Por Jesus Nabor Ferreira*
Tex e os seus três amigos encontram o último sobrevivente de um violento ataque a uma caravana. À beira da morte, o homem murmura algumas palavras sobre um bando de “Fantasmas” que os teria atacado. Ninguém sobrevive aos seus ataques, ninguém deve saber da sua existência. Os fantasmas são guerreiros estranhos, vestidos nos seus mantos brancos, que, ao perceberem a presença dos rangers, perseguem os quatros pards incessantemente. Conseguindo escapar, Tex e os seus pards chegam até à penitenciaria de Yuma onde, através dos relatos do Capitão Blyte, descobrem a existência dos famosos Tuaregues no Deserto de Gila. Com grande espanto, os quatro amigos escutam a fantástica história dos guerreiros árabes que vieram aos Estados Unidos, juntamente com um lote de camelos, para servirem como instrutores aos soldados americanos sobre a utilização dos animais, adquiridos pelas autoridades militares. Porém, o projeto foi colocado de lado e os árabes abandonados à sua própria sorte. Perdidos num país estranho, acabaram desaparecidos no território americano, para surgirem mais tarde junto à fronteira com o México. Os guerreiros mulçumanos fazem do território mexicano a sua área de atuação para evitar confrontos com as patrulhas do exército americano. Mas agora o seu adversário é Tex Willer, Águia da Noite, chefe dos guerreiros navajos e irmão de sangue do grande Cochise, e isso terá uma importância vital no resultado desse confronto. O Capitão Bytle também conta a Tex sobre o desaparecimento de uma das suas patrulhas, sob o comando do Sargento Bond, em território mexicano. Depois de ouvir tudo, Tex decide partir junto com os três pards à caça dos famosos Tuaregues, sem imaginar que aquele pequeno bando de muçulmanos é agora um grande grupo de fanáticos religiosos.
Uma Guerra Santa
Os guerreiros tuaregues do Príncipe Ahmed estão empenhados numa guerra santa para converterem os infiéis à religião muçulmana. Ao lado deste volumoso grupo, chega também às terras desérticas do Deserto de Tule um líder religioso chamado Mohamed, e graças à conversão de alguns índios e ao trabalho forçado de um grupo de prisioneiros, soldados americanos capturados pelos Tuaregues, é instalada uma pequena e singela mesquita. A partir dessa mesquita, o Príncipe Ahmed deseja expandir o seu império religioso, usando para isso a força e o medo. O sucesso alcançado nos assaltos a pequenas caravanas e contra incautos viajantes, enche de coragem e ousadia os fanáticos Tuaregues. Mas no caminho desse sonho de conquista encontram-se Tex e os apaches de Cochise.
Fogueiras na Noite
Tex e os seus amigos encontram-se com um pequeno grupo de apaches, liderado por Mateo (neto de Cochise), vendo-se cercados por muitos Tuaregues. Um confronto direto significa, dada a superioridade numérica dos inimigos, a morte certa. Porém, Tex sempre foi um grande estratega e, usando de um ardil, consegue enganar os seus inimigos e ganhar mais algum tempo para lutar.
A Força das Armas e Sonhos desfeitos
Após destruírem a mesquita dos Tuaregues e encontrar a patrulha perdida do Sargento Bond, Tex e os seus amigos têm de fugir para o deserto, de modo a tentarem escapar do grupo liderado pelo Príncipe Ahmed. Mas os Tuaregues estão em vantagem numérica. Aproxima-se o fim da saga dos Cavaleiros das Arábias. No escaldante deserto mexicano as forças estão perigosamente desequilibradas. Os muçulmanos não tem pressa. Esperam que as suas vítimas sucumbam à fome e à sede. A vitória para o Príncipe Ahmed é uma questão de horas. Mas o deserto reserva algumas surpresas e a palavra final ainda não foi dita. Aliás, chega a ser irónico que depois de tanta luta e tanto tiro – Carson chega a dizer que pensava que a sua espingarda iria derreter nas suas mãos – serão as palavras que irão colocar um ponto final nas aventuras dos Fantasmas do Deserto.
Imaginem as areias escaldantes na imensidão desértica do Saara. Recortado contra o horizonte… uma figura enigmática, imponente e indecifrável. Cavaleiro e montaria são forasteiros, estranhos ao ambiente no qual, normalmente, se desenrolam as grandes aventuras de Tex e dos seus pards. Mas a imaginação prodigiosa de G.L. Bonelli é capaz de provocar o encontro dos cavaleiros das arábias com os habituais cowboys, soldados e índios, recorrentes na saga dos pards. Pirâmides misteriosas, castelos medievais, cavernas subterrâneas, viagens misteriosas aos mares do Sul, todos esses elementos são usados e aceites, pois Tex não é apenas uma história de “faroeste”, “Tex é verdadeiramente uma viagem ao mundo da aventura”. Instigado por uma sugestão do seu filho Sergio Bonelli, que todos sabemos era, por sua vez, um grande aventureiro e viajante, tendo vivido algumas aventuras e eventos bem reais, G.L. Bonelli conta-nos uma insólita aventura em que Tex e os seus pards enfrentam os famosos Tuaregues. Como ponto de partida, temos a história verdadeira dos muçulmanos que foram para os EUA para servirem de adestradores dos camelos comprados pelo exército americano, de modo a serem utilizados em lugares inóspitos e desérticos. A experiência com os animais não teve sucesso e o exército americano acabou por abandonar animais e homens à sua própria sorte. Erio Nicolò realiza para este brilhante argumento de G.L. Bonelli um dos seus mais belos trabalhos. Algumas das vinhetas são de extraordinária beleza e expressividade.
Factos Históricos – Os Camelos do Velho Oeste
Em 4 de junho de 1855, o major Henry Wayne levou para o Texas 33 camelos comprados em África. Em 1857, o Congresso autorizou uma missão de exploração. Mesmo não apreciando a ideia, o tenente Edward F. Beale levou 25 camelos e os animais acabaram por provar que as teorias eram corretas. Os camelos conseguiram carregar 700 quilos e atravessar áreas que amedrontavam os cavalos, conseguindo ficar de oito a dez dias sem água, não se incomodando com o clima seco ou com o choque de temperaturas que encontravam. Infelizmente, a falta de conhecimento dos soldados americanos fez com que os animais fossem maltratados e, aliado ao fedor dos animais, que afugentava os cavalos e causava mal-estar nos homens, a experiência foi gradualmente deixada de lado, principalmente quando rebentou a Guerra da Secessão. Os animais vindos de tão longe foram abandonados. Usando este facto histórico, G.L. Bonelli faz uso de toda a sua prodigiosa criatividade para colocar Tex e os seus amigos numa grande aventura contra tão inusitados adversários. Claro que esta não foi a primeira nem a única vez que G.L. Bonelli usou este recurso, se nos lembrarmos, por exemplo, de Apache Kid. E aqui, mais uma vez, G.L. Bonelli pôde contar com a ajuda de um mestre dos pincéis para dar “vida” aos famosos Fantasmas do Deserto.
Bibliografia:
– Tex nº 66 e 67 – Editora Vecchi, 1ª edição, 1976
– Tex Collezione Storica a Colori nº 76
– https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-os-camelos-do-velho-oeste.phtml
– https://zonafrancacomics.blogspot.com/2010/10/normal-0-21-false-false-false-pt-br-x.html
* Texto de Jesus Nabor Ferreira publicado originalmente na Revista nº 14 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2021.
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