Tex Série Normal (Itália): Lo sceriffo indiano

Tex 581 – “Lo sceriffo indiano“, de Março de 2009 e Tex 582 – “La preda umana“, de Abril de 2009. Argumento de Tito Faraci, desenhos dos irmãos Gianluca e Raul Cestaro e capas de Claudio Villa. História inédita no Brasil e Portugal.

Filho de uma índia e de um caçador, Jerry Norton conseguiu o respeito e a confiança dos habitantes de Greystroke, tornando-se no xerife daquela cidade. Mas a chegada de Lester Rowen, um rico e ambicioso proprietário vai mudar as coisas. Em breve, Jerry é acusado da morte de Rita Kent, a noiva de Rick Rowen, o filho daquele. Jerry é obrigado a fugir para poder salvar a pele e tentar provar a sua inocência. Uma inocência na qual Tex acredita e por isso vai tentar chegar a Jerry para apurar a verdade e convencê-lo a entregar-se à justiça.

Se mais dúvidas existissem sobre a actual fase das aventuras texianas, Il Sceriffo Indiano vem dissipá-las, revelando estarmos, na verdade, em presença de uma grande pujança. Faraci estreia-se aqui a escrever para Tex, não para nós leitores, porque a sua segunda aventura (Evasione desenhada pelo espanhol Jose Ortiz), afinal acabou por ser publicada antes que esta, muito por força do ritmo lento imposto pelos irmãos Cestaro, em resultado da minúcia, do cuidado, do detalhe e do rigor emprestados por estes artistas italianos. Graficamente, a espera valeu a pena, mas nesse quesito já lá vamos.

Para começo de conversa digamos que esta é uma grande aventura. Por ser uma aventura com tempos bem definidos, por ser uma aventura de amizade, mas sobretudo por ser uma aventura de relações humanas. Esta bem poderia ser mais uma aventura com um Tex solitário na pista de um amigo em fuga, injustamente acusado de homicídio. Poderia, mas Faraci vai mais além, não se restringindo a uma aventura linear e clássica. O autor consegue ir ao âmago dos protagonistas, consegue dar uma espessura psicológica muito interessante, consegue escrever diálogos ricos, consegue cenas de acção antológicas (veja-se toda a cena final no barracão), intercalando-as com momentos mais serenos, constrói sucessivamente o seu Tex ao longo da aventura, tornando-o numa personagem imensa, constrói, finalmente, uma história onde se confrontam e enfrentam homens, não apenas entre si, com a natureza agreste, hostil e selvagem, mas também com os seus próprios dilemas.

Recentemente, Boselli já havia jogado com o valor da amizade em Vendetta per Montales, agora Faraci reintroduz o tema, revelando Jerry Norton como um amigo verdadeiro do ranger, um xerife índio numa cidade de brancos. Repare-se na semelhança, pois Tex é um branco chefe dos índios Navajos. Este ponto muito interessante, duas faces da mesma moeda, perpassa por toda a aventura, comportando-se como a razão de toda a conduta texiana, uma vez que Tex, mais do que ninguém, pode admirar e compreender Jerry.

A sensação que nos fica é de estarmos em presença de um Tex humano ao nível das relações (mais Nolittiano), sem renegar o seu carácter de homem de acção cheio de ironia tão a gosto de G. L. Bonelli. Faraci vai assim construindo o seu ranger, não sabemos se a partir de um modelo que possa evoluir, mas uma personagem capaz de receber contributos dos vários autores que já a serviram, sem que isso cerceie a sua própria interpretação Mais do que apresentar essa personagem com determinadas características, o autor vai revelando aquilo que pretende para ela ao longo da aventura.

Um ranger justo para os mais desfavorecidos, quando salva um jovem índio; um ranger sempre atento, quando não se deixa surpreender por um grupo de índios em plena noite; um ranger que se preocupa minuciosamente com os detalhes, quando arranja a mira da sua arma; um ranger que não se deixa iludir, quando pretendem vender-lhe um cavalo coxo; finalmente um ranger de acção que não se priva a uma boa luta, quer num qualquer saloon ou mesmo num celeiro.

Instrumentos ou artifícios para Faraci ir apresentando o seu Tex, sem esquecer a construção psicológica das personagens, nunca se refugiando o autor num maniqueísmo, antes tornando cada personagem mais complexa do que realmente aparenta. Repare-se na personagem do juiz Forrest, um homem atormentado pela sua própria consciência, ou mesmo em Rick Rowen, vivendo sempre na sombra do pai, para citar dois exemplos perfeitos de personagens que deambulam nas suas emoções, nas suas contradições, nos seus próprios dilemas.

Aqui chegados, cumpre-nos falar do trabalho de Gianluca e Raul Cestaro. Podemos cair em algum exagero, podemos cair em alguma injustiça com outros desenhadores de elevada qualidade, podemos enfim cair em algum ridículo, mas a verdade é que estamos em presença de um imenso trabalho dos irmãos Cestaro. Não que isso possa constituir alguma novidade, porque se trata de grandiosos desenhadores, cujo traço, dinâmica, desenvolvimento ou densidade, são características capazes de tornar qualquer aventura num acontecimento marcante. Gianluca e Raul são daqueles desenhadores que apetece contemplar, que merecem que nos debrucemos em cada plano, em cada ângulo ou em qualquer detalhe.

Desenhadores que convidam a mergulhar no verdadeiro western, capazes de transmitir a sensação dos grandes espaços, mas também de um qualquer saloon ou mesmo de um mero gabinete de xerife. Desenhadores que se sentem cada vez mais à vontade na série, conseguindo a sua própria, cremos que definitiva, versão do ranger. Gianluca e Raul impressionam na evolução patente, conseguindo elevar ainda mais uma aventura, já de si, de grande qualidade. Uma aventura que respira a verdadeira aura do western.

Texto de Mário João Marques

2 Comentários

  1. A aventura do mestiço Jerry Norton, por tudo que já li e ouvi, tem tudo para ser um marco na saga de Tex, principalmente para mim, um fã de Ken Parker (?). Já encomendei meus exemplares italianos e aguardo as publicações da Mythos. Sucesso a Tito Faraci, Raul e Gianluca Cestaro.

    Na minha opinião, “La Preda Umana” tem uma das melhores capas de Claudio Villa, a expressão de Tex, o movimento do seu corpo, a capa… perfeitos. Só há um senão, o pé direito do ranger, considerando o ângulo do seu joelho, está muito voltado para dentro. Mas, sem dúvida, está aí um belo momento do maior herói bonelliano.

    João Guilherme.

  2. Realmente, o desenho dos irmãos Cestaro é muito bonito, pena que eles desenhem numa lerdeza tão grande. Fazer o quê? É o preço da qualidade.

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