Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.
Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Pedro Pereira: Tenho 35 anos e nasci numa pequena aldeia no interior de Portugal, perto de Abrantes. Aos 18 anos vim estudar para Lisboa e fiquei por cá. Actualmente tenho 35 anos e trabalho na área da gestão documental e da formação.
Quando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?
Pedro Pereira: Para dizer a verdade, penso que comecei a gostar de Tex e de banda desenhada em geral ainda antes de saber ler! É no que dá ter 2 irmãos mais velhos. Assim, ainda antes de saber ler eu já adorava ver os desenhos e tinha cuidado para não os rasgar/estragar, o que muito admirava a minha família!
Porquê o Tex e não outra personagem?
Pedro Pereira: Essa é uma pergunta que eu já fiz a mim mesmo muitas vezes e para a qual tenho dificuldade em encontrar uma resposta! Já li muitos outros heróis, mas só mesmo o Tex continua. Em jovem lia o Falcão, Mundo de Aventuras, Guerra, Zagor, Mandrake… só Tex ficou mesmo! Todos os outros foram partindo!
O que Tex representa para si?
Pedro Pereira: Tex para mim é o herói da banda desenhada que devia ser de carne osso. Num mundo cheio de injustiças, em que os fortes oprimem os fracos, a lei serve para defender os opressores… Tex é mesmo uma lufada de ar fresco e representa o ideal do bem, mesmo que para isso seja preciso cometer algumas ilegalidades…
Qual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Pedro Pereira: Para dizer a verdade nunca as contei (…risos…)! Por alto está lá toda a edição de Tex Normal, os Tex Gigantes, Almanaques Tex, Tex Anuais, uma ou outra edição estrangeira, incluindo um Mondadori e alguns Tex Júnior, talvez uns 600 livros, mas é só mesmo um palpite.
A edição mais importante para mim, no meio de várias é sem dúvida o Tex n.º 1 da 1.ª edição (O Signo da Serpente)! É um livro do qual me orgulho muito e que não está à venda, a menos que seja por uma fortuna, pois todos nós temos o nosso preço, excepto talvez o incorruptível Tex!!!
Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?
Pedro Pereira: Vou coleccionando o que aparece e me interessa, mas 99% da minha colecção são mesmo livros!
O resto pode ser um recorte do jornal ou um porta-chaves, mas nada de miniaturas ou a colecção de cromos publicados na década de 70. Afinal de contas o dinheiro não cai do céu!
Além disso, não colecciono tudo, por exemplo, não colecciono Tex Colecção ou Tex Edição Histórica e desisti de Tex Ouro…
Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Pedro Pereira: Esta é uma pergunta, melhor dizendo duas, em que a resposta não é nada fácil, além de que para haver alguém melhor… terá que haver alguém pior como é óbvio!
Quanto a histórias favoritas há várias! Adoro “El Muerto” ou “Oklahoma” ou “Tex vence Bufallo Bill” (esta por ser uma história que me ajudou a aprender a ler, tinha eu uns 6 anos).
Adoro o traço genial de Civitelli (que tive o prazer de conhecer pessoalmente e de quem tenho um desenho original), mas terei saudades de Nicolò, adoro Ticci e as histórias de Nolitta, entre tantos outros…
O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Pedro Pereira: Adoro a postura do ranger perante a vida, a sua coragem infinita e o seu espírito de sacrifício. São um verdadeiro exemplo para muita gente, incluindo eu próprio, naturalmente!
Relativamente à personagem em si não há nada que me desagrade particularmente. Com o tempo até aprendi a aceitar bem os abusos de linguagem, de álcool, de violência, de tabaco… faz parte da reconstituição de tempos difíceis! Só gostava mesmo era de o ver um dia ser derrotado por um vilão e até morrer, para depois ressuscitar, tipo Mefisto! Fica a ideia! Às vezes cansa ver que o meu herói vence sempre!
Já agora, talvez uma ou outra “aventura” com o lado feminino ficasse bem a ele e também ao “sempre em brasa” Carson que é a minha personagem favorita no universo texiano, nem eu sei muito bem porquê, espero que não seja da idade!
Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é?
Pedro Pereira: O mérito é de muitas pessoas. Inicialmente dos seus criadores, mas também de todos os que o ajudaram a crescer, como a saudosa editora Vecchi ou, mais recentemente a Mythos, os colaboradores do Portal Texbr, deste blogue do Tex e outros pelo mundo fora.
Ou seja, Tex chegou aqui por mérito da personagem em si, mas também pela dedicação e carinho de muita gente e do uso das novas tecnologias, caso da Internet…
Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Pedro Pereira: Como se costuma dizer, “o futuro é o que dele fizermos” e isso aplica-se também a Tex. Para a personagem de papel (que muitos gostariam que fosse de carne e osso) os 60 anos parece que pararam no tempo e ainda bem! Porém, nem tudo são rosas e um bom exemplo disso é que os próprios preços são bastante caros e isso pode penalizar a sobrevivência e expansão do ranger…
Por outro lado, já referi isso noutros locais, na minha modesta opinião a Mythos está a fazer um excelente trabalho, mas também continua a lançar mais e mais edições/colecções e corre o risco de exaurir o filão! Não gostaria que depois viesse a surgir mais um povoado fantasma depois que o filão Tex se esgotou, como sucedeu já com algumas edições, caso de “Tex e os Aventureiros”.
Além disso, pela antevisão do que tenho visto, alguns dos novos desenhadores de Tex têm um traço que considero fraco, para não dizer muito mau, mas isto é apenas a minha opinião! Preferia menos títulos, mas com mais qualidade em termos de argumentos, desenhadores, qualidade das impressões e do próprio papel e menos gaffes/gralhas do que as que teimam em aparecer, apesar de todo o esforço para que isso não suceda!
Seja como for, desejo uma longa vida a Tex e seus pards e a toda a família texiana espalhada pelo mundo inteiro e da qual me orgulho de fazer parte!!!
Prezado pard Pedro Pereira, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
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A TRADIÇÃO ROMÂNTICA
O mito estava criado. Multiplicavam-se os filmes de «cow-boys», esculpia-se a figura do que viria a ser o herói típico do «Far-West». Formaram-se companhias dedicadas exclusivamente à produção de filmes de «cow-boys». Surge Bronco Bill, o primeiro grande ídolo das plateias, intérprete de uma película por semana, durante trezentas e setenta e seis semanas. Bronco Bill — aliás, Max Anderson — foi o produtor dos seus próprios filmes. Com o sentido do negócio de um autêntico financeiro de Wall Street dizia:
Griffith foi o mais importante cineasta da sua geração. Além das suas obras-primas, «O Nascimento de Uma Nação» e «Intolerância», deixou uma obra de génio como teórico da linguagem cinematográfica. Foi ele o primeiro a utilizar conscientemente o grande plano, a iluminação, o «travelling», e a descobrir o sentido rítmico e narrativo da montagem. Pode dizer-se que foi Griffith, quem libertou definitivamente o cinema das três unidades teatrais de tempo, acção e lugar.
Muitos anos depois, «E Tudo o Vento Levou», de Vitor Fleming, consagraria definitiva e espectacularmente essa forma sui generis de epopeia, lírica, violenta e grandiloquente, que fugia, embora, sem as abandonar completamente, às linhas de rumo do «western» tradicional.
Os filmes baseados na banda desenhada são quase sempre ignorados pela crítica dita especializada. Mas verdade é também que os próprios admiradores da nona arte costumam rejeitá-los; quase sempre elementos considerados basilares nas revistas são modificados ou adulterados na visão cinematográfica, e isso configura um fenómeno interessante: abandonados pelos fãs das obras originais e menosprezados por todos os outros espectadores em potencial, os trabalhos adaptados de BDs geralmente adquirem uma certa fama maldita e não vivem além da memória de coleccionadores mais aficionados, escavadores devotos de tudo que possa remeter aos seus personagens favoritos. Tex, o Pistoleiro (no Brasil: Tex e o Senhor do Abismo), de certo modo, encaixa-se nessa condição desagradável: praticamente os seus únicos conhecedores são os fãs de Tex Willer, o famoso e implacável ranger dos quadradinhos italianos, a criação máxima dos artistas Giovanni Luigi Bonelli (o grande argumentista dos fumetti) e Aurelio Galleppini (o criador gráfico).
Uma das principais críticas apontadas é a escolha de um tema sobrenatural, pouco comum nas aventuras texianas, para ambientar a história. De facto há uma certa preocupação excessiva (mas insatisfeita) com os efeitos especiais e a vontade de surpreender com uma trama que foge, em essência, do faroeste tradicional. Spaghetti tardio, é de todo modo um programa divertidíssimo, conduzido pelo subestimado Duccio Tessari, especialista em acção. Não é uma obra-prima, mas não se pode cobrar isso de todo produto cinematográfico.
Giuliano Gemma, o astro dos bangue-bangues à italiana, estrela no glorioso papel de Tex Willer. Actor de presença, é uma escolha peculiar mas não de todo equivocada: particularmente destaca-se por pequenos detalhes (que sempre fazem a força dos filmes), como sua absoluta segurança, suas poses heróicas e sua vontade de deixar tudo bem claro, mesmo que isso custe os móveis e a integridade física de seus oponentes.
Auxiliando-o nessa jornada, estão seus pards Kit Carson (William Berger, muito bem escolhido) e Jack Tigre (Carlo Mucari, opção estranha mas competente — seus cabelos aqui são bem longos, diferentemente dos quadradinhos). Seu filho Kit não participa do filme, bem como da história que o inspirou — na verdade, o filme é uma mescla de duas aventuras, mas a principal é a semi-protagonizada pelo místico El Morisco, que, com seu jeito sinistro, é um dos maiores amigos de Tex, sempre o auxiliando em casos que fogem da compreensão comum. Seu criado, Eusébio, mesmo sem seu nefasto bigodão, também dá o ar de sua aparição.
Talvez certos artifícios das revistas em quadradinhos soem exagerados quando transportados a outra mídia (e este talvez seja o grande empecilho apontado pelos detractores de Tex e o Senhor do Abismo). Mas isso não é defeito, a irrealidade é parte componente das lendas do western. E este é um filme rápido, de pouco pensamento e muitos confrontos, que não se exija dele uma densidade filosófica à John Ford. E que não se pense que por isso seja um subproduto rasteiro e pálido ante os grandes faroestes: filme sincero, divertido, ágil, já é acima de uma infinidade de obras industriais. Com seus erros honestos, e “papai” Bonelli em sua participação especial, é pelo menos um filme especial, bem a seu modo.

