As Leituras do Pedro*: Tex, Lucky Luke e o juiz Roy Bean
O acaso fez-me ler quase de seguida duas bandas desenhadas que têm, se não como protagonista, pelo menos como personagem central, uma das velhas lendas do Oeste, o juiz Roy Bean, que se considerava “a única lei a oeste de Pecos”.
Personagem carismático, que a lenda caracteriza como amante do álcool e da justiça, aplicando ambos tantas vezes em simultâneo no saloon que lhe servia de tribunal ou vice-versa, em sentenças duvidosas e em libações generosas, Roy Bean pode (agora) também gabar-se de ter conhecido outras lendas do velho Oeste – talvez menos reais mas mais duradouras – os cowboys Lucky Luke e Tex Willer.
De comum na passagem de ambos por Langtry, a cidade em que Bean exerceu o duplo mandato a que se auto-propôs após ter escapado quase milagrosamente a um enforcamento quando a corda que o sustentava se partiu, apenas a tentativa de pendurar numa árvore os dois heróis dos quadradinhos – Lucky Luke neste relato; Tex Willer no seu primeiro encontro com Roy Bean – e a ausência de vítimas provocadas pelo magistrado no exercício das suas funções, já que, no restante, estes dois westerns diferem em praticamente tudo, do tom à interacção de Lucky e Tex com o juiz.
O Juiz, uma história de luta pelo poder e uma homenagem à lenda, é, possivelmente, um dos mais conseguidos álbuns de Morris a solo, com as peripécias processuais a sucederem-se e a darem origem a sorrisos bem-dispostos, com o protagonismo do cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra a ser repartido por Bean, o seu urso Joe, um ansioso cangalheiro e o vilão Bad Ticket.
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Quanto ao díptico O Segredo do juiz Bean/Atentado em San Antonio, segundo encontro de Tex e Carson com o juiz, aborda a paixão (verdadeira e platónica) deste último pela actriz inglesa Lilly ‘Jersey’ Langtry – cujo nome deu mesmo ao seu saloon e para quem construiu um teatro em Langtry – com a curiosidade da sua figura tutelar todo o relato sem na verdade chegar a aparecer.
Fora isso, esta é uma longa história bem delineada por Mauro Boselli, com um segredo, uma vingança e a sede do dinheiro a servirem de mote, em que consegue alternar acção e suspense em doses generosas, tornando-a bem apetecível para os fãs do género, que certamente apreciarão igualmente o inesperado final e o traço duro e bem contrastado de Pasquale Frisenda.
Lucky Luke: O juiz Morris ASA
Portugal, 2009
222 x 295 mm, 48 p., cor, cartonado 9,99 €
Tex #535 – O Segredo do juiz Bean
Tex #536 – Atentado em San Antonio Mauro Boselli (argumento) Pasquale Frisenda (desenho) Mythos Editora
Brasil, Junho/Julho de 2014
135 x 177 mm, 114 p., pb, brochado
R$ 7,60 n/ 3,60 €
*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro.
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* O blogue português do Tex apresenta hoje os mais recentes trabalhos dedicados a Tex, da autoria de Ronald Guimarães .
Tex by Bonelli
Ronald Guimarães
Conforme se pode constatar na entrevista concedida em exclusivo ao nosso blogue (e que pode ser vista na íntegra, clicando AQUI) o interesse de Ronald Guimarães por Tex aconteceu em 1980, quando ainda garoto, mas já sendo fã de banda desenhada, em especial de Conan desenhado por Buscema, ao procurar alguns números antigos do seu herói natural da fantasiosa Ciméria, encontrou em casa de um seu amigo um exemplar de Tex, mais precisamente o número 111, “Ao Sul de Nogales“, que de imediato o fascinou sobretudo a nível do desenho, tendo inclusive Giovanni Ticci (o desenhador da história em questão) passado a ser a partir daquele momento uma grande inspiração para Ronald Guimarães.
Tex de Ronald Guimarães tendo Gary Cooper como modelo
Ronald Guimarães, inclusivamente sempre diz a quem lhe pergunta sobre o seu trabalho de desenhador, que se não fosse por causa de Giovanni Ticci não estaria fazendo o que faz hoje em dia, pois Ticci com o seu Tex em particular, com cenários incrivelmente bem feitos e com uma naturalidade física sem igual nos seus desenhos é que o levaram para onde está, profissionalmente falando.
Tex e Carson na trilha…
Hoje em dia, para além de Ticci, fica também impressionado com Claudio Villa e Corrado Mastantuono e sempre busca também por trabalhos realizados por estes artistas italianos da Casa Bonelli que servem de inspiração para as cada vez mais ilustrações que Ronald Guimarães dedica ao nosso Ranger, ilustrações essas que damos a conhecer então aos nossos leitores e que mostram que o prestigiado desenhador de Tex está cada vez mais apto a desenhar profissionalmente TEX, como ambiciona e atendendo á sua qualidade será certamente uma questão de tempo até ser convidado a integrar o staff bonelliano, até porque no presente Ronald Guimarães é muito apreciado e até seguido na Itália.
Tex e o puma na arte de Ronald Guimarães
Sketchbook by Ronald Guimarães
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Hoje no blogue do Tex vamos dar, uma vez mais, conhecimento aos nossos leitores de inúmeras páginas INÉDITAS de Tex que estão sendo desenhadas por alguns dos grandes nomes do staff de Tex, deLaura Zuccheri a Yannis Ginosatis passando por Acciarino, Andreucci, Villa, Dotti, Carnevale, Rotundo, Leomacs, Majo, Bocci, Piccinelli…
Página de Laura Zuccheri para o seu Tex Gigante em produção
Tex e Carson numa página, ainda a lápis, de Yannis Ginosatis
Página inédita de Gianluca Acciarino
Página inédita do Tex Gigante de Stefano Andreucci
Tex e Carson numa fabulosa página inédita de Claudio Villa
Página inédita de Maurizio Dotti
Página do Tex Gigante em produção por Massimo Carnevale
A redactora Cristina Pajalunga com uma página do Tex Gigante de Massimo Rotundo
A secretária da redacção Magda Barbaro, com a primeira página do Tex de Abril, da autoria de Manfredi e Leomacs
A secretária da redacção Silvia Carrozzo com uma página inédita de Majo
Alessandro Bocci com uma sua página inédita de Tex
Alessandro Piccinelli com uma página da sua história em produção
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* A ilustre tradutora TIZZIANA GIORGINI acabou de confirmar a sua presença na 2ª Mostra do Clube Tex Portugal, aceitando o convite realizado pelo Clube português para ser a intérprete oficial do evento, acompanhando assim as presenças de Pasquale FRISENDA, Stefano BIGLIA e DORIVAL Vitor Lopes na Mostra a realizar nos dias 9 e 10 de Maio deste ano na cidade de ANADIA.
TIZZIANA GIORGINI, mítica tradutora de Tex no Brasil e Sócia Honorária do Clube Tex Portugal confirmou a sua presença na 2ª Mostra do Clube Tex Portugal
Tizziana Giorgini Crudeli, tradutora oficial, por um período de cerca de 10 anos, de Tex (e Zagor) na década de 8o do século passado, nos velhos tempos das Editoras Vecchi e Globo, faz parte da história viva do Ranger no Brasil, tendo inclusive traduzido algumas das mais épicas histórias de Tex, como se pode constatar nas fichas técnicas das edições nº 111 e 112 de Tex, mais precisamente “Ao Sul de Nogales” e “El Muerto“, duas das mais memoráveis e apreciadas aventuras do Ranger.
Tizziana Giorgini à conversa com Tex (Ricardo Leite)
Tizziana Giorgini Crudeli, verdadeira personalidade texiana será a intérprete oficial da 2ª. Mostra do Clube Tex Portugal, evento a realizar na cidade bairradina de Anadia nos dias 9 e 10 de Maio deste ano, e que como já foi anunciado anteriormente, contará com as presenças dos consagrados desenhadores italianos Pasquale Frisenda e Stefano Biglia e do carismático editor brasileiro Dorival Vitor Lopes, juntando-se assim a uma verdadeira galeria de autênticos “monstros” do mundo real de Tex Willer que estará em Anadia, para gáudio dos fãs e coleccionadores de Tex que se desloquem então à capital da Bairrada no próximo mês de Maio, mais precisamente no mui nobre Museu do Vinho Bairrada, na pacata cidade de Anadia.
Fabio Civitelli e Tizziana Giorgini na Amadora, 2008
Natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1958, reside actualmente na Galiza, em Espanha, país vizinho de Portugal para onde se mudou em 1989 e por isso é já uma habitué nos eventos texianos realizados no nosso país, eventos esses onde sempre colaborou como intérprete, tanto de Fabio Civitelli, como de Marco Binchini e por esses altos serviços prestados ao Ranger em Portugal, Tizziana Giorgini é Sócia Honorária do Clube Tex Portugal.
Tizziana Giorgini e Marco Bianchini aquando da comemoração dos 60 anos de Tex
O seu marido, Sebastião Pérez Retorta, espanhol, sempre que possível também participa nos eventos texianos realizados em Portugal e é claro que acompanhará a TizzianaGiorgini a Anadia porque também ele é um fã confesso dos convívios entre fãs e coleccionadores de Tex, e preenchendo os requisitos, também se associou ao Clube Tex Portugal.
Tizziana Giorgini com Tex, mestres Civitelli e Bianchini e admiradores do Ranger, Amadora 2008
Para finalizar por hoje, informa-se que em breve serão divulgadas mais novidades (e que novidades…) a serem integradas nesta 2ª Mostra do Clube Tex Portugal, um evento que atrairá à capital bairradina algumas centenas de fãs e coleccionadores não somente de Tex, mas de BD em geral, tal como aconteceu o ano passado na 1ª Mostra do Clube que teve uma afluência a rondar as três centenas de pessoas.
Tizziana Giorgini com a Revista do Clube Tex Portugal #1
Para fazer parte do Clube Tex Portugal – cujos estatutos podem ser vistos aqui – e poder usufruir de todos os brindes e regalias do Clube, onde se incluem as revistas do Clube, é necessário pagar uma jóia de inscrição de 5,00 € e uma quota mensal de 2,00 €.
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Nantan e Dimas são dois polícias apaches, injustamente acusados do homicídio de um traficante de álcool, sendo condenados e deportados para uma prisão. Chamados pelo capitão Webster, os quatro pards descobrem que tudo aconteceu com a cumplicidade de patentes militares, mais uma vez com o objectivo de lucro próprio em negócios ilícitos. Entretanto, durante a viagem que os levará até à penitenciária, os dois índios organizam uma tentativa de fuga, mas Dimas acaba por morrer. Nantan, no entanto, consegue evadir-se, iniciando o regresso à sua terra com o objectivo de vingar-se de todos os que prepararam a armadilha, sobretudo do guerreiro apache Uday, que acredita ser também cúmplice em todo este processo.
Numa série com décadas de sucesso e por onde já passaram vários autores, muitas vezes uma aventura não deve o seu maior ou menor sucesso à originalidade do tema. Residirá na maior ou menor capacidade dos autores saberem ou poderem desenvolver este ou aquele tema de uma forma que possa captar a atenção do leitor. Dito de outra maneira, uma boa ideia por si só não faz uma grande aventura, mas a arte e o engenho do autor na sua planificação, no desenvolvimento da acção, na gestão dos tempos, na apresentação de ambientes e na composição das personagens, contribuirá muito para o seu êxito.
O tema base desta aventura não primará pela sua originalidade, mais uma vez um plano urdido para condenar uns em proveito de negócios ilícitos, mas Boselli aproveita para desenvolver um conjunto de pontos que se interligam com a história: o papel dos agentes índios, que o autor já tinha tratado na aventura Policia Apache, desenhada por Ernesto Garcia Seijas; a rivalidade entre dois índios da mesma tribo, Nantan e Auday, pelo facto do primeiro ser um agente ao serviço dos brancos, desta forma acusado de renegar o seu próprio povo, as suas origens e a sua cultura; o tráfico de álcool tão frequente e sempre presente neste tipo de aventuras; e, mesmo que ao de leve, a solidariedade entre dois homens, apesar de raças diferentes, ambos vítimas de perseguição e racismo, o apache Nantan e o negro Adam. No caminho que o levará de regresso às suas terras e ao seu povo, Nantan invade a casa de Adam, mas em lugar de se deparar com a hostilidade deste, acaba por conhecer um homem na mesma situação, um homem habituado às injustiças dos brancos, alguém que também sofreu profundamente na pele por ser considerado de outra raça, alguém que não só compreende Nantan, como vai mesmo ajudá-lo.
As personagens são marcantes, mas é em Nantan que Boselli centra as suas atenções e constrói uma personagem plena de valores. Nantan é um homem de lei, sem ser advogado ou juiz. Como polícia apache, Nantan anseia trazer a paz e a legalidade para a sua tribo. Para Nantan, um povo sem lei não tem futuro. Certamente que a riqueza da personagem poderá levar-nos a que, de certa forma, possamos considerá-la como a verdadeira protagonista da aventura. Não vamos tão longe, simplesmente porque em Boselli as personagens adquirem muitas vezes esta riqueza e este protagonismo, o autor não raras vezes constrói personagens densas capazes de conduzir o leitor a ampliar o seu papel. Se Nantan busca a justiça, a sua vingança, lavar a sua honra, isso não confere por si só um protagonismo de tal modo vincado que o torne na “personagem”. Certamente que Nantan é carismático, é um homem de valores, aliás muito semelhantes aos de Tex, mas foram muitas as personagens bosellianas que assumiram esta importância e este protagonismo. Nathan não é o primeiro, e conhecendo Boselli não será certamente o último, mas é talvez uma personagem com condições para que possa vir a reaparecer em futuras aventuras, mercê desta semelhança de valores para com o ranger.
Apesar de não ser o último trabalho do espanhol José Ortiz para Tex (a publicar no Maxi Tex de 2015), esta aventura deixa mesmo assim um certo simbolismo, já que a sua publicação surge poucos meses após o falecimento do autor. Depois da sua estreia em 1993, com a aventura O Grande Roubo, Ortiz nunca mais deixou de trabalhar para Tex. A sua chegada à série representou na altura um sonho, pois permitiu ao autor regressar ao desenho do western, a sua paixão, mas também tornar-se num dos autores de uma série de sucesso, convivendo aqui com Jesus Blasco, uma verdadeira referência para Ortiz. Apesar da idade mantinha um ritmo rápido, o que lhe permitiu ainda desenhar várias aventuras e permanecer na história da série como um dos seus mais importantes desenhadores.
Ortiz desenhou páginas intensas em aventuras inolvidáveis: o já referido Grande Roubo, mas também Os Assassinos de Lincoln (que marcou a sua estreia na série normal), Rumo a Forte Apache, o Trem Blindado, O Ouro dos Confederados ou ainda O Caçador de Fósseis, estas três últimas escritas por Antonio Segura, igualmente espanhol e também recentemente desaparecido.
O seu Tex, decalcado do modelo ticciano, sempre foi cínico e duro, imponente em páginas plenas de negros intensos, uma característica do autor que sempre dividiu os leitores, conferindo-lhe uma imagem de marca que muitos chegaram a apelidar de estilo porco, sem que esta classificação contenha em si alguma conotação negativa. Por outro lado, as suas personagens sempre foram vincadas na sua construção, muito maniqueístas, na medida em que rapidamente o leitor as identificava e rotulava com a sua própria natureza e com o papel que desempenhavam na acção. No entanto, desde há alguns anos que o seu traço acusava o passar do tempo, não apresentando a segurança e o detalhe que fizeram de Ortiz um autor muito apreciado no panorama da banda desenhada internacional.
Em jeito de homenagem, Boselli escreveu que o western é feito de sangue, suor e muita pólvora, onde a dura lei da natureza convive permanentemente com a liberdade dos grandes espaços. Os homens deste velho Oeste devem ser duros e monumentais e Ortiz foi um dos artistas que soube captar e caracterizar bem esta verdadeira atmosfera e estas personagens. Nem mais!
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