Texto da secção Artes de 29/03/2023 F. Cleto e Pina
Tex despede-se de García Seijas
Tex despede-se de García Seijas
*Ernesto Rudesindo García Seijas, desenhador argentino, faleceu ontem, contava 81 anos.
O mundo da BD, bastante fustigado pela partida de alguns dos seus expoentes em tempos recentes, fica mais pobre.
Se para muitos García Seijas era sinónimo de desenhador de Tex, o western há mais tempo em publicação ininterrupta, a verdade é que teve de trilhar um longo caminho antes de se consagrar como um dos elementos do staff do ranger.
Ernesto Rudesindo Garcia Seijas
Natural da cidade de Ramos Mejía, na província de Buenos Aires, onde nasceu a 1 de Junho de 1941, desde cedo começou a desenhar com tudo o que lhe aparecia à mão, tendo ganho a alcunha de “pincellito”.
Depois de passagens mais ou menos curtas pela escola secundária de belas artes local e pela academia Pitman, pois apenas se interessava pelas disciplinas de desenho, García Seijas começou a trabalhar para a Editorial Fascinación, onde completava vinhetas de narrativas ilustradas provenientes de Itália, devido a alterações de planificação.
Depois de uma passagem pela “Totem”, com “Bill y Boss”, onde passou a assinar com o nome que o tornou conhecido, em 1958, com apenas 17 anos, juntou-se à equipa da revista “Bucaneros, el gigante de la historieta”, onde desenhava a narrativa de piratas que davam nome à publicação.
A década de 1960 vai ser fundamental para o seu crescimento gráfico, com o seu traço a tornar-se cada vez mais preciso, personalizado e plasticamente agradável, na linha do mestre norte-americano Alex Raymond. Nessa época trabalhou em quase todas as revistas argentinas, entre as quais “Frontera”, “Hora Cero”, “Misterix” (onde fez parceria com Héctor Gérman Oesterheld em “Léon Loco”) ou “Rayo Rojo”. Ao mesmo multiplicou a sua actividade, em capas para a colecção “Robin Hood” e na adaptação de clássicos do cinema e de narrativas românticas, para a revista feminina “Intervalo”.
A década seguinte vai encontrá-lo a trabalhar para as Ediciones Record, onde assina trabalhos como “Skorpio”, “Many Riley”, “El Hombre de Richmond”, “El estirpe de Josh” ou “Los Aventureros”, revelando igual à-vontade no western, no terror ou na aventura.
“El Negro Blanco” (1987), uma BD erótica com argumento de Carlos Trillo, e “Espécies em Peligro” (2000) são exemplos da sua passagem pelas tiras de imprensa do seu país natal, antes de começar a sua grande aventura italiana, na Eura Editoriale, primeiro, e depois na Sergio Bonelli Editore. Nesta última, a sua estreia aconteceu em “Julia 80”, antes de se tornar um desenhador regular de Tex, a série charneira da editora, cujo primeiro título ilustrado por si a chegar às bancas foi “Polícia Apache” (2007).
As Hienas de Lamont; capa de Ernesto Rudesindo Garcia Seijas
A sua consagração chegaria com a publicação de um “Tex Gigante”, “As Hienas de Lamont” (com argumento de Claudio Nizzi), que veria a luz em 2011. Curiosamente, este foi o primeiro trabalho do desenhador com o ranger; com publicação originalmente agendada para 2003, seria adiado devido à lentidão do desenhador e à necessidade de introduzir correcções, pois o editor Sergio Bonelli tinha reservas quanto à presença de diversas personagens femininas, o que obrigou Seijas a redesenhar onze pranchas.
Na volumosa obra “Tex, mais que um herói” (A Seita, 2022), Mário João Marques, especialista nas aventuras do cowboy, afirma que o desenhador argentino “domina todas as técnicas de uma boa narração visual (…) O seu traço é claro e muito expressivo, oferecendo força e consistência às suas personagens e ambientes, assim como um contínuo movimento em todas as cenas”.
As Hienas de Lamont; arte de Ernesto Rudesindo Garcia Seijas
Apesar de não ter obra publicada em Portugal, García Seijas chegou até aos fãs portugueses de Tex através das edições brasileiras da Mythos Editora, tendo conquistado um bom número de apreciadores no nosso país.
Tex despede-se de García Seijas (Jornal de Notícias online, 29 de Março de 2023)
Ernesto Rudesindo García Seijas (1 de Junho de 1941 – 28 de Março de 2023)
(1 de Junho de 1941 – 28 de Março de 2023)
Esta é uma das notícias que nunca queremos dar, mas que a lei da vida a isso nos obriga. Ernesto Rudesindo García Seijas, o Mestre argentino do staff oficial de Tex, faleceu esta terça-feira, dia 28 de Março, aos 81 anos, deixando a banda desenhada mundial mais pobre.
O Tex de Ernesto Garcia Seijas
Por Mário João Marques
Ernesto Rudesindo García Seijas
Nesta terça-feira, 28 de Março faleceu Ernesto Rudesindo García Seijas, um dos nomes sonantes da banda desenhada argentina, a poucos meses de completar 82 anos de idade. Com a sua morte, podemos, naturalmente, afirmar que desaparece mais um desenhador de Tex, mas Seijas foi muito mais que um desenhador do Ranger italiano, mas vamos recordar o seu legado em Tex.
Este autor argentino teve um percurso curioso em Tex, pois estreou-se no Almanacco del West 2007 com Polizia Apache, aventura que, na realidade, não foi o seu primeiro trabalho para a série. O seu “contacto” com Tex já vinha desde os anos 1990, quando Sergio Bonelli o convidou para um Speciale, de título provisório I quattro giustizieri, e que deveria ter sido publicado em 2003.
Com um ritmo lento, Seijas levou quatro anos a concluir o trabalho, contribuindo também o facto desta aventura ter sofrido algumas alterações após as habituais revisões periódicas. Sobretudo porque Sergio Bonelli não via com bons olhos a presença de muitas personagens femininas, que Seijas compôs como poucos, o que obrigou o autor argentino a redesenhar onze pranchas, acabando a aventura por ficar guardada nas gavetas da editora e ser publicada apenas em 2011 com o título de Le Iene di Lamont.
No entanto, quis o destino que esse Speciale fosse o ultimo onde Sergio Bonelli iria deixar a sua assinatura no habitual texto de apresentação, assim como a sua publicação ocorreu poucos meses após Verso l’Oregon, o Speciale de Manfredi e Gomez, uma aventura protagonizada sobretudo por personagens femininas. Quando a aventura foi finalmente publicada, Seijas já integrava a equipa oficial de desenhadores de Tex e desenhado duas outras aventuras, Il killer e La prova del fuoco.
O requintado Kit Carson de Ernesto Garcia Seijas
Seijas dominava todas as técnicas de uma boa narração visual, mas nos seus primeiros trabalhos em Tex apresentou um Ranger muito sorridente e pouco irónico, muito ao estilo dos heróis dos primeiros seriados western, característica que ultrapassou com o decorrer do seu trabalho. O seu traço era claro e muito expressivo, oferecendo força e consistência às suas personagens e ambientes, assim como um contínuo movimento em todas as cenas.
Apesar de achar que o estilo vivo de Seijas era pouco adaptado ao western, Nizzi considerou o autor argentino como um mestre que sabia desenhar tudo, notável no jogo de expressões das suas personagens, capaz de fazer sorrir e comover e, por isso mesmo, poucos autores souberam interpretar graficamente tão bem um argumento seu.
Tex Gigante de Nizzi e Seijas
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Decorreu neste fim de semana, 25 e 26 de Março, em Itália, o prestigiado evento ‘Lucca Collezionando‘, festival de banda desenhada vintage-pop, no Polo da Feira de Lucca, onde entre tantas exposições, encontros, conferências e presenças dos mais diversos autores, teve grande destaque a Mostra dos 75 anos de Tex Willer que foram “celebrados” com a participação de dois dos mais prestigiados desenhadores do staff oficial do Ranger: Alfonso Font e Claudio Villa com uma exposição onde estavam expostos trabalhos destes dois Mestres da BD italiana, mas no evento também compareceram outros nomes como Fabio Civitelli, Lucio Filippucci, Alessandro Bocci e Rossano Rossi para além de um stand do Grupo Tex (criado em 2011) no Facebook, dirigido pelo ilustre Enrico Valcamonica, como podemos ver em diversas fotografias que mostramos de seguida e num vídeo que encerra este post!
Quem conhece a Itália não hesita em afirmar que, visitar a região da Toscana, uma das mais belas do país, e não ir a Arezzo, situada entre Florença e Roma, nas margens do Rio Arno, é um pecado quase mortal. Fora dos tradicionais roteiros turísticos, Arezzo é uma pequena cidade localizada no sudeste da província com o mesmo nome, no topo de uma colina, no cruzamento de quatro vales: Val Tiberina, Casentino, Valdarno e Val di China. A sua origem remonta ao tempo dos Etruscos, tornando-se, com a ascensão de Roma, numa das mais importantes cidades do Império. Apesar de severamente danificada durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade ainda conserva ricos testemunhos do seu passado. As muralhas do seu Centro Histórico guardam verdadeiros tesouros da arte e da arquitetura de várias épocas da História da Humanidade: torres típicas da Idade Média, arcos romanos, fachadas renascentistas, igrejas revestidas de pedras, museus com peças etruscas e romanas, ruínas de um anfiteatro romano, culminando com a Piazza Grande, o coração do Centro Histórico, onde o cineasta Roberto Benigni realizou e interpretou algumas cenas do filme “A Vida é Bela”, nomeadamente quando passeia de bicicleta e grita “Buongiorno principessa”.
Mostra “La scuola dei fumettisti aretini. Tavole di Fabio Civitelli, Rossano Rossi, Marco Bianchini, Marco Santucci, Maria Laura Sanapo e Lorenzo Palloni“
Pátria de grandes nomes, como o pintor e arquiteto Giorgio Vasari ou do poeta Francesco Petrarca, Arezzo é também a cidade que viu nascer alguns grandes nomes do fumetto italiano, como Marco Bianchini, Fabio Civitelli, Marco Santucci, Maria Laura Sanapo, Lorenzo Palloni ou Rossano Rossi, o nome que aqui nos traz e que tivemos a oportunidade e o grato prazer de conhecer em 2018, durante o Festival Internacional de BD em Beja. Acompanhado por dois indefetíveis texianos italianos, Francesco Micoli e Aldo Carlo Valdambrini, Rossi viajou a convite da organização do Festival por ocasião da comemoração dos setenta anos de Tex, à semelhança do que aconteceu ao longo do ano, que viu aterrar em terras portuguesas nomes como Walter Venturi, presente em Coimbra, e Moreno Burattini e Bruno Ramella, presentes no Clube Português da Banda Desenhada. Habituado à simpatia, disponibilidade e simplicidade de todos os autores de Tex que já tivemos o prazer de conhecer, Rossano Rossi não defraudou as expetativas, revelando-se, à semelhança dos seus conterrâneos transalpinos, uma pessoa extremamente afável, atenciosa e atenta aos leitores e apaixonados que com ele puderam conviver em terras lusitanas. Um convívio que começou em terras alentejanas, mas que se estendeu até Lisboa, cidade onde, durante um dia, tivemos a grata oportunidade de passear e conversar mais calmamente sobre um pouco de tudo, naturalmente com Tex à cabeça.
Tex no castelo de Beja, desenhado por Rossano Rossi
Nascido em 1964, desde tenra idade que Rossano Rossi começou a interessar-se pelo desenho, aproveitando todos os momentos e qualquer lugar para “… folhear e encher de desenhos as várias revistas… principalmente as de Mickey, Pato Donald e companhia”. Rossi sempre gostou de desenhar e ilustrar, imaginava e realizava as suas próprias histórias, com uma especial predileção pelo western, género que lhe permitia desenhar índios, cowboys e xerifes. Por isso, tornar-se profissional na banda desenhada parece ter sido uma consequência lógica desta paixão, mas daí até o desenho poder servir de sustento ainda decorreram alguns anos, uma vez que Rossi sentiu na pele o quanto difícil é para um autor de banda desenhada sobreviver apenas com esta atividade. “Digamos que foi uma forma de masoquismo, eu poderia seguir caminhos bem mais lucrativos, mas é tão bonito poder ilustrar histórias em quadradinhos, é como uma dependência química, eu não poderia ficar sem.”
Rossano Rossi e… Fernando Pessoa, em Lisboa
Os primeiros passos de Rossano Rossi na banda desenhada ocorreram na segunda metade dos anos oitenta do século passado, através de algumas histórias auto conclusivas eróticas e de terror, publicadas em várias revistas, como Splatter, Ramba, Blitz ou L’Intrepido. A sua carreira começa verdadeiramente quando Marco Bianchini lhe pede para desenhar a lápis inúmeras páginas de Mister No, o que levará Rossi, no início dos anos noventa, a integrar a equipa de desenhadores desta série da Sergio Bonelli Editore. Entretanto, Federico Memola, na altura um dos argumentistas de Zona X, convida-o para a sua nova série, La Stirpe di Elän, e a carreira de Rossi começa a ganhar forma. Desenha sucessivamente Jonathan Steele e Nick Raider, passando para Tex, onde se estreia com a aventura Il Fugitivo, publicada no Almanacco del West 2005, chegando à série principal dois anos mais tarde, com a história Dieci Anni Dopo. A chegada a Tex deve-se precisamente ao seu amigo e vizinho aretino Fabio Civitelli, que várias vezes o incentivou a fazer alguns testes e a enviá-los à editora, o que acabou por dar frutos: “Foi uma grande alegria, afinal era a personagem que eu sempre segui desde criança, li todas as histórias e fiz muitos esboços das várias personagens, mas também fui invadido por um forte estado de ansiedade. Será que eu seria capaz de aproveitar ao máximo uma personagem de tamanha importância a nível mediático? As minhas pernas tremiam, mas acima de tudo as minhas mãos, mas não desanimei, perguntei-me qual deveria ser o fator fundamental para chegar a um bom resultado e, sem dúvida, percebi que o mais importante seria a verdadeira semelhança do personagem, Tex deveria ser Tex!”.
Tex por Rossano Rossi
No espaço de treze anos, Rossano Rossi desenhou quatro aventuras do ranger, com uma média de três anos a separar cada uma, mas o início foi algo atribulado e permanece como uma das curiosidades da longa saga de Águia da Noite. Devido ao seu ritmo lento, à dificuldade em desenhar cavalos e habituar-se à fisionomia das principais personagens, Rossi acabou por se atrasar com o seu trabalho em Il Fugitivo, e foi o amigo Fabio Civitelli que o ajudou, desenhando a lápis as últimas trinta pranchas da aventura. É o próprio Rossi que o afirma: “Eu sou bastante lento, levo dois dias para fazer uma página. Trabalhando em casa, não tenho horários precisos, digamos que trabalho até tarde de noite, mas faço pausas para relaxar e concentrar-me. Vida em família não há, pois sou solteiro e moro sozinho. Não sei se conseguiria concentrar-me se tivesse uma família”. Este ritmo lento advém de um estilo muito preciso, limpo e detalhado, com um cuidado imposto a cada desenho, onde pontificam negros de rara beleza, muito à semelhança de Civitelli. “Digamos que uso bastante a internet, a rede é um instrumento formidável para a documentação. Também uso livros fotográficos e velhas BD. Em alguns casos o argumentista fornece-me a documentação, principalmente se ele tem uma ideia bem precisa sobre a cena a desenhar, mas geralmente ele dá-me ampla liberdade”. Esta liberdade permite ao autor inserir elementos que não constam do guião, como por exemplo em Attacco alla Diligenza, onde Rossi vai desenhar a main street de uma cidade tendo como referência uma cena do filme Open Range (A Céu Aberto), ou adotar o vestuário de um dos protagonistas de 3:10 to Yuma (O Comboio das 3 e 10) para o chefe dos bandidos.
Attacco alla diligenza; página desenhada por Rossano Rossi
“Aprecio uma certa forma de desenhar, precisa, meticulosa, cuidada nas anatomias, mesmo que, como alguns afirmam, tendendo mais a um certo dinamismo Ticciano”. Ou seja, numa primeira apreciação todos concordarão com a influência exercida por Civitelli na representação do Tex de Rossi, apesar deste apresentar um rosto mais seco e um queixo menos saliente. No entanto, se Civitelli emprestou o seu estilo, se bem que parcialmente, a verdade é que as poses e as fisionomias parecem-nos ir beber muito a Ticci. Ou seja, o modelo de Rossi estará entre estas duas influências, acabando por se aproximar de um estilo mais pessoal com o decorrer dos seus trabalhos, o que parece bem patente logo a seguir à primeira aventura. “As suas características físicas e a fisionomia do rosto e do corpo eram fundamentais para agradarem ao leitor, muitos não querem adaptar o seu estilo em Tex, pretendendo que seja Tex a adaptar-se ao seu estilo, o que acaba por gerar uma certa repulsa da parte do leitor. Eu queria evitar tudo isso, e acho que consegui, pelo menos pelos elogios lisonjeiros recebidos dos leitores ao longo destes anos”.
Esboço de Tex na arte de Rossano Rossi
Em 2005, Rossi estreia-se em Tex, com Il Fugitivo, uma aventura publicada no Almanacco del West, com a ação a decorrer numa pequena localidade, junto ao deserto de Sonora, onde um Tex solitário e munido apenas de arco e flechas, arrisca perder a vida, emboscado por inúmeros fora da lei. É o próprio Rossi que nos fala da génese deste seu primeiro trabalho em Tex, sublinhando duas curiosidades, uma delas já referida acima: “A primeira é que a história foi escrita pelo meu grande colega e amigo Fabio Civitelli, tal como as últimas trinta pranchas foram desenhadas por ele e, posteriormente, finalizadas a tinta por mim, já que eu estava bastante atrasado. Era a minha primeira história de Tex e queria sair-me bem. Precisava de acostumar-me com o novo universo texiano, mas a história tinha que ser publicada, por isso Fabio deu-me a sua ajuda, o queeu ainda hoje agradeço”.
Esboço de Tex a disparar; arte de Rossano Rossi
Três anos mais tarde, Rossi salta para a série principal e desenha Dieci Anni Dopo, novamente uma aventura escrita por Nizzi, em que Tex reencontra os quakers da cidade de Paradise, indo em sua ajuda contra a arrogante Rhonda Carpenter, uma mulher que tem tanto de fascinante como inescrupulosa, e que pretende apoderar-se de todos os terrenos da zona. “Lembro-me que no início não foi fácil, a responsabilidade era muito grande, uma vez que se tratava de uma história que recuperava os acontecimentos contados numa aventura histórica – “Terra Promessa”. Mas devo dizer que, com o passar do tempo, tudo se tornou muito mais fluido, tive um enorme prazer em desenhar duas personagens históricas, os quakers Marcus e Elia Glendon, mas sobretudo a traiçoeira, mas fascinante, Rhonda Carpenter (acho que sempre me saí muito bem com as personagens femininas). No final, devo dizer que fiquei bastante satisfeito com o resultado”.
Página 203, a lápis, de ‘Dieci Anni Dopo’
A aventura seguinte, Attacco alla Diligenza, foi publicada em 2011, ainda com argumento de Nizzi. A história leva Tex e Carson a Albuquerque, depois de terem recebido uma mensagem enigmática do general Davis. No entanto, vítima de um ataque à diligência onde seguia, o militar não comparece ao encontro, permanecendo uma incógnita o seu destino e aquilo que pretendia dos rangers. “De uma certa forma foi um pouco mais fácil, eu já tinha conseguido perceber os mecanismos estruturais da narração de Nizzi, e também porque nesta história entrava outra personagem importante, o General Davis, um amigo fraterno de Tex. Também me diverti muito a desenhar os casacos azuis, como eram conhecidos os militares pelos peles vermelhas, e os bandidos mexicanos, tal como foi a primeira vez que desenhei Kit Willer e Tiger Jack, mesmo que apenas por poucas vinhetas”. Um trabalho que deixou o desenhador bastante entusiasmado e que mereceu, inclusive, os cumprimentos pessoais de Sergio Bonelli “… que até me fez sentar ao lado dele durante um jantar da editora na Feira de Mantova, em fevereiro de 2011. Recordo com emoção e nostalgia aquele dia, também porque foi a última vez que vi Sergio que, infelizmente, acabou por nos deixar poucos meses depois”.
Tex na arte de Rossano Rossi
“Quanto à minha terceira aventura no universo texiano, guardo algumas recordações, em parte positivas em parte negativas, porque foi um período terrível da minha vida. O meu pai adoeceu e, durante alguns meses, ocorreu uma sucessão de eventos desagradáveis que me obrigaram a parar o trabalho. No fim, o meu pai acabou por falecer, ele que nascera no mesmo ano que Sergio! Apesar de tudo, mesmo com um grande atraso, consegui finalizar a história”. Este trabalho saiu para as bancas em 2015, intitulado Nodo Scorsoio, desta vez com Tito Faraci na escrita de um argumento que leva Tex e Carson, a pedido do juiz Kirkman, em ajuda de Timothy Russell, um jovem injustamente acusado de assassinato. “Apesar de tudo, fiquei bastante satisfeito com esta história, em parte porque houve uma certa mudança no meu estilo, em direção a uma caracterização mais pessoal das personagens. Estilo que, penso eu, evolui ainda mais na última história que desenhei e da qual ainda não posso falar em pormenor, visto que ainda não foi publicada”. Intitulado provisoriamente Sull’Orlo dell’Abisso, muito provavelmente este próximo trabalho de Rossi só será publicado na Primavera ou no Verão do próximo ano. Trata-se de uma história da autoria de“… um autor fundamental do universo texiano, o talentoso e prolífico Pasquale Ruju. Acho que é a história mais envolvente e original que desenhei até agora…”.
Tex na arte de Rossano Rossi
Com um percurso já cimentado na série, Rossano Rossi conseguiu impor o seu estilo e a sua importância no contexto dos autores de Tex, sendo hoje, muito justamente, apreciado pelos leitores e visto como um valor seguro, deixando antever que o ranger cavalga bem seguro nas suas mãos. O tempo não pára e o trabalho continua, já com Rossi a preparar uma nova aventura: “Ainda não disponho de todo o roteiro, posso apenas dizer que também é da autoria de Pasquale Ruju, com quem me sinto muito bem, porque é um autor que deixa uma certa margem de liberdade para o desenhador, o que me permite juntar a minha marca pessoal em determinadas cenas, já que, afinal, o autor é como um cineasta, o melhor realizador é aquele que consegue montar as cenas da maneira mais envolvente para o público. Além disso, posso ainda dizer que a história também retoma uma outra aventura histórica de Tex, publicada nos anos setenta, escrita pelo lendário Giovanni Luigi Bonelli, mas neste momento não posso acrescentar mais”.
Tex, ainda jovem, e a sua amada Lilyth, na arte de Rossano Rossi
“Uma personagem como Tex já faz parte do imaginário coletivo; deixar de ler uma bela aventura de Tex seria como deixar de comer uma boa pizza. E os quadradinhos não engordam, não têm nenhuma contra-indicação. Aliás, fazem bem para o espírito” . São palavras de Rossano Rossi, um artista que empresta toda a sua humildade e arte ao serviço da personagem com maior sucesso no panorama dos fumetti, deixando antever que, dependendo do desenhador, o futuro continuará a ser risonho para o ranger. “Sou um desenhador e não um escritor, faço o que posso, e agradeço a todos os leitores, a todos os sócios do Clube Tex e a todos os meus fãs. Como diria o bom Carson… até breve, TIÇÕES DO INFERNO!”.
Rossano Rossi estará em Anadia nos dias 29 e 30 de Abril para deleite dos fãs de Tex
* Texto de Mário João Marques publicado originalmente na Revista nº 9 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2018.
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