Tex Série Normal: A Sangue Frio

A Sangue FrioArgumento de Mauro Boselli, desenhos de G. Letteri e capas de Claudio Villa.
Com o título original A sangue freddo, a história foi publicada em Itália nos nº 483 e 484 e no Brasil pela Mythos Editora nos nº 401 e 402.

Após longos e leais serviços nos quadros do exército americano, chegou o tempo para o Major Wingate se reformar. Depois de comprar um pedaço de terra na Califórnia, Wingate pretende construir ali um pequeno rancho na companhia de Nantay, um índio ex-guia do exército que também deixou as suas fileiras para acompanhar o major. Um dia, quando efectuava umas compras para o rancho, Nantay é assassinado a sangue frio por um grupo de homens e o crime é abafado pelo senhor local e pelo xerife, um bêbedo inveterado. Wingate consegue enviar um telegrama a Tex e Carson que vão enfrentar o poder instalado em na cidade de Federation.

Tex em acçãoQuando nas últimas páginas o major Wingate afirma querer regressar ao activo como guia numa guarnição no Arizona, está a ir ao encontro dos seus anseios, ele que tentou iludir o destino quando se reformou. Num certo sentido, Boselli está, com esta aventura, a seguir o mesmo caminho e a tentar iludir um certo destino. Porque na verdade, Boselli, mais habituado e habilitado a escrever aventuras densas e de rigor psicológico, aventura-se por domínios que não são propriamente seus. “A Sangue Frio” é uma aventura toda ela clássica na sua estrutura e linear no seu desenvolvimento, identificável mais com Gl Bonelli ou com Nizzi.

Tex por LetteriMuitas das características que fadaram a série ao sucesso estão aqui bem presentes, e Boselli consegue construir uma aventura plena nesse sentido, uma aventura que realça os grandes valores da série, como a honra, a justiça, a  lealdade ou a amizade. Quando Tex e Carson chegam a Federation não vão apenas com o objectivo de ajudar o seu amigo Wingate, vão sobretudo por uma questão de honra e justiça. Quando Stevens pensa que o crime cometido matou apenas um índio, está a dar crédito à acção texiana, uma acção que se move sempre pela defesa da honra e da justiça, não fazendo qualquer distinção, nomeadamente de raça.

Os culpadosCom Tex no centro da intriga, o que também é de sublinhar em Boselli e contribui para mais essa alteração no autor, a chegada dos rangers a uma cidade que não gosta muito de forasteiros, porque parece reger-se pelas regras dos mais fortes, lutando contra o poder instalado e recuperando um xerife que se entregava diariamente à bebida, vai buscar muito do imaginário do velho oeste, representado por diversas vezes noutras aventuras e no cinema.

Positivo ou negativo, a bem ver, trata-se apenas de uma incursão boselliana por domínios eventualmente que não são especificamente seus. Se o Major Wingate quis iludir o seu destino deixando o exército para se instalar num mero rancho, Boselli faz uma incursão por domínios onde outros já deram provas. Se Wingate foi capaz de regressar ao modo de vida que sempre teve, a julgar por esta aventura, Boselli estará sempre mais à vontade a escrever argumentos ricos e plenos na sua densidade dramática e psicológica, sem que esta, repetimos, seja uma má aventura.

Kit CarsonO desenho de Letteri também não contribui para elevar a aventura a outros patamares. Letteri já vinha demonstrando alguma inércia no traço, determinadas falhas de proporção e só os grandes planos conseguiam estar ao nível do desenhador que habituou os leitores texianos a muitas e muitas páginas de excelentes aventuras. Os anos passam para todos e Letteri evidenciava, aqui numa das suas últimas aventuras, alguma falta de qualidade e a perda de algumas das suas capacidades.

Texto de Mário João Marques

Tex no XV Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu

Texto da revista-catálogo do XV Salão Internacional de Viseu (22 a 30 de Setembro de 2007)

Coleccionar a Banda Desenhada

Catálogo do XV Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu“Coleccionar implica sempre um de dois estados de espírito: gosto pelas peças em si ou investimento. O que não quer dizer que os dois não se possam conciliar“.
Estas palavras de Pedro Cleto ajudam a compreender o significado desta exposição sobre coleccionismo e banda desenhada, que surge no seguimento da exposição do XIV salão internacional de banda desenhada de Viseu, onde a fantástica colecção do amigo José Carlos Francisco (Anadia) sobre o herói do western TEX WILLER ajudou a projectar a colecção para voos inesperados.

O mercado é abundante de “propostas coleccionáveis”, desde as próprias séries numeradas de revistas, passando por todo o género de artigos mais ou menos interessantes, que afligem por vezes os bolsos dos interessados em enriquecer o mundo mágico das suas colecções.

Coleccionar a Banda DesenhadaNa sequência das comemorações do centenário do Hergé, lembrou-se o Gicav de enriquecer o salão de 2007 com uma exposição de uma parte da colecção privada de artigos relacionados com o TINTIM, propriedade do colaborador e amigo António Mata, arquitecto e amante da banda desenhada em Viseu.

Coleccionar é aprender, é enriquecer o nosso campo cultural e crítico; coleccionar a banda desenahda é enriquecer o mundo deste género artístico, completar a sua dimensão narrativa com outras expressões e formas de comunicação. Esperamos que aprenda algo sobre o universo Tintim com esta mostra, a visitar na Biblioteca Municipal, junto à BDteca Luiz Beira.

Copyright: © 2007 XV Salão Internacional de Viseu

Decorreu neste sábado último, dia 22 de Setembro, a inauguração do XV Salão Internacional de Viseu e como não podia deixar de ser, o blogue português do Tex, esteve presente, neste que foi o primeiro Salão em Portugal, a realizar uma mostra de Tex, mostra essa ocorrida em 2005, onde Tex “esteve presente” através da colecção pessoal de José Carlos Francisco e de uma exposição dedicada à serie Tex Gigante, onde foi possível, ver, pranchas de todos os consagrados desenhadores, que trabalharam nessa colecção de Tex.

De seguida, mostramo-vos algumas fotos da cerimónia da inauguração, relembrando que o Salão decorre até ao dia 22, pelo que recomendamos uma visita a este que é um dos principais eventos quadrinhísticos do nosso país!

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Quem visitar o Salão, poderá ver uma fantástica (como pode ser visto nas fotos abaixo) colecção de Tintim, propriedade do coleccionador António Mata:

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No salão internacional de BD de Viseu, que tem por tema “O humor na Banda Desenhada”, mestre Artur Correia (na foto abaixo, do lado esquerdo) é o veterano homenageado pelo que muito justamente recebeu o respectivo troféu Anim’Arte. É também Artur Correia, o autor do cartaz desta edição, onde poderão ser vistos muitos dos seus trabalhos. O homenageado do Salão deste ano, da geração mais nova é o Sergei (na foto abaixo, do lado direito), que também recebeu o respectivo troféu. De seu nome Paulo Sérgio Sequeira Teixeira, Sergei nasceu na capital de Moçambique a 20 de Fevereiro de 1970. Em Portugal dedicou-se ao cartoon, à caricatura e à banda desenhada. A sua arte gráfica também pode ser vista no Salão de Viseu, através de vários trabalhos expostos.

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Carlos Rico (na foto do lado esquerdo, abaixo, ao centro, entre Luís Filipe e José Carlos Francisco e Artur Correia e Luiz Beira) e Álvaro, são outros dois autores que podem ser apreciados através de alguns dos seus trabalhos, em Viseu, já que a organização do evento, decidiu reunir numa exposição três autores/criadores portugueses com uma ligação muito forte ao humor da piada à portuguesa, com enfoque nas particularidades regionais, como é o caso da piada alentejana (ou sobre alentejanos).
Em Viseu também está patente ao público a exposição “Portfólio”, uma proposta específica do autor José Abrantes para o Salão de Viseu. Este trabalho realça a produção de José Abrantes dispersa por jornais e revistas ao longo de três décadas.
Na foto abaixo, do lado direito, podem ser vistos da esquerda para a direita: Carlos Almeida, Sergei, Luiz Beira, Jorge Machado-Dias (editor do BDJornal), Artur Correia e Luís Filipe.

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Após a inauguração do Salão, os presentes na Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, tiveram o privilégio de verem a apresentação do jornalista especializado em banda desenhada, Pedro Cleto (na foto abaixo), subordinada à temática “Coleccionismo e BD”.

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De seguida, apresentamos mais algumas fotografias tiradas no dia da inauguração do Salão.
Na foto da esquerda, em pé, José Carlos Francisco, Luiz Beira e Luís Filipe; sentado, Sergei.
Na foto da direita, o texiano Luiz Beira.

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Segue-se do lado esquerdo, o BDJornal bem representado, através dos seus mais ilustres responsáveis; Jorge Machado-Dias e Clara Botelho, ambos mais à direita na foto.
Na foto da direita, Tintim entre José Carlos Francisco e Luiz Beira.

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Finalizamos a reportagem com uma foto de José Carlos Francisco com Pedro Cleto e na última foto, alguns desenhos mais, para a colecção privada de José Carlos Francisco, com destaque para um desenho da autoria de Carlos Rico, que juntou num só desenho, as duas grandes paixões de José Carlos.

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Texto e fotografias, de José Carlos Francisco
(Para aproveitar a extensão completa das fotos, clique nas mesmas)

Entrevista exclusiva realizada em Buenos Aires com ERNESTO GARCIA SEIJAS

Jesus Nabor e Ernesto SeijasEntrevista conduzida por Jesus Nabor Ferreira, com a colaboração de José Carlos Francisco.

Buenos Aires, sábado, 1 de Setembro de 2007.

É o meu segundo dia na capital argentina e outro sonho está prestes a concretizar-se. Tenho encontro marcado, com o Mestre Ernesto Garcia SEIJAS. O excepcional desenhador, aceitou receber-me na sua casa, para mais uma entrevista, para o Blogue português do Tex, nesta “aventura” argentina.
E assim, na ensolarada tarde de sábado, apanhei um autocarro para a casa de Seijas, que reside numa bela habitação, em Ramos Mejia, elegante e pacato bairro a 20 quilómetros do centro. Na parte superior do sobrado, ele tem o seu estúdio; ali no meio de dezenas de livros e revistas, num ambiente fartamente iluminado, onde tive o privilégio de ver o grande “dibujante” trabalhar.
Fui recebido pelo simpático desenhador e depois das apresentações do costume e de ser convidado para beber uma Coca-Cola bem gelada (apesar de no hemisfério sul, ainda estarmos no Inverno, nessa tarde o calor era muito), acomodamo-nos na sua sala de visitas e começo a entrevista:

WEst KaracalSenhor Seijas, poderia contar-nos como foi que ingressou neste meio (banda desenhada) e falar um pouco de si?
Seijas: Nasci em 1941, aqui mesmo em Ramon Mejia e desde sempre, que me encantava desenhar. Por isso, desde as mais remotas lembranças, vejo-me com um lápis a desenhar em qualquer lugar, até mesmo quando saía à rua para jogar futebol com os meus amigos; logo deixava a bola, para desenhar na calçada, com pedaços de giz, pedrinhas, fosse o que fosse!

E o senhor, estudou desenho em alguma escola ou instituto?
Seijas: O meu irmão mais velho, era desenhador publicitário, então influenciado por ele, entrei para a Escola Secundária de Belas Artes, porém, eu ficava aborrecido com as disciplinas que não fossem o desenho, e foi por isso, que passado pouco tempo, abandonei, deixando muito aborrecidos, os meus pais.
Algum tempo depois, inscrevi-me na Academinas Pitman, um lugar muito famoso na época, especialmente pelos seus cursos de Secretariado, mas eles tinham também, um curso de desenho, e então inscrevi-me e concluí o curso em 2 anos. Depois comprei alguns livros de Andrew Loomis, onde o autor, ensinava como desenhar o corpo humano; por exemplo, bastante noção de anatomia e perspectiva, e logo de imediato, comecei a desenhar profissionalmente.

Arte de Ernesto Garcia SeijasE onde começou, exactamente?
Seijas: Bem, o meu primeiro trabalho pago como desenhador, foi na Editorial Fascinacion, onde o meu trabalho, era completar os quadros que faltassem nas novelas ilustradas que vinham de Itália.
Em pouco tempo, comecei a desenhar para a revista Totem, da mesma editora, uma história que se intitulava Bill y Boss, cujo argumento era de Oesterheld. Como o desenhador anterior desta aventura, chamava-se Garcia (que nessa ocasião, para minha sorte, tinha ido emigrar para França), eu agreguei ao meu último nome, o sobrenome da minha mãe: Seijas. A partir desse momento, sempre assinei os meus trabalhos, dessa forma.

E isto aconteceu em…
Seijas: Hum… deve ter sido no ano de 1957, porque em 1958 comecei a trabalhar na revista “Bucaneros, el gigante de la historieta”, onde desenhava os piratas, que davam o título à revista.

Então o senhor começou bem jovem…
Seijas: Sim! Tinha 16 ou 17 anos. Era tão jovem, que, os que me viam levando os originais de um lado a outro, pensavam que eu era o office-boy  do desenhador e não o próprio. [risos]

Arte de Ernesto Garcia SeijasE seguidamente, começou a desenhar para várias revistas, não foi?
Seijas: Exacto! Desenhei praticamente em todas as revistas dessa época e mais, quase que posso dizer que a partir daí, sempre tive algum material meu, sendo publicado no meu país. Tal aconteceu nas editoras Frontera (n.d.r – de Oesterheld), que publicava as revistas Hora Zero e Frontera e para a Abril que publicava a revista Misterix; todas elas publicavam todo o tipo de historietas (n.d.r – como é chamada a banda desenhada, na Argentina). Também ilustrei capas de livros de uma colecção juvenil, chamada Robin Hood, para a Acme Agency.
Trabalhei ainda para a editora Columba, na revista Intervalo (n.d.r – era uma revista direccionada ao público feminino, onde se publicavam bandas desenhadas e adaptações de novelas românticas). Para esta editora, também fiz dezenas de capas.

HelenaFoi então aí, que o senhor desenhou Helena, com argumento de Robin Hood?
Seijas: Claro, mas isso foi mais adiante. Helena teve um grande êxito no exterior, principalmente na Itália, onde foi publicada pela Eura. (n.d.r. – na Itália, Helena fez tanto sucesso, que originou uma série de televisão, com mais de 22 episódios)
Também publiquei com Oswal, um grande desenhador e grande amigo, uma série chamada La Estirpe de Josh, onde Oswal fazia o lápis e eu finalizava, o que era um trabalho pouco comum na Argentina, onde cada desenhador fazia tudo: lápis e tintas.
Os Aventureiros, foi outra série que desenhei para a Columba, juntamente com Kevin, com argumento de Robin Hood.

Mulher-Maravilha e TarzanUma vez, encontrei um encadernado de Wonder Woman, numa das muitas bancas existentes no Parque Rivadavia, creio que, mexicano ou chileno, com uma presumível capa sua. Seria possível?
Seijas: Claro, a Acme Agency, que distribuía os comics da Editorial Navarro, uma editora mexicana que publicava em espanhol, praticamente toda a linha DC, Golden Key e outras, costumava fazer encadernações com as revistas que eram devolvidas. Juntavam 4 ou 5 revistas e faziam uma nova capa. Bem, nessa época, fiz diversas capas, não apenas de Wonder Woman; Tarzan foi outra personagem para quem também realizei capas.

SkorpioO senhor também publicou na editora Record, de Scutti?
Seijas: Sim! Quando Scutti começou a publicar a revista Skorpio, eu passei a trabalhar para ele, fiz muitas séries, sendo que uma delas, Skorpio (n.d.r – pretendia ser uma continuação, ou a versão argentina, da personagem italiana, Killing, do qual Scutti havia publicado 60 ou 70 números, sobre licença e mais outros 30 ou 40, com aventuras originais feitas na argentina), era suposto ser Killing, depois de ter posto fim, à sua carreira criminosa.

E também houveram outras séries?
Seijas: Ufa! Muitas. Mandy Riley, Black Soldier, El Hombre de Richmond, El Pequeño Rey e muitas outras.

E todas estas séries foram publicadas na Itália?
Seijas: Scutti, o editor de Skorpio, publicava a revista na Argentina, com um olho na Itália, onde ele tinha contactos e onde ele se deu conta que os argumentistas e desenhadores argentinos eram apreciados e que podiam ser bem recebidos. E assim foi. Quase tudo que produzimos para ele, logo foi vendido para Itália. Logicamente, nunca recebemos um centavo a mais por isso. O lucro, como sempre ficou com ele.

E as que desenhou para a Columba?
Seijas: Também! Quando eles viram que as histórias publicadas na Argentina estavam a ter êxito na Itália, de imediato, apressaram-se também a vender, as que possuíam. Especialmente as de Robin Hood, que tiveram e continuam a ter muito sucesso na Europa.

Skorpio - Matar um rouxinolE por falar em mercado estrangeiro, sabia que no Brasil, foram editadas várias histórias suas, no final dos anos 70 e início dos anos 80?
Seijas: Não me diga! Somente agora, que você está a mostrar-me estas edições (n.d.r –  quando tive a confirmação que iria ser recebido por Ernesto Seijas, não pude deixar de levar alguns exemplares de Histórias do Faroeste e Skorpio – revistas em formatinho publicadas pela editora Vecchi) é que me estou a inteirar, que conhecem o meu trabalho no Brasil. Repare, naquela época, nós tínhamos um contrato com o editor para a publicação do nosso trabalho na Argentina e depois, outro contrato para a publicação na Itália. Eles (n.d.r – os editores), obviamente, não tinham nenhum interesse, que nós ficássemos a saber onde o nosso trabalho era publicado, pois, de contrario, teriam de nos pagar pelo trabalho. (n.d.r – na editora Vecchi, em Histórias do Faroeste, aparece O Homem de Richmond e na revista Skorpio, é publicado a personagem que dá nome ao título. Só por estes dois trabalhos, já se vê a versatilidade de Seijas, e não é por acaso, que ele é um dos artistas mais admirados na Europa, hoje em dia.)

Actualmente, está a ser publicado na Argentina, material seu. O senhor é um dos poucos artistas da época de ouro da historieta, a permanecer em evidência no mercado argentino. Porque acha que isso acontece?
El Negro BlancoSeijas: Bem, afortunadamente, a Ivrea, uma editora que se dedicava basicamente a publicar manga, começou a publicar reedições de algumas historietas. Entre elas, uma que fiz com Carlos Trillo, para o jornal Clarin, nos anos 80. Chama-se El Negro Blanco e também foi publicada na Europa, inclusive algumas das suas personagens secundárias, ganharam séries próprias. A Ivrea, está a publicá-la em forma de livros. Estão programados 10 números, trazendo tudo o que foi publicado no Clarin. Também há pouco tempo, o jornal La Nacion, publicou Especies en Peligro, uma banda desenhada, que também foi editada na Europa.

Sabemos que o senhor trabalhou para a editora Eura, e que actualmente trabalha para a Sergio Bonelli Editore. Além dessas, para que outras editoras estrangeiras, trabalhou?
Seijas: Para muitas, porém, sempre através de intermediários. Para a Warrem, desenhei contos românticos. Em seguida, consegui trabalho na Fleatwood, da Inglaterra, produzindo somente dois trabalhos. Hoje, já não me recordo bem, o porquê da não continuidade, suponho que não gostaram muito do que fiz. Logo depois, trabalhei para a Bruguera, da Espanha, cujo trabalho, seria também publicado na Inglaterra. Por essa altura, eu já trabalhava para a Eura, e os prazos eram muito apertados e por isso, infelizmente, tive de deixar de produzir para a Bruguera, o que foi pena, pois eram trabalhos muito interessantes. Nessa época, o meu agente chamava-se Spadari e era um sujeito muito conhecido, que empregava mais de 60 desenhadores.

El Negro BlancoPara a Eura, começou com Scutti e depois continuou sozinho?
Seijas: Não! Por volta de 1960, chegou à Argentina, um senhor chamado Alvaro Zerboni, pessoa que eu já conhecia, pois ele tinha sido dono da Editorail Fascinacion, onde eu tinha começado. Eu mostrei-lhe os meus trabalhos e ele disse-me, que podia vendê-los na Itália. Comecei de imediato e fiz muitos trabalhos para ele. Nessa mesma época, Scutti e Columba, também entraram no negócio. Nesse momento, cada um dos editores levava a parte do leão. Vendiam as nossas páginas pelo triplo do preço, a que nos pagavam.
Um dia recebo uma carta de responsáveis da Eura, oferecendo-se para me pagarem 94 dólares por cada página produzida, enquanto eu na Columba, ganhava somente 20 dólares por página. Foi aí que me apercebi o quanto eu estava a ser explorado. Então cortei os vínculos com os intermediários e comecei a trabalhar directamente com a Eura. Foi somente a partir desse momento, que comecei a trabalhar mais tranquilo, com personagens que me deixavam satisfeito. Nessa ocasião, telefonou-me Carlos Trillo, para fazermos El Negro Blanco para o Clarin, que logo foi vendido para a Europa, porém, desta vez, sem intermediários.

Esse foi um excelente trabalho seu e de Trillo. Tenho amigos aqui na Argentina que compravam o jornal, somente por causa da tira.
Seijas: Bem, obrigado, é reconfortante saber disso.

Porque motivo, suspenderam a produção das tiras?
Seijas: Por uma única razão. A Eura baixou o soldo a ambos, e Trillo, que era o argumentista, não aceitou aquela acção, com todo o seu direito, o que me pareceu correcto, porém eu nesse momento, tinha vários compromissos assumidos; tinha comprado a minha casa há pouco tempo e tive de aceitar a imposição da Eura. Assim nós já não podíamos continuar a trabalhar juntos. Não nos chateamos, porém não pudemos mais fazer a personagem. Ele inclusive ofereceu-me um trabalho para o mercado francês, porém não me entusiasmei, pois tive medo da banda desenhada francesa, porque é um mercado que exige ir muito fundo, exige muitos detalhes, e eu gosto do desenho mais simples porém expressivo. Esse é meu forte.

Ernesto Garcia Seijas e o autógrafoO senhor tem ajudantes?
Seijas: Tenho a minha filha, que ajuda um pouco, principalmente nas pesquisas para documentação, ou fazendo as letras (no caso da nova edição de Negro Blanco) já que ela tem uma excelente caligrafia.
Eu tenho a fama de ser difícil, que dou muitas indicações e que exijo muito. Porém a verdade, é que sou muito ciumento dos meus desenhos. Eu faço tudo, pois não gosto que alguém coloque as mãos neles. [risos]

Voltando um pouco àquela capa da Mulher Maravilha, eu acredito que o seu estilo combinaria muito bem para os super-heróis da Marvel ou da DC. Como é que nunca publicou nada para estas duas editoras americanas? Nunca tentou?
Seijas: A verdade, é que não. Na realidade e isto pode não ser lisonjeiro para mim, é que tive medo. Em duas ou três oportunidades na minha vida, eu tive medo do desafio, do novo. Isso é horrível, bem sei, mas foi assim. Tive receio de não conseguir cumprir com os prazos muito estreitos, que tanto a Marvel como a DC, pediam. Veja, eu não trabalho todos os dias da mesma maneira. Tenho de estar inspirado. Felizmente, tenho sorte de poder trabalhar assim. Para mim, desenhar, é antes de tudo, um prazer. E nunca quis modificar esta minha postura. Talvez tenha deixado de fazer coisas maiores, quem sabe…

Ernesto Garcia SeijasNisto, interrompemos a entrevista, porque Seijas, convida-me para passar ao seu estúdio, no andar superior. Um espaço grande, iluminado, com muito material da nona Arte e onde se destaca a sua mesa de desenho. Falamos um pouco de preferências pessoais; ele conta-me que gosta muito de Frank Robbins, Neal Adams, Milton Cannif, etc…
Não posso deixar de reparar na vasta documentação sobre o western americano, são numerosos livros, revistas, fotos. Até mesmo uma réplica de um colt. Isto leva-me á próxima pergunta, pelo que retomamos a entrevista:

Como começou a trabalhar na Sergio Bonelli Editore?
Seijas: Eu trabalhava para o Clarin, quando Sergio Bonelli veio a Buenos Aires (isto no princípio dos anos 90) juntamente com Zerboni, pessoa para quem eu também já tinha trabalhado. Zerboni e Bonelli são bastante amigos. Encontramo-nos num passeio da Avenida 9 de Julho e Sergio Bonelli ofereceu-me trabalho.
Eu recusei, alegando que no momento, estava a fazer a série El Negro Blanco, para o Clarin, série que também era vendida para a Eura. Sergio Bonelli respondeu-me muito calmamente: “Ah, que bom! É o ideal para qualquer desenhador!”, o que concordei, respondendo contente e orgulhoso. Eu não tinha nesse momento, a verdadeira noção de com quem eu estava a falar, ou seja, que Sergio Bonelli, era dono de uma das maiores editoras da Europa.

Essa é uma das características de Sergio Bonelli; o seu jeito simples, a sua humildade, a sua maneira de colocar os demais à vontade, não fazendo alarde de ser um dos maiores editores do mundo.
Seijas: Sim, e repare, os seus colaboradores, têm sorte de que ele seja um homem, a quem lhe encanta a nossa Arte. É muito difícil de encontrar um editor, que ame a banda desenhada, como Bonelli gosta. Geralmente , eles gostam é do dinheiro e a banda desenhada é apenas uma forma de obterem, esse mesmo dinheiro.

Ernesto Garcia Seijas e os seus originaisEm que ano, aconteceu esse vosso primeiro encontro?
Seijas: Foi no começo dos anos 90. Eu, então, pedi-lhe desculpa, dizendo que não podia aceitar a sua oferta.
Algum tempo depois, recebi um telefonema de Sergio Bonelli a convidar-me para desenhar um Texone (n.d.r – Tex Gigante, no nosso país). Disse-me que era costume, convidar diferentes desenhadores, para cada novo número desta colecção. Eu, como bem pode imaginar, estava a trabalhar para a Eura, e eles não queriam saber de maneira alguma que eu trabalhasse para a SBE (n.d.r – Sergio Bonelli Editore). E então, apesar da oferta de Sergio Bonelli ser muito vantajosa financeiramente, mais uma vez, recusei o convite.

Outra vez? Quantos, puderam dar-se ao luxo de recusar um convite de Sergio Bonelli e ainda por cima, por duas vezes…
Seijas: De facto… Acontece que eu tinha assumido alguns compromissos com a editora Eura, e eu não sou pessoa de romper os meus compromissos, e por isso, infelizmente,  tive de recusar, mas logo de seguida, arrependi-me!

Ernesto Garcia SeijasE como é que finalmente, disse sim ao Tex?
Seijas: Bem, com o tempo, eles voltaram a telefonar-me, ou então fui eu que telefonei para Itália, não me recordo. O que me lembro é, que de algum modo, fiz chegar aos ouvidos da SBE, que eu gostaria de aceitar o convite anterior. Então, eles chamaram-me e deram-me o Texone, álbum no qual trabalhei por 4 anos. Nesse meio tempo, também trabalhei para a Eura, para cumprir com os meus contratos. Por um lado, esperava que na Eura ninguém ficasse zangado com o meu trabalho para a SBE, por outro lado, estava tranquilo, porque Sergio Bonelli disse-me, que se tivesse algum problema, ele gostaria que eu desenhasse exclusivamente para ele. E assim fizemos.

Fazendo uma rápida pesquisa na Internet, sobre material seu, li um artigo, na página da SBE, onde Sergio Bonelli diz que estava de olho no seu trabalho, há muito tempo e que por diversos motivos, ainda não tinha podido contar com sua colaboração. Finalmente ele conseguiu o seu intento, até porque parece, que Sergio Bonelli admira muito o seu traço…
JuliaSeijas: Fico contente em ouvir isso. Só posso agradecer por poder contribuir um pouco, e fazer parte do grupo de profissionais, com os quais a SBE conta, é um prazer.

O seu primeiro trabalho, foi então, um Texone?
Seijas: Sim, exactamente. Está ainda por ser editado, segundo tenho entendido. Depois desenhei uma edição de Julia. (n.d.r – Julia #80, “Delitto alla moda”, de Maio de 2005)

Conte-nos um pouco da sua rotina de trabalho para a SBE, e como é o trato com a editora e com os argumentistas…
Prancha original de Tex - 1Seijas: Bem, recebo os argumentos deveras detalhados, com indicações claras do que querem exactamente os argumentistas. Berardi, com que  trabalhei em Julia, é muito detalhado. Descreve-me quadro a quadro, nos mínimos detalhe. Boselli, é um pouco menos. E agora, estou a trabalhar com um roteirista chamado Ruju (n.d.r – Pasquale Ruju) que me dá um pouco mais de liberdade para resolver as cenas. Eu penso que há situações onde o desenhador tem de ter alguma liberdade. Com respeito ao envio dos originais, na SBE tudo tem de ser mandado pelo correio, pois eles fazem as letras na Itália, directamente sobre o papel. Não pode ser nem fotocópias, nem imagens digitalizadas.

Estive com Repetto, e ele disse-me a determinada altura, que Sergio Bonelli, está directamente envolvido, em tudo o que diz respeito ao Tex …
Seijas: Sim, desse facto, dei-me conta de imediato. Como disse, Sergio Bonelli é um editor e um fanático pela banda desenhada. E mais ainda, em especial por Tex, e por isso, ele controla pessoalmente cada página. Inclusive neste Texone ainda inédito, houve 11 páginas que tive de refazer, porque apareciam mulheres e Sergio Bonelli não entendia porque apareciam essas mulheres ali, já que não eram necessárias para a história. Ele fez com que mudassem o argumento e eu tive de refazer as páginas. Parece que a ele, não lhe agrada que apareçam muitas mulheres nas histórias de Tex.

Prancha original de Tex - 2Dizem que Sergio Bonelli alega, que Tex sempre foi assim, e que foi essa fórmula que fez com que Tex permanecesse sendo um sucesso e que por isso, não há razão para mudar…
Seijas: E ele tem razão! Eu sou um exemplo… se Sergio Bonelli me desse liberdade total, estou certo que acabaria mudando a personagem. E já não seria mais o Tex, mas sim, uma personagem de Seijas. E esse não é o objectivo. Portanto, parece-me perfeito, que ele tenha o controle absoluto da personagem. É aí que se vê a mão do editor…

Quantas páginas de Tex, costuma fazer por mês?
Seijas: Depende. Geralmente uma média de 12 a 14 páginas. Porém, não nos esqueçamos que uma aventura de Tex é por norma, muito rica em detalhes, e para tudo isso, há que se munir de documentação. Desde armas, cidades, veículos, uniformes, as construções… ou seja, é necessário bastante tempo, para juntar material de referência. E tudo tem de parecer real, não se pode ficar inventando. Eu sempre que posso, utilizo séries de TV, como Bonanza, filmes de western, livros, revistas, catálogos… tenho inclusive algumas réplicas de armas desse período (n.d.r. – nesse momento, Seijas mostra-me uma réplica impressionante de um Colt Peacemaker).

Prancha original de Tex - 3Quando começou a desenhar o seu Tex, procurou inspirar-se em alguém conhecido?
Seijas: Não, não! O Tex que estou a fazer, penso que seja uma mistura do original de Galep, com o Tex mais duro de Ticci. Mas confesso que ainda estou à procura da fisionomia ideal do meu Tex, para poder trabalhá-lo mais fluidamente.

O que significa para si, estar a desenhar uma lenda dos fumetti (n.d.r. – nome dado à banda desenhada, na Itália) como Tex, que em breve vai completar 60 anos de vida editorial?
Seijas: Para mim é uma honra, e quase poderia dizer, que, desenhar Tex, é um sonho tornado realidade. Nos anos 40/50, Tex foi publicado na Argentina, na revista Rayo Rojo, com o nome de Colt Miller, e a primeira historieta que li, ainda em criança, foi precisamente “Tex”. Ou seja, Tex é que me fez entrar no mundo fascinante da banda desenhada. Eu costumo dizer: “Comecei o meu romance com a nona Arte com Tex e aparentemente, vou morrer desenhando Tex!” [risos]

Prancha original de SeijasOu seja, pretende desenhar o Tex por muito tempo… [risos]
Seijas: Sim, sim! É mesmo isso, o que espero!

O seu trabalho para a SBE e em outras editoras europeias, teve repercussões na Argentina?
Seijas: Creio que não! Tex, por exemplo, nunca mais foi publicado na Argentina. E por outro lado, são poucos os que sabem, que estou a trabalhar para a SBE . O que acontece é que desde que a Columba fechou,  não se publica quase mais nada e o que se publica  não são histórias clássicas, como as que Repetto e eu fazemos. Hoje o que se vê, são histórias demasiado intelectuais. Parece que a banda desenhada simples, não é Arte, por conseguinte, o que existe hoje nas bancas, são desenhadores com estilos raros, para atrair um público, que se diz mais intelectual, pessoas que não chegariam perto do tipo de aventuras que fazemos. Nós, por outro lado, gostávamos de aventuras de acção, com lindos desenhos e que fossem divertidas.

Arte de Ernesto Garcia SeijasÉ verdade, porém, vi algumas edições em formato de livro e até muito bem produzidas com historietas de Alcatena, Meriggi, Solano Lopez e inclusive suas, como o próprio El Negro Blanco…
Seijas: Certo, mas como você mesmo disse, em sua maioria são edições mais luxuosas, reedições, para um público mais limitado. Diferente de outras épocas, onde todas as semanas havia três ou quatro revistas novas nas bancas, trazendo cada uma sete ou oito histórias.

Falando em autores, que desenhadores você admira e quais foram os seus ídolos?
Seijas: Gosto muito dos desenhadores da velha escola americana, Milton Cannif, Alex Toth, Harold Foster, Frank Robbins, desenhadores que via quando era criança e que passei a admirar. Harold Foster era um ilustrador brilhante, mas penso que para fazer hoje um trabalho tão pormenorizado, tão  detalhado é preciso ser muito jovem. Hoje em dia, eu prefiro trabalhar de uma maneira mais simples, inclusive alguns desenhos que fiz no passado, hoje faria de maneira bem diferente, porque vamos aprendendo a dar alguns efeitos, e dizer de forma mais simples, as mesmas coisas. Oesterheld, uma vez disse-me, e eu concordo plenamente com ele, que a banda desenhada deve ser ágil, porque não devemos obrigar o leitor a ficar meia hora em frente de uma página, para ver todos os pequenos detalhes…

Júlia por Ernesto Garcia SeijasUma coisa que chama a atenção, é a expressividade das suas personagens. Todas, inclusive as secundárias, têm um rosto diferente…
Seijas: Sim, é verdade. É que vamos aprendendo muito, com o passar do tempo. Uma vez, há muitos anos, um amigo, falando de um colega nosso, que era um excelente desenhador, disse-me: “Fulano é um excelente desenhador, mas notaste que faz os olhos de todas as sua personagens, iguais?“. Isso fez-me pensar e dei-me conta, que realmente era assim. Então, tratei de não cair eu, no mesmo erro. Tento que as minhas personagens tenham rostos diferentes, porque é assim na vida real. Do herói, não podemos fazer muitas variações, mas das secundárias… Pablo Pereyra, um grande ilustrador, disse-me, que temos de ter uma galeria de personagens secundárias, com diferentes tipos de caras, para usar quando necessário e ir modificando-as conforme as necessidades.

Júlia desenhada por Ernesto Garcia SeijasVocê já desenhou todo o género de banda desenhada; guerra, western, espionagem, aventura, romance… todas com o seu estilo pessoal, altamente reconhecido. Os seus desenhos de mulheres, então, são legendários….
Seijas: Sim, desenhei todo o tipo de histórias e em todas apliquei a mesma garra e o mesmo capricho ao fazê-las. Às vezes perguntam-me, qual a personagem que mais gostei de fazer ou qual a personagem que ainda gostaria de fazer. Bem, gostei de todas, respeitei a todas, principalmente, aquelas que não eram minhas. Sempre dei o melhor de mim em cada trabalho. Fiz várias séries com mulheres bonitas. Sempre me dei bem desenhando lindas mulheres. [risos]

Sabe que na Itália, há quem o considere, na actualidade, o melhor desenhador do mundo? Pelo menos, isso pode ser constatado em fóruns e sitíos na Internet, onde muitos concordam com essa tese.
Seijas: Bem, espero estar a ser merecedor de toda essa expectativa, mas não creio que seja tanto assim. Considero-me apenas um bom desenhador e um desenhador que gosta do que faz.

Em 2008, Tex irá completar 60 anos. Caso fosse convidado, a participar de algum evento, no Brasil ou em Portugal, poderíamos contar com a sua presença?
Seijas: Claro que sim, com muito gosto!

Desenho original de Tex para Jesus NaborEstive com Ernesto Garcia Seijas, por mais de 3 horas, o grande desenhador argentino, mostrou-se admirado com o prestígio que a personagem Tex, tem no Brasil e em Portugal e gostou muito de saber que o seu trabalho é conhecido em ambos os países.

Presenteei-lhe com três revistas do período da Editora Vecchi – Histórias do Faroeste e Skorpio. Conversamos sobre desenhadores e descobrimos que ambos gostamos muito do Frank Robbins e também descobri que Seijas gosta do Llanero Solitario (n.d.r. – Lone, Ranger, conhecido em Portugal, como “O Mascarilha”).

Seijas, como bom argentino, também gosta muito de futebol e tem no seu estúdio, várias flâmulas e souvenirs do seu clube do coração: o San Lorenzo.

Durante a entrevista, o Maestro Seijas esboçou um desenho do Tex  para mim, como recordação desse dia tão especial, na minha vida de leitor de Tex., desenho que mostro um pouco mais abaixo, para conhecimento geral.
Tentar dizer o que isto significou para mim, é algo que não vou conseguir. Dizer obrigado é pouco. Seijas diz que não conhece o Brasil e nem Portugal, bem, espero que com esta entrevista, o Brasil e Portugal conheçam um pouco mais deste grande da historieta mundial. Um homem tranquilo, honesto, correcto e acima de tudo UM MAGNIFICO DESENHADOR.

Maestro Seijas, muchas gracias, por tudo!


Jesus Nabor Ferreira – Coleccionador de Banda Desenhada desde 1976.
Santa Maria – RS – Brasil 08/09/2007
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Miguel Angel Repetto: A Biografia

Miguel Angel Repetto - O desenhoMiguel Angel Repetto

Miguel Angel Repetto - A fotoMiguel Angel REPETTO, natural da pequena cidade de Lujan, província de Buenos Aires, onde nasceu em 17 de Fevereiro de 1929 (tendo portanto 78 anos), é um conceituado desenhador da prestigiosa escola clássica da BD argentina, que sempre deu grandes nomes à nona Arte, e no presente faz parte da equipa de desenhadores de “Tex“, série que iniciou em 1993, apesar da sua estreia ter acontecido apenas em 1999, com a história “La montagna del mistero“, 110 páginas escritas por Claudio Nizzi, na série Almanacco del west, em que nos apresenta um Tex forte e decidido, representado num traço harmonioso, limpo e detalhado, mostrando uma vez mais que Repetto encontra no Western o terreno ideal para verter todo o seu imenso talento, na linha de Arturo Del Castillo e de José Luís Salinas, desenhador do popular Cisco Kid.

DiegoA sua paixão pelo desenho, herdada em jovem idade da sua mãe, desenhadora amadora, transforma-se em profissão quando Ramón Columba, um dos mais prestigiosos caricaturistas e também o maior editor de banda desenhada da Argentina, o elege como vencedor de um concurso.
Após um tirocínio de mais de cinco anos, na maior parte do tempo como autodidacta, o artista argentino inicia um longo período de colaboração com a editora Columba, onde coloca a sua arte ao serviço de revistas como “Intervalo“, “D’Artagnan“, “El Tony” e “Fantasía“, e ao lado de nomes consagrados da BD mundial, tais como Harold Foster, Alex Raymond, Alberto Breccia, Hugo Pratt, José Luis Salinas e Arturo del Castillo, só para citar alguns.

Agente Corrigan.

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Em seguida, Repetto colabora também na revista “Hora Cero“, da editora Frontera, ilustrando roteiros de um nome sagrado da BD argentina, Héctor Germán Oesterheld, sequestrado (e provavelmente assassinado) por militares argentinos durante o período da ditadura.
Também publicou na Dante Quinterno Editora o titulo “Patoruzito“, e ainda na editora Bruguera. Para esta editora fez uma série chamada “Frontier Bill“, editada também, mais tarde, pela editora Columba e que acabou sendo exportada para o Chile e a Espanha.

Jet PowerJá casado (com Maria Celina, que desposou aos 29 anos e de quem teve um casal de filhos, Alejandra – argumentista e poeta – e Miguel, que lhe deram 5 netos), iniciou os seus estudos universitários de Direito na Universidad de Salvador em Buenos Aires, onde se graduou como Notário em 1975. Ainda começou essa profissão, embora sem nunca abandonar a banda desenhada, tanto assim que quando teve de optar, por razões de tempo, escolheu a nona Arte, que sempre foi a sua verdadeira paixão.

Estuda depois por um período, sob a alçada de Alberto Breccia, na Escuela Panamericana, e colabora em seguida com a editora Record, publicando o western “El Cobra“, iniciado por Arturo del Castillo, na revista argentina “Skorpio“, onde desenhou mais de 70 episódios do personagem, que foram divulgados em diversos países, e trabalhando na série “Jet Power“, uma história de aviação de guerra, para a qual escreveu também os argumentos.
Nesse período, cria algumas séries western, como “Diego“, “Mapache“, “Conrack” e “Dan Flynn“.

Agente CorriganMiguel Angel Repetto também desenvolveu uma intensa actividade em importantes editoras americanas e inglesas, assim como italianas: D.C. Thompson & Co. (uma grande editora localizada na Escócia, que também contratou o português Vítor Péon),  Charlton Press Inc (EUA), Fleetway Publications Ltd (Inglaterra), Piero Dami Editore S.p.A (Itália), Editrici Lancio (Itália), Eura S.p.A (Itália) e King Features Syndícate (EUA).
Para a americana King Features Syndicate, entre 1985-87, desenhou a série “Green Force Five“, com argumento de outro argentino, Alfredo J. Grassi, uma série ambientalista constituída por uma equipa de cinco pessoas e um leopardo – projecto eleito vencedor entre mais de dois mil outros a concurso – e que Repetto realizou em tiras diárias para os jornais norte-americanos, tendo sido também editada em vários países do mundo. Entre 1986-96, realizou cerca de 30 episódios de “Secret Agent Corrigan“, nova versão das aventuras do Agente Secreto X-9, personagem nascido do talento narrativo de Dashiell Hammett e gráfico de Alex Raymond, em formato de tiras, episódios esses que foram publicados na Escandinávia (Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia) sob a forma de comic books; e também Ainda para a King Features Syndicate fez diversas amostras para um teste de Príncipe Valente, que acabaram por se “perder” ingloriamente nos escritórios da KFS.

The war criminal of AbileneE mesmo já colaborando com a italiana Sergio Bonelli Editore, o mestre argentino não abandonou o mercado americano, como comprova o seu trabalho reeditado em 2001 na revista “Star Western” nº 4, da ACG Comics, publicada em 2001, uma aventura curta, apenas com oito páginas, contrastando com as aventuras de centenas de páginas, que costuma realizar actualmente para o Tex.

Em Portugal, o seu trabalho mais conhecido, é justamente Tex, personagem para o qual desenhou as seguintes edições (referência italiana):
Tex inédito: 504, 505, 526, 527, 544 e 545;
Almanacco del West 1999 e Almanacco del West 2002;
Maxi Tex 2000, Maxi Tex 2002 e Maxi Tex 2005.

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Tex desenhado por Miguel Angel Repetto

Na nossa língua, podemos apreciar a sua arte nas seguintes edições da brasileira Mythos Editora:
Tex inédito 432, 433, 450 e 451; Almanaque Tex 4, 13 e 23; Tex Anual 3, 5 e 8.

Texto de José Carlos Francisco com a colaboração de Jesus Nabor Ferreira.
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