O FUTURO É UMA HIPÓTESE

Por Moreno Burattini*

Isaac Asimov, The Last Question

Você descobrirá no próximo número“: antigamente era assim que se anunciava o próximo volume no fim da edição, a deixar nos leitores a dúvida sobre como os nossos heróis concluiriam a sua missão impossível. Mais ou menos do mesmo modo, todo mundo me pede para antecipar a continuação da história antes mesmo que vá aos quiosques.

O que acontecerá agora, sem Sergio Bonelli? Poder-se-ia responder com as palavras do computador no mais belo dos contos de Isaac Asimov, A Última Pergunta:Dados insuficientes para uma resposta significativa“. O problema é mais ou menos o mesmo: como achar os dados faltantes?

Visto que a pergunta se repete, repetem-se também as coisas que busco dizer como resposta. O primeiro a pedir-me para formular uma hipótese sobre o futuro da Editora foi o jornal Libero, que entrevistou-me poucas horas depois do falecimento de Sergio, a colher-me num momento de absoluto abalo mas em condições de expor aquele que parece-me o mais razoável dos cenários. Depois disso eu repeti a minha previsão em todas as ocasiões seguintes, a incluir uma aparição numa emissora de TV da Toscana que procurou-me há poucas horas.

Davide Bonelli

Deve-se, como é óbvio, partir da constatação de como a figura de Bonelli fosse, até poucos dias antes de sua morte quase repentina, absolutamente central na Editora que, não por acaso, leva o seu nome. Não havia edição que fosse à gráfica sem que ele a tivesse lido e examinado, e o mesmo valia para os textos redaccionais e os anúncios. A brincar – mas talvez nem tanto – era ele mesmo a dizer que escolhia até os vasos de flores a colocar na varanda ou a musiquinha que se ouve ao telefone quando, ao se ligar para a rua Buonarroti, aguarda-se o atendimento. Porém, vistas as dimensões atingidas por sua estrutura, Sergio havia montado um organograma redaccional em condições de funcionar mesmo em sua ausência, uma vez definidas as linhas mestras a ser observadas. E, principalmente – coisa da qual muitos parecem ainda não ter avaliado a importância -, o filho Davide Bonelli é parte integrante da equipa há muitos anos, seguramente mais de dez. Nós, redactores, o vemos todos os dias no gabinete ao lado e, como é uma pessoa absolutamente disponível, o tratamos sem cerimónia.

Davide nos conhece um a um, sabe como trabalhamos, quais são os nossos papéis, as nossas potencialidades e, inevitavelmente, também os nossos limites. Até hoje ele jamais interveio no âmbito criativo, visto que a sua preparação é económica e comercial e, por tal razão, dedicou-se ao marketing e aos contratos, sobretudo com o exterior, que cresceram muito com o passar do tempo. Então ele não é uma pessoa que, de forma repentina, foi jogada num ambiente que lhe é estranho ou que deverá dirigir uma empresa que não conhece. Ao contrário, é alguém que partilha há muito tempo o trabalho da redacção. É evidente que lhe caberá fazer escolhas com os olhos de todos sobre si, ele que é uma pessoa tímida e reservada, alérgica aos reflectores. Mas que pode contar com uma estrutura experiente e com colaboradores seleccionados por seu pai.

Mauro Marcheselli

O principal ponto de referência, neste momento, é Mauro Marcheselli, alguém que, em todos os sentidos, tem as costas largas e fortes. Imagino que Davide continuará a apoiar-se nele e que ele está pronto para garantir uma continuidade à altura da tradição. Haverá inovações? Certamente sim, mas essas sempre existiram de forma contínua no longo pontificado de Sergio. Às vezes alguém (certamente mal informado) diz que a Bonelli é uma Editora muito tradicionalista, mas na verdade nela se experimentou de tudo e mais um pouco.

Justamente nestes dias acontece, em Città di Castello, uma mostra dedicada à série Um Homem, Uma Aventura, uma memorável colecção de trinta histórias de autor, publicadas a cores em edições cartonadas no estilo francês, em anos em que o termo graphic novel ainda não havia sido criado. E o que dizer de Pilot e Orient Express e de seus respectivos Albi? Ou dos volumes da colecção América? E da fórmula dos Texoni (Tex Gigantes)? Outras inovações foram o popular de autor que começou com Ken Parker e foi sublimado com Dylan Dog, a criação dos Almanaques, dos spin off, o lançamento das mini-séries e dos Romances em Quadradinhos, a concepção de formatos e periodicidades alternativas como em Bella & Bronco ou Gea. Algumas experiências tiveram pouco sucesso, como no caso de Full ou Os Grandes Cómicos em Quadradinhos, mas é inegável que houve o desejo de tentar. Ainda, em muitas séries foi dado espaço a artistas das escolas as mais variadas, de Bacilieri a Catacchio, de Palumbo a Nizzoli, de Magnus a Bernet. O assunto pode se alongar, mas é suficiente haver destacado como é totalmente fora de lugar falar de imobilismo bonelliano. Ao contrário, muitas das inovações da rua Buonarroti serviram de modelo a outras Editoras.

Moreno Burattini

Com isso, visto que as experiências sempre existiram, acredito que continuarão a existir, mas sempre conduzidas com a costumeira prudência e na medida certa. Imagino, por exemplo, que inicialmente aumentarão as publicações coloridas. Não haverá traumas a curto prazo, mas creio que os verdadeiros desafios para Davide Bonelli (ou quem por ele for delegado a decidir) serão relacionados à tecnologia. Fazer ou não fazer aplicativos para Ipad? Com relação ao meu destino pessoal não posso prever nada, mas imagino que continuarei a cuidar de Zagor por mais um tempo. Como bom soldado, continuo a vigiar o latão de gasolina (mas sempre pronto para ser substituído). Será difícil esquecer as indicações de Sergio sobre o retorno dos seus inimigos, de Hellingen a Supermike, que ele queria manter na gaveta apesar dos pedidos dos leitores. Imagino que por um bom tempo não conseguirei fazer Zagor beijar uma moça e sempre tomarei o cuidado de fazer o nosso herói entrar em acção o quanto antes, quem sabe já na primeira página, como Nolitta sempre me orientou.

*Texto de Moreno Burattini apresentado no blogue de Moreno Burattini em 2/10/2011; Tradução e adaptação (com a devida autorização): Júlio Schneider (tradutor, redactor e consultor editorial para as publicações Bonelli no Brasil).
Copyright: © 2011, Moreno Burattini

9 Comentários

  1. O Burattini foi muito bem na sua fala e muito modesto quando falou de si, tal qual os heróis de papel.
    Imagino que sendo o hombre que recebeu o cetro de Darkwood do próprio Guido Nolitta, está amplamente capacitado para levar adiante mais um ciclo zagoriano, com a sua parte de responsabilidade no todo da SBE.
    Rei Morto, Rei Posto, diz o ditado. Agora teremos a fase que acabará por levar Davide ao topo do mundo das HQs, não tenho dúvidas, pois ele tem sangue texiano, zagoriano, dilandoguiano, etc., e não falhará.
    Quem ler a história da SBE daqui a 500 anos saberá que aconteceu igual a saga do Espírito-que-Anda, onde quando morria um Bonelli, outro assumia… ops, eu quis dizer, um Fantasma.
    Abraço no Burattini, do seu fã
    G.G.Carsan

  2. Não tenhamos dúvidas. Sergio Bonelli é insubstituível, o que não quer dizer que o futuro da sua editora, a breve trecho, seja uma incógnita, pois certamente Davide Bonelli – como frisa Moreno Burattini – continuará a seguir os passos do seu progenitor, apoiado por uma equipa coesa e com vasta experiência.
    Mas Sergio era único por três razões: porque amava profundamente a sua actividade; porque conhecia por dentro as suas personagens, como herdeiro do talento de Gian Luigi Bonelli; porque reconhecia o valor dos fumetti e da cultura popular e inspirava os outros autores com o seu exemplo.
    Como Hugo Pratt, também correu mundo e vestiu a pele de aventureiro na Amazónia de Mister No. E se, como guionista, esteve longe de atingir a tabela quantitativa de seu pai, como demiurgo deixou-nos criações tão fascinantes e tão bem estruturadas como Tex.
    Tão cedo não será possível encontrar um editor com todos os seus predicados. Sergio Bonelli foi o último de uma prestigiosa dinastia de novelistas profissionais que se tornaram editores de quadrinhos por vocação – como Roussado Pinto em Portugal, Hector Oesterheld na Argentina, Jacques Dumas (Marijac) em França, e Josep Toutain em Espanha. Mas nenhum, no plano editorial, conseguiu chegar tão longe como Sergio Bonelli.

  3. Eu acho que devemos dar créditos a Davide, ao Marcheselli e a todos os roteiristas e desenhistas da Bonelli que atualmente compõem o carro chefe da editora.

    Não acredito que alguma coisa vá mudar a curto prazo mas a longo prazo haverá sim espaço para modificações e inovações. Também esperamos isso, pois os que lá estão têm seu próprio talento e merecem dar vazão às suas idéias.

    A minha opinião pessoal é que a médio prazo a editora irá ‘descentralizar’ um pouco, ou seja, mais pessoas responsáveis pela qualidade das histórias e desenhos dos diferentes personagens. Isso pode ter algumas consequências, é lógico, mas espero que sejam todas boas.

    Contanto que não decidam desenhar mangás, estou confiante!

  4. Oi!

    Eu estava ansioso por este texto, mesmo sem saber da sua existência.

    É que em momentos como este, sempre se espera saber algo a nível de futuro, a gente sempre teme, mas, de fato temos que ser confiantes, pois, o SB trouxe para próximo de si, pessoas com grandes qualidades e que amam e respeitam os quadrinhos e, claro, isso inclui o seu Filho Davide.

    Sobre mudanças, bom, elas não acontecerão, pois em verdade já estava sendo aplicadas à SBE há um bom tempo, é só vermos o DyD Color Fest, as mini do Brad Baron, Demian, Volto Nascosto… e segue, os One Shot, republicação do Tex Colorido, a criação do Color Tex, lançamento do Zagorone, enfim, elas CONTINUARÃO a acontecer.

    O legado está aí e, se Deus quiser, permanecerá ainda por muito tempo, sendo tão bem cuidado quanto o fora até o momento.

    Abraços,

    Sílvio Introvabili

    PS.: Nanda, sobre mangás, Lobo Solitário e Vagabond são excelentes (Risos).
    Um Abraço especial a vc, minha Amiga!

  5. Olhando o perfil do Davide Bonelli, fica claramente evidenciado,que é a imagem, semelhança e mesma característica editorial do Sergio, o que tranquiliza os grandes colecionadores de Tex, Zagor e outros personagens
    que têm qualidade para ser publicados perenemente, e acredito que assim deve ser, mantidas as tradições dos personagens e perfil do criadores.
    Espero que retorne as bancas Mister No.

  6. Acredito que a SBE manterá o atual ritmo, muito bom por sinal, pelo menos na minha percepção. Só acho que ela deve começar a trabalhar nos próximos anos no mercado digital de quadrinhos. É um caminho sem volta, vide as grandes editoras americanas!

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