Nas bancas italianas a partir de terça-feira, 5 de Julho “I pionieri del Texas” é o primeiro de quatro números de Tex Willer Extra que reproduzem a apreciadíssima aventura “Nueces Valley“. Mauro Boselli, o editor de Tex e argumentista da história aborda hoje este novo (re)lançamento…
Nos quiosques italianos a partir de terça-feira, 5 de Julho, “I pionieri del Texas” é o quarto número de Tex Willer Extra e o primeiro dos quatro volumes que reproduzem, em partes, a épica aventura Nueces Valley. Publicada pela primeira vez noMaxi Tex 21, lançado no Outono de 2017, e mais tarde apresentada também no mercado livreiro comum luxuoso volume cartonado, Nueces Valley é uma das aventuras juvenis do “magnífico fora-da-lei” mais apreciado dos leitores.
“I pionieri del Texas” – Tex Willer Extra 4 (Capa de Maurizio Dotti)
Escrito por Mauro Boselli e desenhado por Pasquale Del Vecchio, “I pionieri del Texas” é ambientado no selvagem e despovoado Texas de 1848, quando o lendário homem da fronteira Jim Bridger regressa ao vale de Nueces para rever um casal que conheceu dez anos antes, e os seus dois filhos: Tex e Sam Willer.
Para compreender melhor a importância desta historia e as razões que levaram a este novo lançamento, desta vez em quatro partes, ouçam as palavras de Mauro Boselli no vídeo que apresentamos de seguida:
No passado dia 22 de Junho, pelas 18.30h, em Roma, no Bairro de Mezzocammino (o bairro é chamado de o Bairro da Banda Desenhada já que cada rua, cada edifício, tem o nome de um autor ou de uma personagem da banda desenhada italiana), na via Cristoforo Colombo em direcção a Ostia, foi inaugurada no Parque de Tex a Galeria Tex com (mais) uma obra de arte (na verdade, duas obras) dedicada ao maior herói dos fumetti.
Discurso de Maurizio Nicastro na presença da Presidente do Município IX de Roma, Titti Di Salvo
Galeria Tex pré-inauguração
Inauguração do Painel Tex da autoria de Claudio Villa
A inauguração decorreu na presença da Presidente do Município IX de Roma, Titti Di Salvo, de Maurizio Nicastro, grande fã de Tex e mentor de mais esta maravilhosa iniciativa, e dos desenhadores Corrado Mastantuono e Stefano Andreucci. A Galeria Tex localiza-se na passagem subterrânea da ciclovia do Parque do Tex, cujo acessoé através da Praça Crepax. Foi um evento lindo e emocionante como facilmente se constata observando as várias fotografias e vídeos que ilustram este texto.
As duas belas obras que a partir de 22 de Junho de 2022 embelezam o Bairro de Mezzocammino, na passagem subterrânea da ciclovia no final da escada que desce a Praça Crepax, são especificamente, de um lado, uma reprodução das primeiras 700 capas das publicações de Tex Willer e, do lado oposto, um fantástico painel de Tex com o Grande Canyon por detrás, numa arte fabulosa da autoria de Claudio Villa. Uma escolha perfeita para o local, perfeita para promover o cuidado do espaço público e comunitário e que comprova que a iniciativa do Consórcio liderado por Maurizio Nicastro e pelo comité de bairro é realmente exemplar.
Acreditamos que seja um trabalho único na Itália e até mesmo a nível mundial, que completa os muitos trabalhos do bairro dedicados à banda desenhada italiana e ao nosso Tex em particular, como já divulgamos diversas vezesaqui mesmo no Tex Willer Blog!
Se for a Roma, uma visita ao parque Tex é algo obrigatório para todo e qualquer fã do Ranger, porque toda a obra idealizada pelo Doutor Maurizio Nicastro é digna de ser apreciada!
Corrado Mastantuono e Maurizio Nicastro
Stefano Andreucci e o texiano Filippo
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Como todos julgávamos saber, na Califórnia desenrolou-se o terceiro e definitivo capítulo da luta entre o nosso ranger e o diabólico criminoso Tigre Negro, numa história escrita por Claudio Nizzi e desenhada por Andrea Venturi, que foi publicada em finais de 2009 na Itália.
Andrea Venturi, foi o terceiro desenhador a representar graficamente o príncipe malaio de nome Sumankan (podemos ver o Tigre Negro de Venturi, na ilustração ao lado), o inimigo de Tex de maior carisma criado por Claudio Nizzi, depois de Claudio Villa, o criador gráfico e de Fabio Civitelli o terem feito nas duas histórias precedentes.
Mas voltando ao início deste texto, fomos todos induzidos em erro, porque afinal o Tigre Negro ainda está vivo!
Ao contrário do que Tex pensava, o Tigre Negro não morreu
E Tex, com quem o Tigre Negro fará um acordo, irá acompanhá-lo ao Oriente à conquista do seu reino situado em um dos países do Sudeste Asiático em uma nova e excitante viagem do Ranger que está a ser desenhada novamente por Andrea Venturi como comprova a foto que mostramos de seguida e que foi tirada por ocasião da recente visita de Venturi à redacção da Sergio Bonelli Editore:
Andrea Venturi exibe-nos duas pranchas originais da história com o Tigre Negro que está a desenhar
Trata-se de uma história de 440 páginas que está sensivelmente a meio e que está prevista ser publicada lá para o final de 2024 na série regular de Tex, história escrita por Mauro Boselli, autor da fotografia acima.
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Tudo começou com Cristóvão Colombo, que deu ao povo o nome de Índios. Os europeus, os homens brancos, falavam com dialetos diferentes, e alguns pronunciavam a palavra “Indien”, ou “Indianer”, ou “Indian”. Peaux-rouges, ou “redskins” (peles-vermelhas), veio depois(Extraído do livro Enterrem meu coração na curva do rio, L&PM Editores).
Cochise e Tex por Fusco
Eu sempre quis escrever sobre a inserção dos índios no universo texiano. Desde logo, contudo, aviso aos navegantes que a intenção não é esgotar o assunto, longe disso. Optei por falar de forma aleatória sobre essa presença significativa nas aventuras de Águia da Noite a partir da minha observação como tradutor de Tex no Brasil, atividade que remonta a meados da década de 1970. É uma modesta perquirição do olhar de um genial autor sobre a temática indígena na sua obra.
Desde as primeiras histórias de Tex, Gianluigi Bonelli, o criador intelectual da personagem, aborda a questão dos índios e suas vicissitudes na América do Norte, particularmente entre 1860 e 1890. Em várias delas, reproduziu com retoques de ficção as sangrentas Guerras Indígenas, entre as quais sobressaem a batalha de Little Bighorn – na qual o notório general Custer morreu – e a de Sand Creek – onde 700 homens da força militar do Colorado mataram quase 200 cheyennes e arapahos. Tais confrontos, a maioria não desvelada, quase sempre terminavam em massacre dos índios e ocorriam a pretexto do desenvolvimento económico dos Estados Unidos. Nos seus roteiros, Bonelli não menciona apenas os índios do Tio Sam, cujas tribos que mais se destacam nas páginas da revista em quadradinhos mais antiga de Itália são os Sioux, Cheyenne, Apache, Moicano, Creek, Piute, Dakota, Arapaho, Kiowa, Shawnee, Comanche, Cherokee e Navajo. O autor também nos apresenta, em diversas histórias expressivas da sua obra texiana, os índios naturais do Canadá (entre eles, Esquimós, Iroqueses, Assiniboine, Seminoles, Senecas) e do México (Astecas, Maias, Yaquis, Otomis, entre outros).
Essa decisão de incluir, de maneira intensa, aspectos da história dos índios americanos no quotidiano do ranger está ligada ao sentimento humanitário e à solidariedade que Bonelli nutria pelas causas das minorias desprotegidas, traços que se revelam ao longo da sua vasta obra. Assim, mesmo demonstrando um insuperável talento para transformar Tex num sucesso editorial mundial, ele não abdicou da sua consciência crítica. Desde as primeiras tiras, retratou os índios na contramão do imaginário comum, vigente em meados do século passado: um ser sub-humano, selvagem, exótico, bárbaro. Ao contrário, pois, o roteirista sempre se esmerou em mostrar os índios como homens comuns e pacíficos que iam à luta apenas pelo direito à vida, pelo direito de habitar as terras que sempre foram suas e dos seus antepassados. Um povo que vivia da caça e da pesca, e com profundo respeito pelo meio ambiente, que naqueles tempos era chamado tão somente de “natureza”.
Fabio Civitelli. Ilustração inédita
Não por acaso, o criador de Tex batizou-o com o nome indígena Águia da Noite, temido por todas as tribos de norte a sul dos Estados Unidos, México e Canadá. Para registar de forma insofismável o seu apreço pela causa indígena, Bonelli cria uma personagem que se irá constituir num dos pilares do êxito da série, um parceiro que Tex considera como seu irmão: o navajo Jack Tigre, o maior farejador de pistas do Oeste. A sua reverência ao povo indígena pode ser vista ainda no próprio estado civil do nosso herói, pois ele é apresentado ao leitor como um homem casado com a bela índia Lilyth, cuja morte prematura é anunciada logo no início da saga. Dessa união, nasceu Kit Willer, o afilhado do resmungão Kit Carson, inseparável companheiro de Águia da Noite nas suas aventuras, compondo o quarteto de parceiros. Também não por acaso, Tex é o chefe branco do povo Navajo e o agente indígena que dá total proteção à reserva dessa tribo, onde ele próprio vive e para onde sempre retorna após as suas refregas com os mais perigosos bandidos da América. Ainda na pele de agente indígena, Tex defende os navajos da febre expansionista dos insaciáveis colonos brancos. Violentos, eles não hesitavam em apelar para a estratégia do extermínio do povo vermelho – frequentemente com o auxílio do exército americano –, a fim de se apossarem das terras férteis e das jazidas de ouro que nelas se encontravam.
Essa caracterização ideológica marcante e definitiva do perfil da personagem principal, que o aproxima umbilicalmente da vida indígena, evidencia e reforça a intenção do idealizador de Tex Willer em recontar, através da perspectiva dos vencidos, a trágica história dos índios americanos. Desprezados pelos brancos pelos seus diferentes laços peculiares de cultura, religião, língua e comportamento, os peles-vermelhas eram também vítimas de um estereótipo que os tachava como minoria incómoda para a expressão desenvolvimentista de uma nação em progresso, que precisava de terras para ampliar o seu território, para abrir estradas e colonizar o interior.
O que mais surpreende é que essa solidariedade étnica, estampada nas páginas de três tiras a preto e branco da mais popular história em quadradinhos italiana, tem início no nascimento da personagem, em 1948. Pode-se dizer, portanto, que Bonelli foi um dos precursores da tardia revisão histórica levada a efeito nos Estados Unidos acerca da conquista do Oeste e do lugar ocupado pelos índios na vida americana, a partir do lançamento, em 1970, do livro Enterrem meu coração na curva do rio, de autoria de Dee Brown, do qual faço algumas citações neste texto. Uma avalanche de livros e filmes sobre o tema veio logo depois deste best-seller. O livro sacudiu consciências e resgatou a dignidade de um povo forte e altivo, escancarando uma faceta trágica da formação norte-americana e revelando o homem branco como poluidor de uma natureza exuberante, mediante a introdução da fumaça dos comboios, do uísque, das doenças infecciosas e do fim de florestas e da vida selvagem.
Tex respeitado pelos índios em desenho de Ticci
Nos seus criativos roteiros, jamais igualados, Bonelli sempre prestou homenagem aos grandes líderes indígenas, com mais frequência a Nuvem Vermelha, Gerónimo, Touro Sentado e Cochise. Este último, inclusive, foi eleito pelo autor para ser um dos melhores amigos de Tex. Era um índio dono de uma história riquíssima na vida real.
Como líder apache, foi um bravo resistente das invasões bárbaras das suas terras, cometidas por mexicanos e americanos em meados do século XIX. Cochise e os seus chiricahuas viveram numa região que vai de Sonora ao Novo México e Arizona, cenário usado recorrentemente por Bonelli e pelos roteiristas que o sucederam para contar aventuras indígenas tocantes. Nelas, ao adotar a instigante narrativa dos vencidos, o pai de Tex leva-nos a observar os índios por lentes bem diferentes daquelas que os mostravam como selvagens.
* Texto de Paulo Guanaes publicado originalmente na Revista nº 4 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2016.
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