Tex em grande destaque no Correio da Manhã: 19-09-1991

Texto do jornal Correio da Manhã de 19/09/1991
Leituras
Carlos Gonçalves

“TEX”: O REI DO OESTE

“TEX” - O REI DO OESTEO que temos para dizer sobre “Tex” é tanto que dificilmente o conseguiremos fazer num espaço tão curto. No entanto, em virtude do grande sucesso desta personagem no Mundo dos Quadradinhos, não vamos deixar de tentar preencher, na melhor das intenções, o espaço que nos for acessível.
É com grande prazer que falamos sobre «Tex», pois é uma das poucas personagens de «cowboys» que nos é gratificante. Desde sempre adquirimos as suas aventuras e hoje as nossas prateleiras possuem, já, mais de 300 títulos com as histórias de «Tex».
Lamentamos que as mesmas não figurem na sua língua materna, mas na realidade o italiano, que adoramos, como língua cantante, não é muito compreensível na sua maior parte. E o nosso tempo para a aprender em pormenor fica muito aquém das necessidades imediatas.
Assim, temos acesso às suas aventuras num futuro português (brasileiro), que irá ser por certo muito brevemente, o português de todos nós, agora que o acordo ortográfico foi assinado.

Em 30 de Setembro de 1948, em Itália, foi publicado pela primeira vez um fascículo com as aventuras de «Tex». Essa história chamava-se “Il Totem Misterioso” e possuía texto de Giovanni Luigi Bonelli, o decano e talvez o mais famoso argumentista italiano de Banda Desenhada e desenhos de Aurelio Galleppini, o primeiro e também o mais famoso, da extensa lista de desenhadores que se ocuparia desta série.
Não só a Banda Desenhada se dedicaria a apresentar as aventuras de «Tex», pois o Cinema também não esqueceria o sucesso desta personagem e assim, uma versão do “herói” acabaria por preencher igualmente as salas de vários cinemas, por esse mundo fora.
O sucesso de «Tex» deve-se essencialmente a um estilo de publicação tão do agrado da maioria dos leitores, dos inícios dos anos cinquenta: o folhetim. Já era assim com os romances e a rádio. Nada mais natural foi que a Banda Desenhada se aproveitasse de fórmula para conquistar novos leitores.
O ano em que «Tex» surgiu foi difícil, pois estavam num período após-guerra, com sérias vicissitudes para o país. No entanto, a decisão de Mussolini de acabar com a importação do material norte-americano de 9ª arte, quase dez anos antes, teve um reflexo bastante importante no Historial da Banda Desenhada italiana. Obrigou os editores, os argumentistas e desenhadores, a criarem ou a adaptarem as suas próprias personagens.
Embora a intenção inicial tivesse sido a de criar uma verdadeira Censura, as suas consequências finais foram afinal frutuosas para a 9ª arte italiana. Foi um período áureo da Banda Desenhada a que assistimos e aquele país começou a afirmar-se nesse campo.

A Fórmula

O Tex de Buzzelli«Tex» surge assim publicado em tira, num pequeno caderno de 32 páginas, cada uma delas com três vinhetas cada. O seu preço acessível e a sua continuidade rapidamente se tornaria num sucesso. É preciso não esquecer que a qualidade dos textos era na verdade excepcional. E se os desenhos iniciais não eram muito perfeitos, rapidamente alcançariam um verdadeiro traço de artista, que ainda hoje se mantém.
Não foi só «Tex» que seria publicado em tira. «Xuxá» e o “O Pequeno Xerife” seriam igualmente personagens de sucesso e todas elas seriam publicadas no Brasil em 1950, nos formatos originais, 16 cm de largura por 7 cm de altura.
O primeiro episódio de «Tex» duraria unicamente 3 semanas, mas todos as seguintes passariam a ter maior duração.
«Tex», em formato de tira, duraria de 1948 a 1967,com dezenas de aventuras publicadas. Mais tarde seriam compiladas em livro, de formato maior e reeditadas. Outras aventuras inéditas se seguiriam.

As personagens

No início, «Tex» trabalhava sozinho e nem sequer possuía o seu cavalo «Dinamite»… Ou pelo menos este não tinha nome. Com o tempo, surgiram novas personagens: «Kit Carson», «Jack Tigre» e o seu filho «Kit» (filho do seu amor com a bela índia «Lírio Branco»). A partir daqui, os quatro passaram a figurar quase sempre em todas as aventuras, com pequenas excepções.
Quase todas as histórias até hoje (nota –  recorda-se que o texto foi escrito em 1991) publicadas foram escritas exclusivamente por Bonelli. Ultimamente este artista que é um dos maiores editores italianos de Banda Desenhada (com o apoio do filho), passou a ser ajudado por outro roteirista: Claudio Nizzi.
Todas as aventuras de «Tex» foram essencialmente escritas e vividas no estilo do velho Oeste, pelo menos no início. Com o tempo, tal situação viria a alterar-se e algumas das suas histórias passam a retratar algum espírito mítico, onde o bruxo «Mouro», «Mefisto» e o seu filho «Yama», passam a ocupar um lugar importante no desenrolar da acção.
E claro que essas aventuras, de modo algum, perdem a qualidade. Antes pelo contrário, na sua maior parte, despertam um renovado interesse dos leitores pela série e esta rejuvenesce.

A editora Bonelli

Hoje a Editora Bonelli é um autêntico Império, com as variadas edições que publica de «Tex» (uma é reedição), de «Mister No», «Zagor», «Ken Parker», «Nick Raider», «Martin Mystère” e outras.
Sergio Bonelli o filho de Luigi, é hoje o principal responsável pelos destinos da editora. Desde muito novo mostrou interesse pelo negócio do pai e tem continuado assim a sua obra.
O pai escreve essencialmente os roteiros de «Tex». A sua avançada idade (82 anos) limita-o em algumas iniciativas que gostaria de concretizar.
Mas tem a certeza que o seu filho tudo fará para transformar a sua Editora numa das mais importantes de Itália.

Copyright: © 1991 Correio da Manhã; Carlos Gonçalves

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Buffalo Soldiers

Por José Carlos Francisco.
E
stá prestes a ser publicada na Itália a história de Tex mais aguardada dos últimos anos…

Buffalo SoldiersTrata-se de “Buffalo Soldiers“, uma história de 291 páginas, história que nasceu de uma ideia que Sergio Bonelli teve no longínquo ano de 1993. O roteiro é de Mauro Boselli e os desenhos do mítico Giovanni Ticci. A capa como tradicionalmente, é desenhada por Claudio Villa!

A história tem como protagonistas os membros de um regimento lendário, os célebres Buffalo Soldiers (soldados de cor), ao lado dos quais poderemos ver Tex e Carson numa aventura épica!
A estreia tem data prevista para 7 de Março, na edição número 569 de Tex e prolongar-se-à até à edição número 571  a ser publicado em Maio.

Os famosos Buffalo Soldiers, cavaleiros de cor do Décimo Regimento da Cavalaria dos Estados Unidos, estão intalados em Forte Duchesn  e encarregues de manter a ordem e fazer de barragem entre os aventureiros e bandidos de Destiny, pequena cidade surgida ilegalmente na reserva Ute, e os  Utes das Uintah Mountains, comandados por Ouray, chefe justo e sábio, mas cuja irritação é habilmente excitada pelos homens de Carrizo.

Kit CarsonNo Utah setentrional, na pista de um feroz comanchero, Pablo Carrizo, a quem dão caça há mais de dez anos, Tex e Carson reencontram um velho amigo, o sargento de cor Bill Johnson, que os ajuda contra um bando de Utes.

Enquanto o Alto Comando envia para o Utah um regimento branco comandado por um oficial racista, Tex pede a ajuda de uma patrulha dos Buffalo Soldiers para parlamentar com Ouray, mas durante o caminho, os pards são constrangidos a barricar-se na Agência Índia de White River, assediada pelos comancheros e pelos guerreiros rebeldes.

No rescaldo, Tex e Carson, na companhia do sargento Bill Johnson, do scout Randado e de um punhado de audazes soldados negros, resolverão todos os problemas à base de murros e chumbo quente e elevarão bem alto a honra do Décimo.

TEX 2008

Tex - 2008

Como vimos, neste ano de 2008, Tex cavalgará ao lado dos Buffalo Soldiers, os legendários soldados de cor do Décimo Regimento de Cavalaria, instalados no Forte Duchesne e encarregues de manter a ordem no Utah setentrional, às voltas com os aventureiros da aldeia fora-da-lei de Destiny e com os Utes em revolta nas Uintah Mountains.

Arte de Ticci em Buffalo Soldiers

Teremos também este ano, um extraordinário álbum colorido a ser publicado em Setembro, que festejará o sexagenário aniversário do ranger e no qual fará a sua aparição, precisamente a esposa de Águia da Noite, a bela e inesquecível Lilyth!

Arte de Fabio Civitelli na história comemorativa dos 60 anos do Ranger

Tex e os seus pards viverão muitas outras aventuras em 2008, entre as quais, destaca-se uma espectral deslocação a New Orleans e pântanos circundantes, na rota do segredo de um pirata alquimista, entre homicídios rituais, armadilhas e passagens secretas e onde veremos o retorno de Nat Mac Kenneth!

Arte de Ernesto Garcia Seijas

Destaque também para uma obra, infelizmente, única de Gino D’Antonio, baseada em parte também numa ideia de Sergio Bonelli/Guido Nolitta e igualmente concebida no distante ano de 1993. Trata-se da edição Gigante de Tex, com desenhos de Lucio Filippucci, também ele estreante em Tex depois de vários anos de honrada militância em Martin Mystere.

Tex Willer na Tertúlia BD de Carnaval

Por Jorge Machado-Dias

Tex Willer, Geraldes Lino e Tenente BlueberryE foi a 5 de Fevereiro, o dia de Carnaval de 2008, que se realizou o 281º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa, quase a fazer 23 anos de existência.
Aproveitando a festividade, Geraldes Lino, o organizador, pediu aos frequentadores da TBDL que viessem mascarados de personagens da Banda Desenhada. Alguns responderam entusiasticamente ao pedido. Vamos ver algumas dessas personagens presentes:

Na foto aqui do lado esquerdo (para aproveitar a extensão completa das imagens, clique nas mesmas), Ricardo Leite como Tex Willer, acompanhado do Alferes (!!!) Blueberry.

Strumpfina e Capitão HaddockNa foto aqui à direita, os vencedores do Concurso: Simões dos Santos, envergando um Capitão Haddock bem composto não teve coragem para assumir a personalidade da personagem: o truculento companheiro do Tintin nunca se teria coibido de acender o seu cachimbo!!! A seu lado, a sua filha numa Strumpfina a preceito.

Tex WillerO júri, foi composto “ad hoc”, ou seja, para o efeito, no momento: Geraldes Lino, Marco Mendes (o Convidado Especial), a namorada (Lígia Paz, também autora de BD) e o crítico e bloguista Pedro Vieira Moura. E decidiu eleger como vencedores o “Capitão Haddock” e a “Schtrumpfina”, porque só havia dois prémios.
O Tex entretanto acabou por monopolizar a cena do crime… perdão, desta Tertúlia, uma vez que passeou pela sala o tempo todo. José Carlos Francisco teria exultado se tivesse lá ido.

Nas rifas, saiu à Clara Botelho um TEX edição gigante, intitulado “O Último Rebelde” e que foi desenhado por Colin Wilson (em que os desenhos estão muito próximos do estilo Giraud-Blueberry) – oferta de Ricardo Leite.

Seguem-se mais algumas fotografias da Tertúlia:

Tertúlia BD de Carnaval
Tertúlia BD de Carnaval
Tertúlia BD de Carnaval

Entrevista exclusiva: GIANFRANCO MANFREDI

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Mário João Marques na formulação das perguntas e de Júlio Schneider (tradutor de Tex e Mágico Vento para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão.

Gianfranco ManfrediPara aqueles que ainda não estão bem identificados com o seu percurso, gostaríamos que fizesse uma pequena apresentação própria e do caminho entretanto percorrido na sua carreira.
Gianfranco Manfredi: Eu sou formado em História da Filosofia e, de facto, o primeiro livro que publiquei foi um ensaio sobre Jean Jacques Rousseau. Na mesma época também estreei como compositor e cantor. Como os dois trabalhos não me pareciam compatíveis, escolhi o que me deixava criativamente mais livre, ou seja, o segundo. Mas o meu amor pela escrita era superior ao amor pela música – que também me dava grandes satisfações – e aí aproveitei a boa fama e estima que conquistei como cantor/compositor para me introduzir no ambiente do cinema como roteirista, principalmente, mas também como actor e algumas vezes como compositor de músicas de filmes. Em seguida, bastante desiludido com o facto de que na Itália, na época, se produzia quase que exclusivamente comédia, enquanto que eu preferia um cinema mais radical em suas escolhas (do faroeste ao terror), decidi encarar a escrita de modo mais amplo e completo, e assim cheguei à narrativa, com uma série de romances (que escrevo até hoje) que exploram, digamos assim, os limites de género (gótico, policial, romance histórico). Na BD eu só estreei nos anos 90, apesar de conhecer o ambiente há muito tempo e ser desde criança um grande devorador de “tiras”.

WesternO que é a BD para si, tanto como linguagem quanto como experiência profissional.
Gianfranco Manfredi: É uma mistura entre narrativa visual (como aquela do cinema) e narrativa literária. Diferente do cinema, não exige uma máquina de produção complexa e, diferente da literatura, permite trabalhar em grupo, como uma pequena empresa artesanal. Do ponto de vista profissional, ela me deu muito: continuidade de trabalho, contacto permanente com os leitores de várias gerações, além de pesquisa estética, porque, nas minhas histórias, eu sempre procuro experimentar novas formas de contar. A minha primeira experiência de pesquisador também foi fundamental para escrever BD que, no meu caso, sempre foi fruto de uma documentação muito atenta de lugares, ambientes, circunstâncias históricas e tradições populares.

Gianfranco ManfrediComo se tornou escritor de banda desenhada? Foi por vocação ou por acaso? E quais são as suas influências?
Gianfranco Manfredi: A minha estreia foi aparentemente casual. Eu havia feito um roteiro para televisão de “Valentina“, de Crepax, e procurava outra BD para levar à TV. Um editor, Casarotti (da Dardo), sugeriu que eu mesmo escrevesse uma BD e eu aceitei. Assim nasceu Gordon Link e todo o resto foi consequência. Mas é claro que eu tinha jeito e hoje tornou-se o meu principal trabalho. Não posso afirmar que foi por acaso. Influências? Não sei. Eu li todos os géneros de BD mas sempre fiz distinção entre a que me agradava e a que eu podia fazer, com as minhas qualidades e os meus limites. Isso eu aprendi com a música. Quando eu cantava, invejava a voz de Joe Cocker, mas a minha era bem diferente, eu não podia usar a dele ou achar que poderia imitá-lo. Eu tive que criar um repertório adequado a mim.

Quando e onde começou a publicar os seus primeiros trabalhos?
Gianfranco Manfredi: Na Dardo, como eu disse. Mas se queremos ser precisos, muitos anos antes (a meio dos anos 70), quando eu colaborava com a revista de contracultura Rei Nu, eu já me envolvia com quadradinhos. As minhas principais referências de então eram os quadradinhos underground californianos, aqueles de Robert Crumb.

Mágico Vento com dedicatóriaComo e quando entrou para a Sergio Bonelli Editore e qual foi o seu primeiro trabalho? E como passou a trabalhar com Tex Willer? Foi uma escolha pessoal ou uma imposição?
Gianfranco Manfredi: Quando o editor de Gordon Link teve que encerrar as suas actividades em razão de dificuldades financeiras, eu procurei Sergio Bonelli, que me convidou a colaborar com Dylan Dog e, paralelamente, estudar um novo projecto, que veio a ser Mágico Vento. Eu escrevi o episódio de Tex A Trilha das Emboscadas antes de Mágico Vento, apesar dele ter sido publicado depois. Eu pedi para escrevê-lo para poder tomar contacto com a forma de escrever um faroeste. Eu nunca recebi imposições de Sergio Bonelli. Ele sempre me perguntou o que eu preferia fazer e sempre me deu tempo para pensar. Por exemplo, quando fiz roteiros de Nick Raider, a pedido de Decio Canzio, eu não disse sim logo de caras. A personagem não me convencia muito. Mas para mim é fácil escrever histórias de género policial, porque tenho certa familiaridade com o assunto e, quando aceitei, posso dizer que me diverti e também tive liberdade para escrever as histórias, mais do que eu sentia com Dylan Dog ou com Tex, justamente porque a personagem não era tão forte e, por isso, tinha mais espaço para ser aprofundado.

Os 4 pardsQuais foram as primeiras preocupações que a personagem de Tex suscitou em si? E como se preparou para escrever as histórias de Tex? Já o conhecia profundamente?
Gianfranco Manfredi: Eu nasci em 1948, exactamente como Tex. Eu conhecia-o muito bem, comprava todos os números. Quando escrevo Tex não tenho dúvidas nem incertezas. Para mim é como pensar que estou a roteirizar um filme para John Wayne. Sabe-se de cor como John Wayne actua, que tipo de personagem interpreta, que tipo de frases pronuncia. Sabe-se muito bem o que ele faz e o que não se pode mandar que o faça. As personagens de Wayne não têm uma psicologia confusa, não se prestam a cenas de amor, podem ter dúvidas e contrastes interiores porque não são nada estúpidos, mas resolvem os seus problemas sempre em acção e não os expressam em palavras. Além disso – coisa muito importante – sempre ocupam o centro da trama. John Wayne podia ter ao seu lado actores excepcionais como Dean Martin ou Robert Mitchum, mas não há dúvida que o protagonista absoluto era sempre e somente ele, tanto que o grande director Hawks o deixava dirigir os outros actores. Tex é assim. Ao escrever tem-se a sensação de que ele é quem dirige, tudo se move em torno dele e do modo que ele impõe. A história segue linear, do princípio ao fim, sem interlúdios, desvios de percurso ou flashbacks. Algumas vezes eu insiro flashbacks nas histórias – nem sempre, depende das histórias – mas por princípio eu não saberia abrir mão deles, porque muita linearidade numa BD pode comportar o risco de deixar a história previsível e um pouco tediosa. Mas eu sei me limitar, porque as aventuras de Tex sempre devem acontecer no momento, não podem ter muitos parênteses que reportem ao passado ou em cenários diferentes daqueles onde a aventura se desenvolve. Para mim, a acção não pode ter pausas. Pode haver alguns interlúdios mas esses devem ser bem encaixados como momentos de relaxamento da tensão que nos fazem sentir, além da dureza, a simpatia de Tex, a sua humanidade um pouco rude mas também sincera, jovial e optimista, justamente como nos filmes de John Wayne.

La pista degli agguatiPorque a sua história de Tex (A Trilha das Emboscadas) ficou arquivada tantos anos sem ser impressa, apesar de estar concluída?
Gianfranco Manfredi: Isso deveria ser perguntado ao editor. Mas no passado certas histórias já haviam sido represadas (Oklahoma, de Berardi, por exemplo). Sempre há um certo e compreensível receio de desconcertar o leitor com episódios escritos por alguém que tem certa personalidade como autor – mesmo que o faça com respeito à personagem. Teme-se que a personagem possa tomar um rumo novo demais e que não se possa pedir modificações a um autor que sabe o que faz e que dificilmente aceita mudar o seu próprio estilo. Eu considero-me bastante flexível e habituei-me a isso com o cinema, onde um roteirista deve contentar um monte de gente, o director, o produtor, os actores. No fundo, com Tex deve-se contentar somente Sergio Bonelli e isso já é um grande progresso. A sua prudência é fruto da sua experiência como editor e, por tal razão, deve ser aceita.

Fabio Civitelli e José Carlos FranciscoTivemos o prazer de ver em Portugal as primeiras páginas de uma história sua de Tex desenhada por Fabio Civitelli. Há mais alguém que está a desenhar histórias suas? Pode nos dar alguma antecipação?
Gianfranco Manfredi: Além da história que estou a escrever para Civitelli, estou a elaborar outra para Gomez (para um Tex Gigante). Não, não quero dar antecipações. Só posso dizer que nessas histórias há muita acção e cenas bastante espectaculares.

Como se define como autor de Tex? Identifica-se de algum modo com algum dos outros anteriores autores?
Gianfranco Manfredi: A minha principal referência sempre é o Tex original, o de Bonelli-pai. Não é questão de se identificar. O seu estilo nos diálogos é inimitável, pode ser citado, mas seria um erro defini-lo como uma espécie de “marca de fábrica”, porque se arriscaria a dar a ideia de padrão, sempre igual. No desenvolvimento da história G. L. Bonelli era rápido e usava muitos cortes tipicamente cinematográficos. Isso torna o meu trabalho mais fácil. Eu tenho dificuldades em escrever páginas nas quais nada acontece ou elaborar cenas muito prolongadas.

Dorival, José Carlos, Fernanda, Gianni e autores da SBEPodemos contar com Manfredi empenhado em Tex, fazendo parte do staff do ranger, mesmo que Mágico Vento seja obviamente a sua prioridade?
Gianfranco Manfredi: Como eu disse, nunca assumo compromissos sem pensar bastante. Sei que às vezes vem-me uma ideia como, por exemplo, um novo romance ou a série Volto Nascosto (Rosto Escondido, n.d.t.), e depois sofro se os compromissos assumidos anteriormente me impedem de trabalhar nela. Por isso eu devo tomar muito cuidado para me reservar um pouco de tempo livre, mesmo porque nos últimos tempos eu fiz pouco isso e agora devo trabalhar em ritmo quase insustentável. Eu não quero me ver forçado a entregar uma história feita às pressas, nunca fiz isso antes e não pretendo começar agora.

O que significa para si, escrever histórias para uma lenda dos quadradinhos como Tex, que em breve vai completar 60 anos de vida editorial?
Gianfranco Manfredi: É uma satisfação e, como eu disse, uma bela diversão. Isso não me impede de constatar que actualmente os leitores são menos curiosos e têm tendência a permanecer com personagens já conhecidas em vez de se entregarem a novidades absolutas. Para um autor isso não é bom. Um autor permanece um autor enquanto consegue apresentar algo de novo. Perceberam que as comédias de Woody Allen não faziam mais rir? Seus recentes thriller são muito mais interessantes. Quem não muda está perdido. Claro que é muito importante colaborar para manter viva uma marca histórica que ainda tem muitos valores expressivos, mas o primeiro dever de uma pessoa criativa deveria ser o de estimular o público com propostas que nascem hoje e para hoje e, se for o caso, com um olhar nas gerações futuras e não nas do passado. Os heróis do Oeste cavalgam para o horizonte, podem até partir de casa, mas não voltam. Muitos nem têm uma casa. E os meus amados índios eram eternamente nómadas, montavam as suas tendas, desmontavam e voltavam a partir.

La pista degli agguati com dedicatóriaQue caminhos idealiza para Tex? Existe alguma restrição editorial ou tem liberdade para inovar alguma coisa?
Gianfranco Manfredi: Renovações não podem ser feitas só pelo puro gosto de mudar. Esse é um posicionamento infantil e pouco profissional. Mas certas mudanças existem mesmo quando se tenta permanecer na trilha da tradição. Se uma BD permanece igual a si mesma enquanto tudo em volta muda, essa mesma BD é percebida de modo diferente. Então a escolha nunca é entre mudar ou deixar as coisas como estão, porque as coisas nunca estão do mesmo jeito, elas mudam sozinhas. O ponto é qual direcção tomar. Há mudanças que melhoram e, geralmente, são aquelas que acompanham os tempos; há mudanças que pioram porque traem as expectativas. As resistências editoriais são, no fundo, pouca coisa em relação às do público. O nosso verdadeiro juiz, de todos (do escritor, do desenhador e do editor), é o público. Mais o público pede novidades e as sustenta, mais ele terá. Menos pede e menos lhe será dado. No campo da cultura de massa as escolhas sempre são do público. Um autor que não tenha isso em mente em geral é um pretensioso. Ele talvez se considere um “artista” mas nunca consegue entrar em sintonia com o público. E aí é de se lhe perguntar: que artista é você se não sabe interpretar (criticamente, claro) as sensações percebidas e o espírito de seu tempo?

Tex Willer por TicciGostaria de escrever uma história de Tex para algum desenhador em especial? E porquê?
Gianfranco Manfredi: Eu sempre sonhei em escrever uma história para Ticci que, com o seu estilo, renovou Tex de verdade, sem precisar alardear. Ele é dinâmico, ainda é extremamente moderno e, com ele, o realismo nunca é prejudicado pelo grafismo.

Sabe sempre para que desenhador escreve quando inicia uma história, fazendo-a, pensando nas suas características, ou esse factor é indiferente?
Gianfranco Manfredi: Geralmente eu sei. Prefiro saber, se bem que nem sempre é possível. Eu acho estupidez escrever uma história de grandes cavalgadas se o desenhador não fica à vontade a desenhar cavalos. Para ele eu estudo uma história com pessoas que andam a pé ou de barco. Porque forçá-lo a fazer uma coisa para a qual ele não tem jeito? Sairia um mau trabalho.

TexMágico VentoQue diferenças vê entre Tex e Mágico Vento?
Gianfranco Manfredi: Como personagens e como estruturas narrativas um é o contrário do outro. Eu tinha que me diferenciar, senão todos se perguntariam com razão: para quê Mágico Vento, se já existe Tex? Mas eu creio, com toda a humildade, que havia uma grande necessidade de Mágico Vento. Ele trouxe algumas mudanças positivas (nos quadradinhos de modo geral, não somente – e nem tanto – com relação a Tex), muito além do que eu mesmo podia prever e ambicionar. Eu sabia desde o início que seria uma série difícil, no mínimo pelo facto de que o género faroeste há décadas não é mais tão popular entre os jovens. Mas não quero comparar Mágico Vento com Tex porque eles são produtos diferentes. E Tex é uma personagem gigantesca. Nenhum actor (repito) pode ser comparado a John Wayne. Por uma questão de geração eu preferia, sei lá… Al Pacino. Mas Al Pacino é apenas um grande actor, enquanto que John Wayne é um mito. A diferença é profunda e não está na capacidade de representar, mas sim na relação que se estabeleceu entre personagem e público.

Tex representa o western, um westen puro e duro mas no qual existe um conjunto de valores como a amizade, a honra, a justiça, a luta pelos ideais. Como abordou tudo isso?
Gianfranco Manfredi: Sim, há tudo isso e mais ainda. Também há a ideia “Eu sou a Lei“, que é, ao mesmo tempo, uma ideia liberal e anárquica, mas que pode tornar-se perigosamente autoritária. Eu procuro trabalhar sempre consciente de que mesmo o ideal mais puro contém contradições. Numa obra-prima como Sentieri Selvaggi (n.d.t.: no original The Searchers; em Portugal, A Desaparecida; no Brasil, Rastros de Ódio), John Ford e John Wayne, as contradições são inúmeras!

Mágico VentoComo Manfredi vê o oeste de Mágico Vento comparado com aquele mais duro, talvez mais realista, de Tex?
Gianfranco Manfredi: Para mim Mágico Vento é uma BD muito mais realista que Tex: tudo é historicamente documentado e nem mesmo as lendas são inventadas, elas fazem parte da cultura dos nativos americanos. Mágico Vento jamais encontrará vikings ou soldados da Legião Estrangeira no oeste, e muito menos marcianos, como já aconteceu com Tex. Uma vez eu comecei a escrever uma história em que Mágico Vento lutava contra uma raça de caçadores extraterrestres do tipo Predador. Maurizio Milano desenhou algumas páginas de prova e eu logo percebi que não funcionava (não pelos desenhos, mas pela história) e mudei tudo, as complicações extraterrestres foram excluídas. Essas coisas nada têm a ver com Mágico Vento. Podem ser divertidas com Tex ou com Zagor, mas em Mágico Vento eu falo de visões, pesadelos e obsessões dos homens da fronteira, não posso desandar para o terreno da fantasia, onde tudo é permitido. Eu devo manter um horizonte histórico e cultural muito preciso.

WesternQuais as principais dificuldades em saltar de um estilo para o outro sem porém abandonar o terreno do western em que, afinal, ambos os heróis se movem?
Gianfranco Manfredi: Um autor deve variar de estilo, senão acaba numa rotina. Um escritor hoje deve saber usar estilos diversos de acordo com o tipo de história. Do ponto de vista estilístico, ainda que existam preferências e características que me distinguem, nos meus romances eu sempre variei. Não se pode contar coisas diferentes do mesmo modo. Por exemplo, um noir exige tempos mais curtos e dinâmicos, além de um estilo mais nervoso e essencial que um romance histórico.

Para poder desenvolver bem um tema, já lhe aconteceu de desejar escrever argumentos mais extensos, ou não se importa de escrever um menor número de páginas?
Gianfranco Manfredi: Quando acho necessário escrever um argumento, prefiro que seja amplo, de modo que seja um verdadeiro pré-roteiro. Mas isso não me impede de alterá-lo de forma radical durante a elaboração do roteiro propriamente dito. Por exemplo, antes de escrever a minha nova BD Volto Nascosto, eu escrevi um argumento muito detalhado de toda a história, do princípio ao fim, e isso me permitiu realizar os catorze episódios da série com muito mais rapidez. Já Mágico Vento, eu conheço tão bem a personagem e o seu percurso que prefiro começar a escrever directamente o roteiro como se, em vez do computador, eu estivesse sentado a um piano e começasse a tocar livremente sem partitura. Certo que depois eu volto atrás muitas vezes, corrijo, mudo. Eu não me contento com improvisação, que às vezes pode enganar. O que ali lhe parece eficaz, depois, com a cabeça fria, pode resultar bastante deslocado. Uma composição é uma composição, deve ter equilíbrio interno, às vezes é necessário sacrificar partes que, em si, são bonitas, mas que destoam do conjunto.

José Carlos Francisco e Gianfranco ManfrediQual é a sua técnica para desenvolver um roteiro com um número exacto de páginas?
Gianfranco Manfredi: Em geral eu escrevo argumentos de oito páginas, de modo que cada uma corresponda a dez páginas de roteiro, e deixo um espaço extra para contar os eventos de modo mais cómodo e menos comprimido. Se, em fase de argumento, eu solto a mão e no fim ele torna-se um maço de vinte páginas, então eu devo calcular que cada página de argumento não pode resultar em mais de quatro de roteiro, senão é melhor escrever a história em dois episódios. Mas como eu disse, na maior parte das vezes eu começo a escrever e encontro o equilíbrio justo durante o percurso, por vezes com sacrifício de desdobramentos que eu tinha em mente mas que não tenho espaço para desenvolver bem.

Qual é a parte mais importante de uma história? O início, o fim, os diálogos…
Gianfranco Manfredi: Uma história em quadradinhos é importante em cada uma de suas páginas. Pode-se tolerar um quadradinho mal feito, mas uma página mal feita é uma queda no ritmo e, se esse tipo de página é frequente, o leitor salta essas páginas e passa para as mais bem feitas. Um bom início convence mas ele deve conduzir a um desenvolvimento apaixonante e a um final à altura, senão acaba como certos relacionamentos de amor que no início são cheios de promessas mas depois desandam para a total desilusão. Mais o início é convincente e mais o que lhe segue deve acompanhar seu ritmo e nunca cair. Às vezes é preferível um início prudente que conduza a um final arrasador. Os finais sempre são a coisa mais difícil. Geralmente o escritor chega a ele cansado. É interessante fazer uma pausa antes de encarar as últimas trinta páginas. Porque elas devem surpreender. Mas infelizmente nem sempre se consegue.

Gianfranco ManfrediQuanto tempo empenha para escrever uma história? Que horários tem? Como se compõe a sua jornada entre trabalho, leituras, informações, busca de novos argumentos, vida familiar?
Gianfranco Manfredi: A mais sacrificada é a vida familiar, se bem que tenho a sorte de ter uma família feliz. Eu levanto-me, respondo às correspondências e entrevistas como esta, leio o jornal, almoço e depois começo a trabalhar, todos os dias, inclusive os feriados, até a hora do jantar. Depois do jantar, uma cavaqueira em família, alguns telefonemas (curtos) e depois… confesso, vejo uma média de três filmes por noite, entre os que passam na televisão e os em DVD. Se o filme me aborrece (ultimamente acontece com frequência, talvez porque já vi muitos), faço anotações para as páginas que devo escrever no dia seguinte. Vou dormir por volta das duas da madrugada. E depois começa tudo de novo. A vida de um escritor não é muito animada. Para ler, geralmente aproveito as viagens de comboio ou de avião. Não conduzo automóvel, então esse tempo eu ganho com leitura. Às vezes reservo um tempo para aproveitar os normais e necessários prazeres da vida, mas não consigo passar mais de dez dias sem escrever. Para mim é uma necessidade imperiosa.

Sala Tex em MouraEm Portugal tivemos em 2007, uma antestreia mundial de quinze novos desenhadores de Tex. Como vê essa entrada de tantos novos elementos no staff de Tex? Será que isto pode marcar um novo curso na vida da série?
Gianfranco Manfredi: Não sei. Para ser sincero, não faço ideia. Pode ser que se queira fazer experiências para depois se fazer escolhas mais definitivas, ou pode haver necessidade de substituir os desenhadores mais idosos, ou que os novos desenhadores, mais lentos, não consigam concluir histórias longas como as de Tex em prazos determinados e então se pretende dispor de alternativas. Mas tudo isto são meras hipóteses.

Ultimamente também houve um reforço de argumentistas como, por exemplo, no seu caso. Pensa que isso era inevitável? E, com tantos argumentistas, Tex não pode correr o risco de ser desvirtuado?
Gianfranco Manfredi: Também aqui não faço ideia. Eu não cuido dessas coisas. Não é de minha competência. E é claro que eu não invejo Sergio Bonelli que, além de Tex, deve se encarregar de analisar todos os outros títulos. Se eu tivesse que ler todas as BD’s que Sergio Bonelli publica, não digo que me suicidaria porque nunca tive tendências desse tipo, mas eu prontamente procuraria outro trabalho.

Mauro Marcheselli e Gianfranco ManfrediApenas na SBE, você já trabalhou com Dylan Dog, Nick Raider, Tex e, claro, com as suas “crias” Mágico Vento e Volto Nascosto: escrever para qual desses personagens lhe deu mais prazer e qual é o segredo para escrever histórias de personagens (e temáticas) tão diferentes?
Gianfranco Manfredi: O segredo? Eu me divirto ao escrever. Claro que há BD que eu jamais escreveria como, por exemplo, Diabolik (eu gosto da personagem, mas não do formato). E algumas propostas de alto nível que me ofereciam para retomar personagens gloriosas, algumas de autores falecidos, eu recusei mesmo a custo de parecer snobe. Eu não sou snobe mas sei o que quero escrever e o que não. Por exemplo, eu gostaria de escrever histórias de amor. Nunca fiz isso, mas a experiência me atrai. Procurei fazer um pouco disso em Volto Nascosto e pode ser que, no futuro, eu faça isso num romance. É difícil fazer isso a fundo numa BD porque nem Sergio Bonelli e nem outros editores na Itália actualmente parecem interessados em outra coisa que não quadradinhos de aventura ou humorísticos. Claro que eu não escreveria dramalhões sentimentais; eu acho que o amor pode ser contado de outro modo, mas… voltemos ao tema da pergunta. Para escrever coisas diferentes, deve-se sobretudo ler coisas diferentes, ampliar o leque dos próprios interesses, olhar em volta e aprender a apreciar as pessoas pelo que são e não pelo que queremos que sejam, e também se deve sonhar muito, saber imaginar o que não existe mas que poderia existir. Em síntese, deve-se primeiro ser curioso e depois criativo.

Mágico Vento com dedicatóriaMágico Vento superou a histórica barreira dos 100 números. O que podemos esperar da série no futuro? Já imaginou como poderia ser o episódio final?
Gianfranco Manfredi: Mágico Vento não prevê um final. Alguns dos finais previstos os leitores poderão ver neste ano e no ano que vem, quando certos filões da série forem concluídos. Mas o final definitivo não existe. Sempre foi assim em BD seriada. Por mais que se esforce, nunca se consegue completá-la realmente. Na maior parte das vezes elas acabam de repente porque o público cansa-se, e permanecem inacabadas. Outras vezes elas acabam de modo bem estudado e recomeçam anos depois, nas mãos de outros autores ou de outros editores. Uma personagem seriada tem uma vida toda sua e independentemente da vontade do autor. Várias vezes Conan Doyle tentou matar Sherlock Holmes, mas ele sempre ressuscitou e, se ele não o ressuscitasse, outra pessoa faria isso. Já Mandrake, que foi uma grande personagem, está mesmo morto, e não numa história; ele morreu porque não foi mais publicado e ninguém o resgatou. Porque? Mistério. Na minha opinião, ele desapareceu sozinho. Puf!

Gianni Petino, Fernanda Martins e Gianfranco ManfrediPode nos dizer em que ponto está a edição especial de Mágico Vento? Como será essa edição e quem a está a desenhar? E já se sabe a data aproximada de publicação?
Gianfranco Manfredi: Não, acho melhor não tocar no assunto. Todas as vezes que fiz isso, aconteceu alguma coisa: ou não se encontrava o desenhador certo para a história, ou eu não tinha tempo para acabar de escrever, ou não se sabia direito para quando programá-la porque os nossos esforços estavam concentrados em questões mais urgentes. De tanto anunciar e desmentir, os leitores esperam como se fosse uma espécie de maravilha, e eu receio que, mesmo que saia uma coisa bonita, muitos ficarão decepcionados. Talvez seja melhor os leitores esquecerem o especial porque assim, quando ele sair, será uma surpresa.

Como nasceu a ideia de criar Volto Nascosto? O que nos pode dizer desta mini-série, ainda desconhecida dos leitores portugueses e brasileiros?
Gianfranco Manfredi: Falar a fundo acarretaria muito tempo. Eu limito-me a dizer que é um verdadeiro romance em capítulos, catorze episódios, ambientado no final do Século XIX no contexto da primeira guerra colonial italiana contra a Etiópia.

Gianfranco Manfredi, o cineastaAlém de BD, também escreve romances e trabalhos para cinema, teatro e música. O que nos pode dizer sobre essa sua outra faceta que talvez seja desconhecida para a maioria dos seus leitores? E como consegue encontrar tempo para dividir-se entre tantas actividades?
Gianfranco Manfredi: Actualmente não me divido mais, porque os quadradinhos absorvem quase todo o meu tempo. A única coisa de que não posso abrir mão são os meus romances. Da música eu afastei-me bastante. De filmes, na Itália se produz pouco e os que são produzidos não me interessam muito. Há alguns bonitos, claro, mas levar a cabo um filme que tenha um valor expressivo é realmente difícil na Itália de hoje. Eu estou habituado a trabalhar muito mas não estou disposto a suar como uma mula com coisas que depois não são realizadas ou são mal realizadas, ou são feitas cinco anos depois que você a elaborou, ou que não encontram espaço nos cinemas porque a distribuição está nas mãos dos americanos. Não é possível escrever bem com todo esse stress.

Gianfranco Manfredi, o maestroQuais são as BD’s que lê actualmente e com quais mais se identifica? Além da banda desenhada, que tipo de livros lê? E quais são as suas preferências musicais?
Gianfranco Manfredi: Eu leio o que me chama a atenção, tento ver um pouco de autores estreantes ou pouco conhecidos, mas não leio muitos quadradinhos porque não posso pensar só nisso, senão torna-se uma obsessão. Eu leio muitos livros porque os recebo em casa, às vezes com pedidos de apresentação. Mas a maioria é de livros que eu compro e que depois guardo para ler quando tiver tempo, isto é, quase nunca. Eu ouço muita música, mas geralmente apenas como fundo musical enquanto escrevo. Também aqui eu procuro seguir as novidades com uma olhar pela Internet. Graças à rede eu conheci, por exemplo, Kula Shaker, M.I.A., P.J.Harvey, Barenaked Ladies, Lone Justice, Kanye West, Diana Krall, Cassandra Wilson, Dixie Chicks… em suma, um pouco de tudo, sem seguir um género preciso, a procurar aqueles que, para mim, são bons e fazem coisas boas.

Quais são os seus projectos futuros? Pode nos antecipar alguma coisa?
Gianfranco Manfredi: Neste momento não quero ter projecto algum. Só quero preocupar-me em concluir as obras que estão em andamento, que são realmente muitas e todas trabalhosas. No ano que vem eu pretendo conseguir trabalhar um pouco menos e viajar mais.

Gianfranco Manfredi, em nome do blogue português do Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

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