A Colaboração de Sergio Tarquinio com a Sergio Bonelli Editore

Por Mário João Marques

Sergio Tarquinio

A colaboração entre Sergio Tarquinio e a Sergio Bonelli Editore teve início em 1959, quando a editora ainda se chamava Edizioni Araldo, após o convite endereçado pelo próprio Sergio Bonelli para Tarquinio trabalhar em exclusividade para a sua editora. Esta colaboração durou até meados dos anos 1980, o que permitiu um fluxo contínuo de produção e ajudou a consolidar um estilo gráfico no western. No início dos anos 1980, Tarquinio deixou a Bonelli e o mundo dos quadradinhos para se dedicar exclusivamente à pintura e à gravura, formalizando a sua saída de forma definitiva, após quase três décadas de colaboração contínua.

“Alguns dos meus velhos personagens” (Sergio Tarquinio)

Tarquinio começou por desenhar Giubba Rossa, uma série já existente e que foi publicada no formato de tiras entre 1959 e 1962. De produção britânica, a série foi traduzida e adaptada para o mercado italiano por Gianluigi Bonelli, tendo sido adaptada graficamente por desenhadores como Sergio Tarquinio, Virgilio Muzzi e Gallieno Ferri, que retocavam as pranchas originais.

Tira original de ‘ Giubba Rossa’ – Sergio Tarquinio

Em 1959, Sergio Bonelli, sob o pseudónimo Guido Nolitta, criou Il Giudice Bean, personagem baseada no juiz Roy Bean, que realmente existiu no Oeste Americano e que ficou famosa pelas execuções sumárias com que condenava os réus. A série só foi publicada em 1963 e representou o primeiro trabalho de uma personagem criada graficamente por Tarquinio.

Il giudice Bean; Arte de Sergio Tarquinio

A colaboração do desenhador com Sergio Bonelli prosseguiu em Il Ribelle, uma obra menos conhecida do universo Bonelli.  O protagonista é o tenente Alan Lebaux, jovem oficial que se torna rebelde contra a injustiça e opressão num contexto histórico marcado por conflitos e tensões típicas do Velho Oeste. Tudo se resumiu a uma curta aventura (dois episódios de 96 pranchas), concluída também em 1959, mas publicada sete anos mais tarde.

Sergio Tarquinio em ‘Il ribelle’

Em 1968, Gianluigi Bonelli criou Rick Master, um jovem e elegante detetive particular, cujas aventuras são ambientadas em São Francisco em finais do século XIX. Foram publicadas quatro aventuras desenhadas por Guglielmo Letteri (a primeira) e Sergio Tarquinio (as restantes três).

A Arte de Sergio Tarquinio em ‘Rick Master’

A partir do início dos anos 1980, Sergio Tarquinio integrou a equipa de desenhadores de Ken Parker, tendo desenhado um total de cinco episódios.

Ken Parker em accção – Sergio Tarquinio

Deixámos para o final o seu trabalho em Storia del West, uma vez que foi nesta série, idealizada por Gino D’Antonio, que Tarquinio atingiu o apogeu da sua carreira. O seu trabalho teve início em 1966 e estendeu-se por 34 episódios, o que o tornou num dos pilares gráficos deste clássico do western italiano. Em Storia del West, o traço realista e detalhado de Tarquinio ajudou a dar credibilidade histórica à obra, que tinha como objetivo narrar a verdadeira história do Oeste Americano. O autor criou cenários minuciosos, retratando com rigor as paisagens do Oeste (planícies, montanhas, rios), os uniformes militares e trajes indígenas, assim como armas e utensílios da época, uma precisão que fez da série um referencial de qualidade gráfica no fumetto italiano.

Página original de ‘Storia del West’ realizada por Sergio Tarquinio

Voltando atrás, em meados dos anos 1960, Sergio Tarquinio começou a desenhar uma história de Tex, trabalho que, como sabemos, acabou por dar origem à aventura Ombre di Morte, publicada pela SBE em 2023, por ocasião dos 75 anos de Tex. De acordo com as informações existentes, Gianluigi Bonelli confiou-lhe a realização de uma continuação da história de Tex com Zhenda. Apesar de Tarquinio nunca ter sido um dos desenhadores oficiais de Tex, dado que a sua intervenção na série se resume às 64 pranchas desenhadas, o seu estilo e percurso parecem dar razão aqueles que acham que Tarquinio poderia ter sido acolhido perfeitamente na equipa.

Tex – ‘Ombre di morte’ de Gianluigi Bonelli e Sergio Tarquinio

Tex – ‘Ombre di morte’ de Gianluigi Bonelli e Sergio Tarquinio

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A Escuela de Acassuso

Por Mário João Marques

Sergio Tarquinio

No pequeno artigo dedicado a alguns pontos importantes da vida de Sergio Tarquinio, sobretudo aqueles que de certa forma ajudaram a moldar o seu carácter e personalidade e contribuíram para o desenvolvimento do seu estilo gráfico, foi focado o período da sua estadia na Argentina, a convite de Cesare Civita, onde o desenhador, nascido em Cremona, conheceu e conviveu com um conjunto de autores italianos, que também migraram para aquele país. Esses autores, relembremos os nomes, Mario Faustinelli, Alberto Ongaro, Hugo Pratt e Ivo Pavone, eram todos oriundos de Veneza e formavam a chamada “Escola de Veneza”, também conhecida por L’Asso di Picche.

Importa fazer um prévio enquadramento: este “êxodo” de desenhadores italianos para a Argentina foi consertado pelo editor Cesare Civita, um judeu italiano que fugiu para Buenos Aires na segunda metade dos anos 1930, devido às leis raciais promulgadas pela ditadura fascista. Civita, graças à sua agência milanesa que permaneceu ativa, recrutou talentos para a sua Editorial Abril. O grupo mais célebre foi o veneziano de L’Asso di Picche, cujo nome advém da série com o mesmo nome, idealizada por Faustinelli, Pratt e Ongaro, cujo protagonista foi o primeiro herói mascarado do fumetto italiano, um ícone do pós-guerra que encarnava justiça e aventura. Este projeto deu origem a um ambiente fértil, a referida “Escola de Veneza”, que contribuiu para o crescimento do fumetto e marcou a carreira de grandes mestres, particularmente Pratt, que viria a definir uma época nos quadradinhos italianos.

O grupo instalou-se no confortável bairro de Acassuso e, rapidamente, a casa que compartilhavam tornou-se um verdadeiro centro social e artístico, uma oficina informal de criatividade onde os jovens italianos ensinavam o ofício a autores argentinos. A colaboração estendeu-se a alguns dos maiores autores argentinos da época, como Alberto Breccia, Arturo Del Castillo, Hector G. Oesterheld, Francisco Solano López ou Eugenio Zoppi.

Podemos, então, concluir, que a Escuela de Acassuso não foi uma escola no sentido literal do termo, mas sim um movimento artístico formado por autores, entre os quais Sergio Tarquinio, que naquele local teve as suas primeiras experiências com o desenho, antes de regressar a Itália. Assim como, esta migração italiana não foi apenas um facto biográfico, mas sobretudo uma transferência de saberes e técnicas que iria influenciar profundamente a banda desenhada argentina.

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Ainda, a Propósito de Sergio Tarquinio

Por Mário João Marques

Sergio Tarquinio

Foi com tristeza que soube da notícia do falecimento de Sergio Tarquinio, porque o desenhador de Cremona sempre foi um dos meus preferidos da época clássica do fumetto italiano. Uma época que se fundou com nomes como Walter Molino, Rino Albertarelli ou Guglielmo Letteri; que se consolidou em géneros como a aventura e o western, onde despontaram artistas como Aurelio Galleppini, Francesco Gamba, Virgilio Muzzi ou Dino Battaglia; e teve o se apogeu em nomes como Hugo Pratt, Attilio Micheluzzi ou Sergio Toppi.

Quando me foi pedido que escrevesse umas linhas sobre este imenso artista, consultei a sua extensa carreira e deparei-me com um sem número de acontecimentos que marcaram a sua vida. Pela sua riqueza, importância ou mera curiosidade, importa falar ainda um pouco mais de Sergio Tarquinio.

Por exemplo, o autor teve uma vida longa, mas a verdade é que em 1936, aos 11 anos de idade, Tarquinio adoeceu gravemente e esteve hospitalizado durante cerca de um mês e meio, fase que coincidiu com a morte do seu pai. Não existe muita informação sobre a sua doença, apenas que o prognóstico era desfavorável. Apesar disso e também da falta de medicamentos eficazes na época, Tarquinio driblou a morte, sobreviveu e recuperou… até ao passado dia 11 de janeiro. A experiência da doença teve um impacto profundo na vida e na carreira artística de Tarquinio, despertando uma sensibilidade maior para a expressão visual e para a observação do mundo ao redor. Após a recuperação, Tarquinio dedicou-se ainda mais ao desenho, usando a arte como forma de reconstrução emocional e de afirmação pessoal. Alguns críticos e estudiosos referem que este trauma infantil poderá ter contribuído para a intensidade e realismo presentes nas suas obras, dado que a sua capacidade de transmitir emoções e dramatismo pode encontrar raízes na experiência vivida.

O período em que foi convocado para o serviço militar também merece ser aqui mencionado, uma vez que foi marcado por alguns episódios intensos, certamente formadores da sua personalidade. Estávamos em 1944, quando Tarquinio embarcou num navio de transporte de materiais e tropas que partiu de Génova em direção a Toulon. Durante a viagem, o navio foi atingido por uma bomba lançada por um avião de reconhecimento aliado, acabando por ficar retido no porto de Toulon para reparação. Tarquinio permanece a bordo, de guarda à embarcação, mas em abril de 1944, um novo bombardeamento afunda o navio, deixando os militares sem abrigo e equipamentos. Tarquinio e os sobreviventes são alojados num edifício desabitado e danificado no arsenal da cidade. Dada a iminente chegada dos Aliados, Tarquinio obteve um salvo-conduto para regressar a Itália, apresentando-se no quartel-general do comando alemão em Cremona, onde acabou destacado para a secção cartográfica. Testemunha de ataques e bombardeamentos, que o obrigaram a viver em condições precárias, estas experiências marcaram a coragem e resiliência de Tarquinio e contribuíram para desenvolver no autor uma meticulosidade que se iria refletir no rigor técnico e expressivo do seu trabalho.

Terminado o conflito mundial, Tarquinio fez de tudo um pouco, mas sempre com cariz temporário e incerto. Dada a sua habilidade com o desenho, um amigo sugeriu-lhe que ilustrasse histórias de aventuras, tendo, assim, desenhado as suas primeiras ilustrações (de western), que o autor apresentou à Editoriale Dea Moda e que foram suficientes para convencer o editor. Estávamos em novembro de 1945, e Tarquinio iniciava a sua carreira de ilustrador que durou mais de quarenta anos.

Em 1948, recebeu um convite da Editorial Abril para trabalhar em Buenos Aires e rumou à Argentina. As coisas correram bem com o editor Cesare Civita e Tarquinio conhece uma atividade frenética. Civita, que importava muitas das histórias de Itália, decide também recorrer a autores italianos. Deste modo se explica a chegada do chamado “Grupo de Veneza” a Buenos Aires, formado por Mario Faustinelli, Alberto Ongaro, Dino Battaglia, Hugo Pratt e, mais tarde, Ivo Pavone. Apesar do ceticismo inicial, a verdade é que Tarquinio juntou-se ao grupo e todos se tornaram amigos, passando a conviver e a discutir sobre arte e literatura numa casa que os autores venezianos tinham alugado em Acassuso. É nesta fase que a editora confia a Tarquinio a formação de um grupo de jovens artistas, entre os quais Guglielmo Letteri, dando azo ao nascimento da “Escola Italiana de Banda Desenhada Sul-Americana”, também conhecida por “Escuela de Acassuso”. Este capítulo argentino foi decisivo para Tarquinio, dado que o contacto com outros artistas, a troca de influências e a consolidação do seu estilo gráfico prepararam o terreno para o sucesso que, posteriormente, viria a conhecer em Itália. As revistas argentinas exigiam histórias com enredos ágeis e personagens carismáticas, o que permitiu a Tarquinio desenvolver uma narrativa mais cinematográfica, com enquadramentos ousados e maior expressividade das personagens. Era um mercado que também valorizava um traço limpo e detalhado, com uma construção dinâmica, de modo a facilitar a leitura: a técnica de Tarquinio passou a equilibrar realismo com fluidez, característica que se revelaria bem evidente em obras como Storia del West.

O regresso a Itália ocorre em 1952, onde Tarquinio vai trabalhar para a Medialanum-Dardo, novamente como ilustrador. Esta década representou para o autor uma elevada carga de trabalho, que lhe permitiu conhecer vários ilustradores, argumentistas e escritores, dedicando-se também à pintura e gravura. Foi em 1957 que conheceu Sergio Bonelli, com quem partilhou uma amizade sincera e duradoura, e para quem produziu inúmeras obras, destacando-se a famosa série criada por Gino D’Antonio Storia del West. Tarquinio desenhou 34 histórias, onde aplicou as técnicas aprendidas durante a sua permanência na Argentina, sobretudo a documentação rigorosa, a narração fluida, o ritmo cinematográfico ou a expressividade das personagens.

Sergio Bonelli referia que Tarquinio era “atencioso, pontual e escrupuloso, mas também incrivelmente disciplinado, dividia os seus dias dedicando apenas as horas da manhã às páginas das nossas bandas desenhadas e reservando o seu tempo livre para as verdadeiras e grandes paixões da sua vida: a gravura e a pintura”.

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