Tex e demais personagens Bonelli em destaque no BDJornal nº 4 de Julho/Agosto de 2005

Texto publicado no BDJornal nº 4, de Julho/Agosto de 2005

Por Nuno Franco

Bonelli: A tradição dos fumetti na modernidade

Bonelli - A tradição dos fumetti na modernidadeÉ curioso que alguns dos fenómenos da BD popular ainda continuam a movimentar numerosos leitores, tal como acontecia há uma ou mais décadas. O caso das edições italianas da Bonelli é, nesse aspecto, paradigmático. Se muitos são os leitores portugueses que se lembram das suas mais antigas edições de livros de cowboys, facto é que a sua fórmula ainda hoje continua a cativar inúmeros leitores em todo o mundo. Por cá, as edições do editor italiano foram ao longo do tempo conhecendo várias vicissitudes. A estreia deu-se em 1970 no “Mundo de Aventuras” com o hoje quase desconhecido “Red Buck“, seguindo-se, um ano depois, “Tex” por via da brasileira Vecchi, que regressaria somente em 1978. Paralelamente, foram também editadas, em 1972, “Histórias do Oeste”. Outros títulos foram editados à revelia do editor italiano: Zagor (do qual sairiam 16 números entre 1978 e 1979) e Mister No (12 números também mesma altura) pela editora Portugal Press.

Exceptuando os dois últimos, os leitores da época acediam às aventuras do ranger através da Vecchi e, já a partir dos anos 80, através da distribuidora Globo.
Entretanto, tudo muda quando, em 1999, a Globo suspende a publicação de “Tex” e demais títulos bonellianos. É então que, decorridos três anos, entra em cena a editora Mythos que volta a pegar na maioria destes e acrescentando alguns novos. Portugal torna-se dos países de destino dos “fumettis”, termo pelo qual é conhecida a BD italiana. Sendo projectos que movimentam largos números, da Vecchi, Globo e Mythos, pode-se dizer que são parentes: todos eles tratam de rentabilizar livros de aventuras de pequeno formato em edições baratas e acessíveis em quase todos os quiosques.

Mas para perceber de facto as edições Bonelli é preciso recuar no tempo. Depois da Segunda Guerra ter terminado, as pessoas queriam divertimento e algo que as fizesse esquecer o que tinham passado. Em França, Espanha, Argentina e sobretudo em Inglaterra, nasciam casas de edição que procuravam editar aventuras de BD a preços baixos. Editores como a Fleetway traçavam o seu próprio caminho, com talentos “importados” de vários pontos do mundo. É então que em Itália, se começa a falar em Gianluigi Bonelli, argumentista e na altura já editor das Editrice Vecchi. Entre vários projectos, Bonelli, que até aí colaborara com alguns dos autores italianos mais importantes do seu tempo, como Caprioli e Ongaro, cria em 1948, com o desenhador Aurelio Galleppini, a série “Tex”, um cowboy que se tornaria num fenómeno de culto em todo o mundo. Para trás, e com a passagem de “Tex” à condição de herói de toda uma geração, ficavam séries como “Occhio Cupo”, também da autoria da mesma dupla.

DampyrSe é verdade que parte fundamental de “Tex” se ergue sobre as coordenadas dos filmes de cowboys clássicos, há algo mais que explica o seu sucesso ao longo de gerações. Se nunca quanto hoje pareceu tão em “piloto automático” (exemplificado também pelos diversos títulos que tendem a aproveitar o sucesso da matriz original), também algo que promoveu o seu sucesso se tem devido ao carácter realista e à forma não maniqueísta como olha para o Oeste americano.

Como escreve o argumentista espanhol Antonio Segura, que em anos recentes tem trabalhado na série, ao lado de José Ortiz: “Tex tinha uma personalidade tão definida, um passado tão denso, uma biografia de aventuras tão extensa que era quase impossível que um desconhecedor da sua saga, em resumo que um profano pudesse retratá-lo com justiça”. Quase meio século sobre do seu nascimento, e sobre o qual se estrearam muitos desenhadores e argumentistas de crédito, as aventuras de “Tex” têm sido palco da essência do género “western” BD: território onde impera os traficantes e assaltantes, tudo desenhado como um ritual que não esquece a passagem por territórios bravios do Alasca ou do Grand Canyon.

Com uma autenticidade de quem que não pretende enganar ninguém, as edições Bonelli começam a chegar a uma legião de fãs que avidamente compra as façanhas heróicas de ranger Tex e seus companheiros (Kit Carson, Kit Willer e Jack Tigre) mas também, entre muitos outros, “Zagor”, ou “Ken Parker” – série que a certa altura se automatizará da Bonelli, para ganhar o seu espaço próprio de publicação, regressando em 1995. É desta forma que se foi construindo o império editorial Sergio Bonelli (filho de Gianluigi e também ele, tal como pai, argumentista, assinando sob o pseudónimo Guido Nolitta), segundo moldes de larga difusão em quiosques.

Com a consequente internacionalização, a editora de Milão atingirá outros patamares, desse modo, acedendo ao mercado americano. Nesse sentido, reconhecem-se adequações de processos em tudo semelhantes a este, com as séries a serem divididas por tarefeiros vários, desde roteiristas e autores de capa aos desenhadores propriamente ditos. No seio dessa indústria, que vive sobretudo da capacidade produtiva dos seus artistas-artesãos – na sua maioria italianos –, da lista de ilustres visitantes, surgem nomes como os do argumentista argentino Hector Oesterheld (na série espanhola “Verdugo Ranch”, para a “Audace”, e cujo alguns episódios serão traduzidos e publicados por Sergio Bonelli), Guido Buzzelli (autor de obras adultas e pessimistas que ilustra, em 1988, um número da série “Tex” que celebra os 40 anos da série em Itália), Sergio Toppi (que em 1976, desenhará diversos episódios para a colecção cartonada “Un Uomo, un’Avventura”). Também o veterano Hugo Pratt fará trabalhos para a mesma colecção, com a aventura “L’Uomo della Somalia“.

Dylan DogTudo testemunhos por vezes de qualidade variável mas que ilustram outras faces de uma arte com a BD, que a determinada altura passa a ter de competir com outros “medias”, sobretudo, com a televisão. Relembre-se que, no decorrer dos anos 70 e 80 se operam na Bonelli sínteses de heranças muitas vezes herdadas do seu país de origem, nomeadamente, do “western spaghetti” e do “giallo” – designação dada aos pequenos livros policiais de capa amarela do pós-guerra e que teriam o seu apogeu na transposição, já no cinema de terror, também ele italiano. “Dylan Dog”, criado em 1986, por Tiziano Sclavi e Claudio Villa, é disso exemplo, sendo o primeiro de muitos “fumettis” dedicados ao terror.

Dir-se-á assim que se alguns dos títulos são laboriosas concretizações, e que outros, não passam de um arrazoado compêndio sobre almas do outro mundo. Se quisermos uma origem para os pequenos livros recheados de páginas e de aventuras, teremos que ir aquilo que é reconhecido com a origem e essência primordial da BD, a literatura folhetinesca do do século XIX. Tal como estes, as temáticas teriam que apontar ao que se vendia. É nesse sentido que, em anos mais recentes, também os westerns bonellianos passarão por paragens mais assombradas.

Veja-se “Zagor”. Criado em 1961 – por entre outros títulos, ou que não vingaram ou que ficaram simplesmente circunscritos a Itália – para fazer concorrência a “Tex”, a série, da autoria de Guido Nolitta e Ferri, fala-nos de um índio que se dedica a procurar a paz numa época pouco atreita a isso. Podia-se ficar por aí, mas nela, logo passamos da temática western e entramos noutro caminho, onde se inscrevem as histórias onde abundam pegadas de almas de outro mundo e feiticeiros índios. Situadas na imaginária floresta de Darkwood, as aventuras de Zagor, ancoradas que estão num imaginário pertencente ao passado, não deixam de ser algo sofríveis. Não convidam propriamente à leitura entusiástica mas também não fazem desta um processo vazio. Parodiando Warhol, cumprem simplesmente a sua função: trazem os seus 15 ou mais minutos de leitura. Ainda assim, destaque-se o uso que os seus vários desenhadores têm feito de um branco-e-branco contrastante.

Outra hipótese, mas que vai além disso, é “Mágico Vento”, também, este, um western de tendências sobrenaturais, mas que não cai na repetição de “Zagor”. Da autoria de Gianfranco Manfredi, que já trabalhara em vários episódios de Dylan Dog e Nick Raider, e de desenhadores como José Ortiz ou Millazo (autor de “Ken Parker”, personagem decalcado em Roberto Redford e uma das séries mais interessantes da Bonelli, tratando, num tom intimista, do respeito pela natureza e pelo próximo), “Mágico Vento”, sobretudo quando desenhado por este último, onde o desenho encontra o tom exacto para os argumentos elaborados de Manfredi. As atmosferas ora são meditativas e envoltas em sombras ora ganham a pujança solta semelhantes ao de outros notáveis, sobretudo o Alex Toth de “Zorro” ou ainda os vários westerns da DC Comics dos anos 50.

Zagor, Júlia, Dylan Dog, Gea e Dampyr
Os anos 90 foram  para a Bonelli  a cristalização do género do terror. Aqui e ali os planos são em contraluz, as personagens transformam-se em vampiros ou são elas próprias vampiras. Sobre “Dampyr” (mas “Dylan Dog”, outro campeão de vendas da Bonelli, que visa temáticas semelhantes), temos uma criatura que é filho da união de uma mulher com um vampiro. No meio disso, tem como missão romântica (e romantizada) combater hordas de criaturas das trevas. No fundo, é uma obra que padece dos problemas de algum cinema, com o último John Carpenter à cabeça, que junta delírios à realidade, como se a estetização do terror se bastasse por si própria. No meio de um emaranhado confuso de citações, tem um adjuvante: o não levar-se a sério. É simplesmente divertimento para quem gosta da temática.

Outros tipos de leitura surgem em “Júlia”, obra repleta de um suspense quase hitchockiano (o argumentista Giancarlo Berardi, fã de romances policiais, assumiu, logo desde a primeira hora, que queria fazer um “thriller“, que de alguma maneira transcrevesse a sua experiência do tempo que passou, como observador, no Instituto de Medicina Legal de Génova, e onde aprofundaria os seus conhecimentos sobre criminologia). A obra, desenhada por Ivo Millazzo, é no mínimo também um exercício sobre a realidade americana, mediatizada pela televisão, desde “Serpico” ao recente “SCI”. Neste policial, como em “Nick Raider”, as personagens são as das nossas memórias, parentes de Audrey Hepburn, de quem a criminóloga Júlia é um decalque, de Whoopy Goldberg, de Nick Nolte (a personagem do detective Leo Baxter). Sem nunca cair no anedótico, a obra visa uma consciência sobre os códigos do género policial.

Numa altura em que acaba de comemorar mais de cinco décadas de existência, a Bonelli mostra-se assim como um relato de sobrevivência: a da BD sem pretensões a ser arte e que se quer de aventura e que esta termine bem. Um lugar que comprova que, apesar de trabalhar num mercado sempre em expansão como é o da BD, e que muitas vezes o despreza ou simplesmente ignora, muitas das tendências continuarão a passar pela editora de Milão, Sergio Bonelli Editore.

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Entrevista exclusiva com o Presidente da Câmara Municipal de Moura: Dr. José Maria Prazeres Pós-de-Mina

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Jorge Machado-Dias e Pedro Cleto na formulação das perguntas .

Dr. José Maria Prazeres Pós-de-MinaPara aqueles que ainda não estão bem identificados, fale um pouco de si, fazendo uma pequena apresentação própria. Onde e quando nasceu? Qual a sua formação? O que faz profissionalmente, para além de presidir à Câmara Municipal de Moura?
Dr. José Pós-de-Mina: Nasci em 1958 na freguesia de Pias, concelho de Serpa onde estudei até ao 2º ano do ciclo preparatório, frequentei a Escola Secundária de Moura e mais tarde já a desenvolver actividade profissional licenciei-me em Gestão Financeira. Desenvolvi actividades profissionais ligadas a empresas comerciais e também na área da contabilidade, estudos e projectos e formação profissional. Profissionalmente considero-me Gestor de Empresas e desde Janeiro de 1998 exerço a tempo inteiro as funções de Presidente da Câmara.

Que lugar tem a banda desenhada ao longo da sua vida?
Dr. José Pós-de-Mina: Nos meus tempos de juventude lembro-me sobretudo da leitura das Aventuras do Tintin e dos livros aos quadradinhos de Walt Disney. O facto da minha juventude ter coincidido com o 25 de Abril de 74 (tinha eu na altura 15 anos) e de ter participado activamente no chamado “PREC” (processo revolucionário em curso) privou-me em termos de tempo de prestar uma maior atenção à banda desenhada.

E, caso aprecie a banda desenhada, quais são as personagens cujas histórias lê actualmente e que mais aprecia?
Dr. José Pós-de-Mina: Confesso que leio poucas histórias de banda desenhada, dedico-me mais aquilo que designo por literatura funcional. Gosto no entanto de ler os livros que são editados por altura do Moura BD e gosto de ir acompanhando as tiras que são publicadas na imprensa.

Moura BD nas ruas da cidade alentejanaPorquê a aposta da Câmara Municipal de Moura na banda desenhada?
Dr. José Pós-de-Mina: A aposta na BD é uma aposta que me antecede na presidência da Câmara, mas temos procurado dar uma atenção especial a esta actividade, quer na sua relação com as escolas quer na promoção do concelho no exterior. Pensamos que temos importantes potencialidades a nível local (o Carlos Rico é disso exemplo) e entendemos que é chegada a hora de apostarmos com mais determinação na actividade da promoção que deve ser adequadamente conjugada com o Moura BD. É nisso que estamos a trabalhar actualmente e vamos lançar em 2008 um Programa de Promoção da Banda Desenhada que não se esgota na realização do Moura BD.

Que dividendo tem tido a Câmara Municipal de Moura nesta aposta?
Dr. José Pós-de-Mina: Sobretudo a nível da valorização e do prestigio promocional do concelho e também na formação cultural dos nossos jovens.

Alunos no MouraBD2007Na sua opinião, o Salão Moura BD atrai os jovens do Concelho de Moura e limítrofes, com a divulgação que se faz nas escolas?
Dr. José Pós-de-Mina: Julgamos que sim e o nível de participação comprovam-nos embora como em tudo temos por hábito ser ambiciosos e almejamos sempre mais.

E quanto à população não escolar, o Salão é visitado por muita gente e visto pelos habitantes da cidade e Concelho como uma mais valia cultural, ou nem por isso?
Dr. José Pós-de-Mina: Aqui gostaríamos de dar mais passos firmes e por isso queremos lançar o programa de promoção a que já fiz referência.

A aposta de Beja numa Bedeteca, parece ter sido ganha, dado o crescente interesse dos jovens bejenses (e não só) por ela. Será que Moura vai ter a sua Bedeteca, ainda que eventualmente integrada na Biblioteca Municipal, mas com fundos próprios? Se sim, para quando se prevê a sua efectivação?
Dr. José Pós-de-Mina: Por princípio entendemos que não temos que estar todos a fazer a mesma coisa. Entendemos que agora a prioridade é o programa de promoção e não descartamos a possibilidade de criar uma Bedeteca. Mas não gostaríamos que fosse apenas um processo de mudança de nome ou de maquilhagem de alguma coisa que já temos, mas sim um processo com qualidade e que representasse um autêntico valor acrescentado para a cultura do concelho. Embora seja um objectivo, não temos de momento data prevista para a Bedeteca.

Visita de alunos ao MouraBD2007Qual a sua opinião acerca da banda desenhada como meio de cativação da juventude para a leitura, um problema que aflige meio mundo hoje em dia?
Dr. José Pós-de-Mina: Sou da opinião que a valorização do livro e da leitura deve ser uma preocupação permanente de uma câmara. Por isso é que nos orgulhamos de termos uma Rede Municipal de Bibliotecas com instalações em todas as freguesias e em perfeita articulação com as Escolas do Ensino Básico. Por isso também desenvolvemos um programa de promoção da leitura. Entendemos também que a banda desenhada pode ser um importante meio de cativação da juventude para a leitura. Até porque vale por si própria enquanto elemento cultural e de formação física. Não podemos é colocar a questão em termos alternativos. Todas as leituras são necessárias e complementares.

Jorge Magalhães na Sala TexO Salão de Moura tem primado pela qualidade das suas edições, nomeadamente os Cadernos Moura BD, onde se recuperam trabalhos dos autores portugueses homenageados, os fanzines temáticos, com estudos do consagrado Jorge Magalhães e os catálogos de humor, de Osvaldo de Sousa. Há até quem diga que Moura, nos últimos anos, se tem destacado dos demais Festivais e Salões nessa área. Aliás, o fanzine “O Western na BD Portuguesa” esteve nomeado para a categoria de “Melhor Fanzine” no  Amadora BD 2007! No entanto, uma das pechas apontadas a Moura é a não publicação em catálogo dos trabalhos premiados nos Concursos de BD e “Cartoon”. Poderemos, no futuro, contar com uma publicação desse género?
Dr. José Pós-de-Mina: Para um município como Moura, a política de edições tem de ser cautelosa, pois as restrições orçamentais são uma das nossas dores de cabeça permanentes. Ainda assim e como refere a pergunta temos apostado em diversas publicações com grande qualidade. Tendo em conta a forma como a pergunta é formulada vamos avaliar a situação e colocar como objectivo a atingir um catálogo que faça a retrospectiva dos trabalhos premiados.

Sala TexPensa que a aposta do Moura BD 2007 na personagem Tex Willer, foi uma aposta ganha, tendo em conta a presença de Fabio Civitelli e da exposição exclusiva a nível mundial da nova vaga de desenhadores do Tex?
Dr. José Pós-de-Mina: A edição de 2007 foi particularmente feliz no que se refere à sua visibilidade exterior e ao reforço do prestígio do Salão que conseguiu atingir projecção internacional. Por isso consideramos a aposta como ganha. Penso que foi um motivo de orgulho para todo o município poder acolher em Moura uma pessoa como Fabio Civitelli.

Já conhecia a personagem Tex Willer?
Dr. José Pós-de-Mina: Sim!

Fabio Civitelli recebendo o Balanito de HonraO que sente ao saber que foi em Moura e das suas mãos que Fabio Civitelli, um artista de enorme qualidade e com tantos anos de carreira, recebeu o seu primeiro troféu individual?
Dr. José Pós-de-Mina: Orgulho e satisfação e sobretudo perceber que estes momentos são importantes para um presidente de Câmara, pois mostram-nos que o nosso trabalho é útil. E isto numa ocasião em que os presidentes de câmara são tão mal tratados a nível da comunicação social…

Com que impressão ficou do desenhador italiano?
Dr. José Pós-de-Mina: Não tive oportunidade de privar muito tempo com ele, mas o pouco que conversamos deu-me para percepcionar uma grande humildade e humanidade.

Fabio Civitelli e Carlos RicoQue impressão lhe deixou o Salão Moura BD deste ano? Esperava mais ou menos desta edição?
Dr. José Pós-de-Mina: Superou as nossas expectativas, embora como já disse a nossa ambição seja do tamanho do mundo.

Há quem diga que 2007 marcou um ano de viragem e que agora sim, o Salão é verdadeiramente internacional. Concorda?
Dr. José Pós-de-Mina: Penso que se deu um importante contributo para se atingir uma dimensão internacional mas temos de ser modestos e reconhecer que ainda há muito trabalho a fazer nesse sentido.

O que sentiu ao ver em revistas brasileiras, italianas e na Internet um pouco por todo o mundo, o nome da cidade de Moura em grande destaque antes e depois do evento?
Dr. José Pós-de-Mina: Como já referi orgulho e satisfação e o sentimento de que os objectivos estavam a ser atingidos.

Editorial de Sergio Bonelli dedicado ao MouraBD2007Em relação ao espaço onde tem decorrido o Moura BD nos últimos anos, apesar de bem aproveitado pela equipa que arquitecta e monta o salão, parece-nos, numa opinião meramente pessoal, não ser o espaço ideal uma vez que o edifício do Convento tem algumas limitações (mau estado do piso, pouca luz natural, demasiados degraus que dificultam as visitas de escolas e deficientes motores…). O que pensa fazer a Câmara para resolver esta situação, já que, ao que sabemos, o Convento sofreu obras de consolidação recentemente? Está previsto algum tipo de intervenção para melhorar as condições actualmente existentes ou, em alternativa, pensa que o Salão deverá mudar de local?
Dr. José Pós-de-Mina: Dos diversos espaços que temos na cidade e que têm acolhido o Moura BD, este tem sido o melhor. Temos de fazer alguns ajustamentos no espaço para lhe introduzirmos melhorias, mas de momento não temos grandes alternativas. Até porque pretendemos que o Moura BD se continue a realizar no coração da cidade.

Fabio Civitelli e a torre de MouraEm termos pessoais, que exposição/autor gostava de ver num próximo Salão de Moura?
Dr. José Pós-de-Mina: A escolha dos temas resulta de avaliações que fazemos na fase preparatória em conjunto com a equipa que trabalha no sector. Por isso as opiniões pessoais do presidente só serão divulgadas nesse âmbito.

Se um dia abandonar a presidência da Câmara, que mecanismos institucionais existem para assegurar a continuidade do Salão e da equipa que tão esforçadamente o tem coordenado, para não deixar morrer ingloriamente, numa eventualidade dessas, um projecto já com tantos anos?
Dr. José Pós-de-Mina: A projecção do salão na comunidade local e no exterior é a melhor garantia para que o projecto tenha continuidade, tal como a realização do programa de promoção da banda desenhada. Por isso estou confiante no futuro do Moura BD. Até porque também estou confiante no futuro do projecto político que integro e que me ultrapassa (felizmente).

Ilustres presentes na cerimónia de encerramentoAs perguntas chegaram ao fim, deseja dizer mais alguma coisa antes de terminarmos a entrevista?
Dr. José Pós-de-Mina: Antes de mais expressar publicamente as minhas desculpas pelo longo atraso das respostas. Mas tenho que dizer que não é habitual um presidente de câmara ter de responder a uma entrevista com tantas perguntas. Mas apesar do atraso, devo confessar que foi um prazer “teclar” as respostas num fim de tarde de sábado, num final de ano que foi de sucesso para a Banda Desenhada em Moura. Por isso o meu desejo de sucesso para todos os que com amor e dedicação se dedicam a esta causa. Até sempre…

Dr. José Maria Prazeres Pós-de-Mina, em nome do blogue português do Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

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Falecimento de Carlo Raffaele Marcello

Por Mário João Marques

Carlo Raffaele MarcelloCARLO RAFFAELE MARCELLO (1929-2007)

Ainda não refeitos dos recentes desaparecimentos de Guglielmo Letteri e de Manfred Sommer, os leitores texianos são novamente abalados com a notícia de mais uma perda, a do italiano Carlo Raffaele Marcello em 23 de Dezembro último e que, apesar de já retirado das páginas do ranger, continuava a ser considerado como um dos melhores desenhadores da série.

Nascido em 16 Novembro 1929 em Ventimiglia, é em França que desenvolve a maior parte da sua vida artística, criando séries como Loana e Nick Silver para Sagéditions ou colaborando com Opera Mundi e Mondial Press onde, a partir de 1950, desenvolve adaptações de grandes clássicos da literatura como Ben-Hur, Oliver Twist ou Jane Eyre e ainda frescos históricos como A Bíblia ou A História de Paris. Para a Larousse ilustra fascículos da História de França, À Descoberta do Mundo ou A História do Oeste. Teve uma longa carreira com a série Le Cavalier Inconnu (1955-1970), mas talvez o seu trabalho mais conhecido no mercado francês tenha sido Docteur Justice para a Pif em 1970, uma série que ainda recentemente teve honras de reedição.

Tex por Carlo Raffaele MarcelloNo final da década de 80 regressa a Itália onde começa a colaborar com o mundo bonelliano. Inicialmente, com Zagor, posteriormente também com Tex, tornando-se rapidamente num dos elementos do staff regular de desenhadores desta série.

O seu primeiro trabalho em Tex surge em 1991 com a aventura I Diavoli Neri (Tex italiano 371 a 373) escrita por Claudio Nizzi. Depois sucederam-se mais oito aventuras (ver lista abaixo), algumas mesmo memoráveis em parceria com Mauro Boselli, que guindaram Marcello ao galarim dos desenhadores mais apreciados dos leitores texianos, muito por força de um traço maduro e convicto que lhe permitiu desde logo construir um Tex segundo os cânones ticcianos, mas ao mesmo tempo mantendo o seu próprio estilo.
Já na sua crítica a Gli Invencibili, o blogue Tex Willer escrevia o que pode ser considerado como a apreciação global de todo o trabalho do desenhador na série: “Marcello denota uma certa característica épica bem presente no seu  traço, um senso do movimento onde transpira poeira, sangue, suor e porque não também lágrimas. Os seus planos nunca são estanques e o seu traço, sem o detalhe de artistas como Villa ou Civitelli, atinge uma dimensão própria, um envolvimento natural com o leitor, convidando-o a permanecer sempre presente e atento na leitura. Marcello desenhou eventualmente algumas das melhores histórias texianas, mas a verdade é que o seu traço também contribuiu para deixar no leitor um sentimento de velho oeste, de um oeste carregado de simbolismos, de um oeste, afinal invencível no nosso imaginário.”

Aventuras de Tex desenhadas por Marcello

I Diavoli Neri (1991) com Claudio Nizzi: Tex italiano 371 a 373
Il passato di Carson
(1994) com Mauro Boselli: Tex italiano 407 a 409
Tulac!
(1995) com Mauro Boselli: Tex italiano 416 a 418
Il Mistero della Pergamena
(1996) com Claudio Nizzi: Tex italiano 425 a 428
Gli Invencibili
(1997) com Mauro Boselli: Tex italiano 438 a 440
La Tragedia del Treno 809
(1997) com Mauro Boselli: Tex italiano 445 e 446
I Sette Assassini
(1999) com Mauro Boselli: Tex italiano 463 a 465
Terra di Confine
(1999) com Mauro Boselli: Tex italiano 469 e 470
La Grande Invasione
(2002) com Mauro Boselli: Tex italiano 497 a 499

Tex e Kit Carson por Carlo Raffaele Marcello

Póster Tex Nuova Ristampa 72

Póster Tex Nuova Ristampa 72

Neste desenho, Claudio Villa mostra-nos Tex Willer protegido pela vegetação, a observar Mark Klondell e os seus homens entrando rio adentro, aguardando pelo melhor momento para das as “boas-vindas” ao bando de malfeitores que o perseguia…

Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #63 e inspirado na história, “La legge di Roy Bean” de G. L. Bonelli e Guglielmo Letteri (Tex italiano #117 a #120).
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Texto de José Carlos Francisco