A revista brasileira Bill The Kid & Outras Histórias atingiu neste mês de Março a edição nº 23, consolidando-se cada vez mais na história da produção brasileira por atingir tantos números, ainda por cima tendo o selo de uma editora alternativa, a Opção 2 do editor Arthur Filho, e por reunir tantos grandes nomes da banda desenhada brasileira, aliás a edição nº23 é um novo marco histórico, pois nunca uma revista independente de faroeste chegou tão longe no Brasil!
Esta edição nº 23 tem uma (magnífica) capa (colorida) de Fábio Chibilski, histórias inéditas com tema diligências de Ailton Elias e Arthur Filho e ainda as rúbricas Correio do Billy,Curiosidades e Histórias do Velho Oeste.
Capa de Billy The Kid & Outras Histórias nº 23
Recorde-se que esta colecção nasceu no ano de 2005, quando movido por uma antiga paixão pelos westerns, e vendo que nas bancas de jornais Tex Willer, o herói da Casa Bonelli, era o único título disponível para atender a uma legião de fãs de bang-bang, Arthur Filho decide publicar a revista Billy The Kid & Outras Histórias.
Quem desejar adquirir este número (tem o formato A5, 32 páginas e miolo em papel reciclado e capa a cores em papel couchê 120g, com um custo de R$ 8,00) assim como números anteriores deve fazer os pedidos através do e-mail do próprio editor: arthur.goju@bol.com.br
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Em Maio compareça em Anadia e ganhe um Tex autografado por Stefano Biglia
Nos dias9 e 10 de Maio deste ano, realizar-se-á na cidade de Anadia, capital da região bairradina, a 2ª Mostra do Clube Tex Portugal, onde obviamente não deixará de estar presente em grande destaque a personagem Tex Willer, não só pelas duas exposições associada ao Ranger, uma das quais mostrará emantestreia mundialcerca de 10 páginas de uma história de Tex desenhada por Stefano Biglia, ainda inédita (a outra exposição contará com cerca de 10 páginas da mítica aventura “Patagónia“), mas também pela presença dos conceituados desenhadores italianosPasquale FrisendaeStefano Biglia.
Como forma de agradecimento por este convite português,Stefano Biglia desenhou o Tex em Anadia e num dos seus locais mais emblemáticos: a Praça do Município, mais precisamente em frente ao edifício municipal e empunhando a bandeira com o brasão da cidade de Anadia, tornando assim esta segunda presença do Ranger na capital da Bairrada, uma região rica e afamada pelo leitão, mas também pela produção de apreciados espumantes, muito mais especial, como podemos ver de seguida num desenho (colorido pelo próprio desenhador) que o blogue português do Tex divulga para o mundo, mas sobretudo para os apaixonados Texianos portugueses em mais um inédito e exclusivo mundial.
Tex em Anadia, empunhando a bandeira com o brasão da cidade, numa belíssima arte de Stefano Biglia.
Os apreciadores de banda desenhada no geral e de Tex em particular presentes, nos dias 9 e/ou 10 de Maio, no evento de Anadia, receberão uma cópia de alta qualidade (em formato A4) deste magnífica ilustração que comprova esta nova passagem de Tex por Portugal, devidamente autografada porStefano Biglia, já que a organização da 2ª Mostra do Clube Tex Portugal deseja oferecer uma recordação especial a quem prestigiar o evento marcando presença na bela cidade de Anadia. Trata-se sem dúvida de mais um motivo extra para se fazer presente, até porque para valorizar ainda mais este item texiano, a produção está restringida a apenas 100 cópias, por isso caro pard, seja um dos 100 Texianos a terem esta preciosidade na sua colecção, preciosidade que também constará nas colecções de TODOS os sócios do Clube Tex Portugal, já que a Direcção do Clube reservará um destes desenhos, devidamente autografados, para todo e qualquer sócio do Clube Tex Portugal que por qualquer motivo não possa comparecer ao evento.
Como curiosidade e para efeito de eventual comparação deste magnífico desenho do autor italiano, mostramos a fotografia da Praça do Município de Anadia, em queStefano Biglia se inspirou para a realização desta homenagem que o autor italiano quis fazer à bela cidade de Anadia:
Praça do Município de Anadia
A titulo de curiosidade pode-se afirmar convictamente que Anadia é a capital portuguesa do Tex, o verdadeiro Quartel General do Ranger no nosso país, tendo em conta que a capital da Bairrada já teve a honra de receber em anos anteriores, três dos maiores nomes da longa saga (mais de seis décadas e meia) de Tex: Fabio Civitelli, Andrea Venturi e Pasquale Del Vecchio, que curiosamente estiveram no mesmo local em que também Tex está nesta belíssima arte de Stefano Biglia, como se pode ver nas três fotografias que se seguem e que têm a Praça do Município de Anadia como pano de fundo:
Fabio Civitelli e José Carlos Francisco na Praça Municipal de Anadia
Andrea Venturi e José Carlos Francisco na Praça Municipal de Anadia
Pasquale Del Vecchio e José Carlos Francisco na Praça do Município de Anadia
Poucas são as cidades, inclusive em Itália, que se podem orgulhar de ter sido já visitadas por Tex e por cinco (já contando com as presenças deStefano Biglia e Pasquale Frisenda nesta 2ª Mostra) dos seus mais consagrados artistas, por isso caro pard texiano, não deixe de comparecer em Anadia nos dias 9 e 10 de Maio próximo para conhecer e conviver com Pasquale Frisenda e Stefano Biglia e com muitos fãs e coleccionadores do Ranger que já confirmaram a sua presença, alguns inclusive vindos do estrangeiro e para ganhar um fantástico desenho de Tex devidamente autografado!
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Por Carlo Monni (texto) e Adriana Roveda e Gianluca Luke Gulmini (fotos)
* Ticci será o desenhador do álbum comemorativo dos 70 anos de Tex* Civitelli desenhará o mítico Tex nº 700* Mefisto retornará através dos irmãos Cestaro* História romântica de um jovem Kit Carson* Del Vecchio desenhará um Maxi Tex* Desenhador sérvio integra o staff do Ranger* Dois Tex Gigantes em 2016* Possíveis histórias de Tex com Ken Parker e com Zagor .
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Directamente de Milão, local onde decorreu neste último fim de semana, a 22ª edição do Salone del Fumetto, dei Cartoons, del Collezionismo e dei Games e Videogames, popularmente denominadaCARTOOMICS e que contou com a presença de vários autores ligados a Tex, Carlo Monni, correspondente do blogue do Tex na Itália deixa-nos aqui as mais recentes novidades no que à vida editorial do Ranger diz respeito (as fotos são da autoria dos nossos correspondentes Adriana RovedaeGianluca Luke Gulmini):
Carlo Monni e José Carlos Francisco
De retorno da Cartoomics, onde entre coisas assisti à conferência dedicada a Tex com o título “Tex: Novas fronteiras” e que contou com a participação de Mauro Boselli e Maurizio Dotti, eis o incrível número de notícias narradas pelo vulcânico Boselli e que me apresso a apresentar, aos leitores do blogue português do Tex:
1) Giovanni Ticci será o desenhador do álbum comemorativo do septuagésimo aniversário de Tex, o número 695, com textos de Mauro Boselli.
2) Fabio Civitelli, por sua vez, realizará a mítica edição número 700, também com textos de Mauro Boselli.
3) Mefisto retornará e a história com textos de Mauro Boselli será confiada aos gémeos Gianluca e Raul Cestaro (que actualmente estão a desenhar uma história de Dylan Dog escrita por Paola Barbato). A história com o maior inimigo de Tex será de dois volumes.
Maurizio Dotti e Mauro Boselli
4)Com o encerramento do Almanacco del West e o lançamento de Tex Magazine, também mudará a fórmula das histórias contidas. Eu disse histórias, no plural, porque passarão a ser duas: que juntas darão as mesmas 110 páginas habituais. No primeiro volume desta nova série teremos uma história de 78 páginas, escrita por Pasquale Ruju e desenhada por Emanuele Barison e uma de 32 escrita por Mauro Boselli e desenhada por Alessandro Bocci que trará uma aventura, a solo, de um jovem Kit Carson com a presença de uma mulher onde o nosso Ranger poderá ter chegado a vias de facto…
5) Mauro Boselli pensa repetir nos próximos anos histórias nos mesmos moldes também dedicadas aos outros pards.
6) As histórias de 110 páginas originalmente destinadas ao Almanacco del West que já estejam prontas ou em vias de conclusão passarão a ser destinadas à série regular ou a um Maxi Tex com três histórias.
Stand da SBE na Cartoomics
7)Confirmados para os álbuns cartonados, que se estreou este ano com Paolo Eleuteri Serpieri, dos próximos anos Boselli & Alberti, Boselli & Stano e Manfredi & De Vita.
8 ) O layout gráfico será mais livre e layout de página será acordado entre o escritor e o desenhador. As histórias serão mais tradicionais no conteúdo mas o estilo do roteiro será adaptado para o chamado formato francês.
9) Ainda nesta luxuosa série, as histórias de Boselli & Alberti e de Manfredi & De Vita serão ambientadas no passado.
10) A propósito de histórias ambientadas no passado, Boselli confirmou que fará a história da vingança, nunca anteriormente contada, de Tex contra Redmond, o pérfido incendiário do rancho de Nellie Delaney e que resultou na morte do cozinheiro chinês Wang (“Il fuoco“ – Tex italiano nº 15/16, onde Tex jura vingança, vingança essa que só agora veremos).
11) Será ambientada no passado também uma nova história que Pasquale Del Vecchio está para iniciar, com textos de Mauro Boselli e destinada a um Maxi Tex. Nela participará um adversário já aparecido no passado longínquo do Ranger mas cujo nome está ainda no segredo dos deuses. Boselli só disse que não será Coffin.
Arte texiana de Alessandro Bocci presente na Cartoomics
12)Sempre a propósito do passado, em “Tuono su Winnipeg” um misterioso assassino agirá na cidade e todos suspeitarão de Kid Rodelo mas o culpado poderá ser um antigo e malvado inimigo de Tex de há alguns anos e que todos acabamos por nos esquecer. Boselli inclusive lançou o desafio entre os presentes para ver se alguém adivinhava quem seria e ninguém acertou.
13) “A filha de Satânia” está em produção. Os desenhos foram confiados a Vladimir “Laci” Krstic, desenhador sérvio muito activo em França e que em Itália realizou os números 3 e 4 de Adam Wild. Boselli definu o seu traço como sendo muito escuro e não está seguro que o seu estilo se possa adaptar a Tex e por agora ainda não está decidido se terá uma única aparição na saga ou se passará a integrar o staff. No que diz respeito à história, Boselli disse apenas que contará com a participação de um vilão (ou vilâ? ) mascarado e… a filha de Cora Gray. A história será publicada na série regular.
14) O retorno de uma ainda bela e sensual Lupe Velasco meterá Tex em dificuldades para ele insólitas.
15) Um outro novo desenhador será Mauro De Luca, também ele activo no mercado francês, que desenhará uma história escrita por Pasquale Ruju originalmente pensada para o Almanacco del West e que estava destinada a José Ortiz, que tinha realizado apenas duas páginas a lápis antes do seu falecimento.
Tex – Novas fronteiras
16) Também Romano Felice Mangiarano, mais conhecido por Felmang, está a desenhar uma história, igualmente escrita por Ruju, para o Almanacco. Agora o seu destino é incerto.
17) Boselli & Dotti realizarão uma história curta de Tex para um livreto a distribuir por ocasião da Mostra de Banda Desenhada a realizar em Lugano no próximo mês de Outubro.
18) A uma pergunta do público Boselli respondeu que ele está praticamente a escrever só histórias com os quatro pards e que também Ruju está a escrever diversas aventuras com os quatro pards presentes. Sobre as histórias de Manfredi nada disse.
19) Boselli também disse que fará o que for possível para publicar em 2016 para além do já confirmado Texone de Enrique Breccia, publicar também o de Stefano Andreucci, tendo previsto também que o Texone de Laura Zuccheri deverá ser concluído no final desse mesmo ano de modo a publicá-lo em 2017.
20) Interrogado sobre eventuais team up, deu a conhecer que naquele de Tex com Ken Parker tal possibilidade só depende de Berardi, que não vê muito provável um encontro do Ranger com Adam Wild e que recentemente teve uma ideia para um possível encontro de Tex com um velho Zagor. Aproveitando a oportunidade perguntei-lhe como veria ele um encontro de Tex com personagens que já não são publicados como aqueles criados nos anos 50 por G.L. Bonelli ou o Ragazzo nel Far West criado por Guido Nolitta, respondeu que teme que seria uma coisa que só interessasse alguns nerds como ele e eu.
21) Uma não notícia para terminar: não houve notícias quanto a Claudio Villa e o seu Texone.
E com isto termino. Aguardo os vossos comentários.
Texto de Carlo Monni(traduzido e adaptado por José Carlos Francisco) e fotos de Adriana Roveda e Gianluca Luke Gulmini
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Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão, de Bira Dantas na caricatura e de Emanuele Rosso nas fotografias.
Caro Andrea Accardi, bem-vindo ao blogue português de Tex! Para começar, fale de você, da sua infância e adolescência na nativa Palermo. Andrea Accardi: Em Palermo eu tive uma infância feliz, passava bastante tempo a brincar com os soldadinhos e a ler os quadradinhos do meu pai: Príncipe Valente de Foster, Flash Gordon de Raimond, Corto Maltese de Pratt, Tex da dupla Bonelli/Galleppini, Mickey de Disney e Gottfredson, Cocco Bill de Jacovitti, mas também Toppi, Battaglia, Crepax, etc. Durante a adolescência, depois de doses elevadas de BD Marvel, tive a atracção fatal pelos desenhos animados japoneses e pelo seu estilo cativante. Palermo é a minha cidade natal, o local em que me formei e, apesar da minha fuga, é sempre o meu núcleo, a minha placenta.
Com que idade você começou a se envolver com lápis, nanquim e pincéis? Andrea Accardi:Eu não me recordo de um momento em que não tenha desenhado. O meu pai, representante comercial, passava-me os seus blocos usados de folhas coloridas, cópias de encomendas feitas, e no verso das folhas eu desenhava as minhas histórias, um único quadradinho por página, claro. Eu usava canetas Bic e hidrocores Carioca. E as caixas de lápis de cor eram uma das minhas principais fontes de inspiração: o meu objectivo era usar os lápis para copiar as imagens. Nanquim e pincéis chegaram mais tarde, até os 13 ou 14 anos eu pensava que o melhor instrumento para desenhar era a hidrocor de ponta fina.
Você começou a sua carreira por quais canais? Qual foi o seu primeiro trabalho profissional? Andrea Accardi:Existem várias etapas que eu considero fundamentais para o desenvolvimento da minha profissão. Em Palermo eu frequentei o ensino médio tradicional e, depois de uma breve experiência na Academia Cappiello de Florença (uma escola de desenho publicitário), para preencher as minhas lacunas técnicas eu inscrevi-me na Academia de Belas Artes de Palermo. Não melhorei muito os meus conhecimentos técnicos, não havia matérias adequadas. Hoje existem diversos cursos específicos para BD e ilustração, também na Academia. De um ponto de vista logístico, foi a Academia de Belas Artes de Bolonha o canal que me permitiu chegar à redacção da Granata Press, a Editora que eu considero uma escola, um local de desenvolvimento e um trampolim para a minha carreira. Eu cheguei a ela por meio de alguns colegas de curso aficionados por quadradinhos japoneses (os futuros Kappa Boys). O meu primeiro ofício foi o de letrista e depois, aos poucos, eu comecei a ilustrar os RPG (jogos de personagens) para a revista Kaos, uma bela oportunidade para um autodidacta como eu.
Porque você se mudou para Bolonha? Andrea Accardi:Bolonha é uma cidade em contínua agitação, uma oficina de ideias que fluem em muitos campos e em várias direcções, a envolver seja a actividade política que aquela social e artística. Eu decidi mudar-me atraído pelo trabalho que um grupo de autores havia desenvolvido no campo da BD alguns anos antes e que eu via como uma espécie de novo caminho para os comics, era o grupo Valvoline (Daniele Brolli, Lorenzo Mattotti, Giorgio Carpinteri, Marcello Jori, Jerry Kramsky e Igort). E em torno de Bolonha eram ambientadas inúmeras histórias de Andrea Pazienza, um dos autores que eu amava no final dos anos Oitenta.
O que se recorda da sua actuação com a Granata Press? Andrea Accardi: A experiência na Granata Press, dirigida pelo saudoso Luigi Bernardi, foi fundamental. Sob o olhar severo do director de arte Roberto Ghiddi eu exerci todos os ofícios colaterais da profissão de autor de BD, do diagramador ao letrista, do operador de fotolito ao impressor. Sem falar da oportunidade que uma vida na redacção pode oferecer ao jovem aprendiz: conhecer pessoalmente alguns Mestres da BD italiana que frequentavam a Editora não só por razões profissionais, entre os quais Roberto Raviola, em arte Magnus.
O seu trabalho de 1994, com texto de Onofrio Catacchio, só foi publicado em 1999. Porque? Andrea Accardi:A Granata Press projectava uma nova série Golem, na qual deveria aparecer o meu trabalho, com roteiro de Onofrio Catacchio (um dos autores que frequentavam a redacção de forma mais assídua), Prole do Inferno. Infelizmente a Editora fechou alguns meses depois, e o livro, embora tenha sido pago, permaneceu inédito. Alguns anos mais tarde, depois de vários trabalhos, a Kappa Edições (originada de uma costela da Granata) ofereceu-se para publicá-lo.
Prole do Inferno foi publicada na Itália (Kappa Edições) e na França (Albin Michel): qual foi a resposta do público, dos profissionais da área e da crítica? Deve ter sido uma satisfação ver o material publicado também na França. Andrea Accardi:Na verdade eu não vi resposta alguma, e as vendas devem ter sido muito baixas. Na Itália, a quase inexistente crítica de BD nem percebeu. Apesar disso, a Albin Michel comprou os direitos para a França e a imprimiu no clássico formato colorido daquele País. À parte a satisfação e os elogios de amigos e colegas, também na França a coisa passou em silêncio.
A actuação com o roteirista Michelangelo La Neve concretizou-se na história Os Danados, para a série ESP. Você acredita que, nesses seus primeiros trabalhos, maturou um estilo bem reconhecível, ou teve que se adaptar às diferentes exigências editoriais? Andrea Accardi: Eu trabalhei nessa história logo depois do encerramento da Granata Press. Eu havia mandado algumas provas a Michelangelo e ele gostou… com muitas reservas. Eu ainda era influenciado pelos traços de Mignola, o que se vê muito em Prole, e tentei adaptar aquele traço para aquele tipo de publicação em série. Foi o meu baptismo nos quiosques, com o público que chamamos de popular. Podemos dizer que, tanto ESP quanto Prole, foram trabalhos nos quais se evidencia uma vontade de buscar um estilo, mas ainda distantes de uma uniformidade. Michelangelo acompanhou-me passo a passo nessa experiência totalmente nova.
A partir de 1996 você trabalhou com o roteirista Massimiliano De Giovanni: fale um pouco desse trabalho. Andrea Accardi:Eu comecei a trabalhar com Massimiliano em 1996, por ocasião do primeiro número de Mundo Näif, publicado pela Star Comics. Eram histórias de personagens que, na época, tinham a nossa idade, faziam as coisas que nós fazíamos, espelhavam as nossas aspirações e tinham os nossos mesmos problemas de relacionamentos, de sentimentos, etc. Deve-se dizer que tudo surgiu de outro projecto nascido na Granata Press, a revista de vida curta Dinamite, que lançou as bases de uma BD que abordasse o quotidiano – e penso em Piera dos Espíritos, de Giovanni Mattioli e Davide Toffolo. O encontro com Massimiliano foi muito prolífico e continuamos a trabalhar juntos por mais de quinze anos, a levar adiante as aventuras sentimentais de Matteo e Enrico, o thriller fantástico de Barcode, a falta de escrúpulos de Lupin III e o Japão fantástico de A viagem de Akai.
Em 2003 você entrou para a equipa da Eura Editoriale e – pode ter sido um sinal do destino – começou a desenhar John Doe para os roteiros de Roberto Recchioni: fale um pouco disso e conte como foi trabalhar com o actual editor de Dylan Dog. Andrea Accardi:Roberto apresentou-me o roteiro do sexto número de John Doe logo depois que nos encontramos numa pequena mostra de Bolonha. Ele havia visto as minhas páginas e percebeu o que podia esperar de mim. A partir dali, trabalhar com ele sempre foi fácil, estimulante e, sobretudo, gratificante. Eu estimo bastante Roberto como pessoa e como autor, e uma das suas melhores qualidades, em minha opinião, é justamente a capacidade de imaginar o resultado.
Quase dez anos depois, a actuação com Recchioni produziu uma jóia como o segundo volume da série bonelliana Le Storie (n.t.: As Histórias). Como evoluiu essa nova actuação e como você entrou em contacto com a Sergio Bonelli Editore? Andrea Accardi: Eu desenhei mais dois números de John Doe antes de chegar à Sergio Bonelli Editore e a Le Storie. Graças ao trabalho sobre os samurais que fiz com Roberto, agora sou um colaborador da Editora. Eu havia tentado muitos anos antes, fiz testes com Nathan Never, Dylan Dog, Nick Raider, Jonathan Steele, Dampyr, e sempre fui recusado.
Roberto Recchioni, junto aos seus colaboradores, é o artífice da renovação de Dylan Dog: abriu-se uma possibilidade de você trabalhar com o Investigador do Pesadelo? Andrea Accardi: Nunca falamos disso.
Antes de passarmos às perguntas sobre o Ranger a quem este blogue é dedicado, umas palavrinhas do trabalho que você fez com Luca Enoch. Andrea Accardi: Outra óptima experiência com um grande autor, outro passo adiante na minha definição de estilo. Hit Moll deveria ser o meu primeiro trabalho publicado na série Romances aos Quadradinhos da Bonelli. O material foi pago e depois vendido à Editora BD porque o tema abordado não se enquadrava na linha editorial da SBE.
Passemos ao Ranger que dá nome a este blogue: como aconteceu a sua entrada na equipe de desenhadores de Tex? Andrea Accardi: Roberto também foi o artífice de mais essa culpa. Estávamos a trabalhar na segunda história da trilogia dos samurais, quando ele falou-me da possibilidade de desenhar Tex, uma história curta para as edições especiais em cores. Pensei no meu pai, em quanto isso lhe daria prazer, pensei na grande chance que se abria para trabalhar com esse colosso da BD italiana. Aceitei com grande felicidade… e preocupação.
Como você se sentiu a trabalhar com o Ranger? Andrea Accardi:Uma grande responsabilidade. Um confronto, não só com uma personagem mítica, mas também com um importante conjunto de desenhadores míticos.
Ao desenhar Tex, você encontrou alguma dificuldade? Andrea Accardi:Claro que encontrei, e de vários tipos: das técnicas – como os cavalos e os ambientes de época, as roupas, os revólveres, os chapéus (mamma mia, existe coisa mais difícil de desenhar do que chapéus?) – às mais gerais, como os movimentos e posturas das personagens. O faroeste tem uma linguagem precisa. O rosto de Tex, por exemplo, ainda é um mistério para mim. Foi muito difícil enquadrá-lo em suas expressões mais típicas e monolíticas. Ao menos eu aprendi, mais uma vez, a reconhecer os meus limites.
Você teve que modificar o seu estilo costumeiro? Andrea Accardi:Não exactamente, mas como Boselli observou, o meu costume de exagerar as expressões das personagens não combinava com o género. Por isso eu fechei muitas bocas abertas, e endireitei lábios que tinham a tendência a se arquear demais.
Como define graficamente o seu Tex? Andrea Accardi: Não sei, foi uma experiência importante, mas podia ser melhor. Eu queria dar alguma coisa a Tex, algo meu, que fosse reconhecível e que permanecesse. Bem, digamos que foi Tex quem me deu alguma coisa!
Nos últimos tempos vários desenhadores fizeram uma rápida aparição na série de Tex e depois voltaram a trabalhar com outras personagens. O seu compromisso com Tex será duradouro, ao menos na sua intenção? Andrea Accardi: A intenção do Color Tex (Tex Especial em Cores) é a de propor desenhadores e roteiristas extra, que normalmente não trabalham na série regular. Mas há excepções, claro. Eu confesso que, enquanto desenhava essa história curta de Tex, durante aquelas longas tardes assoladas de poeira e sangue, de modo ingénuo fantasiei sobre a possibilidade de fazer um Tex tão bonito que seria chamado pelo editor Boselli, com todas as honras, para ir directo à série mensal. Não foi exatamente o que aconteceu. Na verdade, eu volto feliz para os samurais.
Na sua opinião, quem ou o que é Tex? O que você gosta mais e gosta menos no Ranger? Andrea Accardi: Tex é a aventura, e a sua determinação, que se vê tanto nas histórias fantásticas quanto nas realísticas, é o que me agrada mais. E isso também é o tema principal que delineia todos os títulos da Editora. Eu gosto do relacionamento com Kit Carson, nos diálogos muitas vezes se destaca a veia irónica de uma personagem granítica. Eu gosto muito do lenço preto em seu pescoço, um pouco menos da cor da camisa.
Para concluir o tema, como você vê o futuro do Ranger? Andrea Accardi: Pelos desenhadores e roteiristas que trabalharam com a personagem nos últimos anos, eu diria que é radioso.
Como é trabalhar na Sergio Bonelli Editore? Andrea Accardi:A Editora é uma mãe (e também é um maná, sim, é verdade!).
O que é a BD, para si? Como linguagem e como experiência profissional. Andrea Accardi: Uma das várias possibilidades criadas pelo homem para viver em outra dimensão, uma brincadeira. Desde que se tornou um trabalho, é um compromisso para entreter os outros, sem reservas.
Quanto tempo você leva para desenhar uma página? Você cumpre horários? Como é o seu dia normal, entre trabalho, leituras, busca de informações, ócio, vida familiar? Andrea Accardi: Ultimamente eu levo quatro dias para completar uma página, dos quais dois para a documentação, estudos e esboços, e dois para a passagem de nanquim e os efeitos especiais. Eu não sigo horários precisos, o meu estúdio é em casa, por isso muitas vezes dependo dos compromissos familiares. A manhã e a noite são os melhores momentos para trabalhar, acompanhado pelo rádio e pelos vários cafés. À tarde, quando estamos todos em casa, é impossível se concentrar, por isso eu procuro fazer todas as actividades caseiras, fazer compras, arrumar a casa, sair com Donatella (a minha doce cara-metade), etc. Eu leio sempre que sinto vontade, mesmo em prejuízo do trabalho, na poltrona do estúdio ou na cama, à noite. Em todo caso – e acho que não sou o único – a família considera-me um fantasma, eu estou mas não estou.
Fale um pouco da sua técnica de trabalho. Andrea Accardi:Para os esboços eu uso lápis HB e depois pincéis. Para a arte-final, uso os chamados brush pen, e não resisto à tentação de recarregá-los com o nanquim, e o resultado é que reduzo a vida útil da ponta. Com relação ao papel, quanto mais simples, melhor. Para os samurais, eu trabalhei em papel F2 que, por ser bem fino, permite-me ver melhor todos os detalhes quando vou limpar os traços de lápis na prancheta luminosa. Para todos os efeitos especiais, eu aplico uma película transparente sobre a qual trabalho com o nanquim, exactamente como se fosse um nível de photoshop. Uso o computador para corrigir os esboços a lápis ou para montar as tiras de quadradinhos que faço em separado.
Quais são os seus projectos imediatos? Andrea Accardi: Eu voltei a trabalhar nas histórias japonesas escritas por Roberto Recchioni, sempre para a SBE.
Quais BDs você lê actualmente? Andrea Accardi:Saga, da dupla Vaughan/Staples, e The Walking Dead, de Kirkman e Adlard. Há alguns dias eu acabei de reler pela quarta vez Kiseju, de Hitoshi Iwaaki, um autor japonês que eu aprecio muito e de quem também estou a ler Historie. À noite, quando dá, eu relaxo com a leitura, pela enésima vez e em ordem cronológica, das histórias dos patos de Barks.
Além de BD, que livros você lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música? Andrea Accardi: Quanto à leitura, eu não sigo uma linha editorial, eu deixo-me inspirar pelo momento. Passo do romance histórico ao ensaio sociológico. Anos atrás eu estava fixado em Bulgacov, hoje tento recuperar tudo de Saramago, eu gostaria de ilustrar o seu Caim. Ao cinema eu vou duas ou três vezes por mês, e deixo Donatella convencer-me a ver filmes que eu jamais veria sozinho, e geralmente acabo positivamente surpreso. O contrário nunca acontece! Em casa, eu aproveito o tempo que dedico à documentação para ver filmes japoneses, os chambaras, assim como fiz com os de faroeste enquanto desenhava Tex. E há a música: quando eu era mais jovem, gostava de trabalhar ouvindo hardcore, de Fugazi a Youth Brigade; atingi o ápice com a música tecno e com a electrónica (pobres vizinhos); hoje ouço até Toto Cutugno (não, não é verdade, mas Matia Bazar sim!).
Bem, chegamos ao fim. Há algo mais que você gostaria de dizer? Algo que não lhe foi perguntado e que você gostaria que os leitores soubessem? Andrea Accardi: Sim, eu gostaria de falar da minha paixão pelas estatuetas de Santos. Em Lisboa eu comprei uma belíssima de Santo António de Pádua em terracota, com um acabamento bem irregular, como eu gosto. Se alguém se interessar… 🙂
Caro Andrea, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu. Andrea Accardi: Sou eu que agradeço, pelo interesse e pelo entusiasmo que espero não ter feito diminuir.
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