Entrevista: FABIO CIVITELLI (Publicada no BDjornal nº 25, de Maio de 2010)

Entrevista do BDjornal n. 25, de Maio de 2010

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de João Miguel Lameiras na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão.

Fabio Civitelli - 25 anos a desenhar TexFabio, você será protagonista em Portugal de uma exposição integrada no Festival Internacional de BD de Beja, que comemora os seus 25 anos de carreira a desenhar Tex. Pode fazer-nos uma retrospectiva desse período e do que representa para si este acontecimento num País estrangeiro?
Fabio Civitelli: Pensar que já se passaram mais de 25 anos que entrei para o mundo de Tex causa-me arrepios! O tempo passa velozmente quando se tem ao lado um amigo como Tex Willer! Para mim tudo isso é uma bela aventura profissional e humana: profissional por ter sido chamado por Sergio Bonelli para a equipa da personagem mais prestigiada da BD italiana e ter-me colocado a serviço do herói, com humildade e a consciência de me dedicar ao máximo para ser digno dessa honra, e humana pelo que pude desenvolver em termos de relações de amizade, de estima e de afecto com o editor, os roteiristas, os colegas desenhadores e o maravilhoso público dos leitores. Que melhor modo de festejar este evento se não com uma mostra num País que eu não esperava, sempre me apreciou e me acolheu com grande simpatia?

Entrevista de Fabio Civitelli ao BDjornalQuais os momentos que  mais recorda destes 25 anos de carreira com Tex?
Fabio Civitelli: Com o tempo, os momentos de dificuldade, que evidentemente existiram, desaparecem na recordação e reforçam-se os momentos agradáveis: conhecer tantos leitores apaixonados, na Itália como em Portugal, o apreço de Sergio Bonelli e da Editora que me permitiu realizar a edição comemorativa dos 60 anos, e também viajar por toda a península italiana e ao exterior para promover Tex, fazendo com que me me sinta um pouco embaixador dos quadradinhos italianos.

Tem consciência de ser um dos melhores desenhadores de sempre da série e que os leitores aguardam sempre com grande expectativa os seus trabalhos?
Fabio Civitelli: Ser considerado de tal modo por leitores tão exigentes é motivo de grande satisfação. Isso não exclui que se trata de uma responsabilidade enorme: manter elevado o padrão de qualidade apesar do passar dos anos é o meu objectivo principal e, aliás, agora estou a buscar atenuar o meu principal defeito, o da excessiva limpeza do traço, que contrasta um pouco com o ambiente do faroeste.

Civitelli e o editor do BDjornal, Jorge Machado-DiasRevele-nos um segredo: como se forma um desenhador do seu calibre?
Fabio Civitelli: Não existem segredos particulares, senão o amor pelo próprio trabalho, que considero um dos mais belos do mundo, e muita aplicação e perseverança.

De que modo imagina conseguir atrair novos leitores para Tex?
Fabio Civitelli: Às vezes eu penso que um desenho elaborado, com soluções gráficas modernas e espectaculares. Mas também o encontro com muitos leitores, em mostras e nas lojas de BD, que podem levar algum novo leitor a gostar de Tex, mas eu sou um sonhador, porque os resultados das vendas não mostram variações significativas. No entanto, continuarei a empenhar-me nisso enquanto puder.

Fabio Civitelli a desenhar...Como avalia o seu trabalho de hoje em comparação com o do passado?
Fabio Civitelli: Creio que não sou um bom juiz de mim próprio: posso dizer apenas que procurei enriquecer o meu desenho com contrastes mais expressivos, aumentar a gama de tons com várias graduações de cinza, e corrigir o mais possível erros de anatomia e perspectiva. Mas se obtive uma real melhora, deixo que sejam os leitores a julgar.

Em sua opinião, qual foi o seu melhor trabalho com Tex? E já agora, o mais difícil?
Fabio Civitelli: Eu sou particularmente ligado à história O Presságio pelo facto de ter podido trabalhar com um argumento escrito por mim, no qual inseri muitas coisas que gostaria de desenhar e ainda não havia tido essa hipótese. Mas todo o autor acredita que o próximo trabalho será melhor que os precedentes, e espero que seja mesmo assim. Neste momento posso apenas dizer que a história em que estou a trabalhar é provavelmente a mais difícil.

O Tex de Fabio CivitelliComo definiria graficamente o seu Tex?
Fabio Civitelli: Um homem com o olhar gélido e nervos de aço, robusto mas não imponente, sério mas capaz de um sorriso irónico.

O que representa Tex para si e qual é a sua importância na sua vida?
Fabio Civitelli: Além da grande oportunidade profissional, Tex tornou-se um amigo que me acompanhou nas etapas mais importantes da minha vida: o casamento, o nascimento das minhas belíssimas filhas, a compra da casa, etc. Cada história realizada recorda-me um período da minha vida, e os momentos pessoais misturam-se aos profissionais com muita facilidade.

Depois de 25 anos, o seu modo de representar Tex mudou? Você ainda tem aquele entusiasmo juvenil ou entrou numa rotina, talvez inevitável no caso de publicações em séries?
Fabio Civitelli: Eu espero ter aprimorado e aprofundado aspectos que, no início, como não tinha familiaridade com o faroeste, eu não havia elaborado com mais rigor, como as armas, os cenários e vestimentas. Essa busca contínua é também o melhor modo para não cair na rotina quotidiana e manter aquela vontade de estudar novas soluções gráficas e narrativas que ainda tornam agradável e criativo trabalhar com uma personagem tão importante.

O fotógrafo Fabio CivitelliO que espera ainda da sua carreira, com relação a Tex?
Fabio Civitelli: Poder continuar a desenhá-lo ainda por muitos anos, e extrair também no futuro a satisfação que este trabalho actualmente me concede.

Você exerceu uma certa influência em alguns argumentos de Claudio Nizzi. Pode falar-nos sobre isso, e se ainda pretende um dia realizar uma história de Tex toda sua?
Fabio Civitelli: Com os anos, nasceu com Nizzi uma sintonia tal, que muitas vezes pude intervir nos argumentos com variações e pequenas modificações, assim como Claudio me aconselhava sobre os desenhos. Propor-lhe ideias minhas foi natural, e o seu acolhimento foi tão bom que os meus argumentos se tornaram roteiros e histórias desenhadas. A primeira e mais importante foi O Presságio (Tex n° 390/393, Mythos), logo seguida de O Duelo (Seleção Tex e os Aventureiros n° 3), história curta, a cores, publicada em Itália na revista Specchio (n.t.: Espelho) em 1998. Sem assinar, também escrevi O Fugitivo (Almanaque Tex n° 27) e Tumak, o Implacável (Tex n° 442 e 443), além de ser autor da ideia de base para Retorno a Culver City (Almanaque Tex n° 25). Quanto ao futuro, não sei se encontrarei tempo e concentração necessários para escrever novamente. Estou a trabalhar em três projectos ao mesmo tempo, e estou realmente ocupado. Mas não excluo que um dia possa tentar novamente.

Fabio Civitelli e João Miguel LameirasCorrem rumores de que você estaria envolvido em novos e importantes projectos ligados a Tex. O que pode dizer-nos sobre isso?
Fabio Civitelli: Não é já segredo para ninguém, pelo menos em Itália, que a história em que estou a trabalhar, com texto de Mauro Boselli, será publicada como um Tex Gigante. Isso deixa-me particularmente feliz porque é a consequência da alta consideração que Sergio Bonelli e a Editora têm pelo meu trabalho. Sem contar que, pelo facto dos meus desenhos virem a ser impressos em grande formato, pude enriquecer ainda mais os detalhes e matizes. Por outro lado, está finalmente a chegar à conclusão o livro de ilustrações inéditas, realizado com a parceria do amigo Giovanni Battista Verger, que será publicado pela Editora Little Nemo creio que até o final do ano. Em quase 90 desenhos eu procurei ilustrar todos os aspectos do mundo de Tex, das cenas de acção às paisagens, das cidades às pradarias, etc. E também há outro grupo de ilustrações que estou a realizar para a Bonelli, mas é prematuro falar disso. Como se pode ver, não há como entediar-me!

Sempre rodeado de TexianosÉ a terceira vez que você é convidado a estar presente e a expor os seus trabalhos num grande evento da BD realizado em Portugal: pode dizer-nos o que significa isso para si?
Fabio Civitelli: Eu continuo a impressionar-me com o afecto e amizade de tantos fãs portugueses, que conheci em Moura e depois revi por ocasião do Festival da Amadora. São realmente fantásticos, e é incrível o amor que têm por Tex. Só espero poder retribuir adequadamente o acolhimento que sempre me dispensaram. Nessas ocasiões eu sinto-me o embaixador de Tex, e isso enche-me de orgulho.

Civitelli, Dorival e José CarlosEncontrou diferenças significativas entre o Salão de Moura de 2007 e o Festival da Amadora de 2008? Qual desses eventos significou mais para si e porque?
Fabio Civitelli: Ambos foram muito bonitos: o Salão de Moura tinha um ambiente mais familiar e menos oficial. Estive em casa de Carlos Rico, conheci a sua esplêndida família, passeei com Dorival Vitor Lopes e o amigo José Carlos Francisco pelas ruas da cidade à noite, e todos eles me fizeram sentir em casa. O Festival da Amadora é um evento maior, éramos muitos autores e havia um programa oficial a respeitar, mas também ali, no fim de contas, o ambiente foi muito cordial e eu e Marco Bianchini passámos dias belíssimos.

Fabio Civitelli e Carlos RicoQue expectativas tem em relação ao Festival de Beja em geral e à sua exposição em particular?
Fabio Civitelli: Ficarei feliz por encontrar tantos velhos e novos amigos a verem a minha exposição, e por mostrar também muito material inédito. É sempre emocionante ver os próprios desenhos pendurados numa parede, vistos por tantos leitores aficionados e competentes: talvez seja uma ocasião para revelar alguns pequenos segredos do ofício.

Qual foi o momento mais interessante das suas passagens por Portugal?
Fabio Civitelli: É impossível condensar em poucas palavras todas as emoções vividas naqueles dias. Se devo mesmo escolher um, eu diria que foi o momento de receber um prémio no Teatro de Moura: eu estava verdadeiramente emocionado e feliz, até tentei dizer duas palavras em português!

Desenhando El MoriscoComo já frequentou vários Festivais de BD em Portugal, pode dizer-nos se há diferenças entre estes e os italianos?
Fabio Civitelli: Nos Festivais italianos, sobretudo em Lucca, eu devo desenhar bastante, demais, e nunca consigo ter tempo para visitar com calma as mostras, enquanto que em Portugal o clima é muito mais relaxado.

Pode contar-nos algum caso curioso que lhe aconteceu num Festival?
Fabio Civitelli: Em 2007, durante o trajecto do aeroporto a Moura, nós parámos para visitar Évora, uma cidade belíssima, e justamente naqueles dias havia lá muitas bancas de mercado que vendiam livros e revistas aos quadradinhos, usados. Bastou-me uma olhadela para ver algumas edições de Tex editadas no Brasil e desenhadas por mim! Agora fazem um belo efeito na minha biblioteca. Claro que eu não poderia receber um amuleto melhor.

Pressionado pelo próprio TexSe você tivesse a oportunidade de desenhar qualquer personagem fora do universo Bonelli, qual escolheria?
Fabio Civitelli: Como eu já disse várias vezes, estou tão bem com Tex que não tenho intenção alguma de mudar. Mas se devo mesmo indicar alguma, posso citar talvez somente o Blueberry do grande Giraud, uma personagem de quem sempre gostei muito.

Por fim, você gostaria de deixar uma mensagem aos seus admiradores que irão a Beja?
Fabio Civitelli: É claro que procurarei satisfazer o mais possível a curiosidade de todos, e também levarei algumas cópias dos meus livros publicados pela Little Nemo, como também procurarei contentar todos aqueles que me solicitarão um autógrafo ou um desenho.

Desenhando... TexFabio, agradecemos muitíssimo pelo tempo que nos dedicou. Se quiser aproveitar este espaço para deixar uma mensagem aos nossos leitores, à vontade!
Fabio Civitelli: Espero que os leitores portugueses compareçam em grande número: como eu disse, tenho muita coisa para mostrar, farei muitos desenhos e estou certo de que passaremos momentos extrardinários!

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Copyright: © 2010, BDjornal n.25; J. Machado-Dias
Maio de 2010

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2 Comentários

  1. Sem dúvida nenhuma mais uma grande entrevista Zeca, com aquele que eu considero o melhor desenhista de Tex da atualidade. Cada desenho seu é uma obra de arte. Parabéns Fabio Civitelli pela simpatia com que atende os leitores do ranger. So lamento não poder participar de uma mostra dessa, pois moro no distante Brasil.

    Abraços texianos.

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