Jordi Bernet: O Criador da Aventura

Jordi BernetChamo-me Jordi Bernet e sou desenhador de banda desenhada. Estas foram as palavras com que Jordi Bernet se apresentava aos leitores de Tex no Texone # 10.
A verdade é que não existe seguramente uma definição mais precisa ao que Jordi Bernet foi, por decisão pessoal e tradição familiar, desde a sua mais tenra infância.
Jordi Bernet i Cussó nasce em Barcelona em 1944, filho do célebre desenhador Miguel Bernet Toledano. Somente com 16 anos substitui o seu pai, falecido prematuramente aos 38 anos, realizando para a Bruguera Doña Urraca, a personagem que havia popularizado o seu progenitor. Os primeiros anos da carreira do jovem Jordi são passados a trabalhar para revistas estrangeiras, realizadas através de agências como Bardon Art ou Selecciones Ilustradas. A essa época pertencem séries como Dan Lacombe, para a Bélgica, ou Andrax, para a Alemanha, escritas pelo seu tio Miguel Cusso, que obtêm importantes êxitos em seus países de publicação.

Jordi Bernet com Tex e CarsonContudo, quando Bernet leva quase 20 anos na profissão da nona arte é quase um desconhecido no seu próprio país: algo que só é remediado por edições esporádicas dos seus trabalhos para o estrangeiro e a série El Cuervo, em que alternava com José Ortiz, para a revista Kung-Fu. O início dos anos 80 trouxe a inversão deste fenómeno, já que converte Bernet num dos autores com maior difusão tanto dentro como fora das fronteiras espanholas.

Em 1982 cria Sarvan em colaboração com Antonio Segura: uma série de fantasia heróica protagonizada por uma exuberante mulher que, diferentemente de outros produtos similares, tematicamente oferece muito mais que as curvas da sua protagonista e na qual Bernet derrama todo o seu talento para descrever mundos imaginários. No ano seguinte, para a revista Metropol, o mesmo duo cria Kraken, obra mestre do género “noir”, na qual os krakaneros, polícias do esgoto da cidade, devem enfrentar todo o tipo de monstros de duas ou mais patas incluindo o ser que dá o título à série. O trabalho de Jordi durante toda a série não se pode qualificar de outro modo que não seja excepcional, vista a capacidade expressiva que descarrega no papel, unido ao expressivo uso do contraste de luzes e sombras.

Tex por Jordi BernetQuase simultaneamente a Kraken, Bernet se incorpora na série Torpedo 1936, que escrita por Enrique Sánchez Abulí havia visto Alex Toth abandonar depois de desenhar somente dois episódios. Jordi pegaria na personagem e na série e os redefiniria graficamente até convertê-lo na banda desenhada espanhola de maior repercussão internacional: o próprio Sergio Bonelli quando lhe é perguntado nas suas entrevistas por uma banda desenhada moderna preferida, elege o Torpedo. Quinze álbuns foram completados sobre as andanças de Luca Torelli nos quase vinte anos de existência da série, anos durante os quais Jordi Bernet acabou convertendo-se, graças à sua qualidade narrativa e à sua capacidade expressiva, num mestre reconhecido a nível internacional.
No entanto e pese o indubitável êxito deste, Jordi não se centra somente em Torpedo 1936 e durante as décadas de 80 e 90, vai desfiando uma série de obras como “De vuelta a casa”, “Historias negras” e “Snake”, com Henrique Sánchez Abulí, o “Custer, Ligth & Bold” e “Yván Piire”, em colaboração com o argumentista argentino Carlos Trillo: trabalhos todos eles em que está patente a intransferível marca do seu desenhador.

Albo Speciale 10À vista de tudo isto, não é de estranhar que Sergio Bonelli insistisse até que conseguisse que Jordi Bernet realizasse um dos Texoni, como o mesmo Sergio confessa no prefácio do álbum. Bonelli inclusive vai mais além e reconhece que com Bernet cometeu a segunda excepção – a primeira consistiu em encarregar a Galep e Ticci – nestes álbuns especiais ao publicar dois no mesmo ano. Em Julho de 1996 havia saído o Texone de Magnus, pelo que o de Bernet deveria sair no ano seguinte, mas ao ver o trabalho de Jordi, Bonelli não pôde resistir à tentação e alterou para Novembro desse mesmo ano a aparição da história do criador de Kraken. Existe além disso uma segunda excepção no caso de Bernet, já que é o único dos autores espanhóis que trabalharam em Tex que não repetiu a experiência, ao menos por agora, já que com um editor como Sergio Bonelli nunca se sabe o que pode acontecer.

Prancha de Jordi BernetComo dissemos “O Homem de Atlanta” aparece em Novembro de 1996. O seu escritor é Claudio Nizzi que para a ocasião faz um guião especialmente pensado para Bernet. Para ele cria uma personagem feminina à qual dá um grande protagonismo na narração para permitir o brilho do desenhador; algo que não é habitual nos argumentos de Nizzi, já que nos quais não abundam personagens femininas com verdadeiro peso nas histórias. No arranque da história, Tex e Carson encontram-se a caminho ante um pedido de ajuda por parte de Johnny Butler, um ex-oficial do exército confederado que salvou a vida a Tex durante a Guerra Civil Americana. E aqui é onde entra em jogo Lola Dixieland, cantora de salão e noiva de Johnny, que será quem serve de contacto entre o seu companheiro sentimental e os protagonistas.

O Homem de Atlanta de Jordi BernetDepois de liberar Johnny de certos problemas com a justiça, Carson e Tex conhecem da boca dele a razão pela qual os chamou: solicita o seu auxílio para desmascarar um antigo coronel nortista, cujo comportamento durante a guerra não foi exemplar e que agora está oculto atrás de uma falsa identidade. A coisa complica-se ademais porque primeiro, o ex-coronel encontra-se num presídio cumprindo uma pena menor, pelo que há que procurar que possa fugir para depois levá-lo perante a justiça e, segundo, porque existe um tesouro oculto, com a pilhagem dos saques da quadrilha do coronel durante a guerra e há mais de um interessado em conhecer o seu paradeiro.  A tudo isso há que acrescentar que o papel que Lola joga em todo este puzzle não está nada claro.

Pese o seu breve episódio na saga de Tex, podemos dizer que se algo contribuiu no trabalho de Jordi Bernet, isso foi a expressão; não é nenhum segredo o nível expressivo que Jordi é capaz de desenvolver.
Tex a cavalo Jordi BernetBernet agrega nos seus desenhos um ligeiro toque caricaturesco na descrição gráfica de algumas  das personagens mais secundárias, que fomenta esse afastar expressivo. Essa ligeira caricaturização de algumas personagens insertas num contexto realista é uma ferramenta já habitual no trabalho de Bernet, mas até à data nunca vista nas revistas de Tex. Jordi realiza além disso um desenho que reduz os elementos indispensáveis a uma expressão mínima, e em que o contraste entre o preto e branco adquire um protagonismo primordial. Em definitivo, uma série de elementos que converteram este álbum em uma peça única na colecção, algo que não podia ser de outra maneira tendo em conta a poderosa personalidade criativa do seu autor.

Texto de José Carlos Francisco, baseado no livro-catálogo “Tex Habla Español“.

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