Tex (na inigualável arte aguarelada de Giovanni Ticci) no Santuário de São Romédio, complexo religioso italiano e um centro de peregrinação católica, localizado na Comuna de Predaia, na Província de Trento
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A minha paixão pela leitura começou bem cedo, lá pelos meus 9 anos de idade, com as revistas do Tio Patinhas, Pato Donald e outras do género, que consegui emprestadas de vizinhos mais velhos. Mais tarde, e já no liceu, fui começando a colecionar publicações como o Falcão, Condor, Mundo de Aventuras, Histórias do FBI, Guerra, Tex Tone e um tal de Tex, que me foi apresentado por um colega de escola. Ele quis trocar 4 revistas de Tex por 10 Falcões, e eu, inicialmente, pensei que o tipo era doido. 10 Falcões? Foi, no entanto, a melhor troca que fiz e, desde essa altura, com 12/13 anos, nunca mais parei. Tex distinguia-se das outras publicações que existiam na época, pelo formato e o número de páginas, que saltavam mais à vista.
Entretanto, comecei a trabalhar e estudar à noite, o poder aquisitivo aumentou e também conheci outros pontos de venda, principalmente bancas de revistas usadas que existiam junto às estações de comboio da Linha de Sintra, as quais visitava quase diariamente, sempre na procura de novas edições de Tex, ao mesmo tempo que procurava em pontos de venda de revistas novas, onde pedia para reservar todas as publicações saídas para as bancas.
Com o passar dos anos, a coleção foi aumentando e passei a dedicar tempo e dinheiro só na procura e compra de Tex. Aos 18 anos, outros interesses começaram a surgir, a namorada (hoje minha esposa), a mudança de emprego, a possibilidade de ter de cumprir o serviço militar, do qual fui dispensado, o que fez com que a procura de casa e o casamento passassem a ser as minhas prioridades. Mas a compra das revistas não parou. Tex tinha sempre um espaço guardado, primeiro, em caixas onde as revistas eram muito bem acondicionadas, depois em duas pequenas estantes, onde permaneceram alguns anos, mas sempre aumentando. Isto também devido ao facto da mudança de casa, que trouxe mais espaço, o computador e a internet, que permitiram alargar os conhecimentos e a procura sobre o personagem, e as compras à Mythos, que tiveram início por volta de 2003.
2004 foi o ano de conhecer grandes amigos, o Mário, o José Carlos, o Hernâni, o Orlando, o Jorge e a Nanda, num jantar convívio em Lisboa, amizades essas que se cimentaram com o passar dos anos e, desde essa altura, tenho participado em todos os convívios e eventos realizados em Portugal. Também as amizades foram aumentando, e recordo com particular entusiasmo um evento realizado em 2007, onde conheci os amigos italianos Gianni e Luiza (sua saudosa esposa), Ivano, Sergio e Marco.
Em 2008, visitei pela primeira vez a Sergio Bonelli Editore, e quem veio abrir a porta foi o simpático Moreno Burattini, que lançou logo uma pergunta: Portugueses? Amigos de Zeca? “Molto bene”! Levou-nos até à mesa de Mauro Boselli, onde conversámos um pouco e, mais tarde, até Davide Bonelli nos serviu um café e fez-nos uma visita guiada pela editora. Foi um dos dias mais maravilhosos da minha vida de colecionador de Tex e senti-me como uma criança quando ganha um doce.
Nunca pensei, quando comecei a colecionar Tex, chegar a ter a coleção que hoje tenho e que muito me orgulha, nem tão pouco conhecer pessoas como Sergio Bonelli, Dorival Vítor Lopes, Júlio Schneider ou Paulo Guanaes, assim como todos os desenhadores que passaram por Portugal, alguns dos quais tive o prazer de os receber em minha casa.
Com a fundação do Clube Tex Portugal, o lançamento da revista e as exposições organizadas pelo Clube, as responsabilidades e o trabalho aumentaram, mas é uma satisfação enorme, após cada revista e cada exposição, saber que tudo deu certo e começar logo a pensar nas próximas. Penso que o futuro de Tex, enquanto publicação, está bem assegurado com um staff de desenhadores e argumentistas muito competente.
*Texto de Carlos Moreira publicado originalmente na Revista nº 13 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2020.
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Novo texto da rubrica dedicada à redescoberta de antigas capas de Tex, graças à sua reutilização para a série Tex Classic.
O quinquagésimo primeiro número da mais recente reedição texiana traz os volumes de tiras 15 a 20 da sétima série da “collana” de Tex, também conhecida como Série Rossa (Vermelha), lançada entre Julho e Agosto de 1954. Essas cento e noventa e duas “strisce” (tiras) foram transformadas pela primeira vez em sessenta e quatro páginas por ocasião da sua reimpressão nas séries Albi d’Oro terceira série nºs 11 e 12, ambos de Agosto de 1956. Hoje são reproduzidas a cores nesta série. A capa escolhida foi a do número 11 dos Albi d’Oro. Abaixo vê-se, em sequencia, a capa de 2019 e a publicada há sessenta e três anos.
Tex Classic #51 – La caccia di Grosso Serpente
Albo d’Oro Tex #11 – III Serie
Tirando algumas mudanças de cromaticidade na recente recoloração da imagem, esta capa não nos dá muitas ideias. É por isso que aproveitamos o espaço restante para destacar duas homenagens muito recentes à primeira vinheta de Tex, que voltamos a propor a seguir.
A primeira tira de Tex em 30 de Setembro de 1948 – Desenhos de Aurelio Gallepini
A vinheta de estreia, que se pode conferir de seguida em tecnicolor, na edição do La Repubblica, mais tarde reutilizada para a série Tex Classic, serviu de inspiração, como se devem lembrar, para Claudio Villa, em Fevereiro de 2007, fazer dela a primeira capa da mesma Colecção Histórica a Cores do jornal.
A primeira vinheta de Tex, desenhada por Aurelio Galleppini e a capa da Collezzione Storica a Colori nº 1, desenhada por Claudio Villa
Pois bem: em 2019, no espaço de menos de um mês, os leitores do Tex puderam reconhecer aquela mesma vinheta em duas edições que acabavam de chegar às bancas. O primeiro, Tex Willer 3, desenhado por Roberto De Angelis; o segundo Tex 700 ilustrado por Fabio Civitelli. Tanto o desenhador de Salerno quanto o artista de Arezzo fundiram as duas primeiras vinhetas de Tex em uma mais longa, talvez seguindo as instruções de Mauro Boselli, roteirista de ambos os volumes. A versão de Civitelli é mais fiel ao original graças à presença do fogo aceso e do fiel Dinamite atrás do Ranger; A versão de De Angelis destaca-se por ter um texto quase idêntico ao escrito por G.L. Bonelli em 1948 como frase de estreia de seu afortunado personagem.
No Tex 700 Civitelli reinterpreta assim a primeira tira do Ranger bonelliano
Em Tex Willer 3 De Angelis conta-nos a mesma cena com um Tex um pouco mais descontraído: os bandidos ainda estão longe
E com este mergulho no passado mais extremo do personagem, vemo-nos no próximo artigo de Secret Origins: Tex Classic.
Tex e os seus três amigos encontram o último sobrevivente de um violento ataque a uma caravana. À beira da morte, o homem murmura algumas palavras sobre um bando de “Fantasmas” que os teria atacado. Ninguém sobrevive aos seus ataques, ninguém deve saber da sua existência. Os fantasmas são guerreiros estranhos, vestidos nos seus mantos brancos, que, ao perceberem a presença dos rangers, perseguem os quatros pards incessantemente. Conseguindo escapar, Tex e os seus pards chegam até à penitenciaria de Yuma onde, através dos relatos do Capitão Blyte, descobrem a existência dos famosos Tuaregues no Deserto de Gila. Com grande espanto, os quatro amigos escutam a fantástica história dos guerreiros árabes que vieram aos Estados Unidos, juntamente com um lote de camelos, para servirem como instrutores aos soldados americanos sobre a utilização dos animais, adquiridos pelas autoridades militares. Porém, o projeto foi colocado de lado e os árabes abandonados à sua própria sorte. Perdidos num país estranho, acabaram desaparecidos no território americano, para surgirem mais tarde junto à fronteira com o México. Os guerreiros mulçumanos fazem do território mexicano a sua área de atuação para evitar confrontos com as patrulhas do exército americano. Mas agora o seu adversário é Tex Willer, Águia da Noite, chefe dos guerreiros navajos e irmão de sangue do grande Cochise, e isso terá uma importância vital no resultado desse confronto. O Capitão Bytle também conta a Tex sobre o desaparecimento de uma das suas patrulhas, sob o comando do Sargento Bond, em território mexicano. Depois de ouvir tudo, Tex decide partir junto com os três pards à caça dos famosos Tuaregues, sem imaginar que aquele pequeno bando de muçulmanos é agora um grande grupo de fanáticos religiosos.
Uma Guerra Santa
Os guerreiros tuaregues do Príncipe Ahmed estão empenhados numa guerra santa para converterem os infiéis à religião muçulmana. Ao lado deste volumoso grupo, chega também às terras desérticas do Deserto de Tule um líder religioso chamado Mohamed, e graças à conversão de alguns índios e ao trabalho forçado de um grupo de prisioneiros, soldados americanos capturados pelos Tuaregues, é instalada uma pequena e singela mesquita. A partir dessa mesquita, o Príncipe Ahmed deseja expandir o seu império religioso, usando para isso a força e o medo. O sucesso alcançado nos assaltos a pequenas caravanas e contra incautos viajantes, enche de coragem e ousadia os fanáticos Tuaregues. Mas no caminho desse sonho de conquista encontram-se Tex e os apaches de Cochise.
Fogueiras na Noite
Tex e os seus amigos encontram-se com um pequeno grupo de apaches, liderado por Mateo (neto de Cochise), vendo-se cercados por muitos Tuaregues. Um confronto direto significa, dada a superioridade numérica dos inimigos, a morte certa. Porém, Tex sempre foi um grande estratega e, usando de um ardil, consegue enganar os seus inimigos e ganhar mais algum tempo para lutar.
A Força das Armas e Sonhos desfeitos
Após destruírem a mesquita dos Tuaregues e encontrar a patrulha perdida do Sargento Bond, Tex e os seus amigos têm de fugir para o deserto, de modo a tentarem escapar do grupo liderado pelo Príncipe Ahmed. Mas os Tuaregues estão em vantagem numérica. Aproxima-se o fim da saga dos Cavaleiros das Arábias. No escaldante deserto mexicano as forças estão perigosamente desequilibradas. Os muçulmanos não tem pressa. Esperam que as suas vítimas sucumbam à fome e à sede. A vitória para o Príncipe Ahmed é uma questão de horas. Mas o deserto reserva algumas surpresas e a palavra final ainda não foi dita. Aliás, chega a ser irónico que depois de tanta luta e tanto tiro – Carson chega a dizer que pensava que a sua espingarda iria derreter nas suas mãos – serão as palavras que irão colocar um ponto final nas aventuras dos Fantasmas do Deserto.
Imaginem as areias escaldantes na imensidão desértica do Saara. Recortado contra o horizonte… uma figura enigmática, imponente e indecifrável. Cavaleiro e montaria são forasteiros, estranhos ao ambiente no qual, normalmente, se desenrolam as grandes aventuras de Tex e dos seus pards. Mas a imaginação prodigiosa de G.L. Bonelli é capaz de provocar o encontro dos cavaleiros das arábias com os habituais cowboys, soldados e índios, recorrentes na saga dos pards. Pirâmides misteriosas, castelos medievais, cavernas subterrâneas, viagens misteriosas aos mares do Sul, todos esses elementos são usados e aceites, pois Tex não é apenas uma história de “faroeste”, “Tex é verdadeiramente uma viagem ao mundo da aventura”. Instigado por uma sugestão do seu filho Sergio Bonelli, que todos sabemos era, por sua vez, um grande aventureiro e viajante, tendo vivido algumas aventuras e eventos bem reais, G.L. Bonelli conta-nos uma insólita aventura em que Tex e os seus pards enfrentam os famosos Tuaregues. Como ponto de partida, temos a história verdadeira dos muçulmanos que foram para os EUA para servirem de adestradores dos camelos comprados pelo exército americano, de modo a serem utilizados em lugares inóspitos e desérticos. A experiência com os animais não teve sucesso e o exército americano acabou por abandonar animais e homens à sua própria sorte. Erio Nicolò realiza para este brilhante argumento de G.L. Bonelli um dos seus mais belos trabalhos. Algumas das vinhetas são de extraordinária beleza e expressividade.
Factos Históricos – Os Camelos do Velho Oeste
Em 4 de junho de 1855, o major Henry Wayne levou para o Texas 33 camelos comprados em África. Em 1857, o Congresso autorizou uma missão de exploração. Mesmo não apreciando a ideia, o tenente Edward F. Beale levou 25 camelos e os animais acabaram por provar que as teorias eram corretas. Os camelos conseguiram carregar 700 quilos e atravessar áreas que amedrontavam os cavalos, conseguindo ficar de oito a dez dias sem água, não se incomodando com o clima seco ou com o choque de temperaturas que encontravam. Infelizmente, a falta de conhecimento dos soldados americanos fez com que os animais fossem maltratados e, aliado ao fedor dos animais, que afugentava os cavalos e causava mal-estar nos homens, a experiência foi gradualmente deixada de lado, principalmente quando rebentou a Guerra da Secessão. Os animais vindos de tão longe foram abandonados. Usando este facto histórico, G.L. Bonelli faz uso de toda a sua prodigiosa criatividade para colocar Tex e os seus amigos numa grande aventura contra tão inusitados adversários. Claro que esta não foi a primeira nem a única vez que G.L. Bonelli usou este recurso, se nos lembrarmos, por exemplo, de Apache Kid. E aqui, mais uma vez, G.L. Bonelli pôde contar com a ajuda de um mestre dos pincéis para dar “vida” aos famosos Fantasmas do Deserto.
Obra de Thomas Lovell que representa os camelos no Texas