Le Réveillon de Candy Sand” (1957), “La Vengeance de Siwash Jack” (1959), “La Course de Fort Chadbourne” (1964) e “Un Loup Dans L’Ombre” (1964), na sua maioria inéditas entre nós.

Dois outros desenhadores portugueses da mesma geração, aparentemente pouco vocacionados para o “western“, mostraram a sua versatilidade em obras acima da média : Jayme Cortês com “O Vale da Morte” (O Mosquito, 1946) e José Garcês com “O Segredo das Águas do Rio” (O Mosquito, 1947), um dos mais perturbantes “westerns” dos anos 40, cujas sensualidade e sadismo latentes, encontramos noutras obras de juventude do seu autor, alguns anos mais novo que Coelho e Péon, mas já mais maduro na exposição, ainda que velada, de certos temas, como a violência e o sexo.

Fosse ou não por influência de “O Mosquito“, onde há muito esses temas estavam presentes – primeiro, de forma recalcada, nas séries inglesas, depois, com intensa volúpia, nas histórias de Jesus Blasco (Cuto, Anita Pequenita), Freixas e outros artistas espanhóis, a quem a ausência de Censura oficial permitiu abrir as portas -, o certo é que José Garcês espelharia um estilo diferente, mais infantil, no “western” que ilustrou a seguir, “Tonito Cow-Boy” (O Papagaio, 1948), embora o tema fosse curioso: um rapaz que sonha com aventuras no Oeste e acaba por vivê-las… em sonhos, como “Little Nemo” de Winsor McCay. Bastantes anos depois, Garcês deixou-se novamente aliciar pelo “western“, publicando no “Zorro“, duas aventuras de “Texas Jack” extraídas dos fascículos populares de saudosa memória, com sugestivas capas do superlativo Alfredo Morais: “A Filha de Garra de Urso” e “O Regresso de Falcão Branco“, ambas de 1964. A partir dos anos 70, mais inclinado para os temas histórico-didácticos, cessou em José Garcês a faceta aventurosa.

Lobo CinzentoA este prestigioso historial somam-se, ainda, as contribuições de alguns jovem colaboradores de “O Papagaio“: Jorge Araújo com “O Cow-Boy Justiceiro” (1946), José Ruy com “Os Cavaleiros do Vale Negro” (1948), um dos primeiros agumentos de Roussado Pinto, e Artur Correia com “O Rancho Assombrado” (1948), no estilo humorístico que haveria de celebrizá-lo. Do mesmo género, ainda mais disparatada, é a história de Jorge Brandeiro: “Manduca e Zé em Busca do Mano Joca” (O Papagaio, 1948). Também um dos mais prometedores artistas portugueses dessa geração, o inimitável Júlio Gil, realizou um “western” em jeito de paródia a dois célebres personagens do Oeste: “O Célebre Encontro de Texas-Jack Com Buffalo Bill“, publicado no “Camarada” em 1949. Numa das suas melhores criações, “O Ídolo“, primeira aventura de “Chico” – um “herói” que tinha algumas afinidades com “Cuto“, a começar pela diáspora -, já se respirava a atmosfera do Oeste americano, embora a intriga nos remetesse para outros contextos: o policial e o desporto, com uma oportuna alusão ao racismo, numa das mais memoráveis sequências da história.

Outro desenhador do “Camarada“, António Vaz Pereira, que se distinguiu pelo seu estilo poético, de linhas quase etéreas, passou também fugazmente pelo “western” com uma divertida lenda índia: “A Maçã de Ouro ou a Vingança de Aros” (1949). Em 1951, já na sua fase final, o “Diabrete” voltou a abrir as portas ao “western“, publicando dois originais portugueses: “Pioneiros do Far-West” de “Julius Frederick” e “O Cavaleiro Errante” de A. Manez, um correcto desenhador que colaborou intensamente no “grande camaradão“.
Entretanto José Félix, um prestigiado autor humorístico português, desenha uma pequena história de “cow-boys” no “Norte Infantil“, suplemento do jornal “O Norte” com o título de “O Cavaleiro Negro” (N°s. 62 a 71 – 20/12/52 a 28/2/53).
Os anos 50 viram acabar algumas revistas portuguesas, como “O Mosquito“, o “Diabrete“, o “Camarada” e o “Lusitas” e nascer outras, como o “Cavaleiro Andante”, o “Titã”, a “Flecha”, o “Valente”, o “Condor”, a “Colecção Audácia”, o “Tigre“, o “Falcão“, a “Fagulha“, etc.. Foi uma época verdadeiramente fértil para os leitores portugueses, que encontraram na dificuldade da escolha, um novo aliciante.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 7No horizonte mítico dos “heróis” do Oeste, “Tomahawk Tom” era um ídolo incontestado, fazendo séria concorrência a “Cisco Kid” e a outros aventureiros da mesma estirpe, pelo menos até se apagar a sua aura, em meados da década, por divergências surgidas entre Vítor Péon e a direcção do “Mundo de Aventuras“, com a consequente partida do artista para paragens mais favoráveis. Com o acentuado relevo da narrativa histórica, fortemente propagandística de certas virtudes épicas nacionais, o interesse dos nossos desenhadores pelo “western” decaiu bastante. As únicas novidades, durante esse período de vacas magras, foram a reincidência de José Ruy, num estilo mais apurado, com “O Ataque dos Índios” (O Mosquito – 2ª. Série, 1960) e as estreias de José Manuel Soares, assíduo colaborador da “Fagulha“, onde desenhou delicadas “heroínas“, com “Rasto de Fogo” (Spar, 1962) e de Baptista Mendes, cuja verdadeira vocação eram os feitos dos nossos antepassados, com “A Encruzilhada” (Pardal, 1961).

No campo humorístico, Carlos Roque, prestes a demandar também outros horizontes, pôs frente a frente o “Avô Cachucho“, o “Zé Carapau” e o cão “Mexilhão“, durante “O Cruzeiro do Caranguejo” (Camarada – 2ª. Série, 1963), com um bando de façanhudos mexicanos chefiados pelo “Coiote“. Quanto a Fernando Bento, um desenhador ambivalente, apesar de ter realizado no “Diabrete” e no “Pim-Pam-Pum” excelentes ilustrações para contos de temática “western“, só muito mais tarde regressaria ao género com “Perigo no Desfiladeiro” (1960), “O Cavaleiro Escarlate” (1961) e “Terras Malditas” (1962), histórias publicadas na fase final do “Cavaleiro Andante“.

A grande época do “western” na BD portuguesa tinha terminado. Foi então que se registou, como um caso isolado, a estreia de José Pires, um jovem desenhador particularmente dotado para os temas do Oeste, cujo imaginário acalentava, desde os tempos de “A Flecha de Ouro” e de outras aventuras publicadas em “O Mosquito“. Nostálgico do cinema americano dos anos 40 e 50, dos grandes “westerns” assinados por John Ford, Anthony Mann, Raoul Walsh, Henry Hathaway, Howard Hawks ou George Stevens, Pires desenhou para o “Cavaleiro Andante“, em 1961 e 1962, “O Último Prato de Tenton Gant” e “Fumo de Pólvora em Gallows Crossing“, a partir de contos que lera em “O Mosquito“, imprimindo a essas adaptações um cunho especificamente cinematográfico, com personagens inspirados, por puro gozo, em actores reais (Burt Lencaster, James Dean, Tony Curtis, Jack Palance e outros), método que ainda hoje lhe é peculiar e do qual consegue tirar excelentes efeitos.

O Segredo da Águas do Rio

Num dos “heróis” de “Homens do Oeste“, o seu terceiro “western“, publicado quase vinte anos depois no “Mundo de Aventuras”, reconhece-se a máscara de Gary Cooper e os outros comparsas também nos são familiares: Rick Nelson, Walter Brennan (com o nariz de “Jimmy McClure“, a voz da consciência de “Blueberry“) e a inquietante quadrilha de “Rio Bravo“. Encontramos aqui a tensão dramática e a atmosfera humana e psicológica, de certos “westerns” inesquecíveis. É toda a mitologia desse Oeste bravio, inconquistável, nascida no seio do cinema, do romance e dos “heróis” de papel, que José Pires recria, rendendo homenagem, num estilo já quase totalmente amadurecido, a Hawks, Giraud, Eastwood e Leone, expoentes de uma certa concepção do “western” clássico.

Em 1985, Pires iniciou no “TinTin” belga uma nova etapa da sua carreira, animando com o seu peculiar estilo gráfico, tributário da linha clara e do pontílhismo à Caprioli — mas sem imitar servilmente o estilo de ninguém, apesar da sua grande admiração por artistas como Salinas e Péon -, as aventuras de “Irigo“, personagem criado pelo argumentista Jean Dufaux e de que foram publicados sete episódios na citada revista.
“Irigo” é um índio mestiço (que lembra, em certa medida, o personagem de Paul Newman em “Hombre“), apanhado entre duas culturas: a dos seus irmãos “Apaches“, sobre os quais tem já a superioridade do conhecimento, graças a uma leve crosta de civilização, e a dos brancos, que despreza. Ferido e humilhado por estes, irá vingar-se, depois de uma penosa travessia do deserto, ajudado por um homem com sentido de justiça. Terminada essa série, incompreensivelmente nunca publicada em álbum – e algumas curtas histórias sobre os “Apaches“, escritas por Bernard Despas (o seu novo parceiro) para o “Hello BD“, outro hebdomadário belga, que veio substituir o “TinTin” -, Pires dedicou-se aos assuntos históricos, em que revelou também grande mestria, só voltando ao “western” para dar forma ao sonho de um “herói” com os traços de Gary Cooper: “Shannon“, um nome de entoação clara e breve, como a voz fleumática do actor.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 8Depois de uma fugaz aparição no “TinTin“, integrado numa das últimas aventuras de “Irigo“, “Will Shannon” reapareceu, pela última vez, em “O Poço da Morte“, um “western” crepuscular publicado em álbum pela Futura (1989), em que a natureza, os “Apaches” e um grupo de indivíduos fugidos ao seu próprio destino, desempenham papel preponderante. Esse episódio seria, também, “o canto do cisne” do “western” na BD portuguesa.

Um jovem promissor, António Ruivo, apareceu em 1985 no “Mundo de Aventuras“, com um personagem, por coincidência, apelidado também de “Shannon“, mas, apesar do seu expressivo estilo gráfïco, essas esperanças não se concretizaram. Também Zenetto, profissional mais experiente, adaptou para BD um “western” de Edgar Caygill (Roussado Pinto), “O Homem Diabo” (Selecções do MA, 1981), e um conto de Jack London, “A Lei da Vida” (Almanaque O Mosquito, 1986), mas ficou-se por aí; e Fernando Costa, desenhador prolífico, ainda hoje em actividade, realizou “O Duelo” (Mundo de Aventuras, 1982). Mas maior revelação, no capítulo do “western“, dessa fornada de novos artistas, terá sido, talvez, Joa (pseudónimo de Joaquim de Oliveira), que, bem enquadrado nas premissas do género e saudoso de alguns “heróis” da sua infância como “Red Ryder” e “Buck Jones“, deu vida a duas interessantes séries: “O Vale dos Cavalos Selvagens” (1980) e “Os Cavaleiros da Pradaria” (1981), ambas publicadas no “Mundo de Aventuras“.

O Poço da Morte

Outro desenhador realista cheio de potencialidades, Vassalo Miranda, estreou-se no “westem” com “A Epopeia do Posto Laramie” (Mundo de Aventuras, 1983), “remake” de outra trepidante aventura, “A Epopeia de Forte Laramie“, do desenhador italiano Athos Cozzi, publicada em Espanha na revista “Chicos” e, entre nós, em “O Mosquito” e no “Cavaleiro Andante“.

WakantankaNos anos 80, porém, o único autor português que secundou José Pires no seu fervor pelo “western“, distinguindo-se tanto pela qualidade como pela produtividade, foi Augusto Trigo. Artista consumado, com um estilo meticuloso e perfeccionista, quase mimético em relação à natureza e com um dom especial para desenhar animais, brotaram do seu pincel páginas de grande beleza formal, espalhadas pelos três “westerns” que escrevi para ele: “A Sombra do Gavião” (Mundo de Aventuras, 1980), “Wakantanka – O Bisonte Negro” (Edinter, 1985) e “Wakantanka – O Povo Serpente” (Meribérica, 1988). Cenas de grande intensidade dramática, como a mulher do “sachem” a dar à luz no meio dos bisontes, a luta nocturna entre um mocho e um lince e a posterior transformação deste, quando é ferido, num possante puma, ou o encontro dos jovens guerreiros “Mandans” com uma serpente gigantesca, só poderiam ter sido recriadas por um artista da sua envergadura.

Herdeiros e continuadores da tradição aventurosa da BD clássica, com a qual fizeram uma ponte, enriquecendo-a com novos elementos técnicos e artísticos, José Pires e Augusto Trigo são hoje os únicos autores capazes de revitalizarem o “western” na BD portuguesa. Se eles e o publico assim o quiserem, como é óbvio…

JORGE MAGALHÃES

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, e/ou imprimí-las, clique nas mesmas)

NOTA:

O “Western” na BD PortuguesaRecentemente, este trabalho do autor, Jorge Magalhães, foi publicado em formato de revista pela Câmara Municipal de Moura, por ocasião do Moura BD – Salão Internacional de Banda Desenhada.

O “Western” na BD Portuguesa é mais um artigo profusamente ilustrado e com a qualidade garantida pelo nome do autor. Trata-se como se constata facilmente pelo texto inserido no blogue, de uma reedição, já que em 2000 (no ano em que o tema do Moura BD foi precisamente “O Western”), foi lançado um fanzine com o mesmo nome, embora com diferenças muito significativas em relação à publicação que agora os responsáveis do Salão de Moura lançaram.

Começando pelo texto (que foi revisto e actualizado, ao contrário do que publicamos neste artigo aqui no blogue); passando pela quantidade de ilustrações do artigo (que, na versão inicial, se limitavam a 10 exemplos) e terminando na qualidade da impressão (em 2000 tratavam-se de fotocópias a preto e branco, com muito má qualidade, que agora foram substituídas pela impressão em off-set, a cores e em papel couché!), as diferenças são abissais…

Esta recente edição pode ser adquirida ao preço de 12,5 € (acrescentando-se, os portes de correio) através do e-mail mourabd@iol.pt

Esta última versão d’O “Western” na BD Portuguesa, através do seu autor, Jorge Magalhães traz também referências à personagem Tex Willer e a Fabio Civitelli, devido à presença de “ambos” no MouraBD2007, pelo que consideramos este livro, um item interessante também na BiblioTEX de qualquer Texiano que se preze e por isso recomendamos a sua aquisição!