Índios em Tex: A história contada pelos vencidos

Por Paulo Guanaes*

Tudo começou com Cristóvão Colombo, que deu ao povo o nome de Índios. Os europeus, os homens brancos, falavam com dialetos diferentes, e alguns pronunciavam a palavra “Indien”, ou “Indianer”, ou “Indian”. Peaux-rouges, ou “redskins” (peles-vermelhas), veio depois (Extraído do livro Enterrem meu coração na curva do rio, L&PM Editores).

Cochise e Tex por Fusco

Eu sempre quis escrever sobre a inserção dos índios no universo texiano. Desde logo, contudo, aviso aos navegantes que a intenção não é esgotar o assunto, longe disso. Optei por falar de forma aleatória sobre essa presença significativa nas aventuras de Águia da Noite a partir da minha observação como tradutor de Tex no Brasil, atividade que remonta a meados da década de 1970. É uma modesta perquirição do olhar de um genial autor sobre a temática indígena na sua obra.

Desde as primeiras histórias de Tex, Gianluigi Bonelli, o criador intelectual da personagem, aborda a questão dos índios e suas vicissitudes na América do Norte, particularmente entre 1860 e 1890. Em várias delas, reproduziu com retoques de ficção as sangrentas Guerras Indígenas, entre as quais sobressaem a batalha de Little Bighorn – na qual o notório general Custer morreu – e a de Sand Creek – onde 700 homens da força militar do Colorado mataram quase 200 cheyennes e arapahos. Tais confrontos, a maioria não desvelada, quase sempre terminavam em massacre dos índios e ocorriam a pretexto do desenvolvimento económico dos Estados Unidos. Nos seus roteiros, Bonelli não menciona apenas os índios do Tio Sam, cujas tribos que mais se destacam nas páginas da revista em quadradinhos mais antiga de Itália são os Sioux, Cheyenne, Apache, Moicano, Creek, Piute, Dakota, Arapaho, Kiowa, Shawnee, Comanche, Cherokee e Navajo. O autor também nos apresenta, em diversas histórias expressivas da sua obra texiana, os índios naturais do Canadá (entre eles, Esquimós, Iroqueses, Assiniboine, Seminoles, Senecas) e do México (Astecas, Maias, Yaquis, Otomis, entre outros).

Essa decisão de incluir, de maneira intensa, aspectos da história dos índios americanos no quotidiano do ranger está ligada ao sentimento humanitário e à solidariedade que Bonelli nutria pelas causas das minorias desprotegidas, traços que se revelam ao longo da sua vasta obra. Assim, mesmo demonstrando um insuperável talento para transformar Tex num sucesso editorial mundial, ele não abdicou da sua consciência crítica. Desde as primeiras tiras, retratou os índios na contramão do imaginário comum, vigente em meados do século passado: um ser sub-humano, selvagem, exótico, bárbaro. Ao contrário, pois, o roteirista sempre se esmerou em mostrar os índios como homens comuns e pacíficos que iam à luta apenas pelo direito à vida, pelo direito de habitar as terras que sempre foram suas e dos seus antepassados. Um povo que vivia da caça e da pesca, e com profundo respeito pelo meio ambiente, que naqueles tempos era chamado tão somente de “natureza”.

Fabio Civitelli. Ilustração inédita

Não por acaso, o criador de Tex batizou-o com o nome indígena Águia da Noite, temido por todas as tribos de norte a sul dos Estados Unidos, México e Canadá. Para registar de forma insofismável o seu apreço pela causa indígena, Bonelli cria uma personagem que se irá constituir num dos pilares do êxito da série, um parceiro que Tex considera como seu irmão: o navajo Jack Tigre, o maior farejador de pistas do Oeste. A sua reverência ao povo indígena pode ser vista ainda no próprio estado civil do nosso herói, pois ele é apresentado ao leitor como um homem casado com a bela índia Lilyth, cuja morte prematura é anunciada logo no início da saga. Dessa união, nasceu Kit Willer, o afilhado do resmungão Kit Carson, inseparável companheiro de Águia da Noite nas suas aventuras, compondo o quarteto de parceiros. Também não por acaso, Tex é o chefe branco do povo Navajo e o agente indígena que dá total proteção à reserva dessa tribo, onde ele próprio vive e para onde sempre retorna após as suas refregas com os mais perigosos bandidos da América. Ainda na pele de agente indígena, Tex defende os navajos da febre expansionista dos insaciáveis colonos brancos. Violentos, eles não hesitavam em apelar para a estratégia do extermínio do povo vermelho – frequentemente com o auxílio do exército americano –, a fim de se apossarem das terras férteis e das jazidas de ouro que nelas se encontravam.

Essa caracterização ideológica marcante e definitiva do perfil da personagem principal, que o aproxima umbilicalmente da vida indígena, evidencia e reforça a intenção do idealizador de Tex Willer em recontar, através da perspectiva dos vencidos, a trágica história dos índios americanos. Desprezados pelos brancos pelos seus diferentes laços peculiares de cultura, religião, língua e comportamento, os peles-vermelhas eram também vítimas de um estereótipo que os tachava como minoria incómoda para a expressão desenvolvimentista de uma nação em progresso, que precisava de terras para ampliar o seu território, para abrir estradas e colonizar o interior.

O que mais surpreende é que essa solidariedade étnica, estampada nas páginas de três tiras a preto e branco da mais popular história em quadradinhos italiana, tem início no nascimento da personagem, em 1948. Pode-se dizer, portanto, que Bonelli foi um dos precursores da tardia revisão histórica levada a efeito nos Estados Unidos acerca da conquista do Oeste e do lugar ocupado pelos índios na vida americana, a partir do lançamento, em 1970, do livro Enterrem meu coração na curva do rio, de autoria de Dee Brown, do qual faço algumas citações neste texto. Uma avalanche de livros e filmes sobre o tema veio logo depois deste best-seller. O livro sacudiu consciências e resgatou a dignidade de um povo forte e altivo, escancarando uma faceta trágica da formação norte-americana e revelando o homem branco como poluidor de uma natureza exuberante, mediante a introdução da fumaça dos comboios, do uísque, das doenças infecciosas e do fim de florestas e da vida selvagem.

Tex respeitado pelos índios em desenho de Ticci

Nos seus criativos roteiros, jamais igualados, Bonelli sempre prestou homenagem aos grandes líderes indígenas, com mais frequência a Nuvem Vermelha, Gerónimo, Touro Sentado e Cochise. Este último, inclusive, foi eleito pelo autor para ser um dos melhores amigos de Tex. Era um índio dono de uma história riquíssima na vida real.

Como líder apache, foi um bravo resistente das invasões bárbaras das suas terras, cometidas por mexicanos e americanos em meados do século XIX. Cochise e os seus chiricahuas viveram numa região que vai de Sonora ao Novo México e Arizona, cenário usado recorrentemente por Bonelli e pelos roteiristas que o sucederam para contar aventuras indígenas tocantes. Nelas, ao adotar a instigante narrativa dos vencidos, o pai de Tex leva-nos a observar os índios por lentes bem diferentes daquelas que os mostravam como selvagens.

* Texto de Paulo Guanaes publicado originalmente na Revista nº 4 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2016.

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2 Comentários

  1. Meu caríssimo amigo Zeca, muito obrigado por essa homenagem… Meu agradecimento eterno pelo frequente reconhecimento ao meu trabalho de décadas, trabalho que julgo mais reconhecido em Portugal do que na minha própria terra. Terra em que o respeito tem sido mercadoria raríssima.
    Vida longa ao nosso Ranger, a você, à revista e a todos os amigos que o cercam.

    • Paulo Guanaes grande Mestre e sobretudo grande Amigo, este seu fantástico texto era merecedor de ser lido pelo maior número de pessoas e não ficar circunscrito aos leitores da revista do Clube Tex Portugal…
      Quanto a si directamente sempre que a sua disponibilidade e inspiração derem azo aos seus textos maravilhosos cá estaremos para os publicar deliciando os leitores

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