Tex português em destaque no editorial de Tex Nuova Ristampa 148

Tex Nuova Ristampa 148Pela segunda vez, Sergio Bonelli, dedicou um editorial de uma edição italiana de Tex, a Portugal, mais precisamente para falar da histórica edição portuguesa de Tex.  Tal aconteceu na edição #148 de Tex Nuova Ristampa, datada de 30 de Novembro de 2005.

Recorde-se que a única edição portuguesa aconteceu apenas e até agora na “Série Ouro – Os Clássicos de Banda Desenhada”, em 14 de Agosto de 2005, sob apoio do jornal “Correio da Manhã”. Edição colorida que trazia uma aventura épica, tão movimentada que as 208 páginas habituais desta colecção da Série Ouro não foram suficientes para a contar, Tex e seus amigos reencontram um antigo e perigosíssimo bandido chamado Mefisto, que usava uma estranha raça indígena para dominar o Vale dos Esqueletos e vingar-se de Tex por factos ocorridos num passado distante: Tex Contra Mefisto (título original– “La mesa degli scheletri” de G. L. Bonelli e Galleppini (Tex italiano #39 e #40).

Devido à tradução de Júlio Schneider, tradutor e consultor Bonelliano da Mythos Editora, podemos ver o texto escrito pelo responsável-mor de Tex na Itália, na nossa língua:

Tex português“Caros amigos,
como se pode ver no quadro reproduzido à direita, o nosso velho Mefisto está a fazer em português a mesma pergunta que nós da rua Buonarroti já o vimos fazer em francês, espanhol, turco, finlandês, sueco, grego, sérvio, croata, etc., etc. E, obviamente, também em brasileiro, visto que, nas últimas temporadas, o Brasil tornou-se um dos Países mais interessados nas histórias de Águia da Noite. Mas – este é o ponto mais importante – o livro de onde extraímos essa imagem não é escrito em brasileiro, mas em português. A diferença entre os dois idiomas realmente é mínima, até difícil de perceber para nós, conhecedores superficiais. No nosso caso, o jornal “Correio da Manhã” – na esteira de uma iniciativa anterior lançada com sucesso na Itália pelo “La Repubblica” – levou às bancas uma colecção de volumes intitulada “Os Clássicos da BD Série Ouro”. Bem, esse jornal estava tão orgulhoso de apresentar uma célebre aventura do Ranger de Bonelli & Galep que não se contentou em usar uma edição brasileira já existente, mas quis oferecer ao seu público uma versão “falada” no mais clássico idioma lusitano.
Os artífices da minuciosa adaptação são dois amigos nossos de quem já tive ocasião de falar: José Carlos Francisco (há anos aficcionado apoiador de Tex em Portugal, tanto em jornais quanto em manifestações de quadradinhos) e Júlio Schneider, advogado na cidade de Curitiba, que cuida das traduções de muitas edições bonellianas publicadas por editores brasileiros. Em suma, como deu para entender, “Tex contra Mefisto” é o primeiro volume de Tex que um português aficionado por BD pôde ler na sua língua. O trabalho de Júlio Schneider e José Carlos Francisco mereceu a citação no frontispício do volume “histórico” (que mostro aqui ao lado), mas principalmente, os agradecimentos de todos nós da rua Buonarroti.
Sergio Bonelli.
”

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Póster Tex Nuova Ristampa 18

Póster Tex Nuova Ristampa 18

Desenho de Claudio Villa, onde vemos Tex Willer em posição delicadíssima, quando Sam Sander – nome falso – o agente índio dos índios Pueblos, aliás, o feiticeiro branco Coiote Negro, na beira de um precipício subterrâneo, tenta desferir um golpe mortal com um punhal e Tex num movimento ágil esquiva-se ao golpe mas não consegue evitar a queda nas águas do lago, embora desse modo salvasse a vida, enganando o Coiote que deduziu erradamente que Tex tinha morrido.

Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #19 e inspirado na história, “Il Coyote Nero” de G. L. Bonelli e Galleppini (Tex italiano #29 e #30).
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Texto de José Carlos Francisco

Jordi Bernet: O Criador da Aventura

Jordi BernetChamo-me Jordi Bernet e sou desenhador de banda desenhada. Estas foram as palavras com que Jordi Bernet se apresentava aos leitores de Tex no Texone # 10.
A verdade é que não existe seguramente uma definição mais precisa ao que Jordi Bernet foi, por decisão pessoal e tradição familiar, desde a sua mais tenra infância.
Jordi Bernet i Cussó nasce em Barcelona em 1944, filho do célebre desenhador Miguel Bernet Toledano. Somente com 16 anos substitui o seu pai, falecido prematuramente aos 38 anos, realizando para a Bruguera Doña Urraca, a personagem que havia popularizado o seu progenitor. Os primeiros anos da carreira do jovem Jordi são passados a trabalhar para revistas estrangeiras, realizadas através de agências como Bardon Art ou Selecciones Ilustradas. A essa época pertencem séries como Dan Lacombe, para a Bélgica, ou Andrax, para a Alemanha, escritas pelo seu tio Miguel Cusso, que obtêm importantes êxitos em seus países de publicação.

Jordi Bernet com Tex e CarsonContudo, quando Bernet leva quase 20 anos na profissão da nona arte é quase um desconhecido no seu próprio país: algo que só é remediado por edições esporádicas dos seus trabalhos para o estrangeiro e a série El Cuervo, em que alternava com José Ortiz, para a revista Kung-Fu. O início dos anos 80 trouxe a inversão deste fenómeno, já que converte Bernet num dos autores com maior difusão tanto dentro como fora das fronteiras espanholas.

Em 1982 cria Sarvan em colaboração com Antonio Segura: uma série de fantasia heróica protagonizada por uma exuberante mulher que, diferentemente de outros produtos similares, tematicamente oferece muito mais que as curvas da sua protagonista e na qual Bernet derrama todo o seu talento para descrever mundos imaginários. No ano seguinte, para a revista Metropol, o mesmo duo cria Kraken, obra mestre do género “noir”, na qual os krakaneros, polícias do esgoto da cidade, devem enfrentar todo o tipo de monstros de duas ou mais patas incluindo o ser que dá o título à série. O trabalho de Jordi durante toda a série não se pode qualificar de outro modo que não seja excepcional, vista a capacidade expressiva que descarrega no papel, unido ao expressivo uso do contraste de luzes e sombras.

Tex por Jordi BernetQuase simultaneamente a Kraken, Bernet se incorpora na série Torpedo 1936, que escrita por Enrique Sánchez Abulí havia visto Alex Toth abandonar depois de desenhar somente dois episódios. Jordi pegaria na personagem e na série e os redefiniria graficamente até convertê-lo na banda desenhada espanhola de maior repercussão internacional: o próprio Sergio Bonelli quando lhe é perguntado nas suas entrevistas por uma banda desenhada moderna preferida, elege o Torpedo. Quinze álbuns foram completados sobre as andanças de Luca Torelli nos quase vinte anos de existência da série, anos durante os quais Jordi Bernet acabou convertendo-se, graças à sua qualidade narrativa e à sua capacidade expressiva, num mestre reconhecido a nível internacional.
No entanto e pese o indubitável êxito deste, Jordi não se centra somente em Torpedo 1936 e durante as décadas de 80 e 90, vai desfiando uma série de obras como “De vuelta a casa”, “Historias negras” e “Snake”, com Henrique Sánchez Abulí, o “Custer, Ligth & Bold” e “Yván Piire”, em colaboração com o argumentista argentino Carlos Trillo: trabalhos todos eles em que está patente a intransferível marca do seu desenhador.

Albo Speciale 10À vista de tudo isto, não é de estranhar que Sergio Bonelli insistisse até que conseguisse que Jordi Bernet realizasse um dos Texoni, como o mesmo Sergio confessa no prefácio do álbum. Bonelli inclusive vai mais além e reconhece que com Bernet cometeu a segunda excepção – a primeira consistiu em encarregar a Galep e Ticci – nestes álbuns especiais ao publicar dois no mesmo ano. Em Julho de 1996 havia saído o Texone de Magnus, pelo que o de Bernet deveria sair no ano seguinte, mas ao ver o trabalho de Jordi, Bonelli não pôde resistir à tentação e alterou para Novembro desse mesmo ano a aparição da história do criador de Kraken. Existe além disso uma segunda excepção no caso de Bernet, já que é o único dos autores espanhóis que trabalharam em Tex que não repetiu a experiência, ao menos por agora, já que com um editor como Sergio Bonelli nunca se sabe o que pode acontecer.

Prancha de Jordi BernetComo dissemos “O Homem de Atlanta” aparece em Novembro de 1996. O seu escritor é Claudio Nizzi que para a ocasião faz um guião especialmente pensado para Bernet. Para ele cria uma personagem feminina à qual dá um grande protagonismo na narração para permitir o brilho do desenhador; algo que não é habitual nos argumentos de Nizzi, já que nos quais não abundam personagens femininas com verdadeiro peso nas histórias. No arranque da história, Tex e Carson encontram-se a caminho ante um pedido de ajuda por parte de Johnny Butler, um ex-oficial do exército confederado que salvou a vida a Tex durante a Guerra Civil Americana. E aqui é onde entra em jogo Lola Dixieland, cantora de salão e noiva de Johnny, que será quem serve de contacto entre o seu companheiro sentimental e os protagonistas.

O Homem de Atlanta de Jordi BernetDepois de liberar Johnny de certos problemas com a justiça, Carson e Tex conhecem da boca dele a razão pela qual os chamou: solicita o seu auxílio para desmascarar um antigo coronel nortista, cujo comportamento durante a guerra não foi exemplar e que agora está oculto atrás de uma falsa identidade. A coisa complica-se ademais porque primeiro, o ex-coronel encontra-se num presídio cumprindo uma pena menor, pelo que há que procurar que possa fugir para depois levá-lo perante a justiça e, segundo, porque existe um tesouro oculto, com a pilhagem dos saques da quadrilha do coronel durante a guerra e há mais de um interessado em conhecer o seu paradeiro.  A tudo isso há que acrescentar que o papel que Lola joga em todo este puzzle não está nada claro.

Pese o seu breve episódio na saga de Tex, podemos dizer que se algo contribuiu no trabalho de Jordi Bernet, isso foi a expressão; não é nenhum segredo o nível expressivo que Jordi é capaz de desenvolver.
Tex a cavalo Jordi BernetBernet agrega nos seus desenhos um ligeiro toque caricaturesco na descrição gráfica de algumas  das personagens mais secundárias, que fomenta esse afastar expressivo. Essa ligeira caricaturização de algumas personagens insertas num contexto realista é uma ferramenta já habitual no trabalho de Bernet, mas até à data nunca vista nas revistas de Tex. Jordi realiza além disso um desenho que reduz os elementos indispensáveis a uma expressão mínima, e em que o contraste entre o preto e branco adquire um protagonismo primordial. Em definitivo, uma série de elementos que converteram este álbum em uma peça única na colecção, algo que não podia ser de outra maneira tendo em conta a poderosa personalidade criativa do seu autor.

Texto de José Carlos Francisco, baseado no livro-catálogo “Tex Habla Español“.

Póster Tex Nuova Ristampa 17

Póster Tex Nuova Ristampa 17

Desenho como sempre de Claudio Villa, onde desta vez, vemos Tex Willer ao luar, agredindo na nuca, com a sua pistola – embora fosse uma encenação – o militar Clayton que estava de sentinela a um prisioneiro índio pawnee, para libertá-lo de modo a que Tex se pudesse servir do índio, a propósito de Sterling, aliás Lobo Branco, o renegado, sem que o pawnee desconfiasse.

Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #12 e inspirado na história, “Gli sciacalli del Kansas” de G. L. Bonelli e Galleppini com a colaboração de Lino Jeva (Tex italiano #17 a #19).
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Texto de José Carlos Francisco

Tex Série Normal (Itália): Il villaggio assediato

Tex 552Tex 552 – “Il villaggio assediato” de Outubro de 2006 e Tex 553 – “Tiro al bersaglio” de Novembro de 2006.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de Mario Milano e capas de Claudio Villa. História inédita no Brasil e Portugal.

Algumas aventuras texianas ficam na história da série por variados motivos. Esta marca a estreia de Mario Milano a desenhar Tex e isso acaba por ser um acontecimento que importa realçar. Para mais, o jovem artista italiano consegue convencer brilhantemente a plateia e assina um trabalho de grande qualidade.

Falemos primeiro da história: Greystoke é um pequeno povoado perdido num vale do Colorado e onde as suas gentes se dedicam à extracção do ouro. O bando de Lee Ramsey ameaça a tranquilidade do povoado ao fazer um ultimato, uma vez que, se no prazo de três dias não lhe for entregue o ouro extraído das minas, Ramsey invade o povoado. Ao chegar ao local, Tex depara-se com os naturais receios de uma população amedrontada e resolve organizar os meios disponíveis para enfrentar o bando.

Vinheta TexEste argumento de Nizzi é simples, linear e mesmo previsível, exaltando um Tex justiceiro e decisivo, mas também perspicaz. Um Tex mais bonelliano do que aquele que Nizzi nos vinha apresentando ultimamente. Um ranger que, mesmo sem a companhia dos seus habituais pards, surge como peixe na água a organizar uma população a enfrentar as investidas de Lee Ramsey. Tex assume sempre uma atitude dominante e acaba por ser perspicaz não só na estratégia para o combate, mas sobretudo no modo como desconfia que algo não bate certo e na maneira como vai desmascarar o espião que se encontra na aldeia a soldo de Ramsey.

2ª Vinheta TexA aventura marca pontos sobretudo numa característica que Nizzi poucas vezes evidencia, na construção psicológica das personagens. Ao contrário de Boselli, Nizzi investe sempre mais na pura aventura, não privilegiando esta densidade psicológica dos actores. O facto de estarmos em presença de um conjunto de pessoas apavoradas e sitiadas num espaço concreto, acaba por realçar um pouco das características de cada uma, o seu modo de pensar e de agir. A bela e simpática Liza, a família Carter, o pujante Otis Brand, o velho caçador Moses, Hoper ou ainda os gémeos Norton, acabam por espelhar fielmente os receios e as ambições da população.

Tex 553Apesar de uma primeira parte bem delineada, desenvolvida e envolvente para com o leitor, Nizzi cai num certo facilitismo na parte final da aventura. Ramsey nunca se assume como um verdadeiro adversário à altura de Tex e o ranger acaba por dominar sempre as situações. A cena final, apesar de bem construída, acaba por demonstrar as fraquezas de Ramsey, que surge sempre numa posição de inferioridade perante Tex que, facilmente, acaba por se opor ao malfeitor.

Jean Giraud parece ser uma das influências de Milano e convenhamos que o estilo, a forma e o detalhe do excelente desenhador francês acabam por estar presentes ao longo de uma aventura onde Milano consegue convencer em praticamente todas as páginas. Aliando um traço muito elaborado (que por vezes lembra Andrea Venturi), ao detalhe de cenários e ambientes próprio em Giraud, Milano assegura um Tex onde se notam influências ticcianas, sendo no entanto mais patente uma certa modernidade presente no Tex de Villa. Um Tex que ainda não está perfeito, mas onde se nota um desenvolvimento gradual ao longo da aventura.

Milano consegue sempre transpor eficazmente todos os ambientes da aventura. Seja em plena aldeia, nas montanhas vizinhas (que belos cenários) ou mesmo no calor do tiroteio, o artista denota uma facilidade em interpretar o argumento de Nizzi, construindo páginas de rara beleza e intensidade dramática. Uma bela aquisição para o staff texiano.

Texto de Mário João Marques