Neste sinistro desenho da autoria de Claudio Villa, vemos Tex Willer entrando no antro do bruxo Mefisto, situado num refúgio no Belle France, onde estavam aprisionados Kit Carson, Jack Tigre e Kit Willer, prestes a serem devorados por ratos e ratazanas.
DesenhoINÉDITO no Brasil e inspirado na história, “Mefisto” de Claudio Nizzi e Claudio Villa (Tex italiano #501 a #504).
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Texto do jornal Diário “As Beiras” de 11 de Março de 1995 João Miguel Lameiras
Nova imagem para um velho herói!
Um dos mais populares personagens da BD italiana, o cowboy Tex Willer está de volta ao convívio dos leitores portugueses numa edição especial que dá a conhecer uma versão diferente deste herói clássico dos “fumetti”. Tex, o personagem mais emblemático das edições Bonelli, cujas aventuras têm sido distribuídas em Portugal nos últimos 15 anos, já foi objecto de referência nesta coluna há pouco mais de um ano (ver DIÁRIO AS BEIRAS de 11/3/1995), por ocasião do lançamento de uma edição semelhante a esta, desenhada pelo espanhol José Ortiz.
Criado por Giovanni Bonelli e Aurelio Galleppini, este herói foi publicado pela primeira vez em 1948, mantendo-se em publicação ininterrupta até à actualidade, com a dupla criadora a ter que assegurar uma média de 110 páginas mensais, um ritmo de produção industrial que, logicamente, se reflectiu na qualidade e originalidade das historias. Esse ritmo alucinante de produção condicionou igualmente o trabalho gráfico dos mais de 10 desenhadores que se ocuparam da série, condenados a um estilo funcional, sem quaisquer requintes estéticos. Daí que estes álbuns anuais (com um ritmo de produção muito mais lento do que as edições mensais) permitam outro tipo de voos, sendo muitas vezes usados para permitir que desenhadores consagrados transmitam o seu cunho pessoal ao herói do Oeste. Foi o que sucedeu com a edição comemorativa do 40º aniversário da série, desenhada pelo italiano Guido Buzzelli, com o número anual de 1993, com arte de José Ortiz, ou com o álbum que motiva este texto, com desenhos do espanhol Victor de la Fuente, que apesar de ser anterior em um ano ao especial desenhado por Ortiz, só agora sai em edição brasileira.
Embora seja esta a primeira vez que pega no personagem Tex, Victor de la Fuente é um veterano da banda desenhada de aventuras, conhecido principalmente pelas suas incursões na heroic fantasy, através de personagens como Haxtur, Haggart e Mathai-Dor, mas que se sente particularmente à vontade nos “westerns”. Basta recordar a série Sunday (quanto a mim o seu melhor trabalho) feita em colaboração com o seu compatriota Victor Mora, de que foram publicados em Portugal alguns episódios na revista Mundo de Aventuras, ou Los Gringos, um “western spaguetty” criado por Jean Michel Charlier e continuado de forma medíocre por Guy Vidal, após a morte do criador de Blueberry.
Aqui, mesmo sem deslumbrar, o desenhador espanhol dá mostra de toda a sua eficácia, profissionalismo e sentido narrativo, sendo evidente o prazer que teve ao desenhar esta história escrita por Claudio Nizzi de modo a integrar os seus ingredientes favoritos (apaches e mexicanos). Não deixa de ser curioso que, tal como sucede em “A Mina do alemão perdido” da série Tenente Blueberry, também de la Fuente, tal como Giraud, não resiste a utilizar o cenário fordiano do Monument Valley, apesar de a acção decorrer no Arizona.
Quanto ao argumento de Claudio Nizzi, o actual escritor da série, apesar de pouco ter de original, é tão complexo e movimentado que faz lembrar as intrigas criadas pelo saudoso Jean Michel Charlier. Aliás, esta aventura em estado puro, género cada vez mais raro nos actuais “Westerns” europeus em banda desenhada, é suficientemente complexa e bem estruturada para aguentar 240 páginas, apresentando-se como um muito razoável substituto das aventuras do Tenente Blueberry, em clara perda de velocidade e interesse desde a morte de Charlier.
A edição da Globo segue um esquema habitual destes álbuns anuais. Para além do formato maior, conta ainda com um vasto dossier que inclui um texto de Sergio Bonelli, uma entrevista com de la Fuente e um bem documentado artigo de Mauro Boselli sobre os Apaches, só peca é por estar impressa num papel demasiado poroso, que só não faz com que as páginas mais escuras saiam algo empasteladas, devido à extrema legibilidade do traço de Victor de la Fuente. Mesmo assim, face ao modesto preço desta edição (menos de 800 escudos para mais de 200 páginas de acção e aventura), o leitor vai muito bem servido.
(“Tex”: Arizona em chamas, de Claudio Nizzi e Victor de la Fuente, Editora Globo, 242 páginas, 790$00)
HUGO PRATT Hugo Pratt nasceu a 15 de Julho de 1927, numa praia perto de Rimini (terra do realizador Fellini). Ali viveu até aos 10 anos de idade, altura em que, juntamente com os seus pais, partiu para a Etiópia (colónia italiana), ficando nesse país a estudar. Seu pai era um funcionário colonial e esse primeiro contacto com a realidade, marcaria muito o seu futuro de artista, influenciando toda a sua produção, o que se irá verificar logo em “Junglemen“, executado na Itália, com um grafismo ainda incipiente, mas já com a influência de outros desenhadores. Em 1943 volta a Veneza e, pouco depois, com Ongaro e Faustinelli, cria as aventuras de “Asso di Piche“, que não teve a aceitação dos leitores. Por esta altura Hugo Pratt parte para a Argentina, juntamente com outros desenhadores italianos seus colegas.
Ali a sua actividade vai-se diversificando por várias personagens, todas elas com aceitação, mesmo a nível internacional: “Ray Kitt, “El Cacique Blanco“, “Sargento Kirk“, “Legión Estranjera“, “Ernie Pike“, “Ticonderoga“, “Wheeling“, “Capitán Carmomoran“, “Ann y Dan” e outras. Ao longo de todos estes trabalhos vai-se notando uma melhor qualidade nos seus traços e um progresso no seu estilo.
Convém fazer aqui um parêntesis. Quanto a nós, Hugo Pratt foi um dos melhores, para não dizer o melhor contador de histórias que apareceu na 9ª. arte. Dificilmente se poderá encontrar outro autor de argumentos tão bom…como ele… Talvez Héctor Oesterheld, Goscinny, Greg, Charlier e poucos mais… De qualquer dos modos, Hugo Pratt não era um bom desenhador. Era sim um bom aguarelista… As suas personagens eram esboçadas… Depois faltava o resto… os próprios rostos não primavam pela beleza…
Se tivesse trabalhado nos Estados Unidos da América, o seu trabalho nunca teria sido avaliado da forma como o foi, já que ele seria o autor dos traços dos seus trabalhos e haveria alguém, que os cobriria a tinta-da-china, provavelmente alterando todo o seu estilo. No entanto, de modo algum poderemos deixar de considerar o lugar cimeiro, que Hugo Pratt alcançaria com a sua principal personagem “Corto Maltese“. Em 1958 Hugo Pratt fazia exposições de pintura, em paralelo com a sua actividade no campo das Histórias aos Quadradinhos. Hugo Pratt sempre se considerou influenciado pelos trabalhos de Caniff e Noel Sickles.
De todas as suas personagens indicadas atrás, diremos que “Wheeling” seria a executada com maior cuidado, antes de se dedicar em pleno ao seu “herói” principal. Em 1960 vamos encontrá-lo a ensinar arte, na Escola Panamericana de Arte, em Buenos Aires. Ao mesmo tempo trabalha para a “Daily Mirror Group“, para o “Sunday Pictorial” e para a “Amalgamated Press of London” (mais tarde Fleetway), todas de Inglaterra, fazendo histórias de guerra e ilustrando as aventuras de “Battler Britton“. Em 1962 vai para o Brasil, onde conhecerá Jayme Cortez e outros autores brasileiros. De regresso a Itália passa a criar as seguintes obras, no mesmo ano: “Le Avventure de Billy James” e “Le Leggende Indiane“.
No ano seguinte é a vez de “Simbad, Il Marinaio“, “L’Epopea Dell’América“, “L’Odissea” e os seis primeiros episódios de uma aventura nas selvas, tipo “Tarzan” e que se chamava “Kiwi, Il Figlio Della Jungla“, trabalho que será continuado pelo desenhador Stelio Fenzo, cujo estilo era muito parecido com o de Pratt.
Nos anos seguintes ainda iremos ter acesso a “L’Ombra“, “L’Isola Del Tesoro” e “Il Ragazzo Rapito” (Raptado), até que em 1967 a revista “Sergente Kirk“, resolve publicar um novo trabalho deste autor, intitulado “Uma Ballata Del Mare Salato”, uma longa aventura que introduz, pela primeira vez, a personagem “Corto Maltese“.
Dois anos depois e, na mesma revista, publica a história “Os Escorpiões do Deserto“, interrompida no quinto capítulo e só completa, 4 anos depois, curiosamente, em outra publicação e em outro pais: No “Tin Tin” belga. De 1970 a 1973 continua com o seu “Corto Maltese” para o “Pif Gadget” em 21 episódios, culminando com “D’Autres Roméos et D’Autres Juliettes” e “Leopards“. A série continuará nas revistas italianas, “Linus” e “L’Europeo” e, em 1980, na revista “À Suivre“, inicia “La Maison Dorée de Samarkand” e “Le Matin de Paris” que ficarão incompletas.
Pratt colaborou também na colecção “Um Homem Uma Aventura“, com “L’Uomo Dei Caraibi” (1977), “L’Uomo Del Sertão” (1978) e “L’Uomo Del Grand Nord” (1980). Neste mesmo ano retoma a série “Wheeling” para a revista “Metal Hurlant“.
Em Agosto de 1981, enceta “A Juventude de Corto Maltese” no quotidiano francês “Le Matin“. Escreve também o argumento do “Verão Índio“, para o desenhador Milo Manara. Prossegue com “Jesuit Joe” em 1984 e no mesmo ano cria “Cato Zulu“. Nos anos seguintes seguem-se mais aventuras de “Corto Maltese“. Em 1991 escreve “El Gaúcho“, de novo para Milo Manara. Em 1994 é a vez de “Saint-Exupéry – O Último Voo” e no ano seguinte “Morgana“, a sua última obra. Morre a 25 de Agosto de 1995.
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