Hoje vamos dar a conhecer as provas gráficas do volume cartonado a cores de Tex intitulado “Sulla pista di Fort Apache“, com argumento de Mauro Boselli e desenhos do saudoso mestre espanhol José Ortiz, com lançamento anunciado para Julho. A capa é da autoria de Claudio Villa.
No parecer de Mauro Boselli, trata-se da principal obra-prima texiana realizada por José Ortiz ao serviço do Tex e uma homenagem do próprio Boselli às atmosferas de John Ford.
Com o título original Sulla Pista di Fort Apache, a história foi publicada em Itália nos nº 458 a 460 e no Brasil pela Mythos Editora nos nº 373 a 375.
O Arizona encontra-se a ferro e fogo, uma vez que um grupo de apaches rebeldes chefiados por Chunz luta contra o exército americano instalado em Forte Apache. Cansado dos métodos repressivos do tenente Parkman, Cardona, o chefe dos índios coioteiros, vai abandonar a sua reserva em Forte Apache e juntar-se a Chunz, apesar de não partilhar nem aprovar o ódio radical que este nutre pelos brancos. Entretanto, uma patrulha de soldados conduz Liz Starret que chegou ao Arizona para se encontrar com Parkman, o seu noivo, mas cai numa cilada, sendo salva por Tex e Tigre que estão na região para resgatar alguns jovens navajos que se juntaram a Chunz. Ingredientes quanto baste para um ambiente tenso e violento, onde Tex vai jogar muita da sua perícia e diplomacia como Águia da Noite.
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Tex #636/#1Flechas mortais Tex #637/#2Vingança vermelha Histórias originalmente publicadas em Tex #736 e #737 (SBE, Itália, 2021) Pasquale Ruju (argumento) Giuseppe Prisco (desenho)
Tex Bis #636/#1 Agente dos Navajos História originalmente publicada em Tex #729 bis (SBE, Itália, 2021) Mauro Boselli (argumento) Maurizio Dotti (desenho)
Mythos Editora Brasil, Outubro e Novembro de 2022 160 x 210 mm, 112 p., pb, capa cartão R$ 29,90
História, histórias
Para (leitores) coleccionadores – para aqueles que em determinado momento das suas vidas, geralmente n(o final d)a infância e adolescência (e por aí fora), colecciona(ra)m revistas de banda desenhada – há momentos – editoriais – que fazem História e poder acompanhá-los – mesmo que a alguma distância temporal (na verdade isto aconteceu há meses…) – proporciona experiências que são inexplicáveis para quem nunca as vivenciou.
É o que acontece – duplamente – com estas edições de Tex que hoje aqui trago – primeiras de muitas, desejam os seguidores do ranger.
[Em termos pessoais, posso referir como mais marcante a mudança de formato do Mundo de Aventuras na transição do #53 para o #54 da chamada quinta série, e a aposta inerente na produção franco-belga, responsável em boa parte pelo leitor que hoje sou.]
Tex #636
História O Tex #636 ficará para sempre na História da edição do ranger no Brasil pela mudança de formato, do velho (de mais de 40 anos) formatinho (135 x 180 mm) para o tamanho (dito) Bonelli (160 x 210 mm). Podendo parecer algo de somenos para alguns, representa na verdade um aumento da área de página de quase 40 %, o que permite uma maior legibilidade e desfrutar em pleno da arte (acima da média) que as edições Bonelli sempre propõem.
Há alguns meses que a Mythos possibilitava aos interessados a compra neste tamanho, através do sistema print on demand, mas o encerramento da maioria das bancas e a necessidade de uma maior aposta na venda online e em livraria forçou o fim do formatinho. O preço, obviamente, sofreu o necessário ajuste – de R$ 19,90 para R$ 29,90… – e, acreditando que haverá sempre descontentes, penso que a maioria estará satisfeita.
A par da mudança física, houve igualmente um reinício – mesmo que tímido – da numeração (embora mantendo a anterior, iniciada em 1970!), no duplo compromisso possível com leitores tradicionais e com aqueles que o novo formato venha conquistar – e que se deseja sejam bastantes – nesta edição que hoje trago. Como extra, a troca definitiva – espera-se – do papel (de jornal…) de menor qualidade, por outro de maior gramagem e brancura.
Tex #637
Histórias A história seleccionada pela Mythos para a mudança, coloca Tex e Carson frente a um grupo de índios renegados e assassinos, tendo a seu lado um velho chefe. História dura e violenta de vingança impiedosa e incontornável, ao longo das suas mais de duas centenas de páginas (as das edições #636 e #637) vai apresentando algumas surpresas e uma ou outra variação na orientação do relato, merecendo destaque – pela auto-determinação e tomada de decisões inesperadas – a figura do jovem Kimy, pouco habitual nas histórias do ranger, devido ao modo como mantém e assume até ao fim a diferença e o direito a pensar pela sua cabeça.
História outra vez Para além da mudança de formato, a par deste Tex #636 houve outro acontecimento histórico, o lançamento de uma edição especial ‘bis’. Edição especial no seio da linha cronológica tradicional, demarca-se daquela por apresentar uma história completa. Foi, por isso, História em Itália, aquando da sua publicação; seguiu-lhe o exemplo o Brasil.
Tex 636 bis
Histórias novamente Para o número especial, uma história especial: um mergulho na história do ranger, para ficar a conhecer como se tornou o agente indígena do território navajo, com Mauro Boselli e Maurizio Dotti a proporem uma narrativa com acção a rodos, dentro da linha tradicional da personagem, com a curiosidade do fundo histórico, da invulgar participação de um Kit Willer ainda adolescente, do desenterrar de mais um figurante do passado do ranger, tornado co-protagonista, e da denúncia das tácticas cruéis e desumanas utilizadas pelo exército, em vigor então, como hoje, como em tantas outras épocas.
Tex 636 bis
Nota final Depois de ler Tex no ‘seu’ tamanho real, a leitura em formatinho nunca mais saberá ao mesma. E eu ainda tenho alguns pendentes, pois dei um ‘salto cronológico’ para chegar mais depressa a estes…
*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogueAs Leituras do Pedro
(capas e páginas brasileiras disponibilizadas pela Mythos Editora; clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)
Coney Island Gianfranco Manfredi (argumento)
Giuseppe Barbati e Bruno Ramella (desenho)
Editora 85 e Lorobuono Fumetti Brasil, 2022 160 x 210 mm, 290 p., pb, capa cartão com badanas R$ 49,90
Versões
“Quem conta um conto, acrescenta um ponto”, diz o provérbio e em Coney Island, são vários os narradores, orquestrados pelo ‘narrador supremo’, Gianfranco Manfredi (o mesmo de Mágico Vento).
Passo a explicar. Ambientada no final dos anos 20 do século passado, tendo como local privilegiado da acção o parque de diversões que dá nome à obra e como pano de fundo a Lei Seca (que proibia a venda de álcool) e as lutas sem tréguas entre as diversas famílias de mafiosos pelo controle dos diversos tipos de crimes, Coney Island assenta num quarteto de protagonistas: Jack Sloane, detective obstinado e duro; Brenda, uma jovem com muitos sonhos mas infeliz na escolha dos amigos; Speddy, mensageiro do exército norte-americano durante a Primeira Guerra Mundial; Mister Frolic, herói do mesmo conflito e mágico, ilusionista ou algo mais.
Unindo-os por um acaso, Manfredi vai traçar um relato duro, violento quanto baste, de um realismo extremo pela base histórica escolhida e a que dá um toque de fantástico que se vai revelar fundamental.
Para além disso, Coney Island começa de forma original: a mesma cena é narrada sucessivamente do ponto de vista de cada um deles, acrescentando cada nova versão elementos importantes sobre os protagonistas mas também sobre o que realmente aconteceu na noite em que Sloane levou Brenda ao parque de diversões, assistiram ao espectáculo de Frolic e a jovem quase acabou assassinada no seu quarto.
Depois deste longo intróito – na verdade quase a base da narrativa – o último terço desta mini-série – publicada originalmente em 2015, em Itália, em três números, reunidos no Brasil neste volume único – mergulha no mundo esconso e violento da Cosa Nostra, nas suas intrigas e lutas sem quartel pelo domínio das mais apetecíveis zonas dos Estados Unidos, numa aparente mudança de paradigma que na verdade continua a seguir o que foi traçado na sua fase inicial: aprofundamento das personagens e explicação da razão de ser das suas opções e atitudes, num todo cuja leitura é difícil de interromper antes de um final que, mesmo sendo coerente, surpreende.
Graficamente Giuseppe Barbati – que assinou aqui o seu último trabalho, que não chegou a ver na forma de livro, devido à sua morte prematura em 2014 – e Bruno Ramella desenvolvem um trabalho muito competente, perfeitamente credível na reconstituição histórica de locais, edifícios, veículos e guarda-roupa, e à-vontade na representação anatomicamente correcta dos seres humanos, expressivos e suficientemente personalizados para evitar dificuldades no seu reconhecimento. Afinal, a qualidade gráfica elevada que sempre se espera das edições Bonelli.
* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogueAs Leituras do Pedro
(capa disponibilizada pelas editoras Editora 85 e Lorobuono Fumetti; pranchas disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nelas para as apreciar em toda a sua extensão)
No dia 27 de Maio, a Galeria Zé dos Bois inaugurou La Révolution R.S.V.P., a primeira exposição individual de Pablo Echaurren, em Lisboa. A exposição (que decorrerá até 9 de Setembro) tem como objectivo dar a conhecer a prática multifacetada do artista, especialmente a relacionada com os movimentos de contracultura em Itália nos anos 70, ao público português e internacional.
La Révolution R.S.V.P. reúne uma vasta selecção de trabalhos sobre papel – desenhos, colagens, fanzines – e outros – pinturas, assemblages, dioramas – do arquivo do artista em Roma, alguns dos quais são aqui apresentados publicamente pela primeira vez.
Um dos núcleos importantes na exposição é representado pelas obras de Echaurren de 1977-78, que corresponde ao período em que decidiu abandonar a sua carreira nas “artes” para servir no grupo dos “Indiani Metropolitani” – corrente criativa do movimento político de 1977 em Itália – em que o nome do artista se dissolve na dimensão colectiva e comprometida.
Criador de fanzines como Oask?! e Il complotto di Zurigo, onde afirma o seu signo, que mistura ilustração e escrita, citação culta e incursões pop em nome da ironia e do gosto pelo absurdo – visando uma desencantada e irónica visão da realidade – estendendo-se às capas dos livros, às fanzines, aos jornais como Lotta Continua, graffiti, romances gráficos e em centenas de cartazes.
A selecção de trabalhos de Echaurren apresentada na ZDB irá destacar o processo específico e intrigante de se inspirar na alta cultura oficial e de a traduzir para uma linguagem quotidiana, distorcendo-a de forma provocadora e escandalosa, através de um uso sofisticado do paradoxo e do humor.
A exposição ultrapassa a década de 1970 de modo a contar o complexo percurso artístico de Pablo Echaurren, desde os seus inícios, em 1969-70, com desenhos a tinta da china que emulavam a linguagem miniatural de Baruchello, até às suas mais recentes assemblages inspiradas nas novas descobertas sobre os Neandertais, passando por telas, colagens e papéis pintados datados entre 1980 e 2000.
De entre estes temas-chave estão: o manifesto poético do futurista “Parole in Libertà”, o pensamento de Marcel Duchamp, as Máquinas Celibatárias de Picabia, a hibridação de códigos, registos e campos semânticos, o fascínio pela pré-história, a deriva situacionista e o sentimento de estranheza, a transformação da linguagem como processo alquímico, a revolução da comunicação, a crítica da monetização da arte.
É a esta revolução “suave” que se refere o convite do título, La Révolution R.S.V.P., dirigido a todos nós. Um convite a pensar contra a corrente, fora da caixa e a aguçar o espírito crítico, que transparece de uma obra que se mantém actual e que recorre a um sentimento de estranheza, questionando ironicamente qualquer afirmação.
A exposição é acompanhada por um programa de projecções de filmes e documentários, com curadoria de Luciana Fina.
Projecto apoiado pelo Italian Council (11.ª edição, 2022), o programa destinado a apoiar a arte contemporânea no mundo, promovido pela Direcção-Geral da Criatividade Contemporânea do Ministério da Cultura Italiano.
A página (36,3×25,5 cm), idealizada por Roberto Festi e desenhada pelo mestre Giovanni Ticci, em 2012, onde o chefe Navajo, Águia da Noite, soube do falecimento de Sergio Bonelli e que se encontra, devidamente emoldurada, pendurada na sala de Davide Bonelli, na Sergio Bonelli Editore:
Em memória de… (Sergio Bonelli)
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