Desde o dia 30 de Setembro de 2011, por ordem expressa do Presidente do Município de Milão, Giuliano Pisapia, está exposto no prédio da Assessoria da Cultura, na praça do Duomo, um cartaz, com o famoso desenho de Tex feito por Fabio Civitelli para a capa do seu livro “Il West Secondo Civitelli” (“O Oeste Segundo Civitelli“), que diz “Sergio Bonelli deixou-nos. Tiremos o chapéu“.
“Sergio Bonelli deixou-nos. Tiremos o chapéu” – Homenagem do Município de Milão a Sergio Bonelli
É o próprio presidente da autarquia de Milão a dar conhecimento desta homenagem da cidade que viu nascer e morrer Sergio Bonelli, na sua página no Facebook e cuja nota pode então ser lida clicando aqui.
Giuliano Pisapia, Presidente do Município de Milão
Sobre este acontecimento, disse o Assessor da Cultura, Stefano Boeri: “Nós pretendemos dar um último adeus a Sergio Bonelli, uma lenda da editoria de quadradinhos, pai de Tex, Zagor, Dylan Dog e de muitos outras personagens que já fazem parte da história e da nossa memória. Na sexta-feira, 7 de Outubro, às 18h30, temos um encontro marcado com todos aqueles que desejarem recordá-lo connosco no Museu dos Quadradinhos, ocasião em que inauguraremos a mostra dedicada ao 25° aniversário de Dylan Dog“.
A mostra “Dylan Dog – 25 anos no pesadelo” permanecerá no Museu dos Quadradinhos de 7 de Outubro a 11 de Dezembro de 2011.
Por José Carlos Francisco (texto e fotos) e José Machado (fotos)
Troféu Anim’arte 2010 GICAV-BD para Fabio Civitelli
Depois de em 2007 Fabio Civitelli no decurso do XVI Moura BD – Salão Internacional de Banda Desenhada, evento organizado pela Câmara Municipal de Moura, ter sido homenageado com a entrega do Troféu Balanito de Honra para Autor Estrangeiro e ter na altura dito que aquele prémio, o primeiro individual da sua carreira, foi para ele “Um momento muito importante. Eu dei-me conta de que, em tantos anos de trabalho, consegui comunicar alguma coisa aos meus leitores, mas ao mesmo tempo este prémio representou para mim o início de uma fase nova e mais criativa da minha actividade: é claro que trabalhar na BD chamada “comercial” não impede a um autor motivado de fazer experiências, renovar e melhorar a qualidade dos próprios desenhos, e a partir de agora sinto que preciso atender às expectativas do meu público fazendo um produto sempre melhor.“, foi agora a vez de ser também homenageado no XVII Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu, tendo recebido o prestigiado Troféu Anim’Arte 2010para autor estrangeiro, naquele que foi sem dúvida alguma o momento mais nobre da inauguração do Salão viseense.
Os Prémios Anim’arte são organizados pela Revista Anim’Arte visando a dignificação dos Dirigentes Associativos, como agentes de desenvolvimento local e regional. São pois um reconhecimento público do trabalho realizado por todo o tipo de agentes culturais. A Revista Anim’Arte é um projecto editorial do Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu – GICAV (grupo responsável pela realização do Salão de Banda Desenhada) que, ao longo dos últimos 19 anos, tem prosseguido um dos seus objectivos prioritários através da divulgação de projectos culturais e artísticos, quer colectivos, quer individuais, que as Associações e Artistas do Distrito de Viseu (e não só) realizam, e por direito próprio, fez este ano homenagem pública a 22 agentes associativos e culturais do distrito, distinguindo-os na qualidade de agentes de desenvolvimento local e regional, a maioria deles retirados do anonimato através da Revista Anim’Arte em reconhecimento do trabalho realizado durante o ano que findou (2010).
A banda desenhada nem sempre é reconhecida como uma manifestação de criatividade artística e fenómeno cultural secular, mas o GICAV pretendeu uma vez mais evocar e distinguir com este prémio os criadores de BD com obra de reconhecido valor artístico e didáctico, presenteando Fabio Civitelli aquando da cerimónia de inauguração do 17º Salão de Viseu de Banda Desenhada e o momento em que o desenhador italiano recebeu nas suas mãos o tão prestigiado troféu que reconhece o seu talento mas também valoriza a sua humildade e simplicidade, foi festejado pelo numeroso público que enchia literalmente a sala nobre do Salão com uma estrondosa ovação de palmas confirmando que a aposta do salão viseense estava ganha!
Fabio Civitelli e o orgulho de receber mais um prestigiado prémio em Portugal
(Para aproveitar a extensão completa das fotos acima, clique nas mesmas)
Joi recorda Sergio Bonelli com uma entrevista exclusiva feita uns dias antes do seu falecimento. Aqui no blogue do Tex vamos mostrar um extracto daquela que se presume ter sido a última entrevista concedida por Sergio Bonelli.
Um retrato caloroso que nos mostra um dos mais prestigiados editores italianos, Sergio Bonelli, fundador da homónima editora que publica as mais importantes histórias de banda desenhada italiana desde há muitos anos: das aventuras do mítico Tex Willer (criado pelo seu pai Gian Luigi) à criação de muitas outras personagens famosas tais como Nathan Never, Zagor, Mister No, mas sobretudo Dylan Dog e Ken Parker, tornados verdadeiros e próprios ícones da história dos fumetti (termo italiano que significa “banda desenhada”). Foi precisamente o seu talento empreendedor, a sua paixão e capacidade de encontrar bons escritores e desenhadores que lhe permitiram transformar uma pequena realidade editorial num colosso mundial.
Às tele-câmaras da Joi Sergio Bonelli afirmou: “Eu nunca fui bom a desenhar e improvisei-me como editor porque já era um leitor ávido e apaixonado. Eu já era capaz de distinguir entre um desenho e outro. Eu sabia de cor todos os quadradinhos que eram publicados. Deixei-me prender pela paixão pela banda desenhada. Quando eu via bons escritores e desenhadores não sabia resistir ao desejo de trabalhar com esses talentos e quando o conseguia tinha o cuidado de lançar para as bancas uma nova publicação.“
“Você descobrirá no próximo número“: antigamente era assim que se anunciava o próximo volume no fim da edição, a deixar nos leitores a dúvida sobre como os nossos heróis concluiriam a sua missão impossível. Mais ou menos do mesmo modo, todo mundo me pede para antecipar a continuação da história antes mesmo que vá aos quiosques.
O que acontecerá agora, sem Sergio Bonelli? Poder-se-ia responder com as palavras do computador no mais belo dos contos de Isaac Asimov, A Última Pergunta: “Dados insuficientes para uma resposta significativa“. O problema é mais ou menos o mesmo: como achar os dados faltantes?
Visto que a pergunta se repete, repetem-se também as coisas que busco dizer como resposta. O primeiro a pedir-me para formular uma hipótese sobre o futuro da Editora foi o jornal Libero, que entrevistou-me poucas horas depois do falecimento de Sergio, a colher-me num momento de absoluto abalo mas em condições de expor aquele que parece-me o mais razoável dos cenários. Depois disso eu repeti a minha previsão em todas as ocasiões seguintes, a incluir uma aparição numa emissora de TV da Toscana que procurou-me há poucas horas.
Davide Bonelli
Deve-se, como é óbvio, partir da constatação de como a figura de Bonelli fosse, até poucos dias antes de sua morte quase repentina, absolutamente central na Editora que, não por acaso, leva o seu nome. Não havia edição que fosse à gráfica sem que ele a tivesse lido e examinado, e o mesmo valia para os textos redaccionais e os anúncios. A brincar – mas talvez nem tanto – era ele mesmo a dizer que escolhia até os vasos de flores a colocar na varanda ou a musiquinha que se ouve ao telefone quando, ao se ligar para a rua Buonarroti, aguarda-se o atendimento. Porém, vistas as dimensões atingidas por sua estrutura, Sergio havia montado um organograma redaccional em condições de funcionar mesmo em sua ausência, uma vez definidas as linhas mestras a ser observadas. E, principalmente – coisa da qual muitos parecem ainda não ter avaliado a importância -, o filho Davide Bonelli é parte integrante da equipa há muitos anos, seguramente mais de dez. Nós, redactores, o vemos todos os dias no gabinete ao lado e, como é uma pessoa absolutamente disponível, o tratamos sem cerimónia.
Davide nos conhece um a um, sabe como trabalhamos, quais são os nossos papéis, as nossas potencialidades e, inevitavelmente, também os nossos limites. Até hoje ele jamais interveio no âmbito criativo, visto que a sua preparação é económica e comercial e, por tal razão, dedicou-se ao marketing e aos contratos, sobretudo com o exterior, que cresceram muito com o passar do tempo. Então ele não é uma pessoa que, de forma repentina, foi jogada num ambiente que lhe é estranho ou que deverá dirigir uma empresa que não conhece. Ao contrário, é alguém que partilha há muito tempo o trabalho da redacção. É evidente que lhe caberá fazer escolhas com os olhos de todos sobre si, ele que é uma pessoa tímida e reservada, alérgica aos reflectores. Mas que pode contar com uma estrutura experiente e com colaboradores seleccionados por seu pai.
Mauro Marcheselli
O principal ponto de referência, neste momento, é Mauro Marcheselli, alguém que, em todos os sentidos, tem as costas largas e fortes. Imagino que Davide continuará a apoiar-se nele e que ele está pronto para garantir uma continuidade à altura da tradição. Haverá inovações? Certamente sim, mas essas sempre existiram de forma contínua no longo pontificado de Sergio. Às vezes alguém (certamente mal informado) diz que a Bonelli é uma Editora muito tradicionalista, mas na verdade nela se experimentou de tudo e mais um pouco.
Justamente nestes dias acontece, em Città di Castello, uma mostra dedicada à série Um Homem, Uma Aventura, uma memorável colecção de trinta histórias de autor, publicadas a cores em edições cartonadas no estilo francês, em anos em que o termo graphic novel ainda não havia sido criado. E o que dizer de Pilot e Orient Express e de seus respectivos Albi? Ou dos volumes da colecção América? E da fórmula dos Texoni (Tex Gigantes)? Outras inovações foram o popular de autor que começou com Ken Parker e foi sublimado com Dylan Dog, a criação dos Almanaques, dos spin off, o lançamento das mini-séries e dos Romances em Quadradinhos, a concepção de formatos e periodicidades alternativas como em Bella & Bronco ou Gea. Algumas experiências tiveram pouco sucesso, como no caso de Full ou Os Grandes Cómicos em Quadradinhos, mas é inegável que houve o desejo de tentar. Ainda, em muitas séries foi dado espaço a artistas das escolas as mais variadas, de Bacilieri a Catacchio, de Palumbo a Nizzoli, de Magnus a Bernet. O assunto pode se alongar, mas é suficiente haver destacado como é totalmente fora de lugar falar de imobilismo bonelliano. Ao contrário, muitas das inovações da rua Buonarroti serviram de modelo a outras Editoras.
Moreno Burattini
Com isso, visto que as experiências sempre existiram, acredito que continuarão a existir, mas sempre conduzidas com a costumeira prudência e na medida certa. Imagino, por exemplo, que inicialmente aumentarão as publicações coloridas. Não haverá traumas a curto prazo, mas creio que os verdadeiros desafios para Davide Bonelli (ou quem por ele for delegado a decidir) serão relacionados à tecnologia. Fazer ou não fazer aplicativos para Ipad? Com relação ao meu destino pessoal não posso prever nada, mas imagino que continuarei a cuidar de Zagor por mais um tempo. Como bom soldado, continuo a vigiar o latão de gasolina (mas sempre pronto para ser substituído). Será difícil esquecer as indicações de Sergio sobre o retorno dos seus inimigos, de Hellingen a Supermike, que ele queria manter na gaveta apesar dos pedidos dos leitores. Imagino que por um bom tempo não conseguirei fazer Zagor beijar uma moça e sempre tomarei o cuidado de fazer o nosso herói entrar em acção o quanto antes, quem sabe já na primeira página, como Nolitta sempre me orientou.