Dedico humildemente este texto ao grande articulista, crítico e mestre da banda desenhada portuguesa Jorge Magalhães. Infelizmente, não pude conhecê-lo pessoalmente, somente através da troca de emails, mas nestes anos em que colaborei com o blogue Português do Tex e com a revista do Clube Português de Tex, o gentil Jorge sempre teve uma palavra generosa de incentivo aos meus textos. Esteja em paz, caro Jorge, junto dos grandes mestres dos quadradinhos, com quem tenho a certeza estará “batendo papo” e ouvindo histórias maravilhosas. Fará falta meu caro Jorge.
“A Mensagem dos Dakotas”, conhecida no Brasil por “A Noite dos Assassinos”, é uma das mais clássicas aventuras do rico universo de histórias lendárias de Tex Willer e seus pards. Com roteiro de G.L. Bonelli e arte de um incomparável Giovanni Ticci no auge de sua forma, esta aventura está entre as preferidas de todos os tempos pela maioria dos leitores. O próprio G.L. Bonelli considerava-a uma das dez melhores em toda a sua extensa produção.
Esta monumental aventura começa numa tarde fria de final de Outono, quando os nossos quatros pards tentam encontrar um caminho para Forte Benton, cruzando as Montanhas Rochosas por uma das muitas trilhas que se encontram no Alto Montana, entre os Montes Lewis e as Nascentes do Rio Teton. O destino faz com que Tex e os seus amigos encontrem os restos mortais de um índio, que logo ficamos a saber, pertencia à tribo Dakota de Padre Fulton e era mensageiro de uma carta com um desesperado pedido de socorro, justamente ao comando de Forte Benton. Ao tomarem conhecimento do teor da mensagem, os pards logo decidem procurar pela aldeia Dakota, mal desconfiando daquilo que vão encontrar, não os habituais altivos e ferozes nativos americanos, mas sim verdadeiros farrapos humanos.
Il messaggio dei Dakotas
Os Dakotas de Padre Fultom
Num dos muitos vales isolados das Montanhas Rochosas encontra-se a tribo Dakota do chefe Falcão Negro que, guiados pelo bondoso Padre Fulton, vivem pacificamente e em total isolamento com a restante região. Uma verdadeira comunidade pacífica que goza da simpatia dos soldados de Forte Benton e da cidade de Great Fall. Porém, uma inesperada descoberta, algo que para muitos seria motivo de alegria e prosperidade, para os Dakotas de Falcão Negro poderá significar um medonho fim.
O cenário da trama
Um dos grandes motivos que tornou esta aventura inesquecível foi, sem sombra de dúvida, o cenário em que ela foi inserida, as terras geladas do grande Norte. O intenso frio do Inverno que se aproxima, em contraste com os habituais cenários áridos e quentes do Arizona, ou as infindáveis planícies verdejantes, palco da maioria das histórias dos quatros pards, dá o tom melancólico e até mesmo poético, se não trágico, à história de G.L. Bonelli. O brilhantismo da arte de Giovanni Ticci conduz-nos, juntamente com Tex e Carson, para as florestas cerradas, enfrentando animais selvagens, ou para nos sentarmos calmamente ao redor de uma fogueira, onde nos aquecemos diante do fogo e bebemos um forte café para espantar o frio de uma noite gelada de Inverno. Além dos perigos a que os nossos pards estão habituados, os malfeitores de sempre e as feras selvagens, aqui também a natureza poderá revelar-se uma terrível inimiga a qualquer momento. Uma nevasca, por exemplo, poderia isolar o vale dos Dakotas, fechando as trilhas conhecidas e deixando a tribo de Falcão Negro entregue à sua terrível sorte.
O fantástico cenário das terras geladas do grande Norte
O agente dos Dakotas Nick Billing
Mais uma vez, surge a figura do comerciante, neste caso também um corrupto agente indígena do governo, capaz de tudo para obter riqueza e poder. Nick Billing é o agente encarregado da tribo Dakota do Padre Fulton. É o típico figurão da cidade de Great Falls, dono de vários estabelecimentos comerciais, considerado o manda chuva e, como todos os canalhas, goza de boa reputação entre as autoridades locais. A cobiça leva-o a engendrar uma trama diabólica para varrer da face da Terra uma comunidade inteira e para atingir os seus objetivos, Nick Billing não respeita limites.
O militar canalha
Na trama, surge também a figura quase caricata do típico militar canalha e ganancioso. O sargento Slater é o contacto entre o agente indígena Billing e o comando do Forte Benton. Responsável por acompanhar as entregas das provisões aos Dakotas, Slater acaba sendo, indiretamente, o grande responsável por tudo o que viria a acontecer a seguir.
Arte de Giovanni Ticci inspirada na história Il messaggio dei Dakotas
O xerife de Great Falls
Bart Logan, um antigo sargento do exército colocado em Fort Defiance, recebe os dois pards logo que eles chegam à cidade de Great Falls. O veterano soldado, hoje um simpático representante da lei, reconhece Tex e Carson dos seus tempos de militar e logo os convida para jantar, justamente num dos locais propriedade do diabólico Nick Billing. Também o xerife será levado para o meio do fogo cruzado que irá desabar sobre a noite fria de Great Falls.
Apresentados todos os elementos desta inesquecível aventura, passamos então à análise de algumas particularidades deste grande trabalho de Bonelli e Ticci.
Os quatro pards
G.L. Bonelli e Giovanni Ticci apesentam nesta história um quarteto fantástico de heróis do Oeste, nem sempre em ação, apesar desta não faltar no decorrer das mais de duzentas páginas da aventura, mas também em momentos de reflexão, onde o caráter de cada um é realçado, ficando clara, mais uma vez, a importância de cada um no grupo. O jovem Kit Willer, bravo, idealista e generoso; o valente e ponderado Jack Tigre; o sábio, mas pessimista Kit Carson; e o líder do grupo, Tex Willer, muitas vezes irónico, mas sempre justo e destemido.
Os quatro pards avistam a aldeia Dakota do chefe Falcão Negro
Os Dakotas de Falcão Negro
Ao contrário de tantas outras tribos indígenas que povoam o universo das aventuras Bonelli, tribos ferozes, selvagens e rebeldes, que provocam o medo e o terror nos “cara-pálida”, a aldeia de Falcão Negro é composta por índios pacíficos que estão sob a orientação do bom Padre Fulton, seguindo preceitos pacíficos de convivência tranquila num vale isolado das trilhas conhecidas do Montana.
O fiel companheiro
Seja acompanhando Tex numa caçada atrás de ursos selvagens, floresta adentro, seja enfrentando perigosos fora-da-lei em tiroteios a meio da noite, ou apenas trocando impressões sobre o mais recente caso, enquanto tomam uma caneca quente de café para espantar o rigor do frio, Kit Carson é o fiel companheiro de Tex Willer. Ninguém conhece melhor o seu amigo do que ele e cada um já salvou a vida do outro inúmeras vezes. A grande experiência do velho Ranger trouxe-lhe a fama de ranzinza e pessimista de que goza, mas quando o momento é de perigo, ninguém é o mais indicado para se ter ao lado numa briga. Valente e leal, Kit Carson é o contra-ponto de bom senso da dupla mais famosa dos Rangers do Texas.
Tex à espreita
O frio e a neve
Poucas vezes os elementos da natureza influenciaram tanto o desenrolar dos acontecimentos, ou até mesmo definiram o destino de algumas personagens, como nesta aventura. A chegada do Inverno, e com ele as nevascas, tornam inacessível, durante um longo período, o vale onde se encontra a tribo de Falcão Negro. Em circunstâncias normais, o isolamento em si não causaria maiores problemas, já que, bem abastecidos de provisões, os habitantes da aldeia passariam tranquilamente os rigores do Inverno. Porém, um facto terrível vem transformar a vida na aldeia num verdadeiro martírio.
Frente a frente com o terrível vilão
Tex e Carson sentam-se à mesa para jantar com aquele que sabem ser o terrível arquiteto do diabólico plano para a destruição dos Dakotas. Mesmo sentindo todo o desprezo do mundo por Nick Billing, Tex e Carson mantêm a conversa em tom amistoso, parabenizando Billing pelo excelente trabalho, que estaria inclusivé a ser reconhecido pelo departamento índio em Washington. Billing tenta a todo custo desmotivar os pards, falando dos perigos que seria enfrentar as trilhas com o Inverno tão próximo, no entanto, o astuto Carson diz que tem esse dever, deixando furioso o agente indígena com a insistência em visitar a famosa aldeia de Padre Fulton. Maior que o descaramento de Tex, só mesmo o sangue frio de Billing ao afirmar que a sua tribo estaria perfeitamente abastecida de provisões e a salvo do rigor do inverno.
Kit Willer e Jack Tigre em acção
A noite dos assassinos
E, finalmente, chega a neve na aldeia Dakota… mas este não é o maior de todos os perigos que a noite fria traz, pois muito mais mortífera que a nevasca, são os cavaleiros que se aproximam da tribo de Falcão Negro. Quatro, tantos quantos os Cavaleiros do Apocalipse, homens de coração mais negro que própria noite, aproximam-se a mando de Nick Billing para fazer “uma limpeza” na aldeia que eles acreditavam já estar morta. Mas o destino irá mostrar que, mesmo vivendo tanto tempo de forma pacífica, os Dakotas de Falcão Negro ainda são bravos e capazes de defender as suas vidas com armas em punho.
O massacre dos Dakotas
Perseguição no gelo
A partida para Nick Billing está perto do fim e a sua última cartada será jogada nas águas congeladas do rio que o levará para a fronteira e para a salvação. Porém, uma vez mais a mão da Natureza, ou do destino, fará valer sua força.
O trágico fim de Nick Billing
Considerações finais
Esta clássica e inesquecível aventura foi publicada no Brasil pela primeira vez numa edição especial de Natal, no número 58 da série mensal, pela editora Vecchi, em Dezembro de 1975. Teve também uma republicação em Outubro de 1981, na segunda edição da série mensal, também pela Vecchi. A força desta aventura ficou mais uma vez demonstrada quando, em Julho de 2002, a editora Mythos escolheu-a para inaugurar um novo título do Ranger, o Tex Especial de Férias. Logo em seguida, foi novamente publicada na série Tex Coleção, números 218 a 220 (março/Maio 2005), e finalmente, em Março de 2015, saiu em Tex Edição Histórica, também pela Mythos. Ao lado de outra memorável aventura, El Muerto, A Noite dos Assassinos é uma das mais republicadas de toda a saga do Ranger.
Também na Itália esta mítica aventura teve a sua importância reconhecida. Foi republicada num dos mais cobiçados álbuns da série Cartonato Mondadori, em 1983, colorida e em formato gigante, uma obra onde a linda arte de Giovanni Ticci impressiona ainda mais com os seus maravilhosos cenários, as suas cenas explosivas de ação e a perfeita caracterização das personagens. O seu Tex é memorável e tornou-se, nas palavras do grande Claudio Nizzi, o modelo a ser seguido por quase todos aqueles que vieram a trabalhar com o Ranger. Un’avventura nel nord é hoje um dos álbuns mais procurados no circuito dos colecionadores e encontra-se esgotado há anos.
Un’avventura nel nord
* Texto de Jesus Nabor Ferreira publicado originalmente na Revista nº 10 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2019.
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Tex Gigante #35 – Tex, o implacável Mauro Boselli (argumento) Claudio Villa (desenho) Mythos Editora Brasil, Outubro de 2020 185 x 275 mm, 240 p., pb, capa cartão R$ 34,90
Mais do que outros
Já ouvi dizer – no alto da sua ignorância e/ou suposta superioridade – que ‘os livros do Tex são todos iguais’ mas parafraseando vocês sabem quem, apetece escrever que na verdade ’há uns mais iguais do que outros’. Que é como quem diz, pela negativa – que neste caso, na verdade é pela positiva – que alguns são bem diferentes, para melhor, como acontece com este Tex, o implacável.
Alguns dirão que o título não faz mais que afirmar o óbvio, e a história decorre em linha com ele, mas até nessa ‘igualdade’ esta narrativa soa diferente.
Em termos de história, nada de muito novo: Harry Logan é um bandido, com vários assaltos e homicídios no currículo, que por isso vai ser enforcado. Para Tucson, no Arizona, onde está preso e vigiado de perto pelos representantes da lei locais e onde a sentença será cumprida dentro de poucas horas, convergem os seus irmãos (de mães diferentes), Manuel e Simon, para tentarem libertá-lo, bem como Tex Willer e Kit Carson, para assegurar que nada impedirá que a justiça seja feita. Pontuado por sucessivos confrontos – o último dos quais, evoca um bem célebre momento da História (real) do Velho Oeste – Tex, o implacável vai avançando através de diversas situações limite para Tex e Kit, que servem para comprovar a sua perenidade (quase escrevi imortalidade) e para afirmar a amizade que os une e, acima de tudo, o sentido de justiça que os guia e faz deles tanto juízes quanto carrascos (quando tal é necessário). Implacáveis, diriam alguns… mas nem tanto, como um dos intervenientes comprova, como excepção à regra.
Na narrativa em si, soa a pouco a participação dada no início a alguns dos membros do bando, cujos pseudónimos/aspecto faziam antever biografias mais ricas e a merecer maior exposição.
Mas saltando este pormenor (menor) o argumento está, assim, repleto de adrenalina, com perseguições, armadilhas e tiroteios para todos os gostos e, a espaços, assume até um carácter épico, com Boselli a escrever tendo em mente o justamente aclamado Claudio Villa para o desenhar. Para o desenhar, pasmem, ao longo de 17 – dezassete, isso mesmo, leram bem – longos anos, nos quais, a par da sua proverbial lentidão, teve de entremear o desenho das pranchas com o das capas regulares e de edições especiais de que foi sendo sucessivamente encarregado, como lido na entrevista que abre a edição.
E se Villa conseguiu disfarçar a passagem do tempo – embora leitores mais atentos e exigentes a consigam vislumbrar, o importante será apreciar – extasiados – a qualidade do seu traço, a segurança do seu desenho, o à-vontade na figura humana, nos cenários urbanos ou naturais e a mestria na representação dos cavalos, justificando plenamente o todo a passagem que houve desta história da colecção regular para um Tex Gigante (os italianos Texone), com a mudança a ostentar o mérito de permitir apreciar melhor o desenho de Villa no (seu) formato maior.
Temos assim, no seu conjunto, um western em estado puro, dentro de cânones tradicionais do género e, em especial, de Tex, concedo, mas daqueles que em empolgam e seguram o leitor até à última página.
*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogueAs Leituras do Pedro
(Imagens disponibilizadas pela Mythos Editora; clicar nelas para as apreciar em toda a sua extensão)
Em mais uma ilustração, esta nocturna, realizada por Claudio Villa vemosTex se aproximando furtivamente e cautelosamente de uma cabana, situada num pequeno cais de uma ilha num lugar recôndito, onde um garoto chamado Jody era refém de Mitchell e seus capangas que estavam a soldo de Roy Shannon, um homem de negócios sem escrúpulos, recentemente instalado naquelas paragens e que pretendia a todo o custo obter uma fábrica de papel local.
Desenho INÉDITOno Brasil e inspirado na história “Le foreste dell’Oregon” de Claudio Nizzi e Andrea Venturi (Tex italiano #513 e #514).
(Para aproveitar a extensão completa do póster, clique no mesmo)
O jovem Andy Wilson fere com gravidade o xerife Tom Kenyon, ao tentar detê-lo por homicídio. Tex Willer, que acompanhava o seu amigo xerife, também é surpreendido e não consegue evitar a fuga do jovem procurado. No rancho Duplo B, situado nas proximidades de Springville, ninguém acredita na acusação de homicídio! Todos conhecem o jovem por Andy Morton, e todos o consideram honesto, trabalhador, amigo, incapaz de magoar alguém. Após garantir que Tom se encontra bem e recolher informações sobre a possível localização de Andy, Tex parte na pista do foragido que tenta atravessar o deserto de Las Piedras e chegar à fronteira do México pelo trilho dos esqueletos. Andy escolheu este caminho inóspito, e por vezes mortal para os que o ousam atravessar, para se livrar dos perseguidores. A tentativa, no entanto, revela-se infrutífera, pois é capturado por Tex em pleno deserto e muito longe do almejado objetivo.
O regresso a Springville é repleto de imprevistos e contratempos, em que os dois, captor e preso, são obrigados a lutar juntos para salvar as próprias vidas. O tempo que passam juntos, o comportamento e as atitudes demonstradas pelo foragido, em que, por mais do que uma vez, salva a vida de Tex quando poderia tê-lo matado, livrando-se, dessa forma, do julgamento que o espera e da sentença que, em ultimo caso, poderia ser a forca, leva o ranger a pensar que o jovem Andy poderá estar inocente da acusação de homicídio, e que todos aqueles que bem o conhecem, poderão, afinal, estar certos: Andy Wilson não é nenhum assassino!
Dramático desenho de Claudio Villa, onde vemos Tex em sérias dificuldades no rio Muddy, sendo salvo pelo jovem fugitivo Andy Wilson, que apesar de ter provocado a queda (para poder fugir) do Ranger quando atravessavam uma velha ponte, mudou de ideia, já que não era sua intenção que Tex morresse, até porque não era um assassino.
Culpado ou inocente? O final é surpreendente e não responde a esta questão. Infelizmente, a passagem por Água Fria, a ultima povoação antes de Springville, vai revelar-se trágica para o pobre fugitivo, alterando, completamente, o rumo espectável dos acontecimentos.
Publicada em Itália no início de 1976, na coleção mensal de Tex, Caccia all`uomo, “Caçada humana” no Brasil, marca uma nova fase do herói com a entrada em cena de um novo argumentista da série, Sergio Bonelli, que interrompe um ciclo de quase três décadas em que as aventuras eram, exclusivamente, da autoria de Giovanni Luigi Bonelli, seu pai.
Após uma queda a praticar esqui, aos 68 anos de idade Giovanni, o criador de Tex, vê-se obrigado a aceitar a sugestão de reduzir o volume de trabalho, escrever 110 páginas para a edição mensal do personagem. Sergio Bonelli, que assinava as suas histórias com o pseudónimo Guido Nolitta, para não ser identificado com o progenitor, foi o voluntário, e “Caçada humana” a primeira das 19 aventuras de Tex que Nolitta iria escrever até janeiro de 1999.
Ilustração de Claudio Villa, onde vemos Tex Willer em pleno voo após saltar do seu cavalo, para capturar o jovem fugitivo Andy Wilson, também conhecido por “Cara de Anjo”, que fugia através da estrada dos Esqueletos, no deserto de Las Piedras, para despistar eventuais perseguidores, depois de ter alvejado o xerife Tom Kenyon…
Na época, a principal função de Sergio na editora era tratar de assuntos relacionados com a tipografia, distribuição, administração, correção de rascunhos, e escrever cerca de 200 páginas mensais para Zagor e Mister No. Na verdade, como o próprio confidenciou, nos argumentos que escrevia de Águia da Noite contava com a preciosa ajuda do seu pai, que os relia, alterava diálogos e o aconselhava em determinadas cenas, tentando, desta forma, não descaracterizar o personagem e as suas aventuras.
Apesar de “Caçada humana”, tal como as histórias seguintes escritas por Nolitta, terem a assinatura de G. L. Bonelli, (somente nas reedições mais recentes os créditos foram atribuídos a Sergio), e das revisões efetuadas pelo criador de Tex e dos esforços de Nolitta em “esconder” o seu estilo narrativo, a muitos dos leitores, os mais ligados ao personagem, não passaram despercebidas as diferenças que, se olharmos com atenção, são demasiado evidentes.
Um herói mais bem-humorado, irónico, que trata o jovem foragido por “Cara de Anjo” em tom sarcástico, mas também mais introspetivo: Na emboscada que sofreu ao perseguir Andy, após a fuga de Happy Fork[1], e quando está a lutar pela vida nas águas turbulentas[2]do riacho, para onde foi atirado pelo jovem, na tentativa de recuperar novamente a liberdade, podemos “ouvir” os seus pensamentos, deduções e dúvidas. Mas não só, o Tex Nolittiano é também mais falível, comete diversos erros, como na dedução do autor da emboscada já referida, na forma como se deixou surpreender por Andy após a captura, ou como foi ludibriado pelo juiz em que é ferido no ombro. Um herói que vai a reboque dos acontecimentos sem conseguir o controlo dos mesmos, transparecendo a ideia que chega sempre atrasado e que se revela impotente para alterar o rumo. Como exemplo, não obstante todos os seus esforços, Tex não consegue cumprir a promessa feita a Andy, a de ter um julgamento justo, nem impedir o seu trágico fim.
Capa original de Caccia all`uomo da autoria de Aurelio Galleppini
Também em termos narrativos existem diferenças notórias! Nolitta utiliza uma narração “silenciosa”, deixando, intencional e estrategicamente, vinhetas sem diálogos, isoladamente em pranchas ou em séries, ou mesmo pranchas completas e seguidas. Por vezes, utilizando pontualmente cartuchos, descrevendo a situação ou o cenário. Esta técnica[3], consoante a situação, confere maior dinamismo às cenas ou contribui para aumentar a tensão e suspense. Outro recurso utilizado pelo autor para o aumento da tensão e suspense, bem patente nesta narrativa, consiste em esconder os factos do leitor, só os revelando no momento em que o protagonista toma conhecimento dos mesmos. A forma como revela o autor do atentado que Tex sofre na perseguição a Andy, após fuga de Happy Fork[4], e o fatídico final[5]do jovem foragido, são exemplos demonstrativos da utilização desta técnica.
O cinema, como fonte de inspiração na elaboração das tramas, era outro dos recursos regularmente utilizado por Sergio, e “El Muerto”, a segunda história escrita pelo autor, é uma boa amostra. Repleta de ingredientes característicos dos denominados “Spaghetti western”, como vingança, violência, cidade fantasma, duelo final, entre outros, “El Muerto” é uma narrativa de ódio e vingança, em que um misterioso pistoleiro, com o rosto deformado por queimaduras, lidera um bando de criminosos nas brutais agressões, primeiro a Jack Tigre e, mais tarde, a Kit Willer, ferindo este num ombro, com o único objetivo de obrigar Tex a um duelo em Pueblo Feliz.
Aventura em que apresenta, mais uma vez, um protagonista que não domina as situações, que se revela incapaz de deter os vilões no primeiro encontro, e que é forçado a seguir para Pueblo Feliz, como determinado pelo chefe do bando. Um herói, por conseguinte, mais vulnerável, mais falível, mais melancólico e pensativo nas suas deduções, do que o idealizado por G.L.Bonelli. Factos observados na forma como Tex é completamente surpreendido[6], quando se dirige para Pueblo Feliz, e como erra, ao considerar que El Muerto é o principal responsável pelo ataque.
Magnífica ilustração de Claudio Villa, que retrata o final daquela que muitos fãs e coleccionadores do Ranger, consideram uma das mais épicas histórias de Tex: Vemos Tex Willer, ferido, com o colt ainda fumegante na mão e Paco Ordoñez, mais conhecido como El Muerto, no chão, já morto, depois do famoso duelo ocorrido entre ambos no cemitério de Pueblo Feliz e que teve o velho medalhão musical como “juiz”…
Em termos narrativos, Nolitta mantêm-se fiel à sua fórmula de contar histórias utilizando vinhetas, propositadamente, sem diálogos para aumentar a tensão e suspense, mantendo, intencionalmente, o leitor na ignorância dos acontecimentos até ao último momento. Sempre com esse objetivo de criar suspense e aumentar a tensão, a identidade e as razões do ódio de El Muerto por Tex só são reveladas, pelo próprio, num longo flashback, quando se encontram cara a cara no cemitério, imediatamente antes do duelo. Assim como a agressão a Kit Willer, que é contada, também ela, em flashback e pelo interveniente.
Não obstante os receios de Sergio em substituir o pai, autor consagrado nos fumetti italianos, o elevado volume de trabalho nos bastidores da editora, que constituía a sua principal função na época, juntamente com a construção dos argumentos mensais para as aventuras de Zagor e Mister No, os seus verdadeiros “filhos”, a verdade é que Nolitta não desiludiu. Muito pelo contrário! Passados mais de 40 anos, os seus dois primeiros trabalhos para Águia da Noite continuam a ser incluídos na maioria das seleções das melhores histórias do personagem. Mas não foram só estas duas obras-primas que 1976 trouxe à luz. No mesmo ano, Sergio também escreveu duas excelentes aventuras de Zagor que, de igual modo, figuram na maioria das seleções das melhores histórias do personagem: “Kandrax, o mago” e “Dharma, a bruxa”.
Nolitta parecia destinado a escrever grandes histórias, “Missão em Great Falls” é outra dessas aventuras! Ambientada nos territórios de língua francesa do Canadá, esta narrativa tem como pano de fundo a rebelião dos habitantes de origem francófona contra o exército britânico. Tex e o capitão Jim Brandon, após permitirem a fuga dos primos Pierre e Roger Goudret, e recuperarem dos ferimentos sofridos, disfarçados de caçadores, iniciam a perseguição, entrando nos territórios controlados pelos rebeldes, na tentativa de os capturar e evitar a rebelião que poderia causar milhares de vitimas inocentes. Narrativa longa de 381 páginas, dramática, cheia de tensão, intercalada com momentos de humor tão ao gosto do criador, como o encontro de Tex com Jim no saloon de Great Falls[7], ou o encontro destes com Soublette[8], um dos guias da região. Mas é também uma aventura cheia de ação, em que os protagonistas enfrentam inúmeras dificuldades, são feridos, aprisionados, torturados e impotentes para capturarem os responsáveis pela rebelião.
Nesta ilustração de Claudio Villa, vemos Tex Willer e o capitão Jim Brandon no rio Saskatchewan (“Rio que corre velozmente“), um dosprincipais rios do Canadá, com aproximadamente 550 quilómetros de extensão e que corta as províncias canadianas de Saskatchewan e de Manitoba, navegando na canoa de Soublette, um dos guias mais famosos da região, no preciso momento em que foram atacados por índios, quando fugiam dos rebeldes comandados por Donovan, ex-sargento da Real Polícia Montada do Canadá, que passou para as fileiras da revolta organizada por Roger e Pierre Goudret, os dois primos que estavam sublevando todo o Canadá de língua francesa contra a dominação britânica.
Chamemos-lhes imprevisto, golpe do destino ou fator sorte, mas, na realidade, as verdadeiras razões do sucesso dos protagonistas nesta aventura devem-se sobretudo às divergências de opinião dos primos Goudret sobre o rumo que a rebelião deveria tomar, à instabilidade psicológica de Pierre, vulgo Big Bear, que assassina o seu primo que, devido aos seus ideais e à sua capacidade de influenciar as tribos indígenas, era o grande responsável pela união das diversas raças em torno da causa, e à ação de Donovan, o sargento que traiu a Policia Montada para se juntar aos rebeldes, que impede Big Bear de matar Tex e Jim, sacrificando a própria vida. Mais do que qualquer ato corajoso ou heroico por parte deles!
O cunho de Nolitta está bem patente nesta aventura: a comicidade já identificada, as referências históricas aos conflitos entre britânicos e franceses na região do Canadá, (artificio que costumava utilizar noutros personagens e agora também em Tex), a existência de personagens secundários carismáticos, difíceis de classificar, em que os considerados vilões são capazes de sacrificar a vida por pequenas coisas ou por um ideal, e um protagonista dependente de outros, do destino, ou da sorte, para realizar a missão. Estas são claramente marcas Nolittianas, a maioria já detetada em obras anteriores. Mas Nolitta consegue ir ainda mais longe, ao colocar Tex numa situação que Bonelli, seu pai, evitaria colocar! Talvez por pensar não ser condizente com o herói por ele criado: o abandono da patrulha de soldados atacada pelos rebeldes num desfiladeiro, após a recusa do tenente, que a liderava, em retirar[9].
Em “O sinal de Cruzado”, um grupo de jovens guerreiros Navajos abandona a aldeia de Águia da Noite e segue Cruzado, e o seu bando de Paiutes, nos roubos e assassinatos aos colonos da região. Tex e Tigre partem na perseguição ao bando, para libertarem os Navajos da influência de Cruzado e convencê-los a regressar a casa. Aventura carregada de dramatismo e que se conclui sem se perceber se os heróis saíram vitoriosos. Após a captura de Cruzado, o final expectável, Nolitta prolonga a história em cerca de 70 pranchas, ao incluir o trágico regresso a casa em que cinco dos seis Navajos sobreviventes vão perder a vida. Ao falhar na missão de trazer os jovens guerreiros de volta à aldeia, a vitória sobre Cruzado perde significado, transformando-se em algo muito semelhante a uma derrota. A destacar a inclusão nesta trama, ainda que de uma forma disfarçada e superficial, de um tema ainda hoje fraturante na sociedade contemporânea – a eutanásia – quando um guerreiro Navajo, após ter sido torturado e deixado a morrer[10], suplica a Tex que ponha termino à sua vida. A abordagem ao tema pode considerar-se leve, porque impede o herói de tomar uma decisão, visto que, enquanto este hesita, o jovem acaba por falecer. No entanto, esta é mais uma das situações em que o autor se distingue do seu pai e da sua forma de contar as histórias, uma vez que nunca colocaria o protagonista das suas aventuras numa situação tão polémica.
Nesta excecional ilustração da autoria de Claudio Villa vemos Tex Willer prestes a ser surpreendido por Cruzado, o cruel e vingativo chefe dos perversos Piutes que ambicionava matar Águia da Noite, mas que acabou sendo derrotado numa violenta luta corpo-a-corpo com Tex.
As aventuras seguintes poderão não ser tão dramáticas, mas são igualmente interessantes e carregadas de suspense e mistério em torno dos responsáveis pelos eventos, sendo, por vezes, enriquecidas com a inclusão de referências históricas, como personalidades, atos ou eventos. Em “O solitário do Oeste”, Tex e o filho Kit integram uma expedição militar e cientifica americana ao istmo do Panamá, com o objetivo de verificar a viabilidade da construção de um canal para ligar os oceanos Atlântico e Indico. Timothy O`Sullivan, o fotógrafo que os acompanha, é a personalidade histórica que Nolitta introduziu na trama, e a expedição científica o facto. Nesta narrativa a expedição é alvo de frequentes incidentes e de diversos ataques índios que a atrasam e dizimam os seus membros. Quem está por trás? Porquê? Os protagonistas e o leitor têm a mesma perceção dos factos desconhecendo a identidade dos responsáveis que só é revelada nas últimas páginas da obra. Todavia o autor não explica tudo! As motivações do traidor não são reveladas. nem necessitava de o fazer! Com maestria Nolitta cria um desfecho plausível que dispensa que o leitor conheça as razões da traição. O não explicar tudo, o deixar pontas soltas adensando o mistério, é outro recurso frequentemente utilizado pelo autor para tornar as narrativas mais realistas e interessantes. Afinal nem tudo na vida têm explicação.
Nesta histórica ilustração de Claudio Villa vemos Tex Willer, Kit Willer, Jack Tigre e Kit Carson serem imortalizados pela máquina fotográfica do pitoresco e extravagante “caçador de imagens” Timothy HenryO’Sullivan, o simpático fotógrafo encontrado por Tex no decurso da aventura que tem por fundo a floresta tropical em que será “aberto” o Canal do Panamá.
O suspense criado em torno dos responsáveis pelos eventos é utilizado, magistralmente, nesta aventura assim como em “O vale da morte”, “A grande ameaça” ou “O assassino sem rosto”, em que o autor cria enredos extremamente cativantes. O primeiro sobre a escravização dos índios Shoshones na extração de bórax em pleno deserto Mojave, o segundo sobre os assassinatos das famílias da comunidade Mórmon de Cedar City, por um grupo de misteriosos mascarados, e o terceiro sobre sabotagens ao tratado de paz entre o governo americano e os índios Cheyennes
Em “A grande ameaça” o mistério não fica limitado aos autores dos massacres. O duplo M e as palavras “Montain Meadow” deixados nos locais dos assassinatos, pelo misterioso bando, têm um significado que os líderes da comunidade Mórmom bem conhecem e que procuram a todo custo esconder. Será que existem inocentes nesta história? Quem são? Quanto ao responsável pelos atentados, o líder dos encapuzados, a sua identidade é tão camuflada que, quando revelada, surpreende até o próprio Tex.
Serena ilustração de Claudio Villa que retrata Tex Willer em pleno pôr-do-sol em Ashford Mill, mina situada em pleno Vale da Morte (uma árida depressão localizada ao norte do Deserto de Mojave, nos Estados Unidos, sendo famoso pelo seu clima extremamente quente, atingindo por vezes temperaturas superiores a 50°C), ponderando a situação em que se encontra Hewitt, um velho conhecido de aventuras do Ranger, e a sua empresa, a qual não pode competir com a “Nevada Borax Company“, que se utilizava do trabalho escravo índio, e tendo um empréstimo negado pelo banco.
Em “O assassino sem rosto” Nolitta parece ter esquecido o Tex heroico, clássico, e bonelliano, que deveria seguir, ou no mínimo, o que se pode dizer, é que este argumento não foi revisto pelo seu pai, pelo que constitui um excelente exemplo da narrativa e do herói Nolittiano. Tex é surpreendido por um tiro que impede a assinatura do tratado de paz entre o governo americano e os Cheyennes, é ferido com gravidade na cabeça por Appanoosa, o chefe dos Cheyennes, sendo incapaz de o convencer que não têm responsabilidades no sucedido, é impotente para impedir a morte de Formiga Preta, o filho de Appanoosa, têm de fugir para salvar a própria vida e é apelidado de “verdadeiro inimigo” e “cão traidor” pelo chefe dos Cheyennes. Nolitta apresenta-nos um herói abatido, derrotado, conformado com o fracasso, cuja única pista que possui da identidade do sabotador e assassino é um medalhão de mulher encontrado na mão do assassinado, Formiga Preta, mas que se revela inútil, já que se trata de uma faceta desconhecida. Somente o fortuito encontro com Timothy O´Sullivan e o facto de este ser fotógrafo vai permitir desvendar a identidade do sabotador e assassino.
“Cheyenne Club”, aventura publicada em Itália nas edições mensais de Tex números 289 a 292, entre novembro de 1984 e fevereiro de 1985, marcou o fim de ciclo iniciado com “Caçada humana”, nove anos antes. Provavelmente, nem o próprio Sergio imaginaria que o apoio prestado a seu pai, na difícil tarefa de escrever as aventuras de Tex, iria ser tão duradouro. Sergio escrevia os enredos do ranger em situações verdadeiramente difíceis, nos seus tempos livres, de noite, em viagem e nos intervalos das suas verdadeiras tarefas na editora, que lhe roubavam muito do seu tempo: as questões comerciais e editoriais, assim como a criação dos argumentos para Zagor e Mister No. Apesar disso sentia uma grande responsabilidade ao escrever as tramas de Tex, por ser um personagem criado pelo seu pai, e por ter mudado a sua vida pessoal e profissional. Por esses motivos escrevia com muita seriedade e preocupação, porque tinha conhecimento que as suas histórias, e o “seu” Tex, seriam muito diferentes senão estivesse “amarrado” a imitar o Tex de seu pai. O afastamento de Sergio foi possibilitado pela entrada de Claudio Nizzi, que demonstrou, em poucas histórias, ser capaz de substitui-lo, revelando-se um profundo conhecedor do personagem e das suas aventuras, e mais importante: ser capaz de reproduzir o estilo de Bonelli pai! Algo que Sergio, por muito que tentasse, não o conseguia. Como evidenciam as histórias que escreveu ao longo deste ciclo.
Sumptuosa ilustração da autoria de Claudio Villa onde contemplamos Tex Willer adentrando na imponente mansão do “Cheyenne Club“, um nefasto local de reuniões dos principais criadores de gado do Wyoming – comandados pelo Coronel George Watson – que desejavam estender os seus domínios a qualquer custo.
O Tex de Gianluigi, o herói clássico, que muito raramente tem duvidas, que identifica os vilões com um simples olhar, um verdadeiro justiceiro que é simultaneamente juiz e carrasco, que não olha a meios para obter o que considera justo, mesmo que tenha de violar as leis para o conseguir. Um Tex que é quase infalível nas suas deduções, que parece indestrutível, quase um super-herói, que enfrenta inúmeros fora-da-lei sem ser ferido. Para Bonelli pai as personagens não possuem densidade psicológica, tudo é preto e branco, existindo uma clara separação entre bons e maus. Nas suas narrativas[11]Tex apresenta-se normalmente acompanhado pelos seus “pards”, são lineares, em que tudo é esclarecido, sem pontas soltas, não existindo espaço para a comicidade[12]e para o humor. Excetuando as histórias em que é introduzido o género fantástico, a maioria das suas tramas poderão ser consideradas puro western.
O herói idealizado por Nolitta é um personagem moderno, menos ousado e arrogante, dependente de outros, da sorte ou destino, que duvida das suas capacidades, que erra nas suas avaliações e deduções, que é surpreendido frequentemente pelos seus inimigos, que por vezes falha nos seus compromissos e objetivos, e que por vezes é derrotado e sofre perdas – circunstancias em que se revela incapaz de proteger os seus amigos ou os que estão à sua guarda. Mas é também um protagonista mais realista e calculista nos momentos de perigo, que pondera os riscos e é capaz de fazer pactos com os inimigos. O Tex Nolittiano é ainda mais bem-humorado, sarcástico com os inimigos e adversários e brincalhão com os parceiros, mais introspetivo nas suas deduções, capaz de demonstrar sentimentos como raiva, frustração ou indignação. Em suma, o Tex de Nolitta é uma mistura do herói criado pelo seu pai com Zagor e Mister No, seus personagens, pois incorpora, claramente, características das personalidades destes dois heróis.
Nesta amargurada ilustração de Claudio Villa vemos Tex Willer, a observar o tétrico resultado de um terrível massacre cometido por verdadeiras feras humanas contra uma caravana, de pioneiros mórmones que rumava a Cedar City, como represália pelo massacre dos mórmones junto com os seus aliados indígenas contra um comboio de colonos na colina de Mountain Meadow ocorrido alguns anos antes.
Quanto às histórias idealizadas por Nolitta são muito mais de que western puro! A sua habilidade para a mistura dos diversos géneros literários na mesma narrativa e a sua atração pela comicidade, elemento indispensável nas suas tramas, assim como suspense, torna-as difíceis de classificar. São por norma mais complexas, imprevisíveis, repletas de volte-faces, com maior dimensão psicológica e dramatismo, repletas de mistério e tensão em que o autor inclui pequenos episódios quotidianos para alternar ou quebrar os ritmos narrativos. O herói apresenta-se normalmente sozinho ou acompanhado por apenas um dos seus parceiros, as personagens secundárias têm personalidade, dificilmente classificadas como bons ou maus, os desfechos, devido ao seu estilo narrativo de esconder os factos do leitor, são interessantes e por vezes surpreendentes.
Estas duas versões, a original de Gianluiggi e a alternativa de seu filho, versões muito diferentes, quase opostas, mas que ao longo de quase uma década coabitaram na mesma publicação contribuindo para a fase que muitos consideram a fase de ouro do personagem: Meados da década de sessenta até meados da década de oitenta. Até a entrada de Sergio as aventuras foram todas escritas por Giovanni como já referido, destacando-se: “Juramento de vingança”, “Entre duas bandeiras”, “A cruz trágica”, “O filho de Mefisto”, “A grande intriga”, “Terra prometida”, “Os sinos dobram por Lucero”, “O retorno de Yama”, “Apache Kid”, “A noite dos assassinos” e “Assalto ao trem” entre muitas outras. Na segunda metade desta fase fantástica, após “Caçada humana” que marcou a entrada de Sergio, de seu pai destacam-se: “O mistério da mina”, “A mesa dos esqueletos”, “Trapper!”, “O ouro do Colorado”, “A aguia e o relâmpago” e “O clã dos cubanos”. De Sergio, além das aventuras já mencionadas neste texto, sobressaem ainda, pela qualidade, a fantástica “Patrulha perdida”, trama que gira em torno de um militar que revoltado com os seus superiores decide vender a patente de um rifle revolucionário aos mexicanos, e pelo género narrativo, “Sasquatch”, em que o autor entra no género fantástico criando uma versão do “Bigfoot”.
Inusitada ilustração da autoria de Claudio Villa onde vemos retratado o preciso instante em que Appanoosa, saken dos Cheyennes, agride Tex Willer, no interior de uma tenda em Forte Smith, no Montana, o mais isolado posto militar avançado de todo o Oeste, aquando da assinatura de um tratado de paz entre uma delegação americana e o próprio Appanoosa e logo após um tiro disparado na calada da noite endereçado ao chefe indígena e que motivou a desordem e o pensamento de que houvera uma armadilha por parte dos militares.
Criada numa situação de emergência face à necessidade que o seu pai teve em reduzir o volume de trabalho, devido à avançada idade e ao acidente a praticar esqui, inspirada em factos verídicos, cinema ou simples fotografias[13], a versão Nolittiana, a alternativa, cuja existência se pressupunha curta, acabou por prolongar-se por 9 anos e incluir 16 histórias, tornando-se marcante, distinta, intemporal e memorável, ao ponto de hoje, passados mais de três décadas, continuar a ser recordada e as suas aventuras continuarem a ser incluídas nas seleções das melhores histórias por grande parte dos fãs do herói, sendo, em minha opinião, a melhor versão do personagem desde a sua criação no longínquo ano de 1948.
Nota Final:
Para escrever este texto reli todas as 19 aventuras escritas por Nolitta, e li com muito prazer. Mesmo histórias que na época não dei grande valor como, “O cowboy sem nome”, “Sasquatch”, “Os mercadores da morte” ou “Cheynne Club”. A leitura só confirmou o que pensava: as aventuras desta fase são muito melhores do que as histórias atuais!
Não é de agora! Já havia confessado anteriormente a minha preferência pelas histórias de Tex escritas por Gian Luiggi Bonelli e Guido Nolitta e alguma desilusão com as histórias atuais do personagem. Preferências denunciadas em textos como “O elo[14]” e “Trapper[15]”. O facto de a grande maioria das histórias atuais serem produzidas em blocos múltiplos de 110 páginas, associado ao grande volume de histórias que cada argumentista escreve em simultâneo, pode, em minha opinião, justificar o porquê das aventuras atuais serem tão previsíveis e por vezes desinteressantes. Os escritores estão demasiado amarrados a estes limites que lhes restringe a criatividade. Recordo que na referida “idade de ouro” as aventuras iniciavam-se e terminavam em qualquer ponto da revista, sem número definido de páginas. Curiosamente, ou talvez não, o término dessa fase é quase coincidente com a opção editorial de fechar as aventuras nos referidos blocos de páginas.
Sergio Bonelli
[1]TEX ED. HISTÓRICA Nº 92 – Caçada humana, páginas 76 a 81. [2]TEX ED. HISTÓRICA Nº 92 – Caçada humana, páginas 167 a 170. [3]TEX ED. HISTÓRICA Nº 92 – Caçada humana, páginas 174, 190, 204 e 221 – Exemplos de narração silenciosa. [4]TEX ED. HISTÓRICA Nº 92 – Caçada humana, página 80. [5]TEX ED. HISTÓRICA Nº 92 – Caçada humana, páginas 224 e 225. [6] TEX ED, HISTÓRICA Nº 96 – El Muerto, páginas 102 a 119. [7]TEX COLEÇÃO Nº 255 – O caubói sem nome, páginas 87 a 110. A chegada de Jim e Donovam a Great Falls, toda a cena no saloon, a atuação do mágico, os diálogos de provocação constituem um pequeno episódio humorístico típico das histórias Nolittianas que pouco acrescentam à trama principal. [8] TEX COLEÇÃO Nº 257 – Um País em chamas, páginas 27 à 49. Após a decisão de irem para o forte Brooks, os diálogos entre Tex e Jim e a situação de não poderem acender a fogueira até ao encontro com Soublette estão repletos de humor. [9]TEX COLEÇÃO Nº 257 – Um País em chamas, páginas 05 aà 22. Tex coloca Jim inconsciente e foge a cavalo abandonando a patrulha que é chacinada. Não por cobardia mas por considerar que o sacrifício seria inútil. [10]TEX COLEÇÃO Nº 296 – O caçador e a presa, páginas 34 e 35. [11]Na fase de ouro do personagem (meados década de sessenta a meados da década de oitenta). [12]Exclui-se os diálogos provocadores entre Tex e seus “pards”, especialmente com Carson. [13] Os traços gerais de “Il killer senza volto” – “O assassino sem rosto” no Brasil – foram inspirados numa foto tirada em maio de 1968 que retrata o encontro de membros do governo com chefes de diversas tribos índias, no forte Laramie, Wyoming para a assinatura de um tratado de paz. [14]Revista Clube Tex Portugal Nº 1 – “Confesso alguma desilusão com as histórias atuais de Tex. Não prendendo colocar em causa a qualidade dos argumentistas, que considero excelentes, mas nas histórias de Tex falta algo! Muitas das histórias até começam bem, mas depois o ritmo narrativo é lento, existem poucas cenas de ação, não existem inimigos perigosos e carismáticos, não existe suspense e, terminam normalmente de forma abrupta e previsível. …O Tex atual está muito diferente do Tex da fase de Ouro. As histórias são demasiado complexas, por vezes monótonas, existe muito pouca ação para um Western. O doseamento entre os diversos ingredientes, de uma história texiana, não está correto.” [15]Revista Clube Tex Portugal Nº 3 – “As aventuras de “a idade de ouro” tinham algo! Algo fascinante que as tornava marcantes, que mantinham os leitores interessados, presos à leitura! Fascínio que raramente consigo encontrar nas aventuras deste século, que considero demasiado complexas e por vezes monótonas ou desinteressantes.”
* Texto de Sérgio Madeira de Sousa publicado originalmente na Revista nº 10 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2019.
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