Entrevista com o fã e coleccionador: Fred Macêdo

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Fred MacêdoPara começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Fred Macêdo: Nasci em 30 de Junho de 1972, na cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Trabalho com seguros há 15 anos e agora estou me dedicando mais aos quadradinhos e à ilustração.

Para aqueles que ainda não estão bem identificados com a sua carreira profissional, gostaríamos que fizesse uma pequena apresentação própria e do caminho entretanto percorrido na sua carreira?
Fred Macêdo: Bom, a partir de 2005 voltei a investir nas minhas aptidões para os desenhos e quadradinhos. Para clarear melhor a coisa vou fazer uma breve narrativa dessa história.
Desde garoto sempre tive facilidade com desenho. Primeiro comecei desenhando inspirado nos Clássicos Disney. Adorava as histórias do Carl Barks, Don Rosa e Giorgio Cavazzano.
Durante a minha adolescência, lia revistas de aventura, faroeste e de super-heróis, através de nomes como Joe Kubert, Neal Adams, Hal Foster, Russ Manning, Alberto Giolitti, Alex Raymond, Sy Barry, John Buscema, Alfredo Alcala, José Luiz Garcia Lopez, John Romita e tantos outros mestres em cujos traços procurei inspiração para o meu aprendizado.
Por volta dos 18 anos, sem vislumbrar perspectiva de me tornar quadrinista fui estudar Engenharia Mecânica, enquanto trabalhava como corretor de seguros. Sempre tive muita simpatia com a ciência de uma forma geral e a física em particular. Como ficava difícil conciliar trabalho com o curso de engenharia, fiquei até 2005 trabalhando exclusivamente no ramo segurador. Foram quinze anos longe dos quadradinhos.
Fred Macêdo na sua mesa de trabalhoEm Fevereiro daquele ano assisti a uma série de palestras no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, no evento Panorama Nona Arte. Lá conheci um grupo que estava reactivando a Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará (UFC). Entrei como aluno e após seis meses passei a dar aulas de desenho para as novas turmas.
Resolvi “estudar” quadradinhos. Nunca tive muita dificuldade com os desenhos, mas aprender a fazer uma boa narrativa visual demanda muito estudo, observação e treino.
No segundo semestre de 2.005 publiquei minha primeira história na revista PIUM, revista tradicionalmente ligada ao curso de quadradinhos da UFC e cuja tiragem foi de 1.000 exemplares. Publiquei em seguida no fanzine Manicomics, bicampeão do Troféu HQ Mix, editado pelos prestigiados quadrinistas cearenses, Daniel Brandão, JJ Marreiro e Geraldo Borges. Ainda em parceria com a Oficina de Quadrinhos da UFC, desenhei histórias curtas para o Projecto Contando a Cidade, do Jornal O Povo de Fortaleza, periódico tradicional e de grande circulação. Colaborei na arte de uma HQ para a Prefeitura Municipal de Fortaleza e com a revista Universidade Pública, publicação ligada ao curso de comunicação da UFC.
Fred Macêdo e Wilson VieiraAtravés do meu fotolog conheci o conceituado artista, roteirista e tradutor Wilson Vieira, que trabalhou por sete anos no concorrido e prestigiado mercado italiano, através do estúdio Staff di If, onde desenhou títulos como Diabolik, Tarzan, David Crocket, Pequeno Ranger, além de ter sido o primeiro brasileiro a desenhar profissionalmente o Homem-Aranha e outros personagens da Marvel Comics.
Passamos a publicar nossas histórias através do site italiano Progetto Fumetto. Primeiro o Western-Terror, Kwi-Uktena e em seguida a Ficção Científica, Evolution. Ambas saíram em 2007 em edição bilingue (português-italiano). Essa primeira história foi publicada na revista Prismarte e saiu este ano na revista Argentina Con-Hache. A história Evolution deverá sair impressa ainda em 2008.
Também em parceria com o Wilson fiz umas ilustrações para a FN NETWORK TV RADIO/STATION, de Génova, cujos proprietários gentilmente têm divulgado nosso trabalho em sua emissora.
No momento estou desenhando mais dois roteiros do Wilson e dando aulas de desenho.

Fred Macêdo e o WesternQuando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?

Fred Macêdo: Ainda quando criança, antes mesmo de saber ler, eu já folheava as páginas e “lia” a narrativa visual dos Clássicos Disney. Depois contava toda a história, segundo minha mãe me disse certa vez.  O Carl Barks fascinava-me. Suas aventuras eram impregnadas de referências da National Geographic, como vim a descobrir anos mais tarde. Achei isso espectacular! Foi quando compreendi da importância que os grandes mestres davam às reverências. Por isso, mesmo ao desenhar patos e galinhas caricaturados, ele conseguia imprimir realismo às suas histórias.  Depois entrei em contacto com o trabalho do Giorgio Cavazzano e a paixão foi imediata. Artista de traço super dinâmico que tornava as aventuras ainda mais instigantes. Curioso, mas sempre ligo o estilo do Cavazzano ao do Giovanni Ticci. Acho que pela agilidade de seus desenhos. Na época não sabia o nome deles, mas seus estilos nunca saíram da minha mente. Sempre achei isso curioso. Eu adorava os personagens da Disney por causa desses artistas.
Fred Macêdo e a sua mesa de trabalhoJá adolescente passei a ler revistas de aventuras e passava horas absorto nas histórias do Fantasma, Mandrake, Tarzan, Homem-Aranha, Hulk, Batman, Lone Ranger, Tonto, Zorro, Jonah Hex, entre tantos outros. Também me fascinaram esses personagens pelas mãos hábeis que os desenharam. A minha história com o Tex começou em Fevereiro de 1982, quando eu tinha 9 anos. Meu pais foram ao supermercado e quando chegaram entregaram-me o primeiro título do Tex que li: Tucson. A paixão foi imediata! Achei a personagem cheia de fibra, destemida, um homem com valores fortes e um profundo senso de justiça. A história era muito envolvente e muito bem desenhada pelo Letteri. Não tenho muitas afinidades artísticas com o seu traço, mas aprendi a nutrir carinho por esse artista. Talvez porque foi através de seu trabalho que estabeleceu-se meu elo com o ranger. Minha primeira imagem do Tex veio de suas mãos (a despeito da bela capa do Galep). A partir daí passei a comprar mensalmente as histórias do Ranger, só tendo interrompido quando fui estudar engenharia mecânica.

Fred Macêdo a desenhar a Grande Ceia de TexPorquê o Tex e não outra personagem?
Fred Macêdo: Olha, na verdade eu adoro Westerns de uma forma geral. Sou super fã do Jonah Hex, Ken Parker e Blueberry, por exemplo.
A questão do Tex é que ele se tornou um mito. Os Bonelli e seus colaboradores conseguiram criar um universo fantástico de personagens, cada um com personalidade própria e o mais interessante de tudo, deu a eles longevidade. Acho isso incrível! Personagens vão e vem, mas o Tex fica. Isso é uma prova de que estão no caminho certo. Eles foram tão competentes que criaram um ícone, um herói cheio de personalidade, cujo nome lembra força e justiça. Tex sabe ser extremamente generoso com as pessoas de bem e implacável com a injustiça e iniquidade. Isso é o que todos nós queríamos ver no mundo real. Um herói que sabe dar a medida certa para as coisas.
Além do mais, suas histórias estão sempre permeadas de factos e personagens históricos. As histórias do Tex são como um romance de época tendo como pano de fundo a história do Oeste Americano.
Ler Tex é enriquecedor.

Fred Macêdo ultimando a Grande Ceia de TexO que Tex representa para si?
Fred Macêdo: Primeiro, ele mexe com um lado da minha mente extremamente sensível ao seu universo, a fantasia. Sou por natureza um artista e um apaixonado por quadradinhos. Esse conjunto, desenho e texto, faz-me alçar voo e entrar numa dimensão à qual a maioria das pessoas esquece quando se torna adulto. Se alguém com talento consegue chegar à maturidade com essa porta aberta pode criar mitologias. São bons exemplos disso: Bonelli/Galleppini, Siegel/Shuster, Stan Lee/Kirby, Berardi/Milazzo, Uderzo/Goscinny, Charlier/Giraud, entre tantos outros. A criatividade aliada à experiência da vida adulta pode criar mundos, ou ir além, mitos. Estes grandes artistas/criadores de universos cresceram, mas o seu canal com a fantasia não se fechou, ao contrário, ele igualmente amadureceu com o tempo.
Fred Macêdo finalizando a Grande Ceia de TexSegundo, o Tex é uma personagem de carácter forte. Ele é corajoso, justo, destemido, implacável com a iniquidade, generoso e determinado. Ele é o tipo do homem que sonhamos ser quando garotos e que, mesmo depois de adultos, desejaríamos ser independente de não externarmos esse desejo.
Tex representa para mim a possibilidade de dar vazão à minha imaginação, de sonhar com o eterno mito do cavaleiro andante que nunca pára, nunca se cansa, sempre cavalgando para um horizonte distante em busca de novas aventuras, eternamente impregnado por um inabalável senso de justiça e por uma rectidão de carácter inquebrantável.
Tex é um mito!

Fred Macêdo e a Grande Ceia de TexQual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Fred Macêdo: Umas 150. Já tive mais, entretanto durante esse período em que deixei os quadradinhos encostados, muitas das minhas revistas deterioram-se. Lamentável esse meu descuido.
Não tenho uma revista que seja a mais importante para mim, entretanto existem várias que por alguns aspectos eu gosto mais.
Como sou desenhador uso muito as revistas como referências ou fontes de estudo. Alguns artistas são mais cuidadosos que outros com a composição de época, portanto, tomo esses artistas como meus favoritos e as revistas que desenharam como as que mais consulto.
A Grande Ceia de TexFica difícil, portanto, falar da “revista mais importante”, mas posso citar os desenhadores cujos traços tenho mais afinidade e que me motivam comprar as revistas nas quais trabalharam, como por exemplo, Ticci, Giolitti, Monti, Capitanio, Gilbert, La Fuente, Villa e Fusco.
Essa não é minha “lista dos melhores”, mas aqueles com os quais tenho mais afinidades. Não posso deixar de fazer uma observação ao trabalho do Civitelli, artista de traço seguro e limpo, que tenho aprendido a admirar. Além de suas qualidades artísticas incontestáveis parece ser uma pessoa por demais solícita e simpática.

Fred Macêdo e TexColecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?
Fred Macêdo: Hoje em dia só compro aquelas histórias de cujos desenhos tenho mais afinidade ou edições especiais.
Gosto muito de ir em casas especializadas para procurar material raro.  Infelizmente não possuo nenhum outro material que não sejam revistas ou pósteres.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Fred Macêdo: Que enrascada, hein!
Não vou citar uma, mas três, pois tem umas histórias que realmente cativam a gente. São daquelas que você vai lendo e a paixão é imediata.
Aí vão elas:
Primeiro, o arco que começa com Flechas Pretas Assassinas, Editora Vecchi, 2ª edição, números 50, 51 e 52, desenhadas magistralmente pelo inigualável Giovanni Ticci, numa fase menos estilizada. Sempre fico fascinado pela destreza artística e apuro de referências do grande mestre. Será que ele existe, mesmo?
A segunda é: Caçada Humana, a primeira escrita pelo Guido Nolitta (Sergio Bonelli) e a segunda desenhada pelo Ferdinando Fusco, que desenrola-se nos número 68 e 69, da Editora Vecchi, 2ª edição. Poderia até colocá-la como minha favorita, pois talvez tenha sido a que mais reli. A primeira coisa que me chamou a atenção nesta história foi o traço extremamente dinâmico e fluido do Fusco. Foi quando conheci o trabalho desse grande artista. O cidadão é de uma simplicidade e competência desconcertantes. O roteiro, então, uma obra prima. Nunca vi o velho Ranger tão humano. A morte do “rapazote” Andy Wilson deixa o Tex furioso, numa rebeldia e inconformismo comoventes. Também nessa história o Sergio Bonelli soube construir uma amizade improvável, entre caçador e caçado. A relação que se estabelece é comovente, uma amizade sincera e respeito mútuo entre dois seres humanos bons que pelos revezes da vida pegaram caminhos diferentes.
A terceira é: El Muerto, segunda história escrita por Guido Nolitta e desenhada pelo mítico Aurelio Galleppini. Perdi a minha revista original, mas acabei comprando o Almanaque do Tex Nº 7, pela Mythos Editora, que tem toda esta belíssima história em uma só edição.
Fred Macêdo e os 4 pardsO que mais me fascina nesta história além do desenho do Galep, é que ela é a que mais se aproxima dos bons westerns do Sergio Leone, de quem sou fã. O encontro do Tex com El Muerto no cemitério é uma cena antológica, assim como aquela do Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach em “Três Homens em Conflito”. Os homens postam-se frente a frente em sua “arena” circundada de túmulos e, bem ao estilo do Leone, cria-se uma tremenda tensão no desenrolar das cenas seguintes até que chega ao clímax numa explosão violenta. No arremate final, Tex dá um tiro de misericórdia que joga El Muerto na cova (assim como Clint fez com Lee Van Cleef no aludido filme). Isso é demais! Ah, sem falar do lance magistral do relógio de bolso tocando uma música atado à pá, junto à cova. Pareceu-me uma referência funesta à gaita da personagem Harmónica interpretada pelo Charles Bronson em “Era Uma Vez no Oeste”, cujo roteiro escrito a quatro mãos também leva a assinatura do Sérgio Leone.
Grandes Spaghetti Westerns! (Deixando de lado qualquer conotação pejorativa que o termo possa ter).
Costumo dizer que toda lista de favoritos é injusta e sempre será, mas como gosto de fã e justiça são coisas que nem sempre andam de mãos dadas aí vai meu voto:
– Argumentista favorito: Guido (S. Bonelli) Nolitta;
– Desenhador favorito: Giovanni Ticci (em qualquer fase).

Fred Macêdo e a paixão pelo WesternO que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Fred Macêdo: O que gosto no velho Ranger são seu senso de justiça e carácter inabalável.
O que não gosto é que às vezes o Tex parece um super-homem, quase invulnerável. Gosto daquelas histórias que o apresentam mais humano, daí ter “Caçada Humana” como uma das minhas preferidas. Acho que vi o Tex ali como nunca vi depois. Ele é baleado e apanha. Admiro personagens fortes. Tex é um dos melhores estereótipos do ser humano que todos queremos ser, mas ás vezes carece de uma certa e bendita dose de vulnerabilidade.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é?

Fred Macêdo: A sensibilidade de artistas e argumentistas que souberam construir um universo de personagens em aventuras permeadas com valores éticos e morais. As histórias do Tex nunca ocorrem à toa, no final o mal é sempre punido e o vilão tem o fim que merece, como gostaríamos de ver na vida real.
Tex é um cavaleiro andante que onde chega faz valer a justiça e que nunca baixa a cabeça para o mal, a despeito de sua eventual inferioridade diante deste mal. Ele tem valores e norteia sua vida por esses valores, nunca pela opinião alheia. Talvez uma de suas maiores virtudes seja a capacidade de construir amizades verdadeiras e duradouras, bem como inimizades dessa mesma magnitude.
O pano de fundo histórico também ajuda muito na construção do herói e imprime-lhe credibilidade. Tex é uma personagem, não tem vida própria, mas inseri-lo num contexto histórico ajuda a firmá-lo no inconsciente colectivo.
Creio que o Tex é um mito porque nos realizamos nele.

O Tex de Fred MacêdoComo nasceu a ideia de homenagear o Tex, através do seu desenho comemorativa dos 60 anos de aventuras do Ranger?
Fred Macêdo: Não é todo dia que uma personagem de banda desenhada faz 60 anos e muito menos uma personagem do qual você é fã, logo pensei em fazer coro àqueles que gostam do bom e velho Ranger, fazendo o que mais gosto, desenhar, o que foi puro prazer.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Fred Macêdo: Vislumbro ainda muitos anos de aventuras para o Tex. Não falo como um fã que quase sempre é suspeito, mas porque vejo renovação nos artistas e argumentistas. Isso é muito bom. Pessoas novas são ideias novas, visões novas que se adequam à realidade dos novos tempos. O que vejo de melhor é que essa renovação parece não levar a uma deturpação das características da personagem o que por certo comprometeria sua longevidade. As novas narrativas, são mais adequadas e em sintonia com as tendências actuais, tanto nos argumentos quanto nos desenhos, preservando todas as maravilhosas idiossincrasias do mais temido e famoso Ranger do velho Oeste.
Aqueles que fazem o Tex abraçam e vivem a personagem, daí seu sucesso e longevidade.
Adiós, pards!

Prezado pard Fred Macêdo, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das fotografias acima, clique nas mesmas)

Super Tex e a Divina Ceia

Por G. G. Carsan*

Sul sentiero dei ricordiA SBE – Sergio Bonelli Editora tem motivos de sobra para celebrar 2008 como o ápice de sua existência. Os 100 anos de Gian Luigi Bonelli, o pai dos quadradinhos italianos, e 60 anos de Tex, a sua excelsa criação. E para isso planejou uma grande comemoração junto com os seus leitores, publicando uma aventura colorida do Tex e um romance do editor e roteirista Bonelli, marcando de forma indelével e exclusiva a data de 30 de Setembro de 2008 – um feriado texiano.

“Sul sentiero dei ricordi” (Na Trilha das Recordações, em português), de facto, mostrará um período da vida de Tex que causa frisson nos coleccionadores de longa data, ávidos por conhecer mais intimamente o grande herói. E “Il massacro di Goldena”, que inspirou o Tex 16 – Território Apache, editora Vecchi, é um romance do criador de Tex, que virá com belíssimas ilustrações e a sugestiva capa, já conhecida do público brasileiro, pois foi um póster-brinde do Tex 78 – Espectros, como podemos ver nas imagens.

Il massacro di Goldena

Tex ultrapassou todos os limites do tempo e do espaço, configurando-se no maior fenómeno dos quadradinhos de faroeste do mundo, carregando consigo uma legião de leitores apaixonados e persistentes, senhores que encontram no herói o seu ponto de fuga e arma poderosa contra o stress dos tempos actuais, pintados de violência desmedida e altas tecnologias.

Embora pareça muito difícil definir a causa principal do sucesso da personagem, podemos creditar à comunhão desse ser humano fantástico com os seus leitores no que diz respeito aos encantos do espírito aventureiro e das causas justas. Tex representa tudo que buscamos na vida, desde a simplicidade das coisas até a complexidade dos relacionamentos humanos.

A junção de suas qualidades morais e de suas habilidades especiais inseridas nas aventuras em doses correctamente prescritas e ingeridas, iniciadas em aventuras como ‘Um contra Cinco” e depois de alguns tiros aqui e ali chegam à impactante ‘Um contra Vinte’, correndo o Velho Oeste e países vizinhos ‘O Herói do México’, de boca-em-boca,  tornaram-no o homem mais temido pelos malfeitores, que fazia justiça a qualquer preço, até pisando os códigos e a própria lei, com os fins justificando os meios.

Tex por Joe KubertSabemos que Tex foi criado como uma personagem rápida no gatilho e que odiava injustiças, mas a sua aceitação inicial levou o roteirista a dotá-lo de novas características especiais a cada nova necessidade. Em pouco tempo, Tex não era só o mais rápido no gatilho (El Muerto) e infalível no tiro de rifle em plena cavalgada (Buffalo Bill), mas o melhor e mais sortudo jogador de póquer (O Último Póquer); o perseguidor implacável (Missão em Great Falls) ; o melhor nas lutas corporais, o dono de um cruzado de direita capaz de levar o oponente a nocaute, reflexos apuradíssimos (Briga de Galo); um óptimo nadador seja lutando na água, seja vasculhando o fundo de um lago, seja salvando alguém que afunda num rio caudaloso (O Grande Rei); invencível no braço de ferro (Dinamite), duro na queda (O Cavaleiro Solitário) um grande estrategista militar (Navajos em Pé de Guerra), ás no laço e um cavaleiro invencível (Tex Vingador e Justiceiro), um alpinista de primeira (O Trem Blindado), além de ser incansável, sortudo, inteligente, amigável, solidário, honrado, bonito, destemido, persistente, etc. Um Super Tex!

Um herói precisa transitar livremente em vários ambientes. Não, em todos os ambientes. Para isso Tex logo se tornou um Ranger do Texas, mas vejam, com caminho livre em todos os Estados, com poderes para destituir um Xerife e aplicar a lei. Na sequência, num golpe de mestre, Bonelli o misturou aos índios, arranjou-lhe um casamento com Lilyth, justamente a filha do chefe, às pressas, e desse veio um filho e pronto, estava criada uma espécie de divindade conhecida e respeitada por todos os peles-vermelhas como Águia da Noite, irmão de sangue dos grandes chefes, que viria a se tornar chefe supremo do Navajos e seu Agente Indígena junto ao Governo americano.

Tex Willer por Joe Kubert

Para evitar um herói solitário, que não tinha como exprimir suas ideias, Bonelli tratou de arrumar um amigo e num lance brilhante o uniu a Kit Carson, um nome famoso no faroeste, embora fosse apenas um homónimo, para ser possível falarem e brincarem como se a comunicação fosse com um de nós. Isso foi bom aos olhos dos leitores e foi criado o índio Jack Tigre, eficiente e eficaz. E anos depois, já garotinho, Kit Willer começou a viver movimentadas aventuras ao lado do pai. Esse quarteto se tornaria conhecido em todo o Oeste selvagem.

Mefisto, o grande inimigoEstava bom demais, mas podia ser melhorado. Iniciou-se desde cedo a criação de grandes amigos e fortes inimigos. Podemos imaginar o leque de opções que o escritor tinha para trabalhar, a sua mente fervilhando com personagens como Montales e Steve Dickart lutando no México ou Gros-Jean e Jim Brandon na longa aventura que envolveu o pequeno Kit – onde Jim ganhou a amizade de Tex para sempre, após se jogar na frente do seu filho para receber a bala que lhe fora endereçada – e prova de amor maior não há do que doar a vida a seu irmão. Dickart se tornaria o mago Mefisto e viria a se concretizar no maior inimigo de todos os tempos. Tex fez dupla com Pat Mac Ryan, o simpático e adorado irlandês que lembra mais um terramoto e várias participações com El Morisco, o sábio egípcio que encanta em aventuras para lá de misteriosas e educativas. E ainda tem que ir a San Francisco sempre que Tom Devlin vê que a lei perdeu as rédeas da situação.

Outro factor não menos instigante seria a salada de temas abordados. O faroeste de Tex não se resumiu a bandidos comuns roubando bancos, diligências e gado, nem só a duelos ao pôr-do-sol na main street. Tex já lutou contra ET’s, dinossauros, mágicos brancos e indígenas, índios rebeldes, cientistas loucos, militares, seitas chinesas e malaias, na guerra civil, em países vizinhos, no mar, na capital, já salvou o Presidente. Já deu bofetões em coronel, lição em juiz, tiros em presidente de Câmara bandido, bate-boca com advogado. Já deu muito sopapo e tiro em dono de bar e traficantes de armas e de whisky. A aventura mais aclamada de Tex é “Flechas Pretas Assassinas”, desenhada pelo mestre Giovanni Ticci, onde luta no Canadá contra uma rebelião indígena, auxiliando Jim Brandon.

Com enredos de Bonelli, depois Claudio Nizzi, alguns de Guido Nolitta, Mauro Boseli e Antonio Segura, Tex chegou ao patamar de estrela. Uma estrela de brilho próprio. Em 575 edições mensais e várias republicações em curso, já vendeu mais de 1 milhão de cópias num mês, tem 100 livros publicados a seu respeito e uma grande variedade de produtos licenciados; é publicado em diversos países, como Brasil, Finlândia, Espanha, Turquia, Índia, etc.

Assim foi criado o mito, um herói que não voa, que não atira fogo pelos olhos, que não é invisível, cujas aventuras são verosímeis e bem balizadas na realidade e no contexto da história americana. Um herói criado e propagado por desenhadores de alta capacidade como Galep e seus seguidores: Lettèri, Nicolò, Fusco, Marcello, Civitelli, Villa e tantos outros, que se revezaram ao longo de 60 anos em desenhos dignos de telas, formando um mito com ares de divino.

O Super Tex realmente apresenta essa áurea divina baseada em seu conceito de grande homem, bom irmão, querido pai, amigo do peito, sentimentos que moldam e se encaixam nas relações humanas, formando os homens de valor. E por coincidência, essa faceta de divino concretizou-se de forma natural, ao longo do tempo, sem aparente desejo do criador Bonelli, em episódios esporádicos, mas de forma contundente como desígnio dos Deuses, que guardam para si os mais belos e também os mais tenebrosos segredos da natureza.

Somente um ser diferenciado, aclamado e protegido pelos Deuses para conseguir as façanhas dignas do Super Tex. Existem vários momentos dificílimos do Ranger e seleccionamos três que merecem ser lembrados como marcos históricos da saga. O primeiro quando escapa milagrosamente do turbilhão de águas no ventre de uma montanha e ainda consegue forças para salvar o amigo Doberado. Tex pensa: “Deus Poderoso! É o fim!” – (O Navio do Deserto); o segundo quando se depara com o guardião de um tesouro, que abate o homem que pretende roubá-lo, mas não se move contra Tex (O Ouro de Klaatu); o terceiro ao ser libertado por um macaco gigante, quando se pensava que ia estraçalhá-lo (Sasquatch). Nessas histórias, o autor passa-nos a seguinte informação: Tex tem a mão de Deus a protegê-lo.

De facto, em um 30 de Setembro de 1452, foi impresso o primeiro livro, a Bíblia de Gutemberg; Mas o que tem Tex a ver com a bíblia?

Os Amigos de Tex, por Fred Macêdo

Divina Ceia Texiana: Nat Mac Kennet, Gros-Jean, General Davis, Jim Brandon, Cochise e Montales à esquerda. Pat, El Morisco, Tom Devlin, Kit Willer, Jack Tigre e Kit Carson à direita. Tex Willer ao centro.

Quase nada! São temáticas diferentes, embora as duas publicações busquem a justiça, a ética, a correcção. Mas tem algo sim. É na Bíblia, no Novo Testamento, que ouvimos falar de Jesus e dos seus 12 apóstolos. E paira aí a coincidência referida acima, porque o destino reuniu em volta do nosso herói justamente 12 homens de grande valor, homens preocupados com os ideais de justiça e igualdade para todos – sem traições pelo meio. É lógico que Tex tem muitos amigos, todavia, os mais presentes, carismáticos e importantes são Os Doze.

E nada mais justo do que numa grande festa comemorativa, estes amigos se reúnam para uma confraternização de porte, a Divina Ceia Texiana, com direito a muitas recordações, discursos, troca de ideias e muitas gargalhadas, regadas a muita cerveja gelada, bifes com dois dedos de altura e batatas fritas crocantes.

Realmente, é hora de brindar! Abram alas! Tex pede passagem. Por favor, se alguém quiser fazer uso da palavra, eis o momento adequado!

G. G. Carsan: Com licença, Senhores, o que tenho a dizer é simples. Eu adoro o Tex e estou muito feliz de acompanhá-lo há tantos anos. Como Tex não há nenhum! Obrigado!

Naquele momento, no saloon Paradiso, em Denver, Colorado:

Jim Brandon:
“Caros amigos, a ideia dessa reunião foi para homenagearmos o nosso grande amigo Tex Willer. Quem de nós não lhe pediu ajuda, uma, duas ou mais vezes? Quem de nós nunca foi salvo por ele? Enfim, o que seria de nós? O que seria dos índios? O que seria da América do Norte, sem a presença de Tex Willer nesse vale de lágrimas? Tex, meu amigo, meu irmão, meus parabéns e receba o agradecimento da Polícia Montada e de todo o Canadá”.

Kit Carson:
“ Estou muito feliz de ver Tex completando 60 anos e de ter participado activamente de cada etapa. Tex é um irmão, um anjo da guarda, meu herói. Conviver com Tex é um grande prazer e sentir-se constantemente sentado na beira de um vulcão, o perigo rondando a toda hora. A gente sofre um bocado, toma alguns tiros, fica sem descansar porque ele é incansável e não larga a presa enquanto tem uma pista a seguir. Mas sei da importância do nosso trabalho e fazemos muitos amigos, não temos tédio. Agora chega de conversa, preciso tomar uma cerveja, fiquei com a garganta seca!”

Cochise:
“ Faz muitas luas que Manitu uniu o meu caminho e o de Águia da Noite e isso foi bom para os Apaches e para todos os índios do sudoeste. Nunca existiu e nunca existirá um homem como Águia da Noite. Ele é um enviado especial do Grande Espírito. Cochise muito contente de ser irmão de sangue de Águia da Noite”.

Montales:
“Ao seu lado vivi batalhas memoráveis e corri grandes perigos. Se hoje a lei e a justiça vigoram no México, devemos a Tex e seus parceiros, que com coragem, determinação e competência, sempre passaram a fronteira e nos tiraram de grandes encrencas orquestradas por revolucionários e políticos corruptos. Obrigado Tex!”

O Tex de Joe KubertPat Mac Ryan:
“ Não sou de muitas palavras, vocês sabem que o meu negócio é no braço. Mas falar de Tex é fácil até para mim. Esse amigo é mais do que um amigo. Tex é como um pai para mim”.

Tom Devlin:
“ Quando falei que vinha ao Arizona participar desse encontro, vários amigos enviaram um abraço para você, Tex, inclusive o Presidente da Câmara de San Francisco, que lhe é grato pelas limpezas realizadas na cidade. Eu lhe considero um bravo homem, um grande amigo, sempre disposto a ajudar quem precisa, fazer justiça, seja onde for, seja qual for o obstáculo. Eu espelho-me em você e tento passar isso para os meus policiais. Parabéns por tão linda data”.

General Davis:
“ Tex, o Presidente Grant enviou congratulações e agradecimentos pelos serviços prestados aos Estados Unidos. O Exército concedeu-lhe uma medalha de honra ao mérito. Quanto a mim, é uma verdadeira honra poder dizer que sou seu amigo. Parabéns e conte sempre comigo”.

Jack Tigre:
“ Ugh! Águia da Noite para os Navajos representa a própria encarnação de Manitu, pois é justo e protege o seu povo, preocupa-se e resolve os problemas que surgem. Quando regressarmos à aldeia, haverá uma grande festa”.

El Morisco:
“ Tex, meu velho! Permita-me… nos últimos tempos fiz várias pesquisas tentando entender como você consegue ser tão forte, tão rápido, tão inteligente, tão seguro, tão decidido… mas foi em vão. A ciência não explica. Acho que é mais um caso para a paleontologia e para a filosofia. Por enquanto, prefiro mesmo concordar com o amigo Cochise, porque caro amigo, você é tudo e não carece de explicação. Vamos abrir um Sangre del Toro que trouxe especialmente para esta ocasião”.

Tex:
“ Chega amigos, chega! Fico lisonjeado com suas palavras. Eu fiz por prazer, por dever, por obrigação. Fiz e faria tudo de novo. Nada é mais importante para mim do que os amigos e a justiça. Agradeço a todos por virem de tão longe e saibam que também lhes sou muito grato por cada gesto de amizade, por cada palavra amiga, por sua tolerância, por cada trabalho, por cada diversão. Espero que continuem assim, batalhadores e fiéis à causa da justiça. Mas vamos parar esse discurso e passar a consumir essas cervejas e esses vinhos e comer bastante. Obrigado amigos!”.

Kit Willer, Gros-Jean e Nat, que não se prontificaram a falar, pois haviam combinado outra coisa, sacaram as armas e atiraram para o alto, gritando em alta voz:

“60 HURRAS PARA TEX WILLER!”

G. G. Carsan* G.G.Carsan, 43 anos, paraibano, fã, coleccionador e divulgador, começou aos 7 anos a ler Tex e nunca mais parou. Realizou 5 exposições em João Pessoa, escreveu várias aventuras para Tex (algumas publicadas na Internet) e um livro sobre a personagem no Brasil, já em análise em uma editora. Escreve para o Portal TexBr e participa de chats e comunidades no orkut. Fez matérias especiais para o HQ Maniacs e Universo HQ nas comemorações de 60 anos. Mantém a biblioteca aberta para visitantes. Na foto ao lado, vestindo uma camisa vermelha como o Tex nos primórdios.

Agradecimento Especial: A Fred Macêdo, desenhador de Fortaleza – CE, que realizou este desenho da Divina Ceia Texiana, atendendo a um pedido.

Obs: 1º. e 2º. desenhos – C. Villa para capa Tex 575 (italiano) e Galep para livro Il Massacro di Goldena; 3º. e 4º. desenhos de Joe Kubert em Tex Gigante; 5º. desenho do C. Villa, adaptado para capa de O Império do Mal; 6º. desenho de Fred Macêdo, especial para esta matéria; 7º. desenho do Joe Kubert (idem acima); Foto G. G. Carsan – auto-retrato.

Finalmente chegou Tex

Por Carlo Scaringi*

Revista Ccuola di fumetto com Tex na capaEm finais de Setembro de 1948 aparece nos quiosques italianos uma revista em formato “striscia” (sensivelmente no mesmo formato dos talões de cheques) com um personagem que iria entrar na história da banda desenhada. Apenas 32 páginas e cerca de uma centena de quadradinhos com situações e personagens que cativavam imediatamente os jovens leitores. Tinha nascido Tex Willer, o ranger mais famoso do Oeste e um herói mítico que já entrou na história e no imaginário colectivo.

Tex Willer de Aldo Di GennaroContudo no início o seu caminho não foi fácil, fosse porque a concorrência era notável, fosse porque sobre Tex (e sobre a maior parte dos heróis da banda desenhada) caíam as críticas dos pais, professores e da própria Igreja, que tinha incluído o célebre ranger entre os personagens negativos. Agora, sessenta anos depois, o L’Osservatore Romano dedicou duas páginas inteiras precisamente a Tex, sublinhando os aspectos positivos como o senso de justiça, a honestidade, o anti-racismo e todos os outros que os leitores bem conhecem e apreciam há dezenas de anos.

Arte de Aldo Di GennaroTex nasceu do feliz encontro entre um romancista da fantasia como Giovanni Luigi Bonelli e um desenhador como Aurelio Galleppini que há pelos menos uma dúzia de anos tentavam, encontrar o personagem da vida deles. Juntos realizaram dezenas de histórias entre as mais belas da banda desenhada italiana, com personagens gravados na memória de milhões de leitores como o rabugento Kit Carson, o jovem e voluntarioso Kit, filho de Tex, o silencioso pele-vermelha Jack Tigre: um grupo de inseparáveis amigos que há décadas galopam ao longo de todo o Oeste.

Arte de Aldo Di GennaroNão faltam obviamente os vilões, fatalmente derrotados por Tex e seus companheiros, inimigos implacáveis dos fora-da-lei, traficantes de todo o género, especuladores, políticos corruptos e por vezes até os índios, sobretudo aqueles que se metem contra os Navajos, a tribo que Tex sente também como própria porque casou com Lilyth, a filha de um chefe, prematuramente morta, vítima de uma epidemia desencadeada por duvidosos traficantes.

Muitos inimigos não têm uma identidade bem precisa, e pagam com a vida a sua existência perversa. Outros pelo contrário parecem invencíveis como Mefisto, e por vezes retornam, quase para dar uma continuidade a uma saga infinita como é esta de Tex. Mas todos são sempre a personificação do Mal e com a sua presença ampliam o valor do ranger e seus companheiros, infatigáveis paladinos da justiça e liberdade.

Il massacro di GoldenaOs sessenta anos de Tex são recordados nestes dias pela Sergio Bonelli Editore com um número especial da colecção mensal, totalmente a cores, o qual traz junto um romance escrito por papá Bonelli no começo dos anos Cinquenta, Il massacro di Goldena, publicado num, impossível de encontrar hoje em dia, álbum com meia dezena de páginas ilustradas por Galleppini.

Em 1969 Giovanni Luigi Bonelli fez uma versão em banda desenhada, publicada nos números 108 e 109 da série mensal (Itália) com o título “Territorio Apache” e desenhada por Giovanni Ticci então com as suas primeiras experiências com Tex, ou quase. A sua reproposta, a cerca de meio século de distância, deseja ser uma dupla homenagem seja pelos sessenta anos de Tex, quer pelo centenário do papá Bonelli, nascido em finais de 1908. Um modo para recordar dois mitos da banda desenhada italiana que já entraram na pequena história das nuvens falantes.

*O texto é de Carlo Scaringi.
Tradução e adaptação a cargo de José Carlos Francisco
Artigo de afnews – Sábado, 13/9/2008
© copyright afNews/Goria/Autore – http://www.afnews.info

Copyright: © 13 Setembro 2008, afnews

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Tex e os Coyoteros: um conto escrito por Jorge Magalhães e ilustrado por Augusto Trigo

O blogue português do Tex tem o privilégio de publicar aquele que é o primeiro conto de Tex Willer, pois é a primeira vez que Tex aparece sob a forma de narrativa escrita curta, depois do romance “Il massacro di Goldena”, escrito em 1951 por Gianluigi Bonelli e recentemente reeditado, como já noticiámos. Regendo-se por outras regras e por uma noção de tempo e espaço mais concisa que a do romance ou da novela, o conto é também uma forma diferente de interpretar e de ver em acção o Ranger mais famoso do Oeste americano, permitindo até entrar mais no âmago das personagens do que quando a narração é feita por imagens.

Trata-se de uma obra inédita, em homenagem a Tex e aos seus criadores, da autoria de dois dos mais prestigiados nomes ligados à Banda Desenhada portuguesa (texto de Jorge Magalhães e ilustrações de Augusto Trigo), em mais um exclusivo integrado nos festejos dos 60 anos do mítico Ranger!

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NO RIO GRANDE

Sob o ardor forte do sol, o cavaleiro avançava pela margem norte do rio, à procura de um vau. As margens eram esbarrancadas e cobertas de vegetação. Aqui e além, uma árvore debruçava-se com os seus longos ramos sobre a água, oferecendo um abrigo fresco e convidativo contra o calor do meio-dia. Mas o cavaleiro continuava a sua busca, com o chapéu de abas largas derrubado sobre os olhos, por causa da reverberação implacável das rochas, que chispavam como espelhos de metal na luz crua do sudoeste.
Aquele estreito curso de água era o Rio Bravo do Norte — também chamado Rio Grande, nome pomposo, com centenas de anos, para uma corrente tão insignificante, sobretudo como linha fronteiriça. Do outro lado, o terreno elevava-se numa série de pequenas colinas arborizadas e semeadas de cactos, cujas silhuetas bizarras se destacavam como sentinelas vigilantes na paisagem. O próprio céu, tingido por pequenas nuvens de cor púrpura, parecia diferente, como se o horizonte se alargasse e a claridade fosse mais ofuscante. Não havia letreiros nem marcos simbólicos, mas todos os viajantes vindos do norte sabiam que a partir dali se estendia o território do México, uma república que tinha vivido, durante muito tempo, sob o signo da revolução.
Quando encontrou o vau, o cavaleiro começou resolutamente a travessia, evitando os remoinhos de água lodosa, onde a força da corrente aconselhava prudência. No ar quente e espesso, vibrava o zumbido dos mosquitos.
O território do outro lado do rio era uma espécie de «terra de ninguém». Os fora-da-lei e os apaches, perseguidos pelo governo americano, atravessavam constantemente a fronteira. Nenhum mexicano gostava de apaches nem de gringos, mas o México era um vasto palheiro onde um homem podia desaparecer sem deixar rasto, como uma agulha. O Rio Bravo não impedia também as invasões maciças, com grandes exércitos movimentando-se nos dois sentidos e as bandeiras mexicana e americana flutuando ora nos muros derrocados de El Álamo, ora nos sumptuosos palácios de Vera Cruz, Monterrey e Guadalupe.
O cavaleiro cruzou o vau em diagonal, com o cavalo, em certos pontos, mergulhado na água quase até à barriga, embora não fosse a altura do ano em que o rio ia mais cheio. Mas a travessia decorreu sem incidentes, porque cavalo e cavaleiro formavam uma única peça que obedecia a uma única vontade.
O forasteiro chamava-se Tex Willer e o sol, de vez em quando, arrancava reflexos prateados à insígnia presa na sua camisa coberta pelo pó de uma longa jornada. Era um homem de feições nobres mas curtidas pela vida ao ar livre, hábil com as armas, duro e resoluto no cumprimento do dever, e conhecia bem o território que se estendia ao sul do Rio Grande.
Em todas as viagens que fizera ao México, ficara com a certeza de que nenhum peón mexicano, por razões que se perdiam num passado longínquo, encarava um gringo como amigo, qualquer que fosse o motivo da sua visita. Desta vez, confiava, até certo ponto, no auxílio das autoridades mexicanas. Mas temia que nenhum distintivo, nenhuma arma, nenhum gesto de amizade, fossem capazes de romper a desconfiança desses camponeses grosseiros e sujos, que viviam miseravelmente em cabanas de adobe, apesar de lhes correr nas veias o sangue dos altivos guerreiros aztecas.
Tex Willer era um homem sem os preconceitos peculiares da sua raça, habituado a conviver com outros povos, respeitado pelos próprios índios navajos, que o tinham eleito seu chefe, mas curiosamente, apesar de ter amigos do outro lado da fronteira, fazia dos camponeses mexicanos a mesma ideia que a maioria dos seus compatriotas, quase os considerando um povo inferior, semi-bárbaro e inculto. Por isso, quando vadeou o curso do Rio Grande, naquela tarde de canícula, teve mais uma vez a sensação de transpor a fronteira entre dois mundos, tão diferentes um do outro como a noite do dia.

JUAN HERÉDIA

Tex fez o resto da jornada num trote ligeiro, para não cansar o cavalo, avistando, de longe em longe, aldeias perdidas na árida planura, que se assemelhavam a pequenas manchas ocres contra os imponentes contrafortes da Sierra Madre. A estrada, ladeada de cactos, ondulava suavemente entre colinas e campos pedregosos. As montanhas tinham uma cor escura e hostil.
Chegou ao seu destino no dia seguinte, ao lusco-fusco, sem ter encontrado mais de cinco pessoas no caminho. O poente tingia o céu com um clarão sanguíneo.
San Felipe era um vilarejo sem importância, perdido na base das montanhas, com uma rua tortuosa e cheia de poeira, vinte ou trinta casas que já não eram caiadas há muito tempo, um largo e uma igreja de estilo barroco, ao fundo da rua. A igreja, grande e de paredes sólidas, parecia datar do tempo da dominação espanhola.
Era dia de mercado e o largo estava ainda cheio de gente que viera das redondezas, com os seus burricos pitorescamente ajaezados com guizos de metal e pequenos chapéus de palha. Nas locandas próximas bebia-se com animação. Arcos festivos e balões de papel davam a San Felipe um garrido ar de arraial.

Tex passou vagarosamente entre grupos de mexicanos que o saudavam, sem grande curiosidade, tirando os largos sombreros. Na praça, alguns pares dançavam, ao som de violas. O crepúsculo morria numa luz cinzenta.
Só havia uma pousada na aldeia. Não parecia grande coisa, mas o preço, pelo menos, condizia com o aspecto. Tex pediu um quarto e uma boa ração de aveia para o seu cavalo. Depois, fiel ao princípio de nunca perder tempo, tratou de procurar o alcalde, uma espécie de administrador local, cuja casa encontrou sem dificuldade. E foi aí que as suas surpresas começaram. O digno funcionário estava sentado à mesa, com toda a família, e Tex estacou à porta, indeciso, de chapéu na mão, iluminado pela luz que vinha do interior.
Vivamente, com uma agilidade que o fazia parecer mais novo, D. Juan Herédia, o alcalde, saltou da mesa e, limpando os bigodes, ordenou à sua filha mais nova Lolita, uma bela rapariga que não teria mais de vinte anos, que oferecesse uma cadeira ao visitante e pusesse outro prato na mesa.
— Recebi uma mensagem de Piedras Negras, avisando-me da sua chegada. Devo dizer-lhe, señor, que a sua fama é tão grande aqui como no seu próprio país. Suponho que veio ao México, mais uma vez, para fazer justiça. Mas sugiro que deixemos esse assunto para mais tarde. Sentir-me-ei muito honrado, señor Willer, se quiser ser meu hóspede e provar uma tortilla e um trago deste viño. Não há nada melhor do que a comida mexicana para refazer forças depois de uma longa jornada! — exclamou, com um largo sorriso, certo de que o visitante não recusaria o seu convite.
Os netos de Juan Herédia — quatro ou cinco garotos de cabelos negros e olhos espertos e brilhantes como colibris — saltavam-lhe para cima dos joelhos, dando-lhe puxões ao bigode farto, que tremia com orgulho. Também a insígnia do estrangeiro lhes chamou a atenção e não tardou que fizessem a Tex as honras da casa, arrulhando como pardais satisfeitos no seu linguarejar infantil cheio de pitoresco.
Terminado o jantar e espantado o alegre bando com algumas palmadas no traseiro, o alcalde dispôs-se a escutar o visitante, entre duas cachimbadas, enquanto Lolita levantava a mesa.

— Muchas gracias, señor Herédia! — exclamou o ranger, esfregando a barriga. — Falava verdade quando gabou a comida mexicana. Mas estou tão cheio que não sei como vou dormir esta noite!
— Não se preocupe, señor Willer. Se um homem tem a consciência tranquila, as noites do México fazem-no gozar o sono dos justos, mesmo que tenha o estômago muito pesado.
— Procuro um homem… — continuou Tex, que sentia a curiosidade das mulheres, entrincheiradas na cozinha. — Um homem chamado Ramón Gonzaga, que tem aqui família.
— Um mexicano? — perguntou o alcalde, enrugando  a testa.
— Sim. Tem uma pena às costas por roubo de gado e homicídio. A sentença é de dez anos em Yuma, o que equivale quase à pena máxima, mas o homem conseguiu fugir e passar a fronteira. Yuma é um inferno, onde nem os mais fortes sobrevivem por muito tempo, mas Gonzaga merece essa pena. Tenho cartazes com o retrato dele. É um tipo grosseiro e brutal, que andou em companhia de comancheros e fora-da-lei. O género de bandido capaz de matar a sangue-frio, sem qualquer escrúpulo. O seu bando espalhou o terror no Texas e no Arizona até cair nas malhas da lei. Agora, Ramón viu-se acossado e deve ter voltado aqui, contando que a família o ajude a esconder-se.
— Tem razão, señor Willer. Conheço Gonzaga e sei que é um bandido. Mas nunca fez nada contra a lei no México e duvido que alguém o denuncie. Tem mulher e dois filhos pequenos, que já não via há muitos anos. Chegou há algum tempo, sem avisar ninguém, e é a mulher quem trabalha para ele, apesar de já estar à espera de outro filho. Tenho-o visto na botica, a beber e a fazer apostas nos combates de galos. Um patife, señor Willer. Mas nenhum mexicano erguerá sequer um dedo, quando souberem que veio aqui para o prender.
— Tenho um mandado de captura, Don Herédia, e basta-me o seu auxílio para poder cumprir a minha missão. Deixe-me narrar-lhe o caso com mais pormenores: Gonzaga e o seu bando assaltaram um rancho há alguns meses, mas não se contentaram com 200 cabeças do melhor gado do Texas; feriram também gravemente o rancheiro, depois de lhe violarem a mulher e a filha. Quando chegou auxílio, a casa ardia e muitos cadáveres de animais domésticos juncavam o solo. Os bandidos destruíram sem piedade tudo o que não puderam levar. É por isso que quero capturar Gonzaga, o único que, até agora, conseguiu fugir à justiça. Esse patife merecia a forca, mas Yuma pode ser, para muitos, um castigo ainda pior!…
— Lamento, mas não creio que possa ajudá-lo. Sei que é um desses Texas Rangers de quem tanto se fala e que nunca desiste de apanhar o seu homem. Mas bem vê, señor Willer, aqui, apesar da sua reputação, não passa de um estrangeiro, um gringo. Esta gente pode não gostar de Gonzaga, mas, por lealdade, unir-se-á toda para o defender. Julgo que conhece os mexicanos, señor. Posso dizer-lhe onde está o homem que procura, mas de que serve isso? Cruzar-se-á com tantos olhares hostis que será obrigado a desistir. Esconderão Gonzaga fora da aldeia, se for preciso, dar-lhe-ão de comer e vitoriá-lo-ão quando o senhor se for embora. Depois, tudo voltará à mesma. Gonzaga continuará a beber e a bater na mulher. Chamar-lhe-ão malo hombre e qualquer dia, numa rixa, alguém lhe espetará uma faca na barriga. Mas que importa isso? São seus vizinhos! Está a perceber-me, señor?
Tex não respondeu. Era evidente que o alcalde tinha razão. Mas ele viera ao México para prender Gonzaga, seguindo uma lenta pista que começara em Austin, há três meses, depois do assalto àquela herdade onde havia as melhores cabeças de gado do Texas e uma família que ficara para sempre destruída. Tex era um homem teimoso e não voltaria a casa sem ter cumprido a sua missão. Tinha carta branca dos rangers para agir, além de um salvo-conduto passado pelas autoridades mexicanas.
Infelizmente, o seu velho pard Kit Carson, cuja resmunguice bem-humorada ajudava a amenizar o tédio das longas cavalgadas, não pudera acompanhá-lo desta vez.
A noite estava quente, cheia de trinados, e Juan Herédia levou Tex até ao largo pátio espanhol nas traseiras da residência, onde uma árvore centenária estendia os ramos frondosos por cima dos muros. Apesar da singeleza dos seus hábitos em família, o alcalde vivia na melhor casa da aldeia e era visível o orgulho com que a mostrava ao visitante. O luar prateava as folhas e o tronco da velha árvore, as cigarras cantavam e um suave perfume envolvia o pátio, como uma presença feminina, aumentando o sortilégio da noite mexicana.
— Obrigado por me expor tão francamente a situação! — disse Tex, depois de uma longa pausa em que os dois homens permaneceram em silêncio, como que absortos na contemplação do fumo que se desprendia dos seus cigarros. Tex munia-se sempre, em viagem, de uma boa provisão de tabaco e oferecera um maço ao seu hospedeiro, que não escondeu a sua alegria.
— Muchas gracias, señor Willer! Raramente tenho o prazer de trocar o meu velho cachimbo por outros hábitos… como quando andei na guerrilla com Juarez, junto à fronteira. Os gringos que se juntavam a nós para combater Maximiliano e os franceses traziam-nos armas, dinheiro e cigarros… muitas armas e muitos cigarros! — exclamou o mexicano, aspirando deliciado o fumo suavemente aromático do tabaco da Virgínia.
— Conheceu o Imperador Maximiliano, Don Herédia?
— Lutei contra ele em Queretaro e estive ao lado de Juarez quando o usurpador foi fuzilado. Nesse dia, acabou o seu império… e renasceu o México!
Tex arqueou os lábios, soltando outra baforada de fumo, e meneou a cabeça numa espécie de vénia.
— É uma grande honra para mim, Don Herédia, conhecer um ex-juarista… um patriota!
Depois da alegre balbúrdia que saudara a chegada do gringo e a sua presença à mesa como conviva, a casa parecia agora estranhamente silenciosa. Era tarde e as mulheres e as crianças já deviam estar a dormir. Tex pensou em Lolita, que, durante o jantar, correspondera timidamente aos seus olhares lisonjeiros, e lamentou só ter trocado duas ou três palavras de circunstância com ela. Não era muito pródigo em elogios à beleza feminina, mas sabia apreciá-la quando a tinha à sua frente.
— Bem, amanhã, verei o que posso fazer — disse o forasteiro, sentindo chegar o momento da partida. — Mas como sabe, Don Herédia, para um ranger a sua missão é sagrada, quaisquer que sejam as dificuldades que encontrar pelo caminho.
— Ay! Esse famoso culto do dever, essa indomável vontade de lutar até ao fim! Foi por isso que aqui no México lhes chamaram “los diablos tejanos”, durante a guerra de 46 com os seus compatriotas. Mas aplaudo a sua ideia, señor Willer. À luz do dia, temos sempre outra perspectiva das coisas.
Não havia sombra de azedume naquele comentário sobre uma guerra que custara ao México boa parte do seu território e Tex sorriu, satisfeito, pensando que o encontro em casa do alcalde não podia ter acabado de forma mais amena. Despedindo-se de Juan Herédia, depois de lhe agradecer a magnífica hospitalidade, o ranger voltou à pousada e foi guardar o seu cavalo no estábulo anexo.
Chamava-lhe Dinamite, em memória do seu antigo companheiro, um animal quase tão lendário como Pégaso, que estava agora enterrado na reserva dos navajos. Quantas cavalgadas tinham feito juntos, como amigos inseparáveis, quantas aventuras tinham vivido ao longo de muitos anos, até em regiões longínquas, quantos obstáculos, quantos inimigos e quantas ameaças tinham enfrentado com a mesma audácia e o mesmo desprezo pelo perigo!… Tex continuava a pensar com afecto no seu velho companheiro, mas as saudades eram mitigadas pelo novo Dinamite, que parecia ter herdado também as melhores qualidades da raça: nobreza, inteligência, vigor e uma dedicação sem limites pelo dono. Era como se não houvesse qualquer diferença, em muitos aspectos, entre o primeiro e o segundo Dinamite!
Quando saiu do estábulo, a praça estava deserta. Ouvia-se, algures, o som dolente de um violão e uma voz que cantava. Tex, cujo espanhol era quase fluente, distinguiu alguns versos da canção, entoada por uma voz masculina, que vibrava languidamente, com um tom fatalista, nas cordas tangidas por dedos exercitados.

Siempre con mi dolor
Como fiel compañera,
Voy como un trovador
Que sueña con su quimera.

Um magnífico céu estrelado estendia-se sobre as montanhas banhadas pelo luar. Tex lembrou-se de outras noites de verão no Texas, tão luarentas como aquela, mas, fatigado pela viagem, adormeceu depressa, como o alcalde vaticinara, mergulhando num sono tranquilo, povoado por imagens dos ardentes chaparrais do México, que se fundiam com a figura esbelta e os suaves olhos negros da filha de Juan Herédia.

“SANGRE Y MUERTE”

Tex acordou bruscamente poucas horas depois, como se saísse de um vago torpor, ao ouvir gritos na rua.
«Que algazarra é esta?» — perguntou a si próprio, acercando-se da janela. San Felipe parecia varrida por um ciclone. Na luz ainda incerta da madrugada, a rua e o largo, em frente da igreja, estavam cheios de gente que corria e gritava, numa confusão indescritível.
À entrada do pueblo, alguns homens erguiam uma barricada com carros e sacos de areia. Os sinos da igreja começaram a repicar com um som plangente, dominando os gritos da multidão.
Tex ouviu bater à porta do quarto e apressou-se a ir abri-la. A face congestionada do alcalde, muito diferente do rosto alegre e bonacheirão que ele conhecera na noite anterior, fitou-o com uma expressão de alarme.
— Venha depressa, señor Willer! Os índios vão atacar-nos! Toda a gente está a procurar refúgio na igreja!
Sem perder tempo, Juan Herédia conduziu o americano até ao largo onde a multidão engrossava a cada instante. O êxodo tinha começado nos arredores da aldeia, onde havia casebres espalhados e pequenas haciendas indefesas.
A igreja, construída de pedra, com a sua pesada porta de madeira maciça e as paredes picotadas de balas — recordação de ataques anteriores —, tinha o ar de uma verdadeira fortaleza.
Pelo caminho, o alcalde explicou a Tex o que se passava. De madrugada, um mensageiro chegara, a toda a brida, com notícias de uma razia dos apaches coyoteros, vindos do outro lado da fronteira, em som de guerra e de pilhagem. Duas aldeias ao norte, distantes poucos quilómetros de San Felipe, tinham sido atacadas e destruídas durante a noite. Ninguém sabia onde estavam os rurales, uma pequena força que patrulhava a região, e, sem telégrafo nem outro contacto com o exterior, urgia pensar na própria defesa.
— Venga, señor. Na igreja estaremos em segurança. É um velho mas sólido edifício, construído pelos espanhóis, quando San Felipe se transformou numa vila importante com a chegada dos missionários. Apesar da confusão que reina em todo o lado, não estamos completamente desprevenidos, señor Willer. Há tempos, formei uma milícia com os melhores atiradores da aldeia, por causa das investidas dos apaches.
— Bravo, Don Herédia. Assim, já podem assegurar a vossa defesa. Espero que tenha seguido o nosso exemplo. A disciplina e o treino são essenciais num grupo desses… tal como nos Texas Rangers.
— Não é fácil incutir disciplina num peón que nunca combateu, habituado apenas a amanhar a terra. Mas são homens valentes e orgulho-me deles. No último assalto, os índios levaram que contar!
— Por que há tantos problemas com os apaches no México?
— Por causa das perseguições, señor Willer, da semente do ódio que germinará sempre entre apaches e mexicanos. Dantes, eles eram ladrões de gado, que viviam escondidos na Sierra Madre, e só atacavam quando tinham fome. Mas, apesar disso, foram caçados como lobos e os seus escalpes valeram dinheiro, muitos dólares de prata, pagos pelo próprio governo central. Eram os fatídicos “contratos de sangre”, que acabavam por recair também sobre os índios pacíficos. Houve gente que se aproveitou disso, sem respeitar mulheres nem crianças. Triste medida, señor Willer. Deviam ter punido esses homens, esses “scalphunters”, na sua maioria gringos, que agiram como selvagens. Há muitas viúvas e muitos órfãos no México por causa deles. Agora, os apaches, para se vingarem, destroem as nossas colheitas e as nossas casas!
— Tem razão, Don Herédia. Os apaches foram vítimas de muitas injustiças… tanto num como noutro lado da fronteira! — retorquiu Tex, estugando o passo para acompanhar o alcalde, que em face do perigo revelava uma inesperada energia. — Não são selvagens sedentos de sangue, como muitos os descrevem, mas as suas represálias provocam ainda mais ódios. Para eles, a vingança é uma dívida de honra. Só Cochise compreendeu que o futuro dos chiricahuas e de toda a nação apache residia na paz, na convivência com os brancos, e não numa permanente luta de guerrilha.
— Parece conhecer bem os apaches, señor Willer.
— Sim, tenho uma longa relação com eles e com os navajos, que me chamam “Águia da Noite”. Até ajudei Cochise a resolver algumas crises, como a do massacre de Santa Rita del Cobre, onde muitos apaches, sobretudo mulheres e crianças, caíram numa traiçoeira armadilha.
— Não o censuro por ser amigo dos apaches. Cochise era um grande chefe.
— Bem sei, e tenho orgulho em ser seu “irmão de sangue”. Mas as surtidas dos apaches não vão continuar por muito tempo, Don Herédia, isso lhe garanto. Geronimo já se rendeu várias vezes e não tardará a cansar-se da guerrilha. Cada vez são menos os bravos que o seguem. E quando ele finalmente entregar as armas, os últimos bandos dispersar-se-ão e a paz voltará, pouco a pouco, à fronteira.
— Madre de Dios! Espero que tenha razão! — exclamou o alcalde, sem diminuir a sua passada larga e ágil, um pouco jingada, que Tex observava curiosamente, recordando-se de alguém que também caminhava assim: o seu amigo Montales.
Um caudaloso rio humano precipitava-se para a igreja, soltando gritos de pânico. Era um longo cortejo de carroças, homens, mulheres, crianças, e até animais. Aquela pobre gente procurava salvar o que podia dos seus parcos haveres, esquecendo-se de que a igreja era pequena para os conter a todos. Muitos teriam de abandonar, à mercê dos índios, o fruto de uma vida inteira de trabalho.
— Es muy triste, señor Willer, muy triste! Que espectáculo tão diferente do de ontem! Pero… que podemos fazer? — comentou o alcalde, quando os refugiados começaram a entrar na igreja. — Se não fossem os apaches, o povo de San Felipe estaria agora a assistir à primeira missa, antes de um novo dia de trabalho.
— Por que se dirigem todos para aqui… e carregados com tantas coisas? — perguntou Tex, admirado com o que via.
— A igreja é o único refúgio seguro. Claro que aqui dentro o que conta é a vida humana… sobretudo a das mulheres e das crianças. Mas não lhes posso recusar que tragam alguns dos seus bens… senão entregar-se-iam ainda mais ao desespero!
— Mas como é que consegue organizar a defesa com tanta gente a atrapalhar os seus movimentos?
— Já estou habituado, señor Willer. O que importa é não deixar ninguém para trás.
Tex avaliou rapidamente a situação. Mesmo escolhidos entre os melhores e os mais valentes, os defensores chefiados pelo alcalde eram poucos e estavam mal armados, com carabinas de modelo antiquado, algumas com mais de vinte anos. E os restantes camponeses só tinham enxadas, foices, forquilhas e catanas. Se os apaches atacassem em grande número, não seriam tão facilmente repelidos como nos assaltos anteriores. Juan Herédia enviara um homem a cavalo à procura dos rurales, mas andavam outros bandos de apaches na região e o próprio mensageiro corria perigo.
Finalmente, o êxodo da população terminou e um grande silêncio desceu sobre o pequeno povoado. Na igreja, pelas seteiras da torre do sino, nos postigos defendidos por grossas grades, espreitavam canos de velhas espingardas. Homens, mulheres e crianças comprimiam-se uns contra os outros, cheios de angústia. No meio daquela confusão de mulheres que gemiam, galinhas e patos que esvoaçavam, porcos e cabras que guinchavam, burricos que agitavam nervosamente as orelhas e a cauda, ouvia-se também, leve como um zumbido, o murmúrio de orações. As crianças, agarradas às saias das mães, pareciam mais curiosas do que assustadas.
Juan Herédia organizava a defesa, distribuindo a cada homem o seu posto de combate, tranquilizando as mulheres e as crianças com uma espécie de ternura paternal, falando a todos como se fossem da sua própria família.
— Coragem, Dona Lupe. Então, Paco, hombre de Dios, que tremores são esses? Tens de dar o exemplo aos teus filhos. Venham cá, muchachos, o avô Juan quer que se portem como homenzinhos!
Todas as crianças gostavam dele. Era o velho «avô Juan», sempre paciente e terno, uma espécie de patriarca da aldeia, bonacheirão nos dias de festa, corajoso e calmo em face do perigo. Ao ver que Tex fora buscar o seu cavalo, sorriu e disse:
— Gosta dessa montada, verdad, señor Willer? Um homem de acção, um ranger como usted, distingue-se pela forma como cuida das suas armas, mas também do seu cavalo. Seria pena que este  belo animal caísse nas mãos dos apaches!
Depois, mirou curiosamente a carabina do americano, uma Winchester 73, de calibre 44, tiro rápido e preciso.
— Entonces, foi com esta arma que os gringos conquistaram o Oeste e venceram os índios?
— Sabe quem inventou essa frase, Don Herédia? Jornalistas, escritores e políticos, gente do Leste… Mas a lenda é verdadeira!
— O nosso saudoso presidente Benito Juarez, El Índio, recebeu muitos «presentes» deste género quando a revolução estava no auge. Eram carabinas Henry, que disparavam 16 balas em 10 segundos. Podíamos atingir um inimigo a 200 metros. Juarez ficou entusiasmado. Então, não havia tantos apaches no México, mas os tempos também eram maus. O nosso país fora invadido por tropas estrangeiras e o governo caíra nas mãos de um fantoche imperialista. Tem corrido muito sangue nesta terra, señor Willer… e há-de continuar a correr. Sangre y muerte! Gostaria que, quando os meus netos fossem crescidos, já não se ouvisse este grito no México!
Baixou a cabeça, mergulhado em tristes pensamentos e, por instantes, pareceu que o desânimo lhe alquebrava os ombros fortes. Mas logo os seus olhos escuros, em que chispava um clarão de energia, fitaram novamente o americano.
— Pero, señor Willer, há coisas mais importantes a fazer, agora, do que ouvir as lamentações de um velho alcalde. Sei que é um homem que vale mais do que uma dúzia de pistoleros e que fará muitos estragos entre os atacantes com a sua lendária pontaria. Desejo-lhe suerte, señor!
Tex encarregou-se da defesa do ponto mais vulnerável: a pequena porta das traseiras, na sacristia repleta de refugiados. Ao ocupar o seu posto, viu Lolita junto de um grupo de mulheres que rezavam. Os olhos escuros da rapariga fitaram-no com uma expressão ao mesmo tempo tímida e doce. Tex sorriu. Era uma moça guapa e instruída, que falava correctamente inglês como o pai. Pena que tivesse nascido naquele lugar ermo, onde as mulheres trabalhavam tão duramente como os homens, sacrificando a beleza e a juventude para arrancarem à terra seca e poeirenta o seu sustento.
Encostado à parede, com a espingarda entalada debaixo do braço, Tex enrolou vagarosamente um cigarro. Era um homem solitário, que não tinha tempo para pensar em mulheres, mas sentia a monotonia das longas horas preenchidas somente pelo cumprimento do dever. Apesar da amizade fraternal de Carson e do amor do seu próprio filho, o jovem Kit, invejava por vezes aqueles que tinham uma mulher à sua espera, no fim de um longo dia de trabalho. As tarefas mais árduas passavam, então, para segundo plano, mercê de um sorriso, de dois braços cheios de calor, do palpitar de um coração terno.
Lilyth, a sua jovem mulher índia, era uma recordação distante, que lhe despertava ainda dolorosos pensamentos. Graças a ela, soubera, durante umas breves núpcias, o que era a felicidade. Mas a Lilyth devia mais do que a felicidade — devia a própria vida, pois ela fora a «Pocahontas» que o salvara de morrer no poste de tortura.
Franziu a testa ao pensar que Lilyth e Lolita eram nomes com uma pronúncia estranhamente semelhante. Estaria o destino a segredar-lhe alguma coisa?
Esqueceu o cigarro entre os dedos, perturbado. Depois, voltou a olhar as camponesas que rezavam. Lolita sorria, entre o medo e as lágrimas reprimidas das outras, e o seu sorriso era estranhamente reconfortante para ele, um homem sem lar, sem mulher, sem vida amorosa.
Os mexicanos tinham ajoelhado, voltados para o altar, onde um frade dominicano, de rosto seco como um velho pergaminho, erguia os braços, dando a bênção. Tex não conseguia lembrar-se de nenhuma oração, nem mesmo daquelas que decorara maquinalmente em criança, quando a mãe o obrigava a acompanhá-la à missa. E sentiu-se só, um homem que tinha de percorrer ainda um longo caminho semeado de lutas e de ódio, um homem demasiadamente habituado à companhia das armas, demasiadamente orgulhoso, para ajoelhar, como faziam os mexicanos, e simplesmente, humildemente, recolher-se por instantes e escutar a voz da própria consciência.
No fundo, embora estivesse ao serviço da Lei, era um pistoleiro, fiel aos rudes e primitivos códigos do Oeste, um caçador de homens, rápido no gatilho, que não dava tréguas aos seus inimigos. Talvez se Lilyth não tivesse morrido tão cedo, ele se sentisse agora mais humano, mais capaz de amar, de levar uma vida tranquila “caçando e domando cavalos” (1), em vez de seguir, em nome da justiça, a trilha da violência e da vingança.
(1) — Alusão a uma frase proferida por Tex no decurso do episódio “Nos Rastros de Tom Foster”, de G.L. Bonelli e E. Nicolò (Tex Colecção n.º 222, Julho de 2005, Mythos).
Sangre y muerte!…
Como as palavras de Juan Herédia lhe pareciam o eco de outras bem familiares… Blood and death! Não fora essa a estrela que norteara a sua vida nos últimos vinte anos?
Quando era mais novo nunca se preocupara com o seu destino, pois acreditava que ele fora talhado pelo caminho da aventura e da liberdade que escolhera, junto dos seus pards e da tribo de navajos confiada à sua guarda. Para os defender e a outras causas que considerava justas, agira algumas vezes à margem da lei, movido por um inabalável imperativo moral, seguro da sua razão, do seu direito e da sua força. “His own brand of justice”, como orgulhosamente definia esse modo de agir. Mas não estaria a enganar-se a si próprio?
Lembrava-se, a propósito, de ter lido num jornal do norte, muito fértil em estatísticas, que ao longo da sua carreira de agente da lei abatera ou prendera mais de 3.000 foragidos à justiça. Era um número impressionante, mas que parecia suscitar algumas reticências ao próprio jornalista. Tanta eficácia e tanto zelo pela lei podiam ter um efeito adverso na opinião pública, tão volúvel como a opinião dos políticos, transformando o herói em algoz, num pistoleiro sem piedade, e os bandidos em vítimas. O próprio Tex, no meio de tantas dúvidas que assolavam o seu espírito, gostaria de encontrar uma resposta para a mais importante de todas as perguntas: seria esse o verdadeiro caminho da justiça?
Na rua, levantou-se um súbito burburinho. O ar encheu-se de clamores ferozes. Todos correram para os seus postos. Os apaches tinham destruído a barreira de carros sem esforço, incendiando-a, e semeavam a destruição na aldeia. Era um bando mais numeroso do que anteriormente e parecia embriagado pelo furor do saque e da matança. Depois de lançarem fogo às primeiras casas da povoação, cujos telhados de colmo ardiam como uma grande fogueira, dividiram-se em dois grupos e avançaram para a igreja.

Tinham armas mais modernas que as dos mexicanos, fornecidas pelos traficantes da fronteira, que as roubavam ao Exército. Um dos grupos, cobrindo-se com cerrado tiroteio, deslizou para as traseiras da igreja. Tex não precisou que o avisassem. Estava alerta e, mal a cabeça de um apache surgiu ao alcance da sua mira, a Winchester troou numa série de disparos rápidos e mortíferos.
Juan Herédia orientava o fogo dos mexicanos e a primeira vaga de assaltantes não tardou a bater em retirada. Os dois bandos dispersaram-se e, durante uma hora, o saque do pueblo continuou. Os coyoteros pilhavam tudo o que podiam, antes de deitarem fogo às casas, soltando clamores selvagens. Garrafas de tequilla passavam de mão em mão e a embriaguez aumentava o ódio e a fúria dos apaches, que pareciam dispostos a deixar apenas ruínas e mortos atrás de si. Espessas nuvens de fumo negro pairavam sobre a aldeia.
Num canto da plaza, ainda há poucas horas invadida por rumores festivos, as paredes sólidas da igreja erguiam-se como um rochedo invulnerável no meio da tempestade.

A ÚLTIMA ESPERANÇA

Inquieto com o rumo que os acontecimentos tomavam, Herédia mandou um homem subir à pequena torre do sino e vigiar os movimentos dos assaltantes. Tex ouviu-o exclamar em surdina, como se falasse consigo próprio, embora se dirigisse ao americano que o destino tornara seu companheiro de luta:
— Espero que não tenham destruído também a minha casa. Confesso, señor Willer, que não esperava uma devastação tão grande. Este ataque é pior do que os outros!Semicerrou os olhos, como se fitasse um ponto distante, perdido no horizonte, e acrescentou, com um suspiro, encolhendo os ombros:— Com estes índios, excitados pelo mescal e pela tequilla, temos tantas hipóteses de parlamentar como com uma matilha de cães selvagens! Mas as casas são o menos importante. As paredes e os telhados podem refazer-se…Arguto e inteligente, Tex compreendeu que uma das maiores preocupações de Juan Herédia era a sua velha árvore, esse gigante centenário, talvez o maior e mais antigo das redondezas, cuja sombra já abrigara muitos dos seus familiares.— San Felipe ainda está muito atrasado, señor Willer. Se tivéssemos telégrafo, não seríamos atacados tantas vezes. Mas, no México, com tantas revoluções e tantas mudanças de governo, o progresso é muito lento. Como eu invejo os gringos! Fizeram uma guerra entre norte e sul, uma espécie de revolução, ainda mais sangrenta do que as nossas, para enterrar o passado, para acabar com as desuniões. Aqui, no México, vivemos à sombra da guerra, do passado… sem esperança de futuro!
Tex concordava com as palavras do alcalde. Lembrava-se da Guerra da Secessão, do rasto sangrento que deixara e da influência que tivera no destino de tantos homens. Uma guerra para acabar com a escravatura… que, pela voz de um homem, de um Presidente idealista, ensinara a muitos americanos o valor da liberdade. Uma causa nobre que tivera um elevado preço… um terrível conflito bélico que também nele deixara marcas. Mas, para unir o país e construir o futuro, fora preciso esse sacrifício.
Talvez a servidão no México também acabasse, um dia… mesmo à custa de outra revolução e de outra mudança de governo. Devia ser esse o maior sonho de Juan Herédia.
Pela primeira vez, nessa manhã, Tex lembrou-se da missão que o trouxera a San Felipe. Estaria Ramón Gonzaga entre os refugiados? Com o seu apurado instinto de caçador, o ranger sentia que estava perto da presa, mas que era esta, escondida, que o observava.
Carson costumava dizer, por piada, que ele tinha olhos na nuca. Mas esses olhos, agora, apenas pressentiam o perigo, não o viam. Perigo? Tex teve vontade de troçar dos seus próprios pensamentos. A única ameaça, naquele momento, vinha do exterior, onde um bando de índios embriagados e tão belicosos como um touro na arena se preparava para atacar novamente a igreja, depois de ter destruído quase metade do pequeno povoado.
As tréguas tinham restabelecido a confiança e a calma entre os sitiados, mas Tex e o alcalde sabiam que elas eram de curta duração, porque aquele bando não se contentava só com a pilhagem. Também queria troféus de guerra: escalpes, armas, mesmo antigas como as dos mexicanos, relíquias e reféns para venderem aos traficantes. A luta ia ser dura, pensou Tex.
E, pouco depois, o tiroteio reco­meçou. Os coyoteros corriam de esquina em esquina, dispa­rando sempre, em grupos de dois ou três para oferecerem menos alvo. Quando chegaram ao terreno descoberto em frente da igreja, avançaram isolada­mente, escudando-se com os corpos dos companheiros mor­tos no primeiro ataque. Não se aproximaram das traseiras da igreja, onde a arma de Tex os repelira duramente da primeira vez. O assalto agora era frontal e Tex correu a ajudar Juan Herédia e os seus companheiros.
Apesar do fogo cerrado dos defensores, os coyoteros conseguiram, pouco a pouco, ganhar terreno e aproximar-se da igreja. Um súbito silêncio caiu sobre a povoação. Sitiados e atacantes suspenderam o fogo. Dentro da igreja, as mulheres e as crianças não paravam de rezar. Tex regressou ao seu posto, mas não havia indí­cios de movimento nas traseiras do velho edifício.
De repente, gritando como demónios, quatro ou cinco apa­ches saltaram pelo telhado, que pareceu desmoronar-se sob os seus pés, como se as traves apodrecidas tivessem ruído, naquele instante, sob o peso dos séculos. Houve alguns se­gundos de confusão, enquanto soavam gritos de pânico e os camponeses, demasiado atónitos para se de­fenderem, eram ceifados pelas balas dos atacantes.
Juan Herédia foi o primeiro a recuperar o sangue-frio e, erguendo a arma, abateu um índio que corria para ele. Travou-se luta corpo a corpo, feroz e desesperada, mas os apaches, ágeis e bravios como pumas, levaram a melhor.
De­pois de abrir caminho até ao altar, um guerreiro corpulento, com a cara pintada de vermelho, agarrou um crucifixo de prata e brandia-o em sinal de triunfo, ululando ferozmente, quando um mexicano, num golpe certeiro, lhe cravou uma catana nas costas, prostrando-o aos pés do altar. Tex, com um sangue-frio e uma ra­pidez espantosos, pôs fora de combate os três restantes.

O mexicano olhou para ele e riu em silêncio. Aquela face angulosa e escura, sulcada por rugas fundas e marcas de varíola que lhe davam um ar rude, quase patibular, não era estranha ao ranger, que se lembrou dos cartazes representando Ramón Gonzaga, o bandido. Mas antes que pudesse observar melhor o homem, uma explosão abalou a porta principal, derru­bando-a. Um inferno de fogo e fumo acompanhou o estrondo ensurdecedor.
Aproveitando a luta no inte­rior da igreja, os apaches tinham feito saltar a porta com dinamite. E agora nada parecia ser capaz de detê-los. Houve uma debandada geral para a sacristia. Só o alcalde, Tex e poucos mais, ficaram para defender a entrada. Entre o fumo denso, os vultos dos coyoteros avançavam curva­dos, ziguezagueando para escapar às balas. Pareciam nascer do chão, como formigas, e os seus gritos de guerra tinham um clamor de triunfo. Mas as barreiras que os mexicanos tinham erguido com os bancos da igreja e os próprios animais, na ânsia de fugirem, embaraçavam os seus movimentos, tornando-os um alvo mais fácil.
Apesar da gravidade da situação, Tex não pôde evitar um pensamento irónico:
— Que pandemónio! Parece mais uma feira do que um campo de batalha!
O ranger fazia prodígios com a Winchester, mas uma única arma de grosso calibre não podia suster o furioso ataque. De repente, sentiu uma queimadura no braço direito e largou a cara­bina. Mal teve tempo para empunhar um dos colts com a mão esquerda e disparar, abatendo um apache que se atirara contra ele, de punhal em riste, e cujo corpo inerte não pôde evitar na queda.
— Bravo, señor Willer! Mesmo ferido e em desvantagem, não falha um tiro! — exclamou Juan Herédia, com uma vibração de entusiasmo na voz enrouquecida pelo fumo.
— A questão não está só em apontar bem, para não desperdiçar balas… mas em saber quantas ainda nos restam! — volveu Tex, libertando-se a custo do apache que tombara sobre ele.
Juan Herédia assentiu gravemente, com um aceno de cabeça, e ajudou o ranger a voltar para a sacristia, onde Lolita começou a tratar-lhe do braço. Nos lin­dos olhos da rapariga havia uma expressão de terror, mas esse olhar transfigurava-se quando um ferido ou uma criança se aproximavam dela, em busca de auxílio ou de uma palavra de conforto.
— Não é possível detê-los, pois não, señor Willer? — perguntou numa voz abafada e ligeiramente trémula. — Oh! Virgem Santa de Guadalupe protege as crianças!
Era muito jovem ainda, mas, ao pé das outras raparigas, parecia a mais firme e a mais corajosa. Tex fitou-a, sentindo também o desespero invadi-lo, um desespero surdo, feito de raiva, ódio e impotência. Pela primeira vez na sua vida cheia de aventuras e de perigos, pensou que não voltaria a ver os seus companheiros de longa data e que, ao cabo de tantas peripécias, o destino o traíra, sem lhe permitir que acabasse a tarefa que o trouxera de novo ao México.
O tiroteio continuava, entrecortado por curtas pausas, mas o ranger tentou tranquilizar Lolita, falando-lhe num tom calmo e seguro:
— Chiquita, usted acredita em Deus… e essa é uma boa razão para não perder a esperança. Eu sou um gringo, um estrangeiro sem fé, mas enquanto for vivo não deixarei que nenhum desses diabos lhe toque!
Lolita encarou-o, com uma expressão diferente, misto de surpresa e de comovido orgulho. Por momentos, Tex re­sistiu à tentação de a beijar. Mas o impulso foi mais forte e uniu os seus lábios aos da jovem, num beijo que encerrava um mundo de promessas — promessas que talvez nunca pudesse cumprir, em que ele próprio não acreditava.

Era como se as barreiras que os separavam, de raça, de religião, de país, e até de idades, se tivessem desmoronado, de repente, por causa do perigo que pairava à sua volta… e da atracção que nascera entre ambos, sem que nada a pudesse impedir. E Lolita sentiu, com irreprimível alegria, que esse beijo de amor, tão espontâneo e tão puro, lhe devolvia a esperança.
Juan Herédia fitou-os e no seu rosto sujo de pólvora brilhou um sorriso enternecido. Ao seu lado, um grupo de mulheres idosas sorria também, como que esquecidas momentaneamente do perigo.
Tex era um homem que não temia a morte, mas naquele momento sentia-se mais agarrado à vida do que nunca. Talvez por causa de Lolita… e do tempo que ainda poderia viver, se escapassem ao assédio dos coyoteros, de modo diferente do passado. Uma feroz vontade de lutar, de vender cara a vida, de proteger a rapariga e as crianças com o seu próprio corpo, como se fosse invulnerável, galvanizava-o, fazendo-o esquecer o ferimento, a escassez de balas, a superioridade dos atacantes.
Mas, por outro lado, Tex sabia que esse sentimento era perigoso. Tinha de controlar, pondo-se em guarda, as suas emoções e os seus instintos, para não desperdiçar nenhuma vantagem sobre os seus inimigos… como a presa que, mesmo encurralada, espreita sempre o ponto mais fraco do caçador. Um ranger com a sua têmpera e a sua experiência não podia perder o sangue-frio.
Foi então que aconteceu uma espécie de milagre: da rua, chegou um clamor de tiros e de tropear de cavalos. Eram os rurales, uma força pequena mas aguerrida, que carregava sobre os apaches com o ím­peto de uma avalanche. Apa­nhados entre dois fogos, os coyoteros procuraram a sal­vação na fuga, mas poucos o conseguiram. Travou-se um curto mas violento combate e, quando Juan Herédia saiu da igreja, acompanhado por todos os sobreviventes, a plaza estava juncada de corpos de índios abandonados pelos seus irmãos de raça. Se os coyoteros tivessem aprendido a lição, não voltariam tão cedo àquelas paragens.
A paz des­cera novamente sobre a aldeia, uma paz ensombrada pela angústia e pela dor dos que choravam os seus mortos e as ruínas das suas casas. Felizmente, a do alcalde fora poupada, mais uma vez, e a copa altaneira da velha árvore continuava a espreitar sobre os muros.
Em contraste com o fumo e as cinzas que ainda pairavam sobre o pueblo, uma luz radiosa banhava as colinas vizinhas, em sinal da aliança — como dizia o frade dominicano, arengando aos camponeses — entre a fé dos homens e a esperança divina. E, de facto, tanto para os mexicanos como para Tex, esse amanhecer radioso, depois do sangrento combate travado com os coyoteros, era como que uma ressurreição!
Juan Herédia, com uma expressão de júbilo no rosto tisnado, aproximou-se do ranger e tocou-lhe num ombro.
— Gracias pelo seu auxílio, señor Willer. Sem si, não teríamos resistido tanto tempo. Foi um exemplo, um baluarte, para todos nós, com a sua força calma e segura. É mais do que um amigo, agora é um dos nossos. Mas lamento que já não possa cumprir a sua missão. Gonzaga morreu. Veja, foi ali que ele caiu… abatido por uma bala perdida.
Tex olhou na direcção apontada, reparando no vulto curvado de uma mulher que chorava, junto do corpo do bandido. Juan Herédia soltou uma exclamação de pesar:
— Pobrecita! Ficou sem marido e sem casa!
— Um fim inglório para um bandido da sua espécie. Foi ele quem matou aquele apache ao pé do al­tar, não é verdade, Don Herédia? Nunca vi ninguém servir-se de uma catana com tanta perícia.
— Si… Gonzaga bateu-se como um valiente, defendendo as preciosas relíquias que são o maior orgulho da nossa igreja. Mas pa­rece que Deus quis fazer justiça por Suas mãos!
— Um ladrão regenerado… que não deixa roubar os tesouros da sua paróquia! Não fazia essa ideia de Ramón Gonzaga! — volveu Tex, num tom de velada ironia. — Sei que ele me reconheceu. Vi-o olhar para mim e sorrir, com um esgar estranho, como se me desafiasse. Talvez estivesse à espera de uma oportunidade para me atacar, durante o combate.
— Está enganado, señor Willer. Gonzaga não comparecia à missa, mas era baptizado como a maioria dos mexicanos. Nunca cometeria um pecado tão imperdoável numa igreja!
— Mas correu muito sangue aqui dentro. Também nós lutámos ferozmente, sem pensar onde estávamos. Bem sei que era matar ou morrer!… Sou amigo dos índios, como lhe disse, Don Herédia, mas os coyoteros não nos deram alternativa.
— São dilemas que transcendem a minha humilde compreensão, señor Willer, e que usted, habituado ao uso das armas, encara melhor do que eu.
— Mas disse-me que andou na guerrilla, Don Herédia.
— Era novo e idealista, señor Willer, e juro pela Virgem que nunca matei senão em legítima defesa. Quando a vida está em jogo, Deus concede-nos o direito de a defendermos contra os nossos inimigos. É por isso que esta igreja simboliza o último refúgio, a última esperança daqueles que se vêem encurralados, à mercê de selvagens impiedosos. O que torna este chão, para nós, ainda mais sagrado!
Em palavras simples, repassadas de fé, Juan Herédia dera um sentido mais transcendente ao dilema evocado pelo gringo.
Tex olhou em volta e suspirou, sentindo uma espécie de alívio. Voltava a sentir-se tranquilo e seguro de si, como se todos os pensamentos amargos, todas as dúvidas e incertezas com que se debatera, numa repentina reviravolta do seu espírito, se tivessem dissipado no final do combate, varridos pelos ventos da vitória, a vitória que sempre lhe sorria, bafejando-o como um velho e precioso amuleto índio.
Um ranger, um pistoleiro como ele, raramente tinha tempo de pensar antes de reagir ao perigo, porque esses momentos decisivos exigiam, além de nervos de aço, reflexos e impulsos rápidos como o relâmpago. Daquela vez, porém, tudo fora diferente. O tempo de espera e o próprio ambiente da igreja, onde se comprimia uma multidão angustiada, e sobretudo a presença de Lolita, cujo suave encanto lhe despertara um forte instinto de protecção, tinham contribuído para essa vaga de pensamentos insólitos, numa espécie de crua introspecção do passado.
“Talvez seja um sinal de maturidade!”, pensou o ranger, franzindo os lábios num sorriso divertido.
Mas poderia contar a Carson, a Jack Tigre e ao seu filho que aquela jornada solitária até um pequeno pueblo mexicano, em busca de um criminoso, coincidira com um momento de profunda meditação, em que bruscamente sentira despertar a consciência dos seus próprios actos? Como lhes explicar que até os homens mais duros e invencíveis, de sólida e legendária têmpera, podiam, por vezes, abrir brechas e questionar-se a si próprios? Bem, talvez, no fundo, eles compreendessem. Afinal de contas, também gostavam de cavalos. E Tex sorriu de novo, quando esta ideia lhe cruzou a mente.
Era fácil imaginar a reacção de Kit Carson, no seu jeito truculento, a que ele respondia na mesma moeda:
— Tição do inferno! Agora que começa a ficar velho, quer meter a mão na consciência, não é? Quem o mandou pôr os pés numa igreja?
Quanto a Jack Tigre e ao jovem Kit, de feitio menos exuberante, dir-lhe-iam simplesmente, como Juan Herédia, que ele fora o elemento decisivo num combate desigual e que todos os sitiados lhe deviam a liberdade e a vida. E sublinhariam também a importância da sua tripla missão de ranger, agente índio e chefe dos Navajos, recordando-lhe que ele era um paladino da justiça, um defensor da lei — mas daquela lei que não se restringe aos seus próprios mandamentos, que os completa e os transcende —, e que sempre se dedicara a causas nobres.
Tex conhecia tão bem os seus pards que podia “ouvir” os seus comentários como se estivesse junto deles, num planalto do deserto navajo abrigado dos ventos, sob o manto do céu recamado de estrelas, à luz de uma fogueira cujo estralejar quebrava o silêncio da noite.
— É verdade, pai, que estás mais “maduro”, como diz o tio Kit — remataria “Falcão Pequeno”, com um sorriso malicioso. — Mas ainda é cedo para pensares na reforma.
E Jack Tigre, esquecendo a fleuma tradicional da sua raça,   saudaria estas palavras com um riso aberto, que os ecos repetiriam de quebrada em quebrada, como se o deserto quisesse fazer ouvir, também, a sua voz. Sim, eles tinham razão. Não precisava de se arrepender do seu passado, pois fizera tudo o que devia fazer, em todas as circunstâncias, guiado apenas pelo sentimento do dever e da justiça, mesmo quando tivera de enfrentar forças obscuras, encarnação de toda a perfídia do mal. E isso era o mais importante!
A insistência de um olhar feminino arrancou-o aos seus pensamentos. Lolita não despregava os olhos dele. Tex sentia-se lisonjeado por esse interesse, preso ainda à suave atracção que os unira num breve e apaixonado beijo… que continha, naquele dramático momento, toda a esperança do mundo.
E o ranger compreendeu que, afinal, se enga­nara numa porção de coisas. Agora conhecia melhor os mexicanos. Tinha lutado ao lado deles, num dos piores assédios por que já passara, partilhando as mesmas emoções, a mesma insegurança e o mesmo perigo. Como afirmara o alcalde, já não era um gringo. Dali em diante, todos lhe apertariam a mão, como a um parente ou a um vizinho, um peón como eles. E Tex sentia um profundo orgulho nisso.
— Foi melhor assim para Gonzaga e talvez também para todos — disse o ranger, com voz grave. — Mas essa pobre mulher tem filhos e é preciso ajudá-la. Há um prémio oficial pela captura dele, no Texas, e outro ainda maior oferecido pela família do ranchero assaltado. São alguns milhares de dólares, Don Herédia. Farei o que puder para que esse dinheiro lhe seja entregue, porque sei que nas suas mãos servirá para mitigar a desgraça de alguns inocentes que perderam tudo. San Felipe renascerá das cinzas. É como se Gonzaga fizesse uma boa acção depois de morrer!
— Amigo, usted es un autén­tico caballero! Será sempre recebido em San Felipe como um herói! — exclamou Juan Herédia, comovido, abraçando o ranger. Um após outro, os camponeses imitaram-no, com efusivas exclamações de alegria. Até as crianças olhavam Tex com respeito, como se ele tivesse a estatura de um gigante. Sim, graças a um gringo de espírito generoso e destemido, as suas casas seriam, em breve, reconstruídas. Todos confiavam na sua promessa e, por isso, todos queriam abraçá-lo.
— Não mereço tanto, Don Herédia! — observou Tex Willer, com um sorriso ameno no rosto enérgico. — Vim encontrar aqui, na sua casa, junto dos seus, uma hospitalidade com que não con­tava. Foi um privilégio conhecê-lo, a si e à sua família, e levo recordações que não esquecerei tão depressa desta visita ao México, apesar do encontro indesejável com os coyoteros… e do trabalho que dei a uma gentil “enfermeira”!
Lolita continuava a fitá-lo, sorrindo. E no brilho doce dos seus olhos escuros, estranhamente luminosos na vaga claridade da igreja, o ranger encontrou a melhor razão para não esque­cer o México… e para regressar, mais uma vez, em breve.
Mas ainda não soara a hora da despedida. A jovem não o deixaria partir sem que o seu braço estivesse completamente curado e Tex, apesar de já sentir saudades dos seus pards e do seu amado deserto, o Monument Valley, não se importava de ficar mais algum tempo em San Felipe. Enviar-lhes-ia uma mensagem de Piedras Negras ou de outra localidade com telégrafo, para os tranquilizar; e como também gostava de conversar com Juan Herédia, a estada seria duplamente agradável.

FIM

* Reitera-se que o conto é uma iniciativa pessoal de dois grandes nomes da BD portuguesa, com o patrocínio do blogue português do Tex, que tem a única intenção de prestar homenagem ao 60º aniversário do maior e mais longevo caubói dos quadradinhos, e que não tem a pretensão de ser publicado na série regular do herói, mesmo porque a trama tem um estilo de narrativa e de desenhos diferente dos padrões. É uma homenagem feita com carinho e que é apenas isso: uma homenagem de dois grandes quadrinhistas e fãs do Ranger, tendo como base um grande respeito pela figura do Ranger e pelo mito texiano nas bases em que foi alicerçado pelos seus dois ilustres criadores, assumindo-se como um preito de homenagem à longa vida do maior herói do Oeste e nada mais.