Francisco Tadeo Juan – O último artesão da banda desenhada

Francisco Tadeo Juan e Comicguia, o fanzine (48 páginas, formato 15,5 x 21,5 cm) espanhol sobre crítica e investigação da banda desenhada, fundado em 1976 pelo historiador e crítico de banda desenhada  e que tem como lema “A revista mais pobre do mundo, porém a mais rica em amigos“ e que trouxe no seu número 71 uma capa de Roberto Diso criada especialmente para esse número dedicado aos 60 anos da mítica personagem do oeste americano TEX WILLER, criado pela dupla Aurelio Galleppini “Galep” (nos desenhos) e Gian Luigi Bonelli (no guião), facto que motivou inclusive um editorial de Sergio Bonelli, foram alvo de um extenso artigo publicado no periódico espanhol Levante – O Mercantil Valenciano, como damos conta de seguida, na nossa língua, após uma tradução de José Carlos Francisco:

Texto publicada no periódico espanhol “Levante – Il Mercantil Valenciano”, de 12 de Agosto de 2010.
Por NOELIA L. ESCARTÍ

O último artesão da banda desenhada

Comicguía», a revista de divulgação e investigação sobre a banda desenhada espanhola, cumpre 35 anos.
*O valenciano Francisco Tadeo Juan dirige e edita a publicação sem usar a informática.

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A ponto de cumprir 35 anos de vida e com una humilde porém apreciada lista de fiéis leitores, Comicguía continua sendo uma revista de referência única para os amantes da banda desenhada espanhola. Trata-se de uma série de cadernos de estudo que nasceu sem pretensões, com o objectivo de recuperar a os artistas deste género, «esquecidos e mal pagos». O valenciano Francisco Tadeo Juan é o seu mentor e director.

Esta «humilde revistinha», como a denomina o mestre, nasceu em 1976 e acabou convertendo-se na «memória histórica» da banda desenhada, graças aos seus artigos sobre autores, personagens e obras antigas, fruto da investigação exaustiva do seu único redactor, Tadeo Juan. Apesar de realizar um labor único e reconhecido em todo o mundo, o director nega-se a considerá-la académica. «O academismo é muita retórica e não dizer nada, mas a minha revista é dirigida a quem quer conhecer um pouco mais sobre a história da banda desenhada», assegura.

Após mais de três décadas de existência, a publicação tem sobrevivido com uma produção artesanal, com base em fotocópias presas com grampos e uma distribuição fundamentalmente à base do correio que atinge dezenas de subscritores e algumas livrarias como Imágenes en Valencia. «Eu não tenho computador nem telemóvel e não me fazem falta», reconhece Tadeo.
O segredo é, de acordo com o seu impulsionador, evitar o comercialismo e não pretender fazer negócios com ela. «Não sei se ganho ou perco, porém tão-pouco faço essas contas, aquilo que sei é que é uma satisfação para mim», confessa.

Comicguía, que «não vai morrer enquanto houver um único leitor», tem conseguido manter a independência ao longo da sua história e nunca recebeu qualquer subsídio.
Talvez seja por isso que nunca tenha sido suficientemente reconhecido o mérito ao trabalho de pesquisa envolvido. A revista «mais pobre do mundo mas a mais rica em amigos», recebeu em 1981 o prémio Diario de Avisos para o melhor trabalho de crítica e, em 1990, o reconhecimento ao melhor trabalho em prol da banda desenhada, mas «eu prefiro o elogio de pessoas, os prémios são todos interesses e eu sou um lobo solitário», disse.

Para Tadeo, a banda desenhada está imersa num processo de involução e retrocesso. A forma narrativa actual é confusa e o nível literário, praticamente nem existe ao reduzir as histórias para o confronto de maus contra bons, num contexto de violência, reflecte. «Parece-me bem inovar, mas sem esquecer todo o anterior», afirma. A chegada do mangá levou ao deslocamento de valores, «perdeu-se o sentimento, o querer contar a realidade de um tempo». «É algo muito artificial e isso não é banda desenhada, é outra coisa», conclui.

O PROTAGONISTA
«Sou como Dom Quixote, vou contra os moinhos de vento»
Músico de profissão, escritor e aventureiro, passou parte da infância na Argentina, colaborou com o Levante-EMV informando sobre a banda desenhada e publicou, entre outros, o Dicionário dos quadradinhos espanhóis. «Sou como Dom Quixote, luto contra os moinhos de vento»

Copyright: © 2010, Periódico Levante; NOELIA L. ESCARTÍ
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

4 Comentários

  1. É admirável saber q existe gente assim, com Don Francisco Tadeo Juan, com esse espírito guerreiro e que faz seu trabalho de forma artesanal em prol das BDs, incansavelmente, há 3 décadas sem se preocupar se está ganhando ou perdendo. E o mais impressionante, não se utiliza das atuais parafernálias tecnológicas do mundo atual.
    Nota mil, pra esse intrépido batalhador espanhol.
    Precisamos de mais gente com esse espírito jovem e que serve de exemplo pra muita gente.
    Don Francisco, é sem dúvida, um apaixonado por BDs.
    Mais uma vez, o amigo, Alvarez, nos alertou aqui no Brasil sobre esta fantástica e curiosa matéria desse admirável senhor, que desconhecíamos. Parabéns ao Zeca e toda sua equipe, pela excelente qualidade dos artigos apresentados aqui.
    Don Francisco, para mim é um verdadeiro herói.
    Um gde mano-amplexo para vocês!

  2. Tony,

    Os méritos são todos da equipe do Blog do Tex, cuja pessoa que mais conhecemos no Brasil é o Zeca, mas que tem outros Amigos abnegados, que perdem horas de seu lazer e convivio com a família, para noticiar os assuntos de Tex, e da banda desenhada em geral, sempre que tem algo interessante para mostrar.

    Eu só repasso para o Facebook os assuntos mais interessantes.

    Abraços,

    Alvarez

  3. E o grande mérito desta deliciosa matéria é da nossa correspondente em Espanha, a Tizziana Giorgini, ex-tradutora oficial de Tex no Brasil (a propósito quem quiser conhecê-la melhor é só acessar http://texwillerblog.com/?p=18235), que nos enviou este artigo do jornal espanhol que devido à sua importância, de pronto traduzi 🙂

  4. Mais uma vez tiro o chapéu (de caubói, claro!) para este fantástico clã texiano da grande e brava tribo bonelliana, sempre alerta ante os sinais de fumaça que chegam dos diferentes rincões e pradarias deste vasto vale de lágrimas, e presto em divulgar as boas novas aos quatro ventos para deleite dos guardiães das façanhas dos nossos admiráveis heróis, tanto os de ficção quanto os de carne e osso.
    ¡¡¡Olé, olé y olé, compañeros!!!

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