Erros “ANGELIanoS”

Por José Carlos Francisco
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Ao longo de uma história, à medida que o número de páginas aumenta e o tempo decorrido acumula, é cada vez mais difícil manter a consistência interna, sem que ocorram erros de continuidade, isto é, as discrepâncias entre o conteúdo de duas vinhetas sequenciais de uma cena, ou entre uma cena e a cena seguinte. Em Tex, devido ao extenso número de páginas de cada história é muito fácil acontecerem erros de continuidade e vários têm acontecido ao longo das mais de seis décadas de vida do Ranger.

O desenhador, e por vezes, também o argumentista, apesar de tomar o máximo cuidado para não cometer erros de continuidade que mais tarde ficarão óbvios para os leitores em geral, por vezes não consegue evitá-los, seja por distracção, cansaço ou outro motivo qualquer, como por exemplo podemos constatar no Tex Gigante desenhado por Roberto De Angelis.

Falamos da história intitulada “Ombre nella notte“,  publicada na edição italiana Albo Speciale nº 18, de Julho de 2004, onde podemos ver vários erros ocorridos em diversas situações, inclusive num quadradinho ao lado do outro, conforme se pode constatar nas imagens que se seguem (para aproveitar a extensão completa  das imagens, clique nas mesmas) começando por ver que Tex e seus pards na primeira tira da primeira página mostrada está do lado direito da carroça, como na página anterior da história… agora observe-se bem toda a sequência seguinte… Tex e seus pards, aparecem do lado esquerdo da carroça…

Como é possível uma distracção destas numa mesma página? Bem, costuma-se dizer que só não erra quem não faz… e este erro como outros mais que mostraremos de seguida, passaram pelos supervisores da Sergio Bonelli Editore, mas felizmente a Mythos Editora viu-o e corrigiu-o… como? Vejam nas páginas 62 e 63 do vosso Tex Gigante nº 14 “Sombras na Noite“.

A determinada altura da história, Kit Carson, fica com Chavez, enquanto Tex, Kit Willer, Jack Tigre e Thomas vão tentar recuperar os corpos dos dois monstros e o do companheiro de Chavez… pois bem vejam bem na tira de baixo, quem aparece do lado esquerdo na edição italiana:

Exactamente… estão a ver bem… o “velho” Carson…
Claro que a Mythos corrigiu mais este erro… reparem como está a última tira da página 76 do Tex Gigante 14… claro, está lá o Jack Tigre, como deveria estar na edição italiana, ou seja o Roberto De Angelis, trocou o Jack Tigre pelo Kit Carson, para logo de seguida, por mais incrível que possa parecer, trocar o Kit Willer, como se pode ver nesta vinheta do lado esquerdo:

Mais uma correcção que a Mythos Editora fez e bem, como se pode constatar na página 78 deste mesmo Tex Gigante…

Mas os erros de continuidade nesta história não se ficaram por aqui…
Se virem o segundo quadradinho da página 203 do Tex Gigante nº 14, verão a fera abatida com dois buracos no peito, em virtude dos dois tiros que o Tex lhe deu na página anterior… o que está correcto, porque a Mythos Editora mais uma vez corrigiu um erro (ou uma distracção) do Roberto De Angelis, como mostramos de seguida, ou seja a versão que saiu na edição original… a fera com três buracos…

Podemos constatar que são muitos erros numa só história e só possíveis porque uma vez mais o revisor ou arte-finalista da Casa Bonelli não esteve tão atento como o da Mythos Editora, que deste modo “salvou” o desenhador de um coro de críticas por parte dos Texianos portugueses e brasileiros.

Tex Série Normal (Itália): Lo sceriffo indiano

Tex 581 – “Lo sceriffo indiano“, de Março de 2009 e Tex 582 – “La preda umana“, de Abril de 2009. Argumento de Tito Faraci, desenhos dos irmãos Gianluca e Raul Cestaro e capas de Claudio Villa. História inédita no Brasil e Portugal.

Filho de uma índia e de um caçador, Jerry Norton conseguiu o respeito e a confiança dos habitantes de Greystroke, tornando-se no xerife daquela cidade. Mas a chegada de Lester Rowen, um rico e ambicioso proprietário vai mudar as coisas. Em breve, Jerry é acusado da morte de Rita Kent, a noiva de Rick Rowen, o filho daquele. Jerry é obrigado a fugir para poder salvar a pele e tentar provar a sua inocência. Uma inocência na qual Tex acredita e por isso vai tentar chegar a Jerry para apurar a verdade e convencê-lo a entregar-se à justiça.

Se mais dúvidas existissem sobre a actual fase das aventuras texianas, Il Sceriffo Indiano vem dissipá-las, revelando estarmos, na verdade, em presença de uma grande pujança. Faraci estreia-se aqui a escrever para Tex, não para nós leitores, porque a sua segunda aventura (Evasione desenhada pelo espanhol Jose Ortiz), afinal acabou por ser publicada antes que esta, muito por força do ritmo lento imposto pelos irmãos Cestaro, em resultado da minúcia, do cuidado, do detalhe e do rigor emprestados por estes artistas italianos. Graficamente, a espera valeu a pena, mas nesse quesito já lá vamos.

Para começo de conversa digamos que esta é uma grande aventura. Por ser uma aventura com tempos bem definidos, por ser uma aventura de amizade, mas sobretudo por ser uma aventura de relações humanas. Esta bem poderia ser mais uma aventura com um Tex solitário na pista de um amigo em fuga, injustamente acusado de homicídio. Poderia, mas Faraci vai mais além, não se restringindo a uma aventura linear e clássica. O autor consegue ir ao âmago dos protagonistas, consegue dar uma espessura psicológica muito interessante, consegue escrever diálogos ricos, consegue cenas de acção antológicas (veja-se toda a cena final no barracão), intercalando-as com momentos mais serenos, constrói sucessivamente o seu Tex ao longo da aventura, tornando-o numa personagem imensa, constrói, finalmente, uma história onde se confrontam e enfrentam homens, não apenas entre si, com a natureza agreste, hostil e selvagem, mas também com os seus próprios dilemas.

Recentemente, Boselli já havia jogado com o valor da amizade em Vendetta per Montales, agora Faraci reintroduz o tema, revelando Jerry Norton como um amigo verdadeiro do ranger, um xerife índio numa cidade de brancos. Repare-se na semelhança, pois Tex é um branco chefe dos índios Navajos. Este ponto muito interessante, duas faces da mesma moeda, perpassa por toda a aventura, comportando-se como a razão de toda a conduta texiana, uma vez que Tex, mais do que ninguém, pode admirar e compreender Jerry.

A sensação que nos fica é de estarmos em presença de um Tex humano ao nível das relações (mais Nolittiano), sem renegar o seu carácter de homem de acção cheio de ironia tão a gosto de G. L. Bonelli. Faraci vai assim construindo o seu ranger, não sabemos se a partir de um modelo que possa evoluir, mas uma personagem capaz de receber contributos dos vários autores que já a serviram, sem que isso cerceie a sua própria interpretação Mais do que apresentar essa personagem com determinadas características, o autor vai revelando aquilo que pretende para ela ao longo da aventura.

Um ranger justo para os mais desfavorecidos, quando salva um jovem índio; um ranger sempre atento, quando não se deixa surpreender por um grupo de índios em plena noite; um ranger que se preocupa minuciosamente com os detalhes, quando arranja a mira da sua arma; um ranger que não se deixa iludir, quando pretendem vender-lhe um cavalo coxo; finalmente um ranger de acção que não se priva a uma boa luta, quer num qualquer saloon ou mesmo num celeiro.

Instrumentos ou artifícios para Faraci ir apresentando o seu Tex, sem esquecer a construção psicológica das personagens, nunca se refugiando o autor num maniqueísmo, antes tornando cada personagem mais complexa do que realmente aparenta. Repare-se na personagem do juiz Forrest, um homem atormentado pela sua própria consciência, ou mesmo em Rick Rowen, vivendo sempre na sombra do pai, para citar dois exemplos perfeitos de personagens que deambulam nas suas emoções, nas suas contradições, nos seus próprios dilemas.

Aqui chegados, cumpre-nos falar do trabalho de Gianluca e Raul Cestaro. Podemos cair em algum exagero, podemos cair em alguma injustiça com outros desenhadores de elevada qualidade, podemos enfim cair em algum ridículo, mas a verdade é que estamos em presença de um imenso trabalho dos irmãos Cestaro. Não que isso possa constituir alguma novidade, porque se trata de grandiosos desenhadores, cujo traço, dinâmica, desenvolvimento ou densidade, são características capazes de tornar qualquer aventura num acontecimento marcante. Gianluca e Raul são daqueles desenhadores que apetece contemplar, que merecem que nos debrucemos em cada plano, em cada ângulo ou em qualquer detalhe.

Desenhadores que convidam a mergulhar no verdadeiro western, capazes de transmitir a sensação dos grandes espaços, mas também de um qualquer saloon ou mesmo de um mero gabinete de xerife. Desenhadores que se sentem cada vez mais à vontade na série, conseguindo a sua própria, cremos que definitiva, versão do ranger. Gianluca e Raul impressionam na evolução patente, conseguindo elevar ainda mais uma aventura, já de si, de grande qualidade. Uma aventura que respira a verdadeira aura do western.

Texto de Mário João Marques

Entrevista com o fã e coleccionador: Aprígio Alves de Oliveira Filho

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Aprígio Filho: Nasci no município de Serrinha, cidade do Estado da Bahia (Brasil) em Maio de 1964 (início da ditadura, portanto já tenho uma boa estrada). Formei-me como Técnico em Edificações em 1995 e mais recentemente concluí a licenciatura em História, ambição que sempre tive para aumentar o meu conhecimento do passado. Actualmente a minha actividade principal é a de projectista (projecto casas e desenvolvo também arquitectura de interiores – desenho de móveis, gesso, esquadrias, etc.). Desenho histórias em quadradinhos também.
Eventualmente ensino História.

Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Aprígio Filho: O meu interesse por histórias em quadradinhos nasceu ainda menino, quando eu fazia a 5ª série. Foram as histórias desenvolvidas pelos Estúdios Disney que me despertaram para esse mundo de fantasias. Personagens como Mickey, Pateta, Pato Donald, Tio Patinhas, etc.

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Quando descobriu Tex?

Aprígio Filho: Tex apareceu um pouco depois e de forma diferente. Um certo dia o meu irmão mais velho chegou em casa com uma revista velha, rasgada e com os quadradinhos em preto e branco, algo estranho para mim porque na escola eu só conhecia o formato colorido da Disney e da Bloch (super-heróis). Meu irmão disse que havia encontrado jogada no lixo e começou a lê-la sem parar. Depois virou um verdadeiro vício e ele dizia para mim que era uma personagem criada na Itália, assim, assim e etc.
Já havia decorado até os nomes dos seus criadores, Bonelli e Galleppini.
Outro dia ele chegou com outra revista e o título da história era “A cidade sem lei” e então resolvi ler. Rapaz, fiquei de tal forma impressionado com as personagens e com a atmosfera do enredo que passei a procurar outras revistas. Era uma personagem meio que anónima, à margem do sistema editorial. A mídia não comentava e seus criadores eram totalmente desconhecidos do grande público ao contrário de Walt Disney e outros. Mas o porquê disso eu aprendi estudando História, a verdadeira História.

E porquê esta paixão por Tex?
Aprígio Filho: Porque ele é diferente dos heróis inventados pelos americanos. Possui características mais próximas das humanas. Seus criadores preocuparam-se com esse aspecto indo na contra-mão dos super-heróis de Stan Lee e Jack Kirby que projectavam a ideia de superioridade do modo de vida americano, assim como o seu cinema. Tex não procura impor a ideia de superioridade de uma cultura. Ele age guiado pelo senso de justiça a favor de quem esteja sendo injustiçado seja branco, índio, negro, etc. Outra característica que o diferencia são as histórias engenhosas, longas e cheias de reviravoltas dignas de quem tinha talento e imaginação fecunda para escrever. Não acontece isso com os americanos, pelo menos nesse género.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Aprígio Filho: Todas essa características já citadas e muito mais.

Qual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Aprígio Filho: Não sei o número exacto, mas devo ter hoje umas cento e cinquenta. Algumas ficam com meu irmão. É muito difícil dizer qual a mais importante. Muitas de suas histórias estão no mesmo nível. Eu citaria “A Cidade sem Lei“, “O Grande Rei“, “El Muerto” e aquela em que Tex é vítima de uma conspiração e fica preso por um  longo tempo, com Carson e Kit lutando para libertá-lo (“O Grande Golpe“) – uma obra-prima que poderia  ser adaptado para o Western Spaghetti, assim como as outras atrás citadas.

Colecciona apenas revistas ou tudo o que diga respeita à personagem?
Aprígio Filho: Só colecciono revistas, álbuns, edições especiais ou até livros sobre o assunto se forem publicados.

Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir?
Aprígio Filho: Aqule tipo de lenço (preto) que ele usa no pescoço.

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Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?

Aprígio Filho: Novamente eu respondo que pelo menos para mim é muito difícil dizer qual a história favorita. Muitas podem facilmente ser escolhidas nessa categoria. As quatro que foram citadas acima juntamente com “Chinatown” (que eu havia esquecido), “O Vale da Morte” escrita por Sergio Bonelli e desenhada por Fusco e muitas com a temática indígena. Quanto aos desenhadores, os editores italianos sempre apresentaram grandes talentos e entre estes eu destacaria Galep, Letteri, Erio Nicolò, Fusco e mais recentemente Fuentes e Marcello. Gostaria muito de conhecer esses autores.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Aprígio Filho: Seu grande senso de justiça e energia inesgotável no combate ao crime. No entanto não me agradam certas brincadeiras com seu grande pard Kit Carson. Algumas são muito pesadas, quando insinuam que este último não é muito inteligente e coisas desse tipo. Bonelli exagerou nesse aspecto da personalidade do Ranger conotando uma visão negativa (inconscientemente fascista, talvez).

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é?

Aprígio Filho: A sua consistência e longevidade.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Aprígio Filho: Não, isso ainda não ocorreu. Mas seria interessante para levantarmos discussões aprofundadas sobre esse fenómeno cultural.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Aprígio Filho: A demanda é quem vai dizer. Se a fidelidade dos fãs perseverar ele ainda vai durar por muito tempo. Por pelo menos mais uns sessenta anos. Assim eu espero.


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Prezado pard Aprígio Alves de Oliveira Filho, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das fotografias acima, clique nas mesmas)

Fanzine “A Conquista do Oeste” – Maio/Novembro 2001 – Página 76 – Audie Murphy e Hugo O’Brian

AUDIE MURPHY

Audie nasceu em 20 de Junho de 1924, em Kingston, no Texas. A sua família encontrava-se ligada ao algodão. Durante a Segunda Guerra Mundial alistou-se, vindo a participar em inúmeras batalhas. Veio a ser o soldado norte-americano mais condecorado de sempre, por actos de bravura (24 medalhas, inclusive a Medalha de Honra do Congresso).

Em 1948, James Cagney conheceu-o e convidou-o para entrar no Cinema, o que ele aceitou. Ambos eram de pequena estatura, embora tivessem sido grandes artistas, principalmente o primeiro. A partir daqui participa em vários filmes, incluindo 33 de “western”.

Acaba mesmo por desempenhar o papel principal, na versão cinematográfica do livro que escreveria sobre as suas experiências na Guerra: “To Hell And Back” (1955). A sua carreira de actor e de homem de negócios, viria a sofrer vários reveses, principalmente na década de 60.

Em 1968 foi considerado falido e, em 1970, declarado inocente, após ter sido acusado de tentar matar um homem num bar, durante uma briga. Morreu em 1971, com mais 5 pessoas, num desastre de avião, durante uma viagem de negócios que, segundo ele, o iria salvar da ruína.

Alguns dos seus filmes: “Beyond Glory” (1948), “The Kid From Texas” (1950), “Kansas Raiders” (1950), “The Red Badge of Courage” (1951), “The Quiet American” (1958) e “A Time For Dying” (1971). Este seria o seu ultimo filme.

HUGO O’BRIAN

Hugh J. Krampe nasceu a 19 de Abril de 1925, em Rochester, Nova Yorque.
Trabalhou quase sempre como galã másculo, quer no Teatro quer no Cinema e pouco sucesso teria em qualquer um deles.

Bem cedo alistou-se no Corpo dos Fuzileiros Navais, tornando-se num dos mais jovens instrutores de todos os tempos. Depois da Segunda Guerra Mundial, começou a sua carreira de actor na Califórnia, usando o pseudónimo de Joffer Gray. Estreou-se no Cinema em 1950 e sempre trabalhou em filmes de acção. A sua popularidade surgiu quando interpretou para a TV, a figura do “xerife” “Wyatt Earp” (de 1955 a 1961). Aplicou todo o dinheiro que ganhou em vários negócios de sucesso e acabou conhecido pelas suas obras de caridade.

Alguns dos seus filmes: “Little Big Horn” (1951), “The Lawless Breed” (1952), “Seminole” (1952), “The Man From The Alamo” (1953), “Broken Lance” (1954), “Come Fly With Me” (1963), “Ten Little Indians” (1966) e “The Shootist” (1976).

(Para aproveitar a extensão completa da imagem acima, e/ou imprimí-la, clique na mesma)