Texto do jornal Diário “As Beiras“, de 27 de Fevereiro de 2010 João Miguel Lameiras . RECORDANDO MANFRED SOMMER, A PROPÓSITO DE TEX . JÁ ESTÁ DISPONÍVEL nos quiosques portugueses, o nº 452 da revista “Tex”, que recolhe a primeira parte da última história completa desenhada pelo espanhol Manfred Sommer, falecido a 3 de Outubro de 2007, com 74 anos de idade. Um bom pretexto para voltar a evocar Sommer neste jornal, depois de lhe ter dedicado um texto, a propósito do Tex Gigante que deu início à sua colaboração com a editora Bonelli.
Nome grande da BD realista espanhola que, tal como os seus colegas, José Ortiz, Alfonso Font, Esteban Maroto e Victor De La Fuente, continuou a trabalhar em Banda Desenhada, graças à editora Bonelli, findo o boom das revistas de BD em Espanha nos anos 90, Manfred Sommer é conhecido em Portugal graças ao jornalista e correspondente de guerra Frank Cappa, interessante e carismática personagem publicada em Portugal em finais da década de 80, primeiro na revista “O Mosquito” e mais tarde em álbum pela Meribérica. Em inícios dos anos 90, Sommer tinha trocado a Banda Desenhada pela pintura, até que a persistência de Sérgio Bonelli o convenceu a regressar à BD para desenhar o ranger “Tex”, primeiro num Tex Gigante e, posteriormente, na revista mensal do ranger da Editora Bonelli.
Uma colaboração a que a morte pôs fim, mas que deu origem a alguns dos seus melhores trabalhos, em termos gráficos. Mesmo que esta não seja a última vez que Manfred Sommer desenhou o Tex, pois antes falecer já tinha desenhado mais de 90 páginas de uma nova história, que foi finalmente publicada no Almanaque italiano de 2009, depois de concluída pelo desenhador Massimiliano Leonardo, mais conhecido por Leomacs, “A Última Diligência” foi o seu derradeiro trabalho finalizado.
Virgilio Muzzi, que fez mais de trinta edições do Ranger, faleceu no passado dia 25 de Fevereiro no hospital de Codogno, Itália, com 86 anos, realizando-se o seu funeral hoje, dia 27, às 10 horas, partindo o corpo do número 22 da Via Mauri, para chegar à igreja paroquial, na Praça XX de Setembro, local onde lhe serão prestadas as últimas exéquias.
Nascido em Milão, Itália, em 13 de Junho de 1923, ele começou a mostrar o seu talento no mundo da pintura, e estreou nos quadradinhos em 1946, com trabalhos para a Audace, a Editora Audaz dirigida por Tea Bonelli, na mesma época em que também fazia páginas para a revista Grande Hotel. Em 1950 fez algumas capas para uma revista semanal brasileira chamada Encanto e, no mesmo ano, ilustrou O Cavaleiro Negro e, em 1953, Yuma Kid, ambos com texto de Gianluigi Bonelli. Em 1957, por meio do estúdio Amalgamated Press, trabalhou para o mercado inglês desenhando aventuras de Kit Carson, Buffalo Bill, Dick Daring e Jaqueta Vermelha – depois publicado na Itália pela Araldo (Arauto, outro dos antigos nomes da SBE).
No mesmo ano de 1957 começou a se envolver com Tex, ora fazendo alguns desenhos a lápis, ora a arte-final em desenhos de Galep, ora trabalhando a quatro mãos com Francesco Gamba (nas últimas 54 páginas de A Quadrilha do Ás de Espadas). A sua primeira história completa – considerada a sua estreia oficial com o Ranger – foi publicada na Itália em Abril de 1960 com o título Contrabando (no Brasil, Tráfico de Armas, uma história curta inserida em Tex Coleção n° 72, da pág. 23 à pág. 87, republicada em Tex Edição Histórica n° 27) e, durante os quinze anos seguintes, Muzzi foi um colaborador constante, alternando-se com outros profissionais. O seu estilo “apressado” e extremamente simples fez dele um dos autores menos apreciados da saga do Ranger, mas há que se levar em conta que o resultado de seu traço é fruto directo da agilidade: sendo Muzzi um tanto lento, para cumprir os prazos ele devia correr e, de consequência, não podia dar o melhor de si – e, de facto, há muitos autores que, se podem dedicar mais tempo e atenção ao próprio trabalho, obtêm resultados bem diferentes.
Tomando como exemplo o seu último trabalho texiano, no qual ele pôde trabalhar com mais tempo, pode-se observar a riqueza dos ambientes e enquadramentos, além do equilíbrio na composição de cada quadro. Estamos falando da aclamada história Texas Bill (na Itália, Nov/1975, no Brasil, Tex n° 72, Fev/1977). A única intervenção nesse trabalho foi a de sempre, com Galep refazendo o rosto de Tex. Depois disso, em 1977 Muzzi ilustrou a história A Serpente de Prata, na Colecção Rodeio e, em 1984, fez uma aventura em três edições de Mister No, Uma Noite em Trinidad.
Ainda no que se refere a Tex, Muzzi desenhou cerca de 1.500 páginas, para um total de aproximadamente 12 mil vinhetas. Finalizamos este texto mostrando, em exclusivo mundial, aquele que muito provavelmente terá sido o seu último desenho de Tex, feito há poucos meses para presentear o autor Giancarlo Malagutti:
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Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente? Marco Avelar: Olá, chamo-me Marco Aurélio da Silva Avelar, nasci no dia 17 de Fevereiro de 1975 na Ilha de São Miguel do bonito Arquipélago dos Açores, no concelho da Lagoa, na freguesia do Rosário. Profissionalmente trabalho na Associação Agrícola de São Miguel (uma associação/empresa que apoia a lavoura e a agricultura açoriana), na área da Contabilidade Agrícola, sendo escriturário de contabilidade.
Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada? Marco Avelar: Desde que nasci, pois lembro-me que mesmo ainda criança, talvez com 2-3 anos, já andava com revistas de banda desenhada nas mãos, muito devido aos meus pais, principalmente a minha mãe, que gostam muito de ler. Comecei com as revistas da Disney, Fantasma, Tex, Falcão, Mandrake, Luluzinha, Bolinha e mais tarde vieram as revistas da Marvel e DCcomics.
Quando descobriu Tex? Marco Avelar: Talvez lá pelo 5-6 anos, ainda tenho essas revistas que são muito queridas para mim. Claro que estão usadas, mas gosto muito delas, revistas da Editora Vecchi e Rio Gráfica. Ao longo dos anos, os meus pais iam comprando algumas e depois fui eu, já com a Editora Globo, quando as revistas apareciam nas bancas. De repente um dia mais tarde, surgiu um grande amigo da Anadia, que tem ajudado muito desde então.
Porquê esta paixão por Tex? Marco Avelar: Esse “tipo” de “paixão” deve-se muito a vários factores, mas antes quero dizer que o meu preferido é o Fantasma de Lee Falk, mas como dizia, esta paixão pelo Tex deve-se pelo facto de ele ser um herói de banda desenhada sem poderes, que tem em si uma força de vontade incrível, tendo como lei a justiça, algo que hoje em dia é raro existir. Mostra ser uma personagem que não baixa os braços e que ajuda os seus e quem merece e traz sempre consigo a honestidade, tudo factores que são importantes para mim.Também pelo facto de ser um dos heróis que me “acompanha” desde de criança é dos que mais admiro. A banda desenhada deve ser “usada” para nos servir de exemplo para nos dar forças, nos divertir,etc.,etc…
O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos? Marco Avelar:Primeiro por ser um herói e não um super-herói, segundo,passa-se no velho western que gosto muito e faz lembrar-me a minha infância, a ver filmes de cowboys aos sábados à noite ou aos domingos à tarde. Gosto muito dos desenhos de western: os índios, as montanhas, os comboios, os saloons, os cavalos, as planícies, enfim, tudo.
Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si? Marco Avelar: Para dizer a verdade, nem sequer sei ao certo quantas tenho. Do Tex devo ter já pelo menos umas 400 revistas (de várias editoras), ao todo de banda desenhada devo ter cerca de umas 6.000 revistas. Das do Tex, as que possuo mais são da editora Mythos.
As mais importantes são várias: as primeiras sempre tem um certo valor, mas o Tex nº 95 (A Terra Prometida – editora Vecchi), o Tex nº 155 (Horas de Terror – editora Vecchi), os Tex nº 169, 170, 171, 172, 173, 174 e o nº 175 (todas da editora Rio Gráfica), mais recentemente os Grandes Clássicos do Tex nº 1 (O Casamento de Tex), o nº 4 (O Filho de Tex), o Tex Especial 60 anos, Tex Coleção nº 163 onde o meu nome aparece no correio do Tex, todas estas pela editora Mythos, Tex contra Mefisto – Série Ouro (Os clássicos da banda desenhada nº 8 ) lançado só em Portugal, são muito importantes para mim.
Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana? Marco Avelar: Colecciono todas as revistas do Tex, pósteres, enfim, tudo que diga respeita à personagem. Possuo em VHS (cassete de vídeo em bom estado) o filme do Tex com o actor Giuliano Gemma, o filme original, que tem muito valor para mim.
Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir? Marco Avelar: Gostava muito de possuir alguns Tex Italianos, as revistas Júnior, os bonecos do Tex e claro os nº que faltam-me na colecção.
Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista? Marco Avelar: As minhas histórias favoritas são: Horas de Terror, A Terra Prometida, os Tex clássicos nº1 e 4 e o Tex-Especial-60 Anos.
Quanto aos desenhadores e argumentistas são vários que aprecio muito. Para começar, claro, Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini, depois temos Nizzi, Muzzi, F. Gamba, Uggeri, Jesus Blasco, Letteri, Nicolò, Ticci, Antonio Segura, Civitelli, Repetto.. são muitos, sejam desenhadores ou argumentistas e no fundo aprecio o trabalho deles todos, claro que uns mais que outros, desde que tenham o Tex no coração e compreendam o que é o “mundo do Tex”.
O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos? Marco Avelar: O que mais agrada no Tex é ser um lutador justo, pessoa sincera, que tem sempre um coração de amizade e justiça, algo que actualmente é difícil de se ver em certas revistas de banda desenhada. A banda desenhada tem que ser como uma “escola”, uma escola que ensina palavras como respeito, fé, coragem, humildade, justiça….o que agrada menos, não sei, pois todos os desenhadores, argumentistas, leitores e até editoras tentam sempre fazer e dar o seu máximo, como a editora Mythos que tem feito um trabalho muito positivo e exemplar, um trabalho que muitas editoras no mundo não fazem hoje. Claro que todos nós erramos e temos as nossas falhas…mas errar é humano.
Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é? Marco Avelar: É um ícone, porque tem muitos anos de vida, de publicação, “conquistou” muitos leitores de banda desenhada ao longo desses anos e em todos esses anos tem adquirido novos leitores. Chegou inclusive a ser o herói de banda desenhada mais lido na Europa. É um ícone ainda por ser um herói do velho Oeste a ser publicado hoje em dia, já que existem poucas publicações de cowboys no presente.
Costuma encontrar-se com outros coleccionadores? Marco Avelar: Encontrar-me não, mas tenho vários contactos com amigos que gostam muito de BD. Cá na minha ilha só há três leitores que lêem Tex e é só para “matarem” a saudade, os outros estão mais para a Marvel e DCcomics. Há uns anos cheguei a receber muitas cartas de leitores do Tex e não só, seja do Brasil ou Portugal, respondi a todos que percebia a letra e o contacto, outras cartas não tive mais respostas. Cheguei a ter algumas correspondências com leitores do Tex, mas devido a certos motivos… infelizmente, é assim, entrar em contacto para amizade e ajudar é muito bom, mas para enganar e por interesse, isto não faz.
Para concluir, como vê o futuro do Ranger? Marco Avelar: Bem, vejo um excelente futuro, pois existem muitos fãs que o acompanham e são fieis a ele há muito tempo, seja da “velha guarda” ou até da “nova guarda”, mas é preciso que todos não baixem os braços, que “lutem” pelo seu herói de banda desenhada, que digam a sua opinião, escrevam, mandem e-mails a dizer o que vai mal ou bem. A editora Mythos tem feito um trabalho magnífico com as suas publicações e tenho a certeza que estão disponíveis para ouvir e ler as opiniões e críticas, sejam positivas ou negativas. Em Portugal, cá nos Açores é muito diferente, pois as revistas não chegam cá todas e por isso muitos leitores ficam com as colecções incompletas e acabam por desistir. Mas sem dúvida que o Tex está no bom caminho…
Prezado pard Marco Aurélio da Silva Avelar, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu. (Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
Os heróis também podem chorar? Também os duros podem comover-se? Uma furtiva e tímida lágrima que escorre pela face das nossas amadas personagens, pode comprometer a sua imagem de heróis?
Se os nossos heróis preferidos manifestassem emoções humanas, como por exemplo o choro, diante de um relato ou uma forte cena e se deixassem transportar pelas emoções e por um forte envolvimento, seriam igualmente definidos como duros?
O que aconteceria se um dia nós víssemos o nosso Tex comover-se ou emocionar-se, exteriorizando esse sentimento através de lágrimas? Seria uma cena que seria apreciada por si, que lê este texto, dado que teríamos a confirmação que final de contas Águia Noite é um ser humano como nós, que pode emocionar-se e até chorar, ou seria uma cena causadora de ira, definindo você tal cena inapropriada para um herói com o “H” maiúsculo como Tex, que não pode dar espaço, para dizer como Kit Carson diria, a certas “pieguices”?
Antes de ouvir as vossas opiniões sobre o assunto, nos comentários a este post, vamos refrescar a memória, revendo as poucas vezes em que os nossos heróis foram “traídos” pelas emoções, mesmo que as póssamos contar pelos dedos de uma mão.
É o caso de citar uma das cenas mais fortes e dramáticos da série, isto é, quando Tex ao tomar conhecimento da morte da sua amada Lilyth, jura vingança diante do gélido túmulo localizado entre os montes navajos.
É um Tex desesperado, debilitado, com o coração atormentado pela dor. Apesar do feiticeiro Ta-Hu-Nah ao comentar a lancinante cena afirmar que Águia da Noite, não pode chorar, mas pode aliviar a sua dor somente com a vingança, a vinheta mostra um Tex que põe as mãos diante dos seus olhos, como se quisesse deter ou enxugar as lágrimas que não gostaria de fazer ver sequer ao leitor. Em suma, se não foi um verdadeiro choro, foi algo muito próximo.
Um Tex que está próximo do choro, também pode ser visto na história “O Homem Sem Passado“, quando Carson relata ao nosso herói que as buscas para encontrar Kit Willer não conduziram a qualquer resultado positivo.
Tex nessa cena vira-se e fica sem responder ao velho Kit, como se não quisesse ser visto por ele nem pelo leitor.
A vinheta em questão (como se pode observar aqui ao lado) deixa em aberto qualquer interpretação. Não é difícil porém imaginar, no entanto, que a suposta morte do seu filho, tenha tornado os olhos luzidios ao nosso herói.
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Ao contrário de Tex, que publicamente nunca foi visto a chorar, temos um discurso diferente no que se refere ao seu filho Kit.
A morte de Flor de Lua, a jovem índia Ute amada por Pequeno Falcão, provoca em Kit Willer uma forte emoção, não conseguindo conter as lágrimas.
O mesmo discurso para Kit Carson, que em certas ocasiões substitui algum sentimento muito humano com o seu famoso humor, como se pode constatar por exemplo na história “Fúria Vermelha”, onde ao ouvir as tristes vicissitudes sentimentais de Tex e Tigre, não consegue deixar de ficar comovido, acusando um mosquito como sendo a causa das suas lágrimas, conforme se pode observar na vinheta abaixo.
Embora sem lágrimas, percebe-se também a emoção de Tex Willer e Kit Carson, quando na história “O Rapaz Selvagem” John Randall reconhece o pai.
Uma cena, também muito forte e igualmente envolvente, a que não são imunes sequer os dois pards, apesar de Tex tentar disfarçar a sua emoção, colocando-a em tom de brincadeira, com o objectivo óbvio de desdramatizar a situação, como também se pode observar de seguida:
O único dos pards que nós nunca vimos ser assaltado pelo sentimentalismo é Jack Tigre, mas não é difícil imaginar que entre as montanhas onde se refugiou para enterrar a sua dor, devido à morte da sua amada Taniah, algumas fortes recordações não lhe tenham provocado algum choro libertador…
Deixo a vós fazer algum comentário, se quiserem…
[1] (Texto publicado originalmente noTex Willer Forum, em 3 de Fevereiro de 2010) Tradução e adaptação a cargo de José Carlos Francisco