A prova gráfica do próximo Maxi Tex italiano… (#32 – “La grande congiura”; 6 de Abril)

Maxi Tex nº 32 – “La grande congiura” (6 de Abril de 2023) – 276 páginas; 9,90 €
Argumento: Claudio Nizzi
Desenho: Giancarlo Alessandrini
Capa: Claudio Villa

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As Leituras do Pedro – Mister No Revolution: Amazonia

As Leituras do Pedro*

Mister No Revolution: Amazonia
Michele Masiero (argumento)
Alessio Avalone, Matteo Cremona e Emiliano Mammucari (desenho)
Panini Comics
Espanha, Março de 2021
195 x 259 mm, 160 p., cor, capa dura
19,00 €

Final inglório

É um sinal de tempos mais ou menos recentes, o revisitar das origens de heróis da banda desenhada, e não só para tentar tirar partido da sua popularidade e da sua pertença ao imaginário colectivo.

Este tipo de exercício, feliz nalguns casos, infeliz noutros, comporta sempre dois riscos: por um lado, quanto maior é a popularidade da personagem revisitada, mais arriscado se torna mexer com o que maravilhou gerações; por outro lado, se a nova obra beneficia sempre do conhecimento prévio do original por parte do leitor, também tem que se apresentar autónoma em si mesma, para seduzir quem se aproxima dela virgem do tema.

É nisto que falha o volume final deste tríptico de Mister No, que transpõe as suas deambulações para 25 anos depois do tempo em que o situou o seu criador.

É verdade que Mister No está longe de ser uma personagem de topo no universo Bonelli, apesar de desfrutar de alguma popularidade em Itália e, principalmente do Brasil, pela localização das suas aventuras. Mas poder ser associado ao nome de Sergio Bonelli, enquanto seu criador sob o pseudónimo de Guido Nolitta, é um trunfo não de todo desprezável, embora não lhe permita atingir, nem de perto nem de longe, os níveis  de um Tex ou um Dylan Dog.

Prosseguindo o exposto dois parágrafos acima, é pena que assim seja, porque este tríptico Mister No Revolution até tinha começado bem em Vietname, com a transposição temporal do protagonista da II Guerra Mundial para aquele conflito traumático para os Estados Unidos, e, depois, em California, transportando-o para a São Francisco do final da década de 1960, sob o signo dos hippies e das manifestações pela paz. Foram dois volumes com uma forte sustentação histórica, com a subida de um degrau em termos de violência e sexo, condizentes com os dias de hoje – bens diferentes, em termos narrativos, gráficos e de liberdade criativa, dos vividos em 1975 quando o herói surgiu – e em que Mister No, com o seu posicionamento e forma de pensar característicos e reconhecíveis, fazia todo o sentido. E eram dois volumes completamente autónomos, que dispensavam qualquer conhecimento prévio da obra.

Agora, Amazonia, apresenta um problema de base: enquanto os volumes anteriores tinham uma base histórica que permitia a alteração temporal e, até, um melhor aproveitamento da forma livre de pensar do ex-piloto-aviador, no caso presente – desculpem a franqueza, a Manaus dos anos 1970 não difere muito da dos anos 1950 – em termos narrativos ou do retrato que Nolitta e Masiero traçam dela. Depois, enquanto que os outros dois volumes beneficiavam de uma forte componente social e política, na sua chegada ao Brasil, Mister No é apenas um homem desencantado com a vida, desencanto esse que vai afogar em álcool e mulheres, prosseguindo a atormentada descoberta de si mesmo numa espiral com muito de auto-destrutivo.

Mas, o grande problema de Amazonia, é a excessiva colagem – deixem-me escrever assim para ser bem claro – à trama original delineada por Sergio Bonelli/Guido Nolitta, pois os acontecimentos aqui narrados são os mesmos: os primeiros tempos com Esse Esse, o conhecimento e nascimento da paixão pela bela Patrícia Rowland e a busca pelo templo Asteca em plena selva amazónica. Explicando melhor, o actual argumento surge com hiatos – ou saltos temporais demasiado longos – que quem já conhece o original preenche com facilidade, mas que poderão deixar algo desorientados os leitores de ‘primeira vez’.

Valendo como reencontro, Amazonia é, assim, uma opção menos válida como descoberta. E, para quem tanto prometeu nos dois primeiros volumes deste tríptico, significa um passo atrás para Masiero e deixa um sabor a pouco para os leitores que tinham aderido à sua ‘revolução’ da personagem.

Nota final

Como nos dois volumes anteriores, a edição espanhola da Panini revela-se robusta, com uma sólida capa dura, bom papel, boa impressão e um caderno final de extras que inclui, para além de esboços preparatórios e ilustrações do trio de desenhadores de serviço – Alessio Avalone, Matteo Cremona e Emiliano Mammucari – um dossier sobre a época e a localização da acção deste volume.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(capa disponibilizada pela Panini; pranchas (da versão original italiana) disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

OS DURÕES TAMBÉM RIEM

Por Júlio Schneider*

Bonelli Kids é uma divertida série de tiras que retrata algumas personagens da Sergio Bonelli Editore (SBE) como crianças que se envolvem nas mais variadas confusões. As primeiras tiras apareceram no sítio internet da editora no início de 2017 e, no ano seguinte, foram todas compiladas num volume impresso de pequeno formato. Escrita por Tino Adamo, Sergio Masperi e Alfredo Castelli, e desenhada por Luca Bertelè, a primeira série bonelliana humorística, criada para leitores pequeninos, conquistou logo os fãs tradicionais que divertem-se a ver, entre outros, o jovem sabichão tagarela Martin, o pequeno Mister No que pensa ser um sedutor, o menino Zagor que sempre cai do cipó, e até o traquinas Alf, “o menino mais velho do mundo“, que lembra muito – no nome, na fisionomia e nas atitudes – Alfredo Castelli!

Mas entre as várias personagens retratadas na série não está Tex Willer, o principal nome da Casa Bonelli. Segundo os editores, por respeito, pelo facto de Tex ser uma instituição nacional e, praticamente, sinónimo da BD italiana, decidiu-se não o envolver num projeto que, ainda que de forma divertida, mexe com a visão tradicional das personagens retratadas. Também há nobreza da parte dos editores em não pretender fazer algo que eles não sabem se seria aprovado por quem criou e deu consistência à personagem que é o sustentáculo da editora, e por não saberem se estariam à altura das brincadeiras feitas com Tex pelos próprios criadores Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini e pelo então editor Sergio Bonelli, que em certas épocas decidiram fazer graça com o grande Águia da Noite, obtendo resultados que conseguiram fazer o leitor sorrir, sem que fosse preciso desmitificar a personagem. Em 1985, por exemplo, o sóbrio herói viveu uma cena irónica, desenhada pelo mestre Galep: Tex e Jack Tigre param para acampar à noite, num local escuro, e, quando acordam, veem-se numa praia cercados de veraneantes. Outro bom exemplo, também com desenhos de Galep, viu-se na última página do n° 1 de Os Grandes Clássicos de Tex (Ed. Mythos, 2006), em que Tex leva uma sonora pancada na cabeça aplicada por Lilyth com um rolo de macarrão, numa cena digna de comédia de costumes.

Tex leva uma sonora pancada na cabeça aplicada por Lilyth com um rolo de macarrão, numa cena digna de comédia de costumes.

Em 2004, por licença da SBE, a editora italiana Hazard publicou um livro com vários momentos dos heróis bonellianos em situações, digamos, não muito ortodoxas, entre as quais a que reproduzimos ao lado, com diálogos de Guido Nolitta e desenhos de Claudio Villa: uma noite, num acampamento, Tex diz a Jack Tigre que os índios são pessoas de poucas palavras, que passam horas quietos e, quando alguém conversa com eles, respondem apenas ugh!; quando estão no meio de um tiroteio, o único comentário é ugh!; se cai um raio a dois metros de distância, exclamam ugh!; se encontram uma jazida de ouro, manifestam surpresa dizendo ugh!; e tenta arrancar do calado parceiro o significado da interjeição, recebendo uma resposta quilométrica, sem sentido e divertida.

Como disse o saudoso editor Sergio Bonelli (autor da cena em que Tex leva o rolo de macarrão na cabeça), “a vida de todo dia é muito dura e séria, faz bem rir um pouco“. Mesmo que o objeto do riso seja – mas não com muita frequência – o nosso Ranger preferido, granítico e setentão.

* Texto de Júlio Schneider publicado originalmente na Revista nº 9 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2018.

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