Tex Gigante 8: Sangue no Colorado

Sangue no ColoradoArgumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Ivo Milazzo.
Com o título original Sangue sul Colorado, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 13 em Julho de 1999 e no Brasil pela Mythos Editora em Novembro de 2001.

Nizzi é frequentemente acusado de não conferir uma certa densidade quer dramática, quer psicológica nos seus argumentos, assumindo-se antes como um puro herdeiro do legado de GL Bonelli, levando Tex a continuar nos trilhos das aventuras duras e cínicas. Haverá, porventura, uma certa razão nestas críticas, no entanto, aqui em Sangue no Colorado, Nizzi acaba por nos apresentar um argumento credível, apaixonante e carregado de uma certa densidade dramática.

Nizzi, vem focar alguns temas num só argumento: uma reflexão sobre a vida quando se atinge uma certa idade, na figura de Howard McLean, o que fizemos, onde errámos, afinal o que poderíamos ter feito de modo diferente; um conflito de gerações entre a mesma personagem e os filhos, sobretudo com o seu herdeiro Guy; e uma dicotomia entre diferentes comportamentos, fruto desse tradicional conflito de gerações.

Os 4 pards por MilazzoHoward, o patriarca, sempre perfilhou determinados comportamentos e valores, enquanto os seus filhos prezam outros, um o puro lucro o outro as mulheres. A diferença está no modo e nos estilo em como a família McLean é vista, antes era respeitada, agora ela é temida e odiada. Nizzi, de modo mais ou menos velado, assume assim uma crítica bem actual da nossa sociedade e que já tinha todo o seu sentido no velho Oeste. O autor vem revelar subtilmente ao leitor a diferença entre um certo limite e o querer tudo, a diferença existente entre pai e filho, entre duas gerações.

Tex e Kit WillerA característica que mais apreciamos em Nizzi é a sua capacidade em delinear perfeitamente os seus argumentos (mesmo que estes não atinjam, por vezes, a densidade necessária), em saber dividi-los de modo eficaz e coerente, sem nunca perder a sua interligação. Aqui, em Sangue no Colorado, o autor coloca em prática essa característica, com uma primeira fase onde Tex arquitecta o seu plano para salvar Kit, aproveitando o autor para desenvolver e dar a conhecer ao leitor as principais personagens e as suas motivações pessoais. Numa segunda fase, Nizzi desenvolve a principal linha do argumento, a luta dos mineiros contra as ambições de Guy McLean, terminando no desenlace final, onde as lutas e as revelações atingem o seu auge, qual tragédia grega.

O Tex de MilazzoO desenho de Milazzo é sintético, uma verdadeira economia de meios que acaba por funcionar numa panorâmica geral. No entanto, com uma análise mais cuidada, facilmente descobrimos falhas e omissões, mesmo alguns erros grosseiros. Mas  o estilo do autor é este, no fundo apresentar algo com o menor número de traços.

Milazzo joga muito com os efeitos claro-escuro, com as sombras, mesmo em cenas diurnas, demonstrando também aqui todo o seu sintetismo.
O seu Tex também nos surge algo envelhecido, como em De La Fuente, por exemplo. O estilo de Milazzo também não é alheio na composição facial do ranger, através de algumas expressões de grande plano, onde o seu olhar adquire uma certa composição típica das aventuras de Ken Parker. Confesso não ser grande admirador do estilo de Milazzo, mas, no fundo, acaba por assinar aqui um trabalho respeitável na composição do ranger.

Texto de Mário João Marques

Póster Tex Nuova Ristampa 37

Póster Tex Nuova Ristampa 37

Belo desenho de Claudio Villa, onde vemos Tex Willer num rigoroso dia de Inverno, observando o já falecido Lony Logan, membro da famosa quadrilha liderada por Butch Cassidy (cujo verdadeiro nome era George Leroy Parker), a “Horda Selvagem”, depois de o ter abatido numa troca de tiros na fazenda da sua tia Lee.

Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #35 e inspirado na história, “L’orda selvaggia” de G. L. Bonelli e Galleppini (Tex italiano #60 e #61).
(Para aproveitar a extensão completa do poster clique no mesmo)

Texto de José Carlos Francisco

Tex Série Normal: A Longa Caminhada

A Longa CaminhadaArgumento de Mauro Boselli, desenhos de Guglielmo Letteri e capas de Claudio Villa. Com o título original La lunga pista, a história foi publicada em Itália nos nº 473 e 474 e no Brasil pela Mythos Editora nos nº 388 a 390.

Tex encontra-se no encalço de um misterioso cowboy que seduziu Toyah, uma jovem navajo, e matou o irmão desta,  Gadhay. Em pleno deserto, Tex é também alvo de um ataque deste cowboy, que o deixa sem cavalo e sem mantimentos debaixo do sol escaldante.

Mesmo assim, Tex consegue caminhar e, ao fim de dois dias, chega até a um pequeno rancho onde conhece Rose Clampett, uma viúva que vive sozinha e cujo marido foi assassinado em circunstâncias nunca completamente esclarecidas. O rancho fica perto da pequena cidade de Faust, onde os homens do rico fazendeiro Sam Brackett mandam a seu belo prazer, chefiados por Indigo Jones, personagem fria e prepotente. Tex, sabendo que o misterioso cowboy que persegue encontra-se escondido num dos ranchos das redondezas, acaba por se instalar na casa de Rose e aceita ajudar Nat Merrick, um jovem advogado que a cidade contratou para xerife e para fazer frente aos homens de Sam Brackett.

Início de A Longa CaminhadaO argumento de Boselli é rico em factos, denso nas suas personagens e mantém a atenção do leitor praticamente até à última página. Vamos por partes. Quando a aventura começa, já a sua sustentação, se quisermos alguma da sua base, vem detrás, porque se a primeira imagem que nos é oferecida mostra um Tex em pleno deserto, vamos saber mais tarde que afinal o ranger está no encalço de um misterioso cowboy que matou um navajo e, com isso, provocou a morte da irmã deste.

Apesar de Boselli ter preferido iniciar a aventura numa fase posterior, integrando estes acontecimentos mais tarde na narrativa, o argumento é mesmo assim rico em factos. Não porque estejamos em presença de mais uma aventura onde um rico fazendeiro dá total liberdade ao seu capataz para espalhar a sua autoridade de modo prepotente, mas porque em redor disso, encontra-se um jovem advogado contratado para xerife e que, em pleno oeste, pretende fazer vincar a lei dos tribunais em detrimento da lei do colt e do chumbo.

Arte de LetteriPor aqui começa Boselli a construir uma galeria de personagens interessante, contrapondo o xerife Nat ao arrogante Indigo, assim como Tex a Sam Brackett. O ranger não tem a habitual ajuda dos outros pards, encontrando-se confinado apenas ao seu saber, à sua intuição, até porque na própria cidade de Faust ninguém ousa erguer a mão contra Brackett e Indigo, com a honrosa excepção dos homens de Stanley Dance, dono de um rancho vizinho que também se opõe a Brackett. É neste relacionamento entre personagens e na própria investigação de Tex que reside o interesse da aventura. No fundo, Boselli é um clássico e a sua arte está no modo e na forma como, congregando os elementos do western, os sabe adaptar convincentemente.

Tex no cemitérioLetteri desenhou décadas para Tex e só a sua recente morte veio terminar uma colaboração que se confunde com a própria essência da série. Por aqu, estamos falados e, indubitavelmente, Letteri deixou a sua marca, deixou o seu legítimo testemunho, a sua vida ao serviço do ranger. Apesar disso, apesar também da extensa legião de admiradores que soube conquistar e congregar em volta do seu trabalho, honroso e meritório, para mim guardo gratas recordações mais pela galeria de personagens que compôs (com El Morisco no topo) ou por certos ambientes recriados (os mexicanos ou os de magia e horror, por exemplo), do que propriamente pela qualidade do seu traço ou pelo desenvolvimento empreendido às aventuras.

O Xerife DoutorExpliquemo-nos: apesar do seu traço limpo e polido, Letteri nunca foi um desenhador de estilo dinâmico ou alguém cujas páginas respirassem a poeira do oeste. Letteri foi sempre um competente desenhador, que soube criar o seu próprio modelo para Tex (por mim apreciado), mas cujas páginas nunca souberam transpor verdadeiramente a aura do western. Letteri permaneceu sempre como um desenhador datado que, a meu ver, nunca evoluiu, desenhando sempre da mesma forma, transpondo sempre os mesmos cenários, os mesmos ângulos, as mesmas sequências. Com o passar dos anos, com uma certa ausência de rigor no seu fino traço (que afinal era uma das suas qualidades), o resultado acaba por revelar-se frouxo e inconsequente, acabando por denotar um trabalho final de fraca qualidade. Corro o risco de parecer injusto e ir ao arrepio de muitos texianos, mas esta é apenas a minha opinião.

Uma última palavra para a excelência das capas de Villa, nomeadamente a de Tex caminhando em pleno deserto, que já se tornou num ícone da série.

Texto de Mário João Marques