Dellamorte Dellamore

Por João Miguel Lameiras (crítico e especialista de BD) [1]

Definitivamente, os zombies estão na moda, tanto no cinema, como na Banda Desenhada, onde a série Walking Dead, de Robert Kirkman, ao fim de 6 anos de publicação mensal continua a ser uma das mais interessantes séries em publicação no mercado americano. Depois de ver Zombieland, uma comédia com zombies, quase tão divertida como o inesquecível Shaun of the Dead, lembrei-me de recuperar um texto que escrevi em 2005 sobre um clássico dos filmes de zombies, publicado originalmente num site sobre cinema cujo nome não recordo e mais tarde reproduzido no fórum do site Tex.br pelo meu amigo José Carlos Francisco.
Esse clássico é Dellamorte Dellamore, (distribuído nos EUA com o título bem menos sugestivo de Cemetery Man) obra-prima de Michele Soavi, realizador sub-valorizado e discípulo inspirado de Dario Argento, mestre do “giallo” de quem Soavi foi assistente em Tenebrae e Phenomena, que aqui transpõe o universo peculiar de Ticianno Sclavi, o criador de Dylan Dog, para o grande ecrã.

Dellamorte - DellamoreComo refere António Pascoalinho, no catálogo da XVI edição do Fantasporto: “Michele Soavi não procurou afastar-se dos modelos associados ao gore: a morte, o sangue, o demónio, o Além, valores imutáveis de um imaginário que o público não dispensa neste género de filmes. O que ressalta à vista na sua obra é a vontade de adicionar poesia onde ela não deveria existir: na morte, no medo, nos crimes violentos. Através de um imenso cuidado estético. E, acima de tudo, com Arte. Como se Soavi não se considerasse um inventor. Limitando-se a fazer um trabalho idêntico a outros já existentes, mas reinventando-o. À sua maneira. E com alguns laivos de verdadeiro criador.”
Esse cuidado estético e a vontade de reinventar um género perfeitamente codificado, salientados por Pascoalinho, estão presentes em Dellamorte Dellamore, adaptação cinematográfica de um romance considerado “infilmável” de Sclavi, que através dos seus argumentos para a série Dylan Dog se afirmou como um dos mais singulares argumentistas italianos. Personagem deprimida e envolvida numa aura de mistério, Sclavi, que raramente dá entrevistas e muito menos se deixa fotografar, ganhou um prémio literário aos dezanove anos. Esse reconhecimento precoce do seu talento não lhe serviu de muito em termos de carreira pois, como refere “o público recebeu os seus livros com uma indiferença entusiástica”, o que o obrigou a trabalhar como jornalista, revisor e argumentista de BD para poder sobreviver, enquanto os seus romances, entre os quais Dellamorte Dellamore, aguardavam por um editor disposto a publicá-los.

Tizziano Sclavi e Dellamorte - DellamoreÉ precisamente enquanto argumentista de BD que Sclavi vai iniciar uma colaboração com a editora Bonelli cujos “fumetti” (nome dado em Itália à BD) são um verdadeiro fenómeno editorial e sociológico. O segredo do sucesso de Bonelli, de que a série Tex é o exemplo mais representativo, consiste em fornecer aos leitores edições baratas, em pequeno formato, com muitas páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Bonelli optou por propor aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, como Sclavi aliado a um leque mais alargado de desenhadores.
Assim, além de criar Gli Aristocratici, com Alfredo Castelli, Sclavi vai assinar argumentos para outras séries da editora, como Zagor, Ken Parker e Mister No, antes de criar Dylan Dog em 1986, abrindo assim as portas do sucesso com o carismático detective do paranormal, cujas aventuras estiveram disponíveis em português através das edições mensais da editora brasileira Mythos .
Antes de criar Dylan Dog, Sclavi tinha proposto a Bonelli recuperar os personagens de Dellamorte Dellamore e transformá-los em heróis de uma série de BD, sendo Dellamorte uma espécie de estudo preparatório para Dylan Dog, com quem compartilha o aspecto físico e a forma de vestir. Essa ideia acabou por não se concretizar no papel, mas acontecerá de forma indirecta no cinema, graças ao filme de Michele Soavi a partir do romance, entretanto transformado num best-seller graças à popularidade que Dylan Dog trouxe a Sclavi. Depois de ter servido de modelo para Dylan Dog, o actor inglês Rupert Everett vai ser o protagonista de Dellamorte Dellamore, o filme que motiva esta crónica e que reflecte com sucesso o objectivo de Soavi de transpôr para o grande ecrã o universo único de Tiziano Sclavi.

Dylan Dog Special nº 3Filme em que uma grande beleza se alia a um humor (muito) negro, Dellamorte Dellamore narra o dia-a-dia de Francesco Dellamorte, o melancólico guarda do cemitério da aldeia de Bufarolla que, além de enterrar os mortos, tem ainda que os matar definitivamente com um tiro na cabeça, quando eles ressuscitam como zombies sete dias depois, o que faz com um tédio e uma fleuma típicas de um funcionário público. Isolado do mundo, com a excepção do seu companheiro Gnaghi, um mudo com um atraso mental, que é personagem recorrente dos romances de Sclavi, e do seu amigo (imaginário?) Franco, com quem tem longas conversas telefónicas, Dellamorte vai descobrir a mulher da sua vida na pele de uma viúva (belíssima Anna Falchi) que acabará por matar, convencido que ela se tinha transformado também num zombie, depois de ter sido mordida pelo marido, recém-saído do túmulo em cima do qual ela fazia amor com Francesco.

Cemetery ManHistória a meio caminho entre o drama psicológico e a comédia surreal, com contornos góticos, Dellamorte Dellamore (título que reflecte os dois temas sempre presentes na obra de Sclavi e na própria vida, o amor e a morte) é um filme visualmente arrebatador onde Michele Soavi, tal como Sclavi costuma fazer nas histórias de Dylan Dog, não poupa nas citações. Assim, na cena em que Francesco e a viúva, com os rostos envoltos num véu, se beijam no ossário, a imagem remete para o quadro Os Amantes de Magritte, do mesmo modo que a fonte no meio do cemitério é uma miniatura da Ilha dos Mortos de Arnold Brocklin.
Filme absolutamente recomendável e obra com todas as características para se tornar (como se tornou) um filme de culto, Dellamorte Dellamore não está (naturalmente) editado em Portugal. Para além da edição italiana em zona 2, existe também uma edição espanhola com o título (bastante ridículo) de Mi Novia es un Zombie, mas que tem a grande vantagem de se encontrar com facilidade em qualquer canto de Espanha, nos saldos do El Corte Inglês a um preço muito acessível.
Aqui fica a sugestão para que descubram o trabalho singular de Tiziano Sclavi, quer através do filme de Soavi quer das BDs de Dylan Dog, o detective do paranormal a que Rupert Everett deu a cara tanto na BD como (indirectamente) no cinema.

Rupert Everett

[1] (Texto publicado originalmente no blogue Por um punhado de imagens, em 18 de Dezembro de 2009)

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Antevisão Tex 591, desenhado por Giovanni Bruzzo

TEX 591O blogue português do Tex, divulga em nova antestreia, 2 páginas do próximo Tex italiano, o nº 591, a ser lançado no próximo dia 7 de Janeiro de 2010, com o título ”L’uomo di Baltimora “.

Argumento e roteiro de Tito Faraci, com desenhos de Giovanni Bruzzo que se estreia no mundo de Tex Willer e capa de Claudio Villa.

As sangrentas pistas do Oeste não são o lugar apropriado para um extravagante Lord inglês…
Tex e seu filho Kit deparam-se com uma estranha personagem. Chama-se William Hodson, ou melhor: Lord William Hodson. Vem de Baltimore, mas pertence a uma nobre família inglesa. Viaja pelo mundo em busca de aventuras para inserir nos livros que escreve e ilustra. E agora chegou ao Velho Oeste, onde não pode deixar escapar um herói como Tex, mesmo que este último não tenha muita intenção de ter um estrangeiro nos seus calcanhares. A situação fica ainda mais complicada quando entra em cena um grupo de bandidos sanguinários e um xerife, com um passado a ser resgatado.

Giovanni Bruzzo - Página AA propósito da capa desta edição, realizada como habitualmente por Claudio Villa, ela foi baseada precisamente na página que mostramos aqui ao lado:

Passemos agora ao desenhador da história…
Giovanni Bruzzo nasceu em Génova, em 26 de Maio de 1961. Aos dezassete inicia a realizar, para o estúdio Immagini e Parole, de Turim, ilustrações para um álbum de cromos dedicado aos desenhos animados japoneses “Goldrake“. Em 1980, desenha para o  Staff di If algumas histórias para ” Oltretomba” e “Storie blu“. Em seguida, colabora com a revista “La Bancarella” de Gualtiero Schiaffino, escrevendo e desenhando algumas histórias, e com “1984“, para a qual assina histórias de ficção científica. Posteriormente, trabalha para as revistas italianas “Mad” e ” Creepy“, realizando capas e ilustrações.
José Carlos e Giovanni BruzzoPara Adelfo Editore ilustra os álbuns “Submission” e “Violence“. Em 1984, começou uma colaboração (que durou até 1986) com Primo Carnera Editore, escrevendo e desenhando (em conjunto com Ugo De Lucchi) uma série de histórias curtas para as revistas “Frigidaire” e ” Tempi supplementari “. Mais tarde, dedicou-se exclusivamente, durante um determinado período, à actividade de ilustrador publicitário, um compromisso que interrompe em 1989 para uma breve colaboração com Renzo Barbieri Editore e com “Intrepido“.
Giovanni Bruzzo - Página BDepois de ter realizado quatro histórias de horror para a série “Demon Story” (Fenix), nunca publicadas, devido ao encerramento da publicação, entra em contacto com a Sergio Bonelli Editore. Em 1995, começa oficialmente a fazer parte do staff da série dedicada ao anti conformista piloto Amazónico Mister No. Depois de uma longa militância na fileira dos desenhadores de Mister No e um desvio através das páginas de Dampyr, 2005 o vê inserido no staff da mini-série de Brad Barron, para em 2010 se estrear em Tex!

Agradecemos à organização do XVI Salão Internacional de Moura, o MouraBD2007, por ter permitido a obtenção das fotografias, durante a exposição dedicada à nova vaga dos desenhadores de Tex Willer.

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Tex: O homem dos cem rostos

Por Sandro Palmas [1]

Numa série de banda desenhada que já comemorou o seu sexagésimo aniversário, o problema da coerência gráfica da personagem, através do tempo e dos desenhadores que gradualmente alternaram na tarefa de dar um rosto à personagem principal da série, põe-se ainda mais concretamente aos nossos olhos, quase com prepotência, especialmente tendo em conta o elevado número de novos artistas chamados pela redacção a trabalhar hoje no staff do Ranger…

Nas imagens abaixo, o rosto de Tex desenhado por alguns dos grandes nomes da saga, desde 1948 até os nossos dias  (ao lado do nome do artista publicamos o número – da série italiana – da primeira edição desenhada pelo desenhador em questão):

Galep [ #1 ], Muzzi [ # 44 ], Nicolò [ #63 ]
Galep, Muzzi e Nicolò

Letteri [ # 68 ], Ticci [ #91 ], Fusco [ # 169 ]
Letteri, Ticci e Fusco

Giolitti [ # 188 ], Monti [ # 262 ], Civitelli [ #293 ]
Giolitti, Monti e Civitelli

Blasco [ # 308 ], Villa [ # 311 ], Marcello [ # 371 ]
Blasco, Villa e Marcello

De la Fuente [ # 441 ], Venturi [ # 451 ], Capitanio [ #488 ]
De la Fuente, Venturi e Capitanio

Repetto [ # 504 ], Cestaro [ # 518 ], Brindisi [ # 519 ]
Repetto, Cestaro e Brindisi

Ortiz [ # 449 ], Font [ # 523 ]

Ortiz e Font
[1] (Texto publicado originalmente no Tex Willer Forum, em 9 de Agosto de 2006)

Um encontro improvável, por AMoreira

AMoreira - 2009O blogue do Tex tem o privilégio de apresentar em mais um exclusivo, um encontro improvável, desenhado por Antonio Carlos Moreira, mais conhecido por AMoreira, em mais um belo “trabalho” deste talentoso artista brasileiro.

Encontro improvável, protagonizado por Pequeno Falcão (Kit Willer, o digno filho de Tex, nascido do, infelizmente brevíssimo, matrimónio de Tex Willer com Lilyth) e Theba (rebaptizado de Teddy Parker, o primeiro e único filho de Tecumseh, a índia que se casaria com Ken Parker) num Natal também improvável, com os respectivos pais, igualmente presentes na Arte de AMoreira.

Natural da cidade brasileira de Niterói, no Rio de Janeiro e nascido no dia 18 de Setembro do longínquo ano de 1949,  AMoreira teve como primeira formação profissional, desenhador arquitectónico, e paralelamente a isso, fez o curso de “Desenho Artístico e Publicitário” na Escola Pan-americana de Arte, tentando fazer carreira como ilustrador.

Como essa carreira não foi avante, formou-se em Ciências Contábeis, com Pós Graduação em Engenharia Financeira, e hoje em vez de ser um desenhador profissional, trabalha na área da contabilidade, mas para nosso gáudio, não deixa de nos brindar com a sua arte, sempre que possível, mas para conhecer melhor o autor de mais esta belíssima ilustração que apresentamos de seguida, leia a entrevista que AMoreira concedeu em exclusivo, ao nosso blogue.

Falcão Pequeno encontra Theba

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