As Leituras do Pedro: Trilogia Gatilho

As Leituras do Pedro*

Trilogia Gatilho
Carlos Estefan (argumento e cor)
Pedro Mauro (desenho)
Pipoca & Nanquim
Brasil, 2021
212 x 278 mm, 260 p., cor, capa dura

ISBN: 978-6586672480
R$ 79,90

Em nome do(s) filho(s)

‘Não é esse o mundo que quero deixar pro meu filho’
In Legado

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Apreciador confesso – mas não compulsivo – de western, fui lendo, cada vez mais seduzido, os comentários sobre a Trilogia Gatilho, dos brasileiros Carlos Estefan e Pedro Mauro. A leitura desta obra de tom crepuscular e desencantado, permitiu-me descobrir uma saga de contornos familiares, em que a habilidade com o colt é mais uma maldição do que uma bênção que passa de geração em geração.

Começo pela bela edição da Pipoca & Nanquim, em capa dura, formato generoso, bom papel e boa impressão, que compila os três relatos – Gatilho, Legado e Redenção – que compõem esta trilogia, mas a história curta final incluída nos extras – a única a preto e branco – deixou-me a pensar se não teria preferido a toda edição assim. Mas compreendo a necessidade (comercial) da cor, como atractivo extra para quem foi comprando os livros originais a preto e branco.

Não que globalmente haja problemas com a cor aplicada por Carlos Estefan – que além de argumentista também fez a legendagem – apesar da sua proximidade do colorido padrão Bonelli, mas a verdade é que o preto e branco cheio de contrastes de Pedro Mauro, com conseguidos jogos de luz e sombra e ângulos ousados, acentua o seu estilo mais agreste e duro e torna o conjunto mais selvagem e violento, em sintonia com o tom geral.

Tudo começa quando um cavaleiro solitário chega a uma cidade há muito abandonada. Está na pista de um bando que irá defrontar mais à frente, revivendo assim, uma e outra vez, cenas trágicas passadas, evocando os fantasmas que o acompanham – e que só contribuem para agravar a sua solidão.

A história assim iniciada, ir-se-á compondo aos poucos, avançando no presente mas com saltos regulares ao passado, que explicam acções, contextualizam premissas e tornam imperioso o trilho justiceiro assumido.

Longe dos westerns mais tradicionais – e até de Tex, a quem muitos o comparam, talvez (também) por o desenhador ter trabalhado para a Sergio Bonelli Editore – os protagonistas da trilogia – vários elementos masculinos de uma mesma família – surgem como pistoleiros a soldo por obrigação, por ironia (trágica) do destino, nunca por opção. Um dos aspectos mais conseguidos, aliás, é a forma como – sucessivamente – tentam afastar do mesmo trilho os seus descendentes, embora os deuses – zombeteiros e cínicos – tenham claramente outros planos para eles.

Assim, empurrados pelas circunstâncias, com as vidas destruídas, com a perda dos seres amados, cada um dos ‘pistoleiros sem nome’ vai cumprir o seu propósito de anjo – ou demónio? – vingador.

E se cada um dos relatos pode ser lido isoladamente – e foi assim que foram surgindo – a leitura conjunta que esta edição compilatória privilegia, permite uma visão mais ampla e a compreensão de algumas pontas soltas que só o conjunto (finalmente) ata e explica.

Com inspiração bebida nos westerns spaghetti, de grandes espaços selvagens, protagonistas duros, solitários e de destino trágico, e tom crepuscular e desencantado, que acentua a descrença nos homens e nos seus destinos, esta Trilogia Gatilho merece sem dúvida uma leitura atenta.

…e não só por ‘fãs confessos de western’!

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

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Editora Letra1 lança no Brasil “Tex Willer: Um Caubói na Itália do Pós-Guerra”, da autoria de Elizabeth Leake

* “Tex Willer: Um Caubói na Itália do Pós-Guerra” é uma iniciativa da Editora Letra1, especializada em revistas científicas e livros académicos, cujo editor Ronaldo Machado, aficionado por Banda Desenhada, decidiu unir literatura e quadradinhos e dar a conhecer esse belo material aos leitores de língua portuguesa.

Tex Willer: Um Caubói na Itália do Pós-Guerra

Tex Willer: Un cowboy nell’Italia del dopoguerra, de Elizabeth Leake

A segunda guerra mundial acabou há não muito tempo, um novo herói nasce na Itália e conquista os leitores: é Tex Willer. Com os cenários da iconografia americana clássica, as histórias do lendário Ranger do Texas têm por base a cultura do passado recente da Velha Bota (os filmes do período fascista, a Resistência, o neo-realismo) e a realidade social e política contemporânea (a legalidade constitucional, a corrupção política).

Tex defende os fracos, combate os vilões, não tem dúvidas existenciais, esquece rapidamente as injustiças que sofre e a sua própria raiva, respeita as tradições dos outros e não hesita em violar a lei para fazer triunfar a justiça. Herói da epopeia americana mas testemunha fiel do mundo emocional e dos traços antropológicos dos italianos.

O livro de Elizabeth Leake, contendo 171 páginas, aborda o imaginário americano que serve de pano de fundo para as aventuras (as guerras indígenas, a guerra civil americana, o Far West, os Texas Rangers), o contexto histórico italiano em que o personagem foi criado (com a herança do fascismo, o Plano Marshall, o neo-realismo), e também detalhes do universo narrativo de Tex.

É o resumo básico do livro Tex Willer: Un cowboy nell’Italia del dopoguerra, de Elizabeth Leake, traduzido e publicado em 2018 pela editora italiana Il Mulino, de Bolonha.
Elizabeth Leake é professora e pesquisadora do departamento de língua italiana da Universidade de Colúmbia, EUA, especializada em narrativa e teatro do século 20, história cultural do fascismo, e história e crítica do cinema italiano e europeu.

O material está a ser produzido para publicação em língua portuguesa pela Editora Letra1, de Porto Alegre, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul, e, para tradução, além da contextualização das aventuras de Tex publicadas no Brasil, o editor Ronaldo Machado envolveu no projecto o tradutor e redactor Júlio Schneider.

Para saber um pouco mais sobre esta obra, recomendamos os dois vídeos que se seguem, o primeiro, em italiano onde se poderá ouvir um pequeno trecho do livro, e o segundo, em inglês, com a participação da própria escritora Elizabeth Leake numa conversa com Valentina Frasisti:

Revista nº 14 do Clube Tex Portugal nas mãos de sócios do clube espalhados por Portugal e Brasil

Por José Carlos Francisco

Ainda estamos em Junho, mês de publicação da edição de Verão da Revista do Clube Tex Portugal, e já podemos ver a revista nº 14 do Clube Tex Portugal, na posse de muitos dos seus destinatários portugueses assim como, um pouco surpreendentemente, de sócios residentes no Brasil, algo que é um feito inédito até hoje, que de certo modo serve para compensar os sócios do Brasil pelo atraso com que normalmente recebem as revistas do Clube, feito esse motivado pelo facto de assim que as revistas foram entregues pela gráfica ao director Carlos Moreira, rumaram de imediato para o nosso país irmão através de uma pessoa ligada ao Clube que, por grande coincidência, viajou nessa ocasião para São Paulo, sendo as revistas entregues em solo brasileiro em tempo record.

O Sumário da Revista Clube Tex Portugal #14

Para comprovar esse facto bem inusitado, mas de enorme júbilo, vamos divulgar belas fotografias que ilustram este texto e onde podemos ver a revista #14 do Clube, nas suas duas versões (ambas com capas de Stefano Andreucci), nas mãos dos sócios brasileiros José Ricardo Lima, José Manuel Alvarez, Wellington Verdan, Ary Canabarro, Moacir Zanchet, Leonardo Campos e João Marin e dos sócios portugueses Teresa Moreira, Carlos Moreira, Luís Santos e José Carlos Francisco:

José Ricardo e a visível felicidade por já possuir a revista #14 do Clube Tex Portugal

José Manuel Alvarez mostra-nos o seu exemplar da Revista nº 14 do Clube Tex Portugal com a capa principal

Wellington Verdan e o orgulho de já ter a Revista #14 do Clube Tex Portugal

Associado Ary Canabarro exibe o seu exemplar da revista #14 do Clube Tex Portugal

Moacir Zanchet e a visível felicidade por já ter recebido a mais recente revista do Clube

Leonardo Campos exibe as duas versões da revista número 14 do Clube Tex Portugal

João Marin e as suas duas versões da revista nº 14 do Clube Português

Associada Teresa Moreira exibe as duas versões da Revista nº 14 do Clube Tex Portugal

Carlos Moreira exibe orgulhosamente os seus dois exemplares da revista nº 14 do Clube Tex Portugal

Luís Santos e as suas duas versões da Revistas nº 14 do Clube Tex Portugal

José Carlos Francisco exibe as duas versões da revista nº 14 do Clube Tex Portugal

Para fazer parte do Clube Tex Portugal – cujos estatutos podem ser consultados em https://texwillerblog.com/?page_id=47999 – e usufruir de todos os brindes e regalias, entre os quais se inclui a revista do Clube, é necessário pagar uma jóia de inscrição de € 5,00 e uma quota mensal de € 2,50 (€ 3,00 para sócios não residentes em Portugal).

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Montereggio dedica uma praça a Tea Bonelli, a mulher que lançou Tex Willer em 1948!

* No dia 24 de Julho durante o evento “Nuvole a Montereggio” (em Lunigiana), a homenagem à artífice do nascimento da Editora Bonelli: Tea Bertasi Bonelli, a empresária que tornou possível o sucesso da Sergio Bonelli Editore após a Segunda Guerra Mundial.

Definia-se como “uma editora improvisada, ainda por cima sem um passado como leitora de banda desenhada…“, mas era uma definição que surgiu devido à sua grande modéstia, porque Tea (de Aristea) Bertasi Bonelli foi uma figura nuclear na história da banda desenhada italiana.

Tea Bertasi Bonelli

Não surpreende, portanto, que no decurso do jovem festival “Nuvole a Montereggio” (agendado para os dias 24 e 25 de Julho no fascinante burgo de Montereggio, na Lunigiana) uma praça receba o nome da editora e empresária daquela que se tornaria depois a Sergio Bonelli Editore, que precisamente neste ano de 2021 festeja os 80 anos de actividade. 

Tea Bertasi Bonelli era uma mulher de coragem, talento e determinação. A coragem, acima de tudo: “Aquela de transformar-me de dona de casa em empresária e enfrentar um mercado desconhecido”. E depois o talento, o que a levou a chamar alguns dos maiores talentos da banda desenhada do pós-guerra e a lançar como editora, em 1948, um novo personagem: Tex Willer.

Tímida e modesta (tanto que quase nunca aparece em público e foi um pouco desprezada pela crítica) não era apenas a mulher de Gianluigi Bonelli (o mítico criator de Tex) e a mãe de Sergio Bonelli, autor e editor de grande sucesso no campo dos fumetti (nome dado à banda desenhada em Itália). Tea, aliás, foi uma grande protagonista do nascimento da editora, escolhendo com acutilância colaboradores e autores e administrando com sabedoria durante anos (antes de passar o testemunho ao seu filho Sergio) do que se tornou num pequeno império editorial. 

Tea Bonelli com o seu filho Sergio Bonelli

O compromisso de Tea Bertasi na editora Bonelli, já envolvida nos anos 40 na gestão da editora Audace pelo seu marido Gianluigi Bonelli, foi decisivo nos anos da Segunda guerra mundial e imediatamente após o findar da guerra, como por exemplo quando elegeu Aurelio Galleppini para duas novas colecções criadas por Gianluigi em 1948, Occhio Cupo e Tex Killer, e quando decide modificar o nome do segundo personagem para Tex Willer, contribuindo assim para o sucesso lendário do personagem símbolo da banda desenhada italiana.

A Praça Tea Bertasi Bonelli também terá um mobiliário urbano particular: dois bancos especiais em forma de livro – instalações originais patenteadas pelo empresário Aldino Albertelli – decorados com desenhos retirados de Tex e Zagor, em homenagem aos mais duradouros e célebres personagens dos fumetti criados pela família Bonelli. A nova praça insere-se na tradição toponímica de Montereggio, localidade da Lunigiana conhecida como a “terra dos livreiros”, berço da tradição secular dos livreiros itinerantes e único burgo italiano inserido na rede das Cidades Mundiais do Livro. A Praça Tea Bonelli estará localizada entre ruas e praças como a praça Arnoldo Mondadori, a praça Angelo Rizzoli, a rua Aldo Garzanti, a rua Giangiacomo Feltrinelli e a rua Umberto Mauri.

À cerimónia de inauguração da praça Tea Bonelli, às 15 horas do dia 24 de Julho, estarão presentes Claudio Novoa, presidente da Câmara Municipal de Mulazzo, e Davide Bonelli, neto de Tea e actual proprietário da editora milanesa. A cerimónia oficial será seguida de uma conversa com Michele Masiero, director editorial da Sergio Bonelli Editore, conduzida por Matteo Stefanelli, director artístico do festival.

“É uma honra, para Montereggio e para o nosso território tão ligado à história da edição popular” – diclara o presidente Novoa – “dedicar uma praça a Tea Bertasi Bonelli, ilustre expressão da criatividade italiana na banda desenhada, e do talento na organização de uma esplêndida empresa editorial“.

Para Davide Bonelli “é um grande prazer participar nesta importante iniciativa ligada à figura da minha avó Tea. E sendo em 2021, que assinala o octogésimo aniversário da editora, aceito o convite com uma emoção ainda mais forte. Um sincero agradecimento a Montereggio, à sua sensibilidade e atenção à minha família e à Sergio Bonelli Editore, realidade nascida também graças à paixão e ao profissionalismo de uma senhora tão determinada em tempos muito difíceiscomo foram aqueles do pós-guerra“.

Novos detalhes das actividades e o programa completo serão comunicados nas próximas semanas, no  site oficial da manifestação e através dos canais sociais de Nuvole a Montereggio.

As Leituras do Pedro – Dampyr & Dylan Dog: O Detective e o Caçador

As Leituras do Pedro*

Dylan Dog & Dampyr: O Detective e o Caçador
Vol. 1: A Noite do Dampyr
Roberto Recchioni e Giulio Antonio Gualtieri (argumento)
Daniele Bigliardo (desenho)
Vol. 2: O Detective do Pesadelo
Mauro Boselli (argumento)
Bruno Brindisi (desenho)
A Seita
Portugal, Abril de 2021
170 x 230 mm, 104 p., pb, capa dura
13,00 € (cada)

Reunião de universos

Para quem lê banda desenhada regularmente – de forma aficionada, compulsivamente – há edições especiais que, mesmo podendo não ser substancialmente relevantes, marcam e permanecem na memória ao longo dos tempos, como uma lembrança agradável – algumas vezes correspondendo a sonhos tidos, outras inimaginadas. São os famosos crossovers, encontros de heróis e universos, geralmente compatíveis, outras tão díspares que a sua junção acaba por se revelar uma agradável surpresa.
Cabem neste (largo) intróito, os famosos emparelhamentos entre a Marvel e a DC – mais famosos ainda pela sua raridade -, a combinação pontual entre a ficção e a realidade -, os recentes encontros entre a Turma da Mônica ou os heróis Bonelli e os super-heróis da DC Comics, a chegada de Conan ao seio dos Vingadores (para relevar aqui um caso recentemente analisado) ou, para não me alongar demasiado e começar a abordar os livros de hoje, o acasalamento pontual entre os rostos mais importantes da Casa das Ideias italiana.

Se Dylan Dog já tinha encontrado Martim Mystère no passado, a nova proposta editorial de A Seita, que tem bebido – e bem! – no catálogo da Sergio Bonelli Editore, apresenta uma curiosa parceria entre o detective do pesadelo, e Dampyr, o caçador de vampiros.

Se, naturalmente, o sobrenatural surge como elo de ligação entre dois universos que têm o fantástico e o terror como ingredientes comuns, tudo o mais parecia afastar as duas personagens. Dylan, é antes de mais um anti-herói; Draka, assume um protagonismo absoluto. A abordagem do detective é romântica, surreal, onírica e tem um toque de humor; apesar do incontornável tom fantástico, as histórias do adversário dos senhores da noite assumem realismo cru, violento e improvável.

Apesar disso, a verdade é que Mauro Boselli e Roberto Recchionni/Giulio Antonio Gualtieri, os argumentistas desta reunião – tão inesperada quanto suspirada pelos fãs das personagens em particular e da Bonelli em geral – têm o mérito de, sem afectarem negativamente em nada o(s) relato(s), conservarem intactas as características de Dylan e de Draka, bem como dos seus habituais companheiros, Groucho, Tesla e Kurjak, que surgem como coadjuvantes naturais de um e outro e complementares entre si, para criarem uma narrativa em que todos encontram o seu lugar natural.

Desta forma, a história que arranca em Londres com um ataque de seres monstruosos e leva os protagonistas, a intervirem numa guerra entre dois senhores da noite, vulgo vampiros, acaba por assumir sucessiva ou pontualmente, as características próprias de ambas as séries, combinadas de forma sustentada e credível, quer sejam encaradas como reflexo de cada um dos universos, quer sejam vistas no contexto específico desta dupla aventura. Dessa forma, o insuportável sentido de humor de Groucho apresenta-se como o contraponto ideal para a violência pura que Kurjak e Tesla preferem, ao mesmo tempo que a irredutibilidade de Draka frente aos vampiros e outros seres maléficos é diametralmente oposta à posição de compreensão e até solidariedade para com eles que Dylan geralmente assume – bem como do seu interesse romântico numa delas.

É com base nestes contrastes que a narrativa vai avançando, de forma coerente e credível no contexto de ambos os universos, levando os protagonistas de um confronto inicial nas ruas de Londres até ao derradeiro embate nas Ilhas Hébridas, onde todas as dúvidas serão esclarecidas e reveladas as razões para os acontecimentos que nela têm lugar.

Alguns, poderão questionar a razão para a sua edição em separado e não num volume único. Se a questão da unidade da colecção Aleph – um dos selos que acolhe as obras Bonelli no catalogo de A Seita – foi certamente razão menor, o facto de elas terem sido publicadas (no Verão de 2017) em números diferentes das revistas italianas a que os dois protagonistas dão título, terá tido algum peso.

Outra razão que poderá ser considerada mais substancial para esta opção editorial – para mais associada à anterior – é o facto de formalmente serem ‘obras díspares’. Ou seja, as duplas criativas num e noutro caso são diferentes – e o resultado do seu trabalho também. Se já referi o que uniu os argumentistas e deu origem a um relato bem unificado, posso acrescentar que graficamente as propostas são bastante dissemelhantes, uma vez que ao traço realista de Daniele Bigliardo, se contrapõe um grafismo de certa forma mais caricatural de Bruno Brindisi. E se a sua junção num mesmo volume poderia chocar alguns – como a mim… – a verdade é que ambos se ajustam ao tom mais dylaniano ou dampyriano de cada volume.

E, se é verdade que, de alguma forma, eles até podem ser lidos isoladamente, num e noutro caso o leitor sentirá falta de lago mais – de forma simplista, do intróito ou da conclusão.

E, mais uma vez, se o conhecimento prévio das séries poderá ser benéfico, os dois volumes de O Detective e o Caçador lêem-se bem sem ele, como um belo relato de suspense e terror, assente em velhas lendas e numa inimizade ancestral que remonta ao templo dos vickings, com doses equilibradas de acção, investigação e introspecção, em que (muito) pouco é absoluto e (quase) tudo pode ser questionado.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

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